Eu fui, eu tava: Ensino remoto raiz 📪
Essas acima são as apostilas do curso de Pintura. Um dos primeiros conteúdos abordados é a teoria das cores e o círculo cromático, e isso mostra o quanto o curso era correto, apesar de parecer duro aos olhos de hoje: ele começava do zero e do que é fundamental.
Alguns exercícios de natureza-morta (still life) em aquarela e de contraste tonal. Sempre havia uma demonstração do conteúdo abordado através de um exercício, que precisávamos replicar. Nesse exercício, além do conteúdo, era também apresentada uma técnica, como aquarela, pastel, óleo, acrílica. Tudo era realmente muito explicado, pois como não havia a figura do professor presente, o estudante tinha que ser capaz de aprender o que estava na apostila sozinho.
Agora, algumas páginas das apostilas de desenho artístico. Dá pra ter uma ideia do que era estudado pelo sumário, novamente com ênfase no básico dos fundamentos, indo gradativamente para a parte mais complexa. E também a parte do desenho da figura humana permeava todas as apostilas, começando da construção da cabeça e seus elementos, para depois as composições mais complexas, envolvendo a figura de corpo inteiro.
Os famosos esquemas para desenhar as partes do rosto, que vemos bastante hoje em dia nas redes sociais... E um estudo detalhado da posição das mãos.
Incidência de sombra e luz e diferentes rotações da cabeça.
Os conteúdos relacionados à anatomia eram bem completos, falando sobre a musculatura e ossatura do corpo humano, bem como mostrando esquemas de proporção das partes.
Por fim, alguns exemplos de composição com tecidos, desenho de animais e, é claro, ilustração botânica. Por mais que seja um material que tem, por alto, uns 30 anos e já esteja defasado em vários pontos (optei por não mostrar os nus, pois o que mais aparece é mulher pelada pra desenhar...), algumas coisas são atemporais, embora hoje em dia se encontre esse conteúdo muito melhor explicado em plataformas como a Domestika, e também no YouTube e outras redes sociais.
Foi muito legal revisitar essas apostilas, pois muito do que sei vem daqui, e também como forma de mostrar para quem está começando agora o quanto era difícil achar conteúdos sobre artes, gratuitos então, nem se fala! Sempre existiram as boas almas que disponibilizavam materiais e traduções preciosas, mas comparado à oferta de conteúdos que temos hoje em dia, foi um salto e tanto.
Por isso, valorize o artista que produz conteúdo, que ensina a desenhar e pintar, e disponibiliza esse material de graça na internet. Sempre curta, compartilhe e apoie da maneira que for possível, pois é uma luta permanente por reconhecimento e para driblar algoritmos. E se o seu artista favorito lançou um curso ou material pago, e você puder investir, faça isso! Todo mundo sai ganhando. 😉
Para saber como participar da Blogagem Coletiva, é só clicar aqui.
Não há mais vontade criativa que chegue ☔
Eu tenho tentado, em meio à montanha de trabalho que necessito vencer diariamente, manter um mínimo de sanidade me agarrando aos livros. Atualmente, estão na minha cabeceira Nós, mulheres, da Rosa Montero, um daqueles socos no estômago históricos, que nos fazem perceber o quão frágeis são os direitos das minorias, e Talvez você deva conversar com alguém, da Lori Gottlieb, terapeuta que narra suas aventuras enquanto profissional e paciente.
Fora isso, tudo é trabalho, o trabalho remoto que toma conta da casa, dos móveis, do celular incansável, da hora do almoço e do banho, pois se impregna em cada cômodo, disfarçado desse conceito chique de home office. Nunca senti tanta saudade de escola, do sinal tocando para anunciar a hora de entrada, o recreio, a saída. Do cansaço na sexta-feira, pois era um cansaço que deixava a semana para trás, o sentimento de dever cumprido. Hoje o dever é quantificar mensagens recebidas pelo WhatsApp e checar se áudio e vídeo estão funcionando no Meet.
Bueno, tirando isso - as leituras para manter a sanidade, e o trabalho - o resto é preocupação. Com o governo (ou a falta dele), a irresponsabilidade das pessoas, o egoísmo, o colapso, o negacionismo, a falta de perspectiva de sair desse buraco no qual nos enfiamos e ficamos tomando água de esgoto de guti-guti.
