Lidytober 2023: 15 dias de desenho
Depois de 4 anos, me senti à vontade para fazer novamente um desafio ao estilo Inktober. Da última vez, em 2019, fiz 31 desenhos num caderninho, de maneira bem simples, utilizando marcadores coloridos, separando as cores por semanas (veja aqui todos os trabalhos). Para este ano, segui minha tradição pessoal de não acompanhar nenhuma lista, e ir fazendo os desenhos de maneira quase intuitiva. Só que desta vez eu queria MUITO treinar digital. Desde agosto estou estudando quase diariamente, mas senti que se não me desafiasse a desenhar mais, com mais foco, jamais conseguiria chegar aos resultados pretendidos. Foi assim que dei o start para o Lidytober 2023.
Optei por fazer desenhos dia sim, dia não, totalizando 15 trabalhos. Achei melhor, pois me deu mais tempo caso perdesse algum dia (e perdi vários), podendo recuperar com calma. Mesmo assim, a grande maioria dos desenhos foi feita no mesmo dia que postei, o que me deu um orgulho imenso. Esses dois primeiros trabalhos ficaram bem ruinzinhos, confesso. Mas precisamos começar, não é mesmo?
Já a partir do terceiro, senti um estalo criativo, algo como: opa, é por esse caminho aqui que quero seguir. Um das minhas maiores dificuldades foi encontrar brushes dentro do app que correspondessem às minhas necessidades. Sei que o Photoshop e o Procreate possuem pacotes de brushes incríveis, mas o Infinite Painter não digo nem que é mais limitado, pois existe uma grande variedade, só acho um pouco desorganizado. Acabo utilizando mais os pincéis nativos, principalmente o Proko Pencil.
Outro estalo criativo foi o uso de texturas nativas do programa como plano de fundo. As texturas dão uma cara de papel para o desenho e ficam muito bonitas, adicionam vida e tridimensionalidade ao trabalho. Outra coisa que procurei trabalhar foi a questão da luminosidade e valores. Nessa figura azul, procurei explorar subtons dentro da cartela até chegar num degradê interessante.
Esse trabalho foi um Draw this in your style, da Tania Soler. Adorei fazer, pois é o primeiro DTIYS que faço no digital. Esse também foi o desenho mais curtido de todo o desafio.
Depois de adicionar texturas, comecei também a dar atenção aos detalhes finos, principalmente aos fios de cabelo. Para a vampira acima, dediquei bastante tempo à joalheria, adicionando detalhes, sombras e volumes ao colar e aos brincos.
Cada desenho carrega um elemento de horror, em alusão ao mês de outubro. Queria que pelo menos algum detalhe, por menor que fosse, remetesse ao Halloween, como é o caso do brinco com dentes de vampiro, ou a máscara branca de O Fantasma da Ópera. Este é meu trabalho favorito do desafio, fiquei orgulhosa do resultado obtido no sombreamento e volumes da máscara.
Fechando o desafio, uma Catrina. Depois de 31 dias, com o saldo de 15 trabalhos concluídos, é a primeira vez que termino um Inktober com vontade de seguir desenhando. Geralmente, acabo o desafio grata pela quantidade de desenhos que consegui fazer, mas exausta. Dessa vez não, eu queria continuar... mesmo estando afastada do desenho tradicional há dois meses, o trabalho digital me fez recuperar uma vontade criativa que eu havia estranhamente perdido lá pela metade do ano. Agora, mal vejo a hora de pegar meu tablet e desenhar por algumas horas.
Por que vale a pena fazer um desafio de desenho?
- Constância: ter uma frequência programada de desenhos para fazer, seja de 15, 20 ou 30 trabalhos, possibilita um ritmo de produção que nos faz adquirir constância no ato de desenhar.
- Prática: a prática pode até não levar à perfeição, mas ajuda muito no estudo e compreensão de uma ferramenta, seja ela digital ou tradicional. Quanto mais praticamos, melhor ficamos.
- Sair (ou permanecer) na zona de conforto: um desafio pode te levar a explorar coisas novas, ou a intensificar a prática de coisas que já curtimos, mas que deixamos de lado no dia-a-dia.
- Bom pontapé para novos projetos: quer começar um projeto e não sabe por onde? Um desafio de desenho pode dar aquele empurrão que faltava, nos auxiliando a definir uma temática, materiais e técnicas para utilizar.
Branca de Neve
Era uma vez um rascunho, que permaneceu por bons meses na pastinha encantada dos projetos, e que desejou criar vida através de uma reinterpretação da personagem Branca de Neve. O tema era batido, pensou o rascunho, mas com criatividade e boas referências, poderia dar certo. E foi assim que o rascunho se tornou uma ilustração completa, feita em aquarela, e viveu feliz para sempre.
Materiais utilizados
- Papel para aquarela Arches 30g;
- Aquarelas White Nights;
- Lápis de cor Polycolor;
- Marcadores Pentel para os detalhes.
