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15/10/2019

O dia que me transformei em Malévola


Trabalhar com crianças, para mim, significa passe livre para usar a imaginação e a fantasia sempre que possível. Embora tenha certo ranço da expressão "lúdico" quando aplicada à arte produzida por mulheres, a ludicidade relacionada às infâncias é bem diferente, e significa um ponto muito importante no processo de ensino e aprendizagem. Os jogos simbólicos, o faz-de-conta e a linha tênue que separa realidade da fantasia, na criança, estimula nós, adultos, a embarcar também nos nossos próprios sonhos que ficaram lá atrás.

Desde que comecei a dar aulas, senti necessidade de ter uma fantasia para usar em determinadas épocas do ano (feiras literárias, dia das crianças, halloween...) e como AMO a personagem Malévola desde o desenho clássico, que tem aquela dublagem maravilhosa com sotaque de Passo Fundo (vejam o vídeo abaixo e reparem no gauchês), até o auge com a Angelina Jolie, enfiei na cabeça que queria uma fantasia de Malévola. E fui atrás do meu sonho hehehehe...


Consegui encontrar uma touca de látex para vender no Mercado Livre, aparentemente parecida com a do filme. Fiquei receosa de ser um produto totalmente diferente ao vivo. Foi um tiro no escuro, como tudo que compro pela internet. E, como na maioria das vezes, deu muito certo! A touca serviu perfeitamente na minha cabeça e é muito semelhante à usada pela Jolie. Posso afirmar que ela, por si só, já é 90% da fantasia, pois é bastante convincente.


No dia proposto para fantasia me arrumei (antes, tinha participado da Semana Feminista, foi uma correria), uma amiga me maquiou e já cheguei praticamente carregada na escola. Crianças e famílias ficavam parando para tirar foto, para tocar nos chifres, de uma hora para outra eu não era mais a Profe Lidy, era a Malévola. O apoio das colegas de escola também foi muito especial, pois todo mundo entrou na brincadeira.


Daí em diante foi chuva de questionamentos: A Malévola é boa? É boa, ela salva a princesa no final. É má? É má porque o homem malvado cortou as asas dela. Malévola, onde estão as tuas asas? E o passarinho? E o gato preto? Por que tu fez mal para os dinossauros da floresta? Cadê teu cajado?

O mais legal dessas perguntas é que as próprias crianças iam se respondendo. Eu começava a fala sempre com "fui convidada para uma festa aqui", e elas seguiam com o resto. Quem não me reconheceu acabava sempre perguntando como eu sabia os nomes de todos.


Cheguei ao final do dia com muito calor, dores nos pés e na cabeça (a touca começou a apertar e eu precisava destapar os ouvidos para entender o que as pessoas estavam falando), mas também com um quentinho no coração por ter levado um pouco de magia para estudantes e suas famílias, e por ter recebido tanto carinho em troca.

Resolvi contar essa experiência porque hoje, 15 de outubro, é Dia do(a) Professor(a), e temos visto ataques de todos os tipos a esta classe que já é desvalorizada há muito tempo. Nossa carga horária de trabalho e carga mental que levamos para casa não é compatível com nossos salários; ainda vivemos numa sociedade que não abraça a educação como algo que deve perpassar todos os setores e envolver todas as pessoas; antes de começar a aula propriamente dita, nos importamos se o aluno comeu, se tem roupa, calçado, se está com febre, se está sendo negligenciado pela família, se tem material.

Tem dias que a aula é maravilhosa, aquele projeto gestado com tanto carinho toma forma e motiva a turma; em outros nem professor, nem turma estão bem, sai aquela aula mais ou menos, professor sente culpa, vê onde está errando, refaz o planejamento e começa tudo de novo.

Existem colegas que, por motivos variados, acabaram se acomodando com o tempo, fazendo a mesma aula, foram absorvidos pelo sistema. Mas não os culpo, pois não sei o que passaram até chegar nesse ponto. E tem aqueles que embarcam nas tuas maluquices, trabalham junto, emprestam livro, ajudam a tocar propostas ousadas pra frente. Existem gestores que são um freio puxado, e outros que sabem te deixar livre para criar, mas também sabem te conduzir pelos melhores caminhos e propostas metodológicas.

Dá vontade de desistir? Dá. Mas também dá vontade de continuar todos os dias quando vemos a transformação acontecendo, quando aquele aluno tímido faz uma composição elaborada, quando a aluna leva sketchbook para aula, quando as cartinhas feitas com muitas folhas de caderno chegam às nossas mãos.

Não acho que eu seja exemplo de nada, ainda estou engatinhando pelo caminho da docência e cometendo muitos erros. Tento aprender com eles e melhorar a minha prática, fazer a autocrítica e não me deixar abater pelos fracassos. Gosto de compartilhar as coisas que dão certo para motivar outros professores e montar um banco de dicas de atividades pois, às vezes, as ideias são boas, mas esbarramos na execução ou falta de materiais e espaço adequado. Tenho sorte de trabalhar em uma escola que me apoia e em ganhar muitas doações, mas sei que essa não é a realidade de muitos profissionais Brasil afora.

Feliz dia, colegas. Não deixemos a magia ir embora de nossas vidas.

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