Não sei outros criativos, mas eu já joguei a toalha há uns bons meses. Fiquei no automático, fiz algumas coisas que precisavam ser feitas a duras penas, mas absolutamente nada mais sai de mim de maneira criativa e espontânea. Tudo é fruto ou da necessidade de cumprimento de prazos, ou de uma sensação vazia de preciso continuar senão enferrujo. Mas a verdade é que já faz um mês que não pego um lápis, que não sinto vontade de criar algo, e todo material que posto para manter as redes minimamente movimentadas é um grade tbt.
Não sei de onde nasce essa vontade criativa em meio ao caos e à desesperança. A Covid chega cada vez mais perto, infectando e matando conhecidos, colegas de profissão, anônimos que não são só números, são pessoas que tiveram família, sonhos e desejos.
Eu não sei de onde tirar essa vontade de criar no meio da morte. Aplaudo quem segue firme no seu propósito, fazendo arte ativista, usando o humor para denunciar o absurdo, ou simplesmente seguindo com as suas temáticas de costume como forma de resistência.
Eu não consigo mais, só quero que tudo isso passe, que alguém jogue a corda para que possamos sair do buraco.
Escrevo esse texto direto do celular, num lampejo de tentar colocar os sentimentos na tela/papel. A impressão é de que todos estamos gritando, mas é um grito mudo, que ninguém ouve. Que tempos horríveis para ter acesso à informação, pois quanto mais leio e me informo, mais me desespero.
Enfim, não espero chegar a nenhuma conclusão com esse texto, é apenas um desabafo, e uma maneira de preencher esse espaço e justificar o pagamento do domínio. Talvez em breve eu publique um post agendado há algum tempo, que certamente vai destoar desse aqui, então tratarei de rever o texto, para se adequar ao meu momento de total descrédito na humanidade.
Fiquem bem, usem máscara e álcool em gel, evitem aglomerações e cuidem dos seus.
Um retrato através do tempo
Este mês eu completo 36 voltas em torno do sol e, falo com tranquilidade, fiz as pazes com muitas coisas em mim. Entre elas, a minha aparência, de maneira geral. Embora ainda tenha uma queixa ou outra, hoje sou muito mais tolerante com o espelho do que há 10 anos atrás, mesmo que o colágeno já não seja o mesmo.
Depois de fazer dois autorretratos praticamente na sequência (um em junho e outro em setembro) eu me peguei perguntando: quantas vezes já me retratei? E como me retratei? Fui buscar alguns desses autorretratos para tentar responder a essas duas perguntas e ver tanto o que mudou na minha autoimagem quanto no meu traço. Gostaria que vocês me acompanhassem nessa tour que é metade tbt e metade terapia kkkkkk:
Notas sobre podcasts
Embora eu tenha trabalhado na área de EaD e tecnologias por anos a fio, sempre me considerei uma pessoa analógica para muitas coisas, até mesmo para o mundo virtual. Uma prova disso é eu não abandonar o hábito de blogar, de sentar e escrever, de editar HTML, de manter esse espaço mesmo quando todas as pessoas insistem em dizer que blogs morreram (spoiler: não morreram, nem vão morrer tão cedo). Minha relação com livros, com a arte tradicional (lápis, pincel, tinta), tudo numa confluência para inserir o analógico dentro do digital. Então eu demorei um pouco para entrar na cultura do podcast.
Comecei no final do ano passado, acompanhando alguns podcasts de true crime e terror, até que, durante a pandemia, fui convidada pela Suellen Rubira para fazer a arte e participar de alguns episódios do We can be readers. Vou deixar todas as minhas participações embedadas aqui:
E na função de participar do Readers, acabei tomando contato com o Anchor, software que a maioria dos podcasters usa para editar e distribuir seus programas. Então, quando chegou a hora de retomar o ensino através de atividades remotas (e, embora eu tenha todas as ressalvas do planeta, e ache que MUITA coisa nisso está errada), logo pensei em gravar pequenos áudios com o conteúdo das aulas. Assim, eu conseguia ao mesmo tempo me aproximar das turmas, e facilitar a entrega dessas aulas, através de um rápido áudio compartilhado via Whatsapp.