Rótulos para Bruta Flor ❀
Nas últimas semanas me envolvi num projeto muito lindo, que foi a rotulagem das novas latas de chás da marca Bruta Flor, criada pela Juliana Votto e baseada na Praia do Cassino. A Ju entrou em contato comigo e fiquei bastante feliz, pois há muito tempo queria fazer uma parceria de trabalho com ela. Ela já tinha uma visão muito consolidada do que queria para as latinhas, e foi uma jornada incrível co-criar as ilustrações com ela. É muito bom trabalhar com alguém que está disposta a dialogar e somar ao seu trabalho, e cada ilustração busca não só apresentar visualmente o chá, como também representar as cores, os ingredientes e a identidade de cada um.
A ideia principal foi interligar um rótulo ao outro, buscando elementos, cores e padrões que se repetissem em cada um. Para isso, posicionei as personagens sempre ao lado esquerdo do centro do rótulo, e busquei trazer pelo menos um elemento de cor de um para o outro, criando uma unidade. Os padrões ao fundo também são pensados para que dialoguem com a proposta da ilustra e entre si.
Para o chá Vento, a ilustração é de uma mulher indígena, com cabelos soltos formando as ondas do mar. Esse chá foi criado especialmente para o livro O céu riscado na pele, da Andréia Pires. Para o chá Dolce far niente, temos uma mulher gorda aproveitando a praia, com paisagem inspirada nos Lençóis Maranhenses, porque todo corpo é um corpo de praia. Para o chá As mil e uma noites, temos a Sherazade com seu rosto descoberto, pois ela tem o dom da palavra. E para o chá Sonho de uma noite de verão, temos uma mulher negra aproveitando o crepúsculo.
Depois de concluídas as ilustrações, fiz também o design do restante do rótulo, com a aplicação do logo, nome e informações de preparo e composição. Todas as ilustrações foram feitas com as aquarelas da White Nights, incluindo um estojo de aquarelas granuladas lindo que comprei recentemente. Dá pra perceber bastante esse efeito principalmente nas aquarelas Vento e As mil e uma noites. Abaixo, fiz um vídeo para mostrar os detalhes de cada uma:
Rhiannon 🐎
Rhiannon rings like a bell through the night
Eu já havia dito que 2022 foi o ano do rascunho, com vários trabalhos que comecei a esboçar, várias ideias de temáticas e séries, mas que ficaram somente no rascunho. Por isso, estou me dedicando (e pretendo continuar ao longo do ano) a tirar esses projetos somente do esboço e transformá-los em artes finalizadas.
Depois de passar o ano todo mergulhada na leitura de Mistérios da Lua Negra, da Demetra George, livro que me ajudou a lidar com o luto e, principalmente, com o luto dentro do processo criativo, me peguei desenhando muitas deusas, divindades de diversas partes do mundo, e também animais, grupos de mulheres, mulheres mais velhas...
E nesse processo surgiu a imagem de Rhiannon, a deusa galesa dos cavalos, a Grande Rainha, que casou-se com o mortal Pwyll e lhe deu um filho, que desapareceu ao nascer. As servas de Rhiannon enganaram a rainha, esfregando sangue de um animal em suas vestes, e acusando-a de ter devorado a criança. Como castigo, Rhiannon foi condenada a carregar os hóspedes que passavam pela sua casa nas costas, como se fosse um cavalo. Após a criança ser finalmente encontrada, o castigo da deusa foi retirado (contei a lenda de maneira muito reduzida, recomendo o livro Divinas Mulheres, da Ann Shen, para conhecer essa e outras lendas).
Rhiannon vai falar sobre resiliência, perseverança e sobre acreditar em si mesma. Num mundo cada vez mais focado na performance da felicidade e da vida perfeita, acolher as nossas feridas e carregar nossos próprios fardos é um ato de coragem.
Por acreditar que essa ilustração merecia estar num papel A3 (que eu não tinha!), resolvi comprar às pressas o único papel disponível na loja - o da linha universitária da Canson, e deu tudo errado, pois detesto a textura desse papel e, por mais que esteja pintando com uma tinta excelente, não consigo alcançar os resultados desejados com ele. Respirei fundo, resolvi digitalizar o rascunho, ajustá-lo para A4 e finalizar no papel 100% algodão que já estou acostumada a usar. Entre mortos e feridos, salvaram-se todos.
All your life you've never seen
A woman taken by the wind
Materiais utilizados
- Papel para aquarela 100% algodão Hahnemühle;
- Minhas tintas e pincéis de sempre;
- Lápis de cor aquarelável Albrecht Dürer;
- Marcadores Pentel e Derwent.
Quem prestou um pouquinho mais de atenção, viu que essa ilustra conversa com outra, Wild Spirit, que fiz em 2021. E é uma conversa intencional, e que pretendo fazer mais vezes, como parte do mapeamento que tenho feito de todos os elementos que se repetem no meu trabalho, bem como as paletas de cores que mais utilizo.
