Inspiração insólita

3.7.14

Tem um livro do Rubem Alves que eu amo de paixão, chamado Ostra Feliz Não Faz Pérola. Nele, Rubão traz uma série de reflexões, perguntas que ficam em aberto para que nós, leitores, possamos pensar em nossas próprias vidas. Ele já começa o livro com uma daquelas citações tão perfeitas, que nos tiram o fôlego e o chão:

Ostras felizes não fazem pérolas. Pessoas felizes não sentem a necessidade de criar. O ato criador, seja na ciência ou na arte, surge sempre de uma dor. Não é preciso que seja uma dor doída. Por vezes a dor aparece como aquela coceira que tem o nome de curiosidade. 

Este pequeno trechinho sublinhado é tão pleno de significado e, só depois de muito tempo, pude compreendê-lo (parcialmente, pois a busca pelo aprendizado no processo criativo é contínua): minhas criações sempre surgiram de uma dor, muitas vezes doída, sim. Nos momentos mais angustiantes, pude criar coisas que até hoje me orgulham muito.

Acredito que nunca expus isso claramente aqui mas, quase sempre que uma ilustração muito querida surge, ou uma ideia maravilhosa aparece do nada, estou um bocadinho chateada. Comigo mesma, com os outros, com uma situação.

~Tenho andado muito chateada~

Ultimamente, sinto uma sensação de deslocamento enorme. É como se eu não me adequasse a nenhum lugar. Pode ser a crise dos 30, é bem provável, mas é como se, na grande maioria das vezes, eu remasse contra a maré. Como se eu, e somente eu, estivesse apostando em algo que todos já desacreditaram. Como se só eu pudesse enxergar um monte de merda onde todos só enxergam coisas sensacionais. Como se nada me surpreendesse mais, a ponto de merecer um grande WOW!!!

E não falo isso no sentido material, do tipo "eu não acredito que fulano lalala...", já falei sobre algo semelhante aqui. É sobre como as pessoas estão se sujeitando a certas situações para conseguir garantias. A vida se tornou uma eterna busca por garantias. Vou promover meu trabalho para garantir seguidores. Vou publicar muito para garantir um currículo. Vou me esforçar ao máximo para garantir um bom emprego. Aí eu pergunto: quando a tal garantia for alcançada? Faz o quê? Vai ver série na Netflix? Comer cupcake? Jogar uno?

As pessoas não se contentam mais com o relativamente ~pouco~ é preciso ter muito, muito e cada vez mais, pois isso garante nosso intercâmbio, nosso carro do ano, nossa vida maravilhosa. Gostaria muito que tudo isso garantisse, também, ver o mundo sob outra perspectiva:


Abraços,
Lidiane :-) 

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4 Comentários

  1. O que dizer? Sei lá, eu li teu post dias vezes e fiquei meio assim. Um) porque me sinto desse jeito meio deslocada do mundo. Dois) porque também buscava (busco?) garantias.

    Gostei da postagem. Me fez refletir bastante.

    Beijocas

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    Respostas
    1. Oi Maria Fernanda! Fico feliz que tenhas gostado e refletido a partir do post, também fiquei com sentimentos conflitantes depois que escrevi, foi um desabafo que precisava escrever :)

      Beijokas :*

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  2. Respeito quem coloca Rubem Alves e Carl Sagan no mesmo texto. Parabéns!

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