E foi aí que nasceu o Lidycast... são só as minhas aulas de artes, super específicas para o momento e para as turmas que atendo. Mas que podem servir como inspiração para outros professores, já que gravar um áudio é relativamente mais fácil do que gravar um vídeo, e demanda menos tempo de preparo.
Com o plano de aula em mãos, eu crio um roteiro com absolutamente tudo o que vou falar, tomando o cuidado de não ultrapassar 5 ou 10 minutos de áudio. Os primeiros foram mais espontâneos, mas agora roteirizo tudo para não me perder e evitar interrupções e vícios de linguagem. Gravo diretamente do celular, pelo próprio Anchor e, depois de finalizar o áudio, acrescento uma das músicas de fundo da biblioteca do aplicativo. Tudo muito simples e intuitivo. Claro que é possível incrementar o áudio, fazer recortes e edições elaboradas, mas como recurso didático em tempos de pandemia, é desse jeito simplão que tenho conseguido dar conta do que preciso fazer.
E, assim como em outras áreas, a gente só pega o jeito de fazer podcast ouvindo bastante podcast. Só assim para entender a linguagem, como manter o ritmo, e como desenvolver uma relação com o ouvinte.
Hoje já consigo enxergar o podcast como recurso extra, quando as aulas presenciais retornarem. E quem sabe, no futuro, poder criar um programa para falar de outras coisas também. Tudo o que não consegui fazer com o vídeo (meu canal morto no YouTube é a prova disso), está se mostrando bastante possível através do áudio. Claro que não vou abandonar o blog por conta disso, só acredito que são coisas que vão se encontrar em algum momento.
Se você é docente e está se desdobrando com atividades remotas, pense na possibilidade de gravar um podcast (caso tenha condições para isso). É um recurso que cativa especialmente os adolescentes. E me conquistou pela maneira como eu poderia me colocar mais humanamente para a turma, sem precisar de um aparato de câmera, iluminação, cenário, pós-produção. Participar do Readers também foi fundamental para entender o feedback desse meio.
Independentemente da proposta, o importante é curtir o que se faz, e eu amo ser professora, apesar de todas as dificuldades que são impostas a nós. Aproveito para indicar o canal da Patrícia Pirota, com dicas de organização e planejamento para professores.
Nota: embora o objetivo do post seja contar a minha experiência com o podcast e compartilhar isso com outros colegas professores, e também como mencionei num parênteses, nada disso tira meu sentimento de indignação sobre como tem se tocado o barco da educação no Brasil, desconsiderando o fosso de desigualdade que só aumenta com a adoção do "ensino remoto".
Photo by Elice Moore on Unsplash
10 anos de blog ✨
Alguns números (até a escrita desse post)
- Postagens: 472
- Comentários: 2408
- Acessos: 1004564 (o pico de acessos foi em junho de 2016)
- Página mais acessada do blog: FAQ
Postagens mais acessadas
- Como faço o efeito galáxia/nebulosa em aquarela
- Maybe Tonight (Estelar)
- Exposição "Mulheres"
- Minhas aquarelas e pincéis favoritos (até o momento)
- Links Bacanas #8
Postagens que mais gostei de escrever
- Mostre Seu Trabalho
- Grande Magia
- Clipes com Referência na História da Arte (parte 1, parte 2 e parte 3)
Ilustras que considero um ponto de virada na minha vida
- Sugar Skull: a primeira ilustração que vendi produtos - e fiquei conhecida por muito tempo pelas catrinas;
- Pirate: mostrou meu potencial criativo;
- Maybe Tonight (Estelar): minha primeira galáxia em aquarela;
- Arabesque: primeira figura fora do padrão estético dominante;
- Sereia: primeira aquarela que realmente gostei do resultado;
- Summertime: marca o início do ano dos meus melhores trabalhos.
