Galeano voou

13.4.15

Minha coleção de escritos do Galeano.
Meu amor por Eduardo Galeano começou na graduação. Um belo dia, minha professora de Fundamentos de Arte/Educação (muitas saudades, Rita!), nos apresentou um dos contos d'O Livro dos Abraços, e ali nasceu uma paixão para toda a vida... o conto era A função da arte 1:

Diego não conhecia o mar. O pai, Santiago Kovadloff, levou-o para que descobrisse o mar.
Viajaram para o Sul.
Ele, o mar, estava do outro lado das dunas altas, esperando.
Quando o menino e o pai, enfim alcançaram aquelas alturas de areia, depois de muito caminhar, o mar estava na frente de seus olhos. E foi tanta a imensidão do mar, e tanto o seu fulgor, que o menino ficou mudo de beleza.
E quando finalmente conseguiu falar, tremendo, gaguejando, pediu ao pai:
- Me ajuda a olhar!

Depois desse contato, comecei a comprar seus livros e a me maravilhar, obra após obra. Com Espelhos, veio a admiração definitiva: que cara FO-DA! Mais uma vez a Rita, como paraninfa da turma, nos presenteia no dia da formatura com Humaninhos:

Darwin nos informou que somos primos dos macacos, e não dos anjos. Depois, ficamos sabendo que vínhamos da selva africana e que nenhuma cegonha nos tinha trazido de Paris. E não faz muito tempo ficamos sabendo que nossos genes são quase iguaizinhos aos genes dos ratos.
Já não sabemos se somos obras-primas de Deus ou piadas do Diabo. Nós, os humaninhos:
os exterminadores de tudo,
os caçadores do próximo,
os criadores da bomba atômica, da bomba de hidrogênio e da bomba de nêutrons, que é a mais saudável de todas porque liquida as pessoas, mas deixa as coisas intactas.
Os únicos animais que inventam máquinas,
os únicos que vivem ao serviço das máquinas que inventam,
Os únicos que devoram sua casa,
os únicos que envenenam a água que lhes dá de beber e a terra que lhes dá de comer;
os únicos capazes de alugar-se ou vender-se ou de alugar ou vender os seus semelhantes,
os únicos que matam por prazer,
os únicos que torturam,
os únicos que violam.
E também
os únicos que riem,
os únicos que sonham acordados,
os únicos que fazem seda da baba dos vermes,
os que convertem lixo em beleza,
os que descobrem cores que o arco-íris desconhece,
os que dão novas músicas às vozes do mundo
e criam palavras, para que não sejam mudas
nem a realidade nem sua memória.

Hoje, Galeano voou. Mas sua marca ficou aqui, assim como o desenho feito pela mulher pré-histórica, na parede da caverna. Ele, que me acompanhou em tantas jornadas, a quem dediquei tantas epígrafes, e que ajudou a me descobrir artista. Espero sempre fazer jus à sua obra, e dedicar a ele sempre o meu melhor.

Em algum lugar do golfo de Corinto, uma mulher contempla,
à luz do fogo, o perfil de seu amante adormecido.
O amante, que jaz ao seu lado, irá embora.
Ao amanhecer, irá para a guerra, irá para a morte.
E também a sombra, sua companheira de viagem,
irá com ele e com ele morrerá.
É noite ainda. A mulher recolhe um tição entre
as brasas e desenha, na parede, o contorno da sombra.
Esses traços não irão embora.
Não a abraçarão, e ela sabe. Mas não irão embora.

Obrigada, Galeano, por nos ajudar a olhar.

Os contos publicados aqui foram extraídos de O Livro dos Abraços e Espelhos: uma história quase universal, respectivamente.

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2 Comentários

  1. muito bonita a tua homenagem. :) confesso, vergonhosamente, que nao conheço nenhuma obra dele, nunca tinha ouvido falar dele até agora...:/ mas vi várias pessoas comentar sobre o caso no facebook. vou procurar por livros dele, com certeza. ;) gosto desses bestsellers, mas as vezes sinto falta de algo mais consistente, realmente...."(...) a bomba de nêutrons, que é a mais saudável de todas porque liquida as pessoas, mas deixa as coisas intactas." — adorei essa frase!!

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    Respostas
    1. Fiquei muito triste com a partida do Galeano, ele tem uma importância muito grande na minha vida. Aproveita esse momento para ler os livros dele, começa pelo "Livro dos Abraços". É muito bonita a maneira que ele conta a história da América Latina, e as obras mais conhecidas são de contos, então dá pra ler rapidinho. :)
      Imagina eu, no dia da formatura, ouvindo isso... chorei demais!

      Beijokas :**

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