Os trechos em destaque são da música Rhiannon, da banda Fleetwood Mac, na voz da bruxona Stevie Nicks:
Ondas tombando ininterruptamente 🌊
Em março deste ano me inscrevi no Edital Galeria Otroporto - 1º andar, promovido pela Otroporto Indústria Criativa, da vizinha cidade de Pelotas. Foi um dos raríssimos editais pagos em dinheiro para os artistas, além de subsidiar custeio de materiais e envio das obras, se necessário. Confesso que me inscrevi um pouco descrente, na base do incentivo de amigos, principalmente da Ramile (@rami_aquarelas), que participou do edital 2021 e tem trabalhos expostos lá. Descrente, porque vivo uma eterna luta entre a consistência do meu trabalho, o tempo de dedicação diminuído pela docência, e a síndrome de impostora que me acompanha em todas as ocasiões.
Mas resolvi arriscar, elaborei um portfólio e esboço de proposta, tentando olhar com carinho para minha trajetória, que é digna de orgulho sim, afinal são muitos anos dedicados à arte e a mostrar que artistas mulheres estão aí na atividade e merecem reconhecimento também. O tema do edital era águas e pessoas, e aproveitei para mergulhar em meu próprio acervo, resgatando um material muito querido, mas que adormeceu ao longo dos anos: a série produzida para a exposição Mulheres, de 2015. Das 15 ilustrações em tamanho A3 (formato raríssimo nas minhas atuais produções), selecionei três que se encaixavam no esboço que queria mostrar à Otroporto: as galáxias poderiam virar mares, e vice-versa.
E em abril recebi a notícia de que estava na lista de 18 artistas selecionados no edital, entre os 104 inscritos. Fiquei extremamente feliz, e isso renovou demais minhas energias para continuar criando, apesar de tudo. E para a minha surpresa maior, a proposta foi aceita na íntegra, com as ilustrações originais da exposição Mulheres, sem necessidade de fazer novos trabalhos. E novamente isso me fez olhar com muito carinho para a Lidiane do passado, e ver que tudo é processo, que coisas feitas há 7 anos atrás ainda podem ser extraordinárias.
Essa semana, a Otroporto divulgou as imagens dos meus trabalhos já em exposição, que receberam o nome de Ondas tombando ininterruptamente, em homenagem ao poema Liberdade, da Sophia de Mello Breyner Andresen.
Liberdade
Aqui nesta praia onde
Não há nenhum vestígio de impureza,
Aqui onde há somente
Ondas tombando ininterruptamente,
Puro espaço e lúcida unidade,
Aqui o tempo apaixonadamente
Encontra a própria liberdade.
Sophia de Mello Breyner Andresen
E como acredito que toda boa experiência deve ser compartilhada para ajudar mais artistas, principalmente mulheres, a ocupar os espaços, vou deixar linkados aqui nesse post os arquivos do currículo e portfólio e da proposta de projeto enviados, para auxiliar quem deseja participar de editais e não sabe por onde começar. Também é possível ver algumas aplicações de mockup no meu perfil do Behance.
Para ver os meus trabalhos e também os de outros artistas incríveis, é só visitar o site, Instagram ou ir até a Otroporto, caso tenha a oportunidade.
Nas águas de março: oficina gratuita e mais 🌊
Os Enamorados 👫
| Imagens: Tarô de Marselha, O Beijo e foto de referência. Via. |
Materiais utilizados
- Papel Concept Sketch & Draw Hahnemuhle 220g;
- Aquarelas Van Gogh;
- Pincéis pelo sintético Giotto;
- Lápis de cor Polycolor Koh-I-Noor;
- Marcadores Pentel;
- Tinta acrílica Reeves.
Todo homem e toda mulher são uma estrela: nós, e o universo, somos todos feitos da mesma coisa. Quando somos criados, contemos uma centelha do Divino, uma estrela em nossos corpos, que é um reflexo direto de cada outra estrela presente dentro de cada outra pessoa ou ser sobre a Terra. Nós nos juntamos a grupos para criar modelos no céu. Giramos pelo céu e temos órbitas, e alguns de nós colidem e outros se unem em lindas constelações. Mas somos todos crianças-estrelas, irmãos sob a mesma proteção do céu, e todos tentamos nos reunir com nossa origem. As estrelas dentro de nós conversam com a sua fonte, e ansiamos retornar a ela. A jornada é longa, mas encontramos em outra pessoa uma estrela que está mais próxima daquela pela qual ansiamos, e vemos nela a fonte de luz e ela a vê em nós. Nós nos juntamos a ela, em anseio, desejo e paixão, e por meio dela estamos completos. Isto é o amor: a união de duas estrelas presentes nos corpos dos seres humanos, expressa na construção de uma ponte entre eles. No entanto, não amaldiçoe a distância, Amante; não lamente o espaço que você deve atravessar para conseguir se reunir, pois é somente por causa dessa distância que você pode sentir algum anseio e amor.
Vênus à deriva 🌊
Materiais utilizados
- Papel Hahnemühle Nostalgie;
- Pastel seco Derwent;
- Esfuminho Derwent;
- Lápis de cor Staedtler Karat;
- Caneta holográfica Pentel;
- Caneta dourada Sakura.




























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