Curiosidades
- O primeiro nome do blog foi Desenhar é Preciso, por causa da minha dissertação de mestrado;
- O vídeo Minha mesa de luz artesanal, apesar de ser o mais assistido do meu canal no YouTube, nunca converteu muitas visualizações para o blog;
- Tive que fechar os comentários da postagem sobre uma cola dimensional, de tanto que as pessoas me perguntavam o tempo de secagem da tal cola;
- Também tive que apagar todos os posts sobre lojas virtuais, pois recebia muitos comentários sem noção, sobre quanto eu ganhava em dinheiro;
- Durante anos o termo mais pesquisado do blog foi mulheres com a boca costurada (acredito que sejam as catrinas);
- Todos os projetos de sketchbook viajante que participei nunca terminaram, muitos se perderam;
- Já ajudei muitas pessoas que hoje tem números bem expressivos, mas que nunca disseram obrigada, e já tive até a sidebar plagiada por uma pessoa;
- Acredito ter sido a primeira pessoa no Brasil a receber "mimos" da marca Derwent, antes mesmo dela vir para cá, em 2012.
A utopia está lá no horizonte. Me aproximo dois passos, ela se afasta dois passos. Caminho dez passos e o horizonte corre dez passos. Por mais que eu caminhe, jamais alcançarei. Para que serve a utopia? Serve para isso: para que eu não deixe de caminhar. - Eduardo Galeano
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O que mudou na minha arte em 10 anos
Uma das coisas que eu queria muito fazer desde que me dei conta de que uma década já passou, era uma retrospectiva dos meus trabalhos, e o que mudou neles ao longo desses 10 anos.
Mas, ao fazer isso, quero pensar além da técnica adquirida e focar nos meus processos internos de aceitação, superação e de amor próprio pois, entra ano, sai ano, sempre vejo meninas lidando com os mesmos fantasmas que eu, com autossabotagem, rejeição e críticas duras demais, que muitas vezes não ajudam. Gostaria que essa retrospectiva fosse um abraço, para mim e para elas, uma maneira para ver que é possível ser mais gentil consigo mesma e vibrar pelas pequenas conquistas.
Então vamos começar lá pelo ano de 2010, que já não existe aqui no blog, pois acabei apagando muitos posts, mas que está guardadinho na minha memória. Eu precisava escrever o projeto de qualificação do mestrado, e a página em branco me apavorava. Resolvi criar o blog como forma de escrever despretensiosamente e mostrar alguns trabalhos feitos entre uma produção acadêmica e outra.
2010
Eu decidi realmente voltar a investir no desenho em 2009, depois de ter que alterar várias vezes meu projeto de mestrado, e perceber que só aquilo que eu realmente amava, que era o ato de desenhar, me daria forças para continuar pesquisando. Só que eu estava super enferrujada, havia me desapontado demais com tudo, ouvi coisas horrorosas, me achava insuficiente e charlatã. Então, busquei meu material favorito à época: o lápis de cor.
Esse primeiro desenho foi uma encomenda para uma amiga. Apesar do tronco alongadíssimo da figura, percebi que o que havia sido aprendido, ao longo dos anos, não tinha se perdido, só estava adormecido. Já a Marilyn à direita também foi uma tentativa de voltar a trabalhar com caneta esferográfica, que eu gostava muito, principalmente do efeito nos cabelos. Está parecida? Não. Tem problemas? Todos. Mas o importante dessa fase é que eu estava começando a tatear as possibilidades de reintroduzir o desenho na minha vida. A Fernanda Guedes foi uma grande inspiração nessa época.
2011
Aqui já comecei a perder o medo de retornar a desenhar o que eu mais gostava: mulheres. O contato com as ilustrações da Nanda Corrêa foi muito importante, pois sempre que eu via suas moças expressivas, pensava: nossa, ela também desenha mulheres. Tive muitos problemas relacionados à temática dos meus trabalhos durante a vida acadêmica, era como se sempre fosse algo menor para os outros, mas era o caminho que eu queria seguir. De 2011 em diante, tomei uma decisão: procuraria o máximo de artistas mulheres possível e montaria um blogroll com todas elas, e foi o que fiz.
Também foi em 2011 que perdi o medo de embarcar em temas mais místicos e ocultos, que também curto, e foi daí que conheci o trabalho maravilhoso da Sylvia Ji, referência eterna. Nasceu minha primeira catrina, minha primeira ilustração vendida em loja virtual. Eu ainda tinha muita resistência em voltar a fazer personagens de corpo inteiro, ao mesmo tempo que desejava demais investir em retratos, para trabalhar a questão do olhar, que é muito importante para mim.
2012
A partir de 2012, comecei a participar de desafios e concursos de estampas. Nunca tive uma arte aprovada, mas participava mesmo assim. Também inscrevi alguns trabalhos em chamadas de revistas online e sites especializados em curadoria, tendo alguns deles aceitos e vendidos no Society6, posteriormente.
Também fiz minha primeira exposição individual, só na cara e na coragem. Foi muito bonito, pois tive apoio incondicional de quem já estava me acompanhando e, gente: quem começou a me acompanhar nessa época é porque curtia muito, de verdade, o que eu fazia, pois minhas artes ainda sofriam com problemas de anatomia, proporção e o escambau.
2013
Em 2013 consegui ilustrar um livro coletivo de poemas, e foi um gás e tanto no meu desejo de me dedicar à ilustração editorial. Comecei a me aventurar mais na narrativa criada para cada trabalho, porém, comecei a me dar conta do que me impedia de melhorar. A essa altura do campeonato, via meu trabalho estagnado, meu traço mudando pouco ilustra após ilustra. E meu maior impedimento em evoluir residia na vontade de controlar as coisas.
Eu precisava estar no controle total da situação, e tudo tinha que sair perfeitamente igual ao que eu havia pensado. Só que isso não acontecia. Eu empacava numa parte da ilustração, me irritava, praguejava e no fim, vencida pelo cansaço e exaustão mental por não conseguir contornar meu erro técnico, apressava as coisas, ficando tudo pela metade.
Segui me iludindo que não, isso não está acontecendo, mas estava. Minha mania de perfeição não me deixava evoluir, e também deixava meus trabalhos com problemas muito visíveis, mas que eu não queria ver. Foi então que comecei um processo interno de tentar experimentar trabalhar com tintas, para ver se melhorava, mas foram dois anos de erro em cima de erro, até finalmente encontrar meu caminho.
2014
2014 e 2015 foram encruzilhadas na minha vida artística, pois eu já não tinha mais aquele desprendimento lá de 2010 para me reconectar ao desenho (a essa altura, já precisava estar reconectada, não tinha mais dissertação e eu pegava encomendas), e também não tinha suporte técnico para alçar voos mais altos. Por exemplo, a aquarela me encantava, mas todos os trabalhos saíam um cocô.
Me senti muito frustrada nessa época, pois comecei a me comparar demais com os outros. Via meninas que começaram lá em 2010 comigo numa situação muito melhor do que a minha, desenhando super bem e aumentando seus seguidores e encomendas. Talvez essa parte da comparação e o limbo no qual me encontrava foram determinantes para meu ponto mais acentuado de estagnação. Eu precisava sair dali urgentemente e não sabia como.
2015
No início do ano, meu cachorrinho Axl faleceu, depois de muito tempo lutando contra o câncer. Foi um momento horrível, que ninguém na minha casa superava. Já fazia um tempo que eu tentava fazer o efeito galáxia com aquarela e errava todas as vezes. É uma coisa que, hoje, sei que é super simples, mas aquela mania de controle não me deixava avançar.
Foi então que, numa tarde, resolvi colocar algo que há muito tempo faltava no meu trabalho: sentimento. Fiz Estelar em homenagem ao Axl e, finalmente, ao me deixar levar, consegui fazer a galáxia em aquarela. Deu tão certo, que foi o ano da galáxia: rolou exposição toda temática, tutorial e muitos produtos vendidos com a arte Estelar. Mas AINDA faltava uma coisa, que só veio no ano seguinte, com nome e sobrenome: Sabrina Eras.
2016
No início do ano, a Sabrina abriu uma turma de aquarela online e, quem estivesse interessado, era só mandar um e-mail, que ela responderia com as instruções para inscrição. Lembro que, na época, a Isabella Pessoa e eu mandamos e-mail praticamente na mesma hora, e ficamos nos praguejando durante dias, pois não recebíamos resposta. Pensávamos que éramos tão ruins que a Sabrina nem queria nos dar aula. Mas o que realmente aconteceu foi que a Sá recebeu uma enxurrada de mensagens e, como fomos as primeiras, acabamos empurradas para o final da caixa de e-mails hehehehe.
Enfim, comecei o curso em fevereiro e, até hoje, acho que nunca vou conseguir dimensionar o quanto essa experiência mudou a minha vida. Pela primeira vez me senti acolhida, compreendida, respeitada por uma professora de pintura, ganhando feedbacks construtivos, sendo estimulada a ir além, apoiada pelas colegas de curso. E este foi o ponto de virada na minha vida, o momento em que tive alguém para dizer: deixa de ser control freak, e voltei a estudar absolutamente tudo: fundamentos do desenho, anatomia, luz, sombra, valores... Os primeiros estudos do curso me tiravam do sério, mas quando cheguei na maçã, eu abri meu coração para aquarela e, desde então, vivemos um tórrido caso de amor verdadeiro, amor eterno.
Sempre que tenho oportunidade, agradeço a Sabrina e recomendo fortemente o curso dela (tem resenha aqui e aqui e, neste post, falo da minha evolução um ano após o curso), mas acho que nunca serei capaz de dizer, com todas as letras, o quanto ela é importante na minha vida e tudo o que ela trouxe de bom
2017
Meu ano mais produtivo e dos meus melhores trabalhos da vida, até então. Nada vai superar 2017, pois eu estava com a corda toda, com muito tempo para me dedicar à ilustração, me sentindo livre e inspirada e disposta a fazer séries e mais séries temáticas. Surgiram as Botânicas e o melhor Lidytober feito na íntegra, com algumas das ilustras mais aclamadas pela internet.
Deixei de ser controladora e passei a ser observadora do que eu estava fazendo: muito mais estudo, trabalhos bem rascunhados, ilustrações feitas em menos tempo, focando no que realmente importava; temas bem pensados, e o mais importante: a preocupação com a jornada, o processo criativo visto com mais carinho e não como um problema a ser resolvido com dor e sofrimento. Comecei a perceber onde errava e tentava melhorar no próximo trabalho. E finalmente me arrisquei nas figuras de corpo inteiro, e me senti, finalmente, em paz com a ilustração.
2018
Depois de anos esperando a nomeação num concurso público para professora de artes, ela finalmente veio em 2018, acompanhada de um grande dilema: será que terei tempo para continuar me dedicando à ilustração, ou vou sucumbir à sala de aula, e todo o aprendizado dos últimos dois anos vai para o lixo?
A primeira atitude que tomei foi cortar as encomendas, pois não conseguiria me dedicar a elas, e foquei 100% no trabalho pessoal. Isso já foi de grande ajuda. Em seguida, avaliei que era impossível manter o mesmo ritmo de produção anterior, e que eu não deveria me culpar por isso. Haveria momentos que precisaria planejar aulas, e outros em que poderia sentar e desenhar algo para mim. E foi assim que fiz muitas séries temáticas, participei dos desafios da melhor forma que pude e tenho trabalhado cada vez mais para equilibrar a vida docente com a ilustração.
O meu maior medo - regredir por não conseguir estudar tanto - acabou não se concretizando, pois sempre que eu sentava para desenhar me doava 100%, e os resultados finalmente começaram a aparecer nas figuras de corpo inteiro e nas tentativas de compor cenários. Destaque para o Lidytober que, em breve, vai para a parede.
2019
Depois de tantos anos lutando contra meus demônios internos da autossabotagem e de me dedicar a aperfeiçoar meu traço, consegui a primeira exposição num espaço institucional, e também consolidar meu trabalho que, a essa altura, as pessoas conseguem reconhecer como meu e destacar as particularidades que mais lhes agradam.
Não foi um caminho fácil, ainda tento equilibrar a carreira docente, ainda me culpo um pouquinho por estar muito cansada, ou por não estar inspirada, não girei uma chave mágica e tudo ficou bem da noite para o dia. Só aprendi a me cobrar menos, ou a cobrar as coisas certas, nos momentos certos. Deixei de pensar que tudo precisa sair perfeito o tempo todo, afinal, a perfeição não existe, e é por isso que sempre seguimos estudando.
De 2010 para cá, o que fica foi que consegui me reconciliar comigo mesma e com o meu potencial, e também incorporar e consolidar elementos que tanto amo no meu trabalho, imprimindo a minha identidade artística.
2020 (por enquanto)
Muita coisa aconteceu no final de 2019 e muita coisa está acontecendo neste começo de 2020, então ainda é cedo para dizer como vai ser o ano. Se eu conseguir manter o ritmo de 2018 e 2019 já fico contente. Pretendo continuar nas séries temáticas próprias, e fazer também mais ilustras de personagens femininas.
Espero que a minha trajetória, ao longo de 10 anos, tenha inspirado quem está começando agora ou, pelo menos, acalmado um pouco os corações, pois é importante ter em mente que cada um tem seu tempo (o que levei uma década pra construir, tem pessoas que conseguem em dois anos), tudo depende de muitos fatores e não existe fórmula pronta em artes (e em qualquer profissão).
Ainda tenho muito para melhorar, sei que posso ir além do que faço agora, mas também sei que não preciso provar nada a ninguém. O que importa é que, depois de passar por tantas coisas, aprendi a pegar mais leve comigo e ter orgulho da minha jornada, e é essa a mensagem que gostaria de deixar, juntamente com a retrospectiva: tenha orgulho da sua arte, se perdoe, se aceite, estude e melhore por você, e não para provar algo para os outros. 💓
Por que eu não faço mais resenhas e tutoriais
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| Pablo Picasso pintando com a luz. Fonte: Resource Magazine |
A inspiração existe, mas precisa te encontrar trabalhando.
Pablo Picasso
Arte é mais que um algoritmo
Engajamento virou pauta, muito mais do que estudar os fundamentos do desenho, redigir um bom contrato, compreender o processo criativo ou como abrir um MEI. E isso passou a me preocupar, em muitos níveis. Primeiro, porque cada vez mais jovens estão começando a ilustrar, pessoas na faixa dos 15-17 anos, em idade escolar. Segundo, porque o número virou ponto de chegada, e não o trabalho em si. Por isso, gostaria de abrir um espaço para reflexão sobre todas essas questões.
Se você olhar minha última foto na conta artística que mantenho no Instagram, o número de curtidas é pífio. Minha conta estacionou em número de seguidores no começo de 2018 e, de lá pra cá, só cai. Tudo começou a cair quando não tive mais tempo para me dedicar àquela rede social. Dispender vários minutos por dia para seguir, curtir, comentar e compartilhar virou luxo na minha rotina, o máximo que consigo fazer é, duas vezes por semana, curtir tudo o que posso dos meus contatos e postar alguns stories. Foto no feed é raridade ainda maior, visto que também produzo pouco. Somado a isso, deixei de seguir em torno de 500 contas, entre perfis inativos e artistas que já não rolava tanta identificação assim com o trabalho. Acabei criando uma conta pessoal para seguir amigos e postar fotos aleatórias, sem pressão, e desopilei ainda mais daquela rede.
Foi libertador não ter que me preocupar em postar e parar de achar que meu trabalho era medido pelo número de curtidas. Num primeiro momento, a leitura que vocês podem fazer é que hoje eu não vivo de freela e posso me dar ao luxo de não me preocupar em manter redes sociais ativas, mas a realidade é que, mesmo quando eu pegava trabalhos comissionados, raramente eles vinham de redes sociais, mas sim daqui do blog e de indicações. E até hoje, quando surge uma proposta, é porque a pessoa me encontrou pelo blog, ou porque um amigo encomendou algo comigo há alguns anos e me recomendou.
A Camis Gray, ilustradora que adoro, compartilhou um tweet sensato esses dias, que diz:
as vezes to mexendo no behance e vejo uns ilustradores muuuito fodas, e qdo vou ver o instagram tem 300 seguidores... mas tão cheio de projetos incríveis e clientes grandes. é bom ver isso pra tirar um pouco a importância daquela rede que as vezes faz muito mal.— Tears for Spears (@camisgray) 6 de junho de 2019
Quando vejo postagens em grupos de arte e ilustração, nas quais as pessoas estão arrancando os cabelos por engajamento e criando grupos onde tem hora pra postar, curtir e comentar, fico bastante desconfortável. É como se existisse uma ansiedade coletiva para atualizar o feed e receber curtidas; como se isso fosse medir a importância de um trabalho e gerar dinheiro. Vejo até artistas fazendo "estudo de caso" de profissionais com grande número de seguidores (como o Gabriel Picolo, que tem mais de 2 milhões de seguidores no Instagram e hoje trabalha para a DC), esquecendo-se que quem está no "topo" é porque escreveu uma trajetória de muito trabalho até chegar lá. Não existe fórmula pronta.
E dá-lhe reclamação por não ter visibilidade, por ter muita gente que "não merece" e consegue trabalhos legais, e a pessoa ali, imersa naquele círculo vicioso de tomar os outros como exemplo, sem olhar com carinho para o próprio trabalho, sem enxergar o propósito daquilo que faz. Na minha opinião, é isso que tem matado a capacidade criativa de uma geração inteira de jovens artistas. Ter reconhecimento é legal, receber feedback de um grande público é muito bom, mas saber porque você realmente está ilustrando e aonde quer chegar com seu trabalho é melhor ainda, pois é algo permanente.
Vai chegar um dia em que as redes sociais como conhecemos vão desaparecer. Surgirão outras e, com elas, diferentes formas de compartilhar e consumir arte. Pode ser que toda a internet mude a qualquer instante, e não são as pessoas com o maior número de visualizações que vão sobreviver, mas sim aquelas que realmente amam o que fazem e se dedicam a sempre estudar, aprimorar e buscar parcerias de trabalho sólidas que, independentemente do meio, vão buscá-las quando precisarem de alguém para um projeto bacana.
Arte não é um algoritmo, e a nossa vida também não é.
É preciso estar triste para criar?
Summary of Art 2018
Mas a inconsistência também faz parte do trabalho artístico, e acabei me envolvendo em mil outras atividades que me encheram de orgulho e satisfação, como ensinar arte para crianças e montar uma exposição com o que elas próprias produziram.
Posso não ter sido constante ou ter perdido um pouco o ritmo, mas tudo o que fiz foi em momentos em que queria muito estar envolvida naquilo, sempre procurando doar meu melhor.
Obrigada a todas(os) que permaneceram comigo durante este ano; que entenderam a minha ausência das redes sociais e a mudança de foco da minha vida artística; que não esqueceram de me indicar, curtir, acompanhar e, principalmente, obrigada a cada um que entende a arte como resistência.
Eu estou exausta
Você deveria se proteger mais...
Atualização 04/07/2018: ontem a equipe da Urban Arts (depois de pedir para que eu aguardasse por dois dias) entrou em contato para esclarecer a questão. Disseram que houve um problema na plataforma devido a uma atualização, com as artes em formato ímã, e que por isso as minhas voltaram para o site. Nenhuma foi comercializada, segundo eles. As artes já foram retiradas do ar. Porém, fiz questão de pontuar duas coisas fundamentais: a primeira é que a UA deveria, em tese, ter retirado todas as minhas artes da sua base de dados em 2015, quando encerrei meu espaço. Esse problema no site demonstrou que eles ainda estão de posse dos arquivos e pode fazer o que bem entender com eles, a qualquer momento. Isso é errado. A segunda é que o link permanece ativo com meu nome, mesmo não tendo arte nenhuma. É uma loja "vazia". Ou seja, quem me procura pelo Google cai nesse link e gera tráfego para a UA, e não para minha loja oficial ou meu site. E isso também é erradíssimo. Falei que vou continuar monitorando e insisti para que retirem minhas artes de sua base de dados na amizade, e para que deletem aquele link maldito, para não ficar gerando tráfego no meu nome. Dificilmente vou conseguir alguma coisa sem uma carteirada judicial, mas é o que temos. Agradeço todas as pessoas que compartilharam e se solidarizaram com a minha situação.
Atualização 05/07/2018: este tweet.





































