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I am no man

Eu aceitei a condição de que não consigo andar com um sketchbook comigo, e que funciono muito melhor com folhas soltas do que com as ide...

14/08/2019


Eu aceitei a condição de que não consigo andar com um sketchbook comigo, e que funciono muito melhor com folhas soltas do que com as ideias concatenadas num caderno. Prefiro usar o sketchbook para um projeto limitado (é meu pensamento para o Inktober deste ano) e, sim, gosto de ver tudo bem arrumadinho. Deixo a bagunça para essas folhas, que ficam organizadas numa prancheta, na minha parede. É ali que me abasteço de ideias e registro thumbnails e esboços do que virá a ser uma ilustração.

Também são raros os momentos em que a ideia surge e já coloco no papel. Geralmente separo um tempo para fazer vários rascunhos e dali tirar algo mais tarde. Mas esse trabalho não se enquadra nesta categoria. Eu estava no banho quando ela surgiu e não perdi a oportunidade de já deixar registrada.

Embora ainda não tenha postado nada, esse ano resolvi participar do #agostodoartista, projeto da Dessamore, e uma das categorias é filme (devemos desenhar uma cena ou personagem). Resolvi fazer a Éowyn, de O Senhor dos Anéis, pois acho uma das personagens mais fodásticas e chutadora de bundas de toda a trilogia. Rabisquei a ideia inicial, mas enquanto estava no banho resolvi desdobrá-la até a cena icônica em que a guerreira derrota o Rei Bruxo de Angmar [toda a perspectiva de trabalho que adotei é baseada no FILME O Retorno do Rei, não no livro, só para deixar claro].

Pensei na figura do Rei Bruxo, no seu elmo sombrio e, dentro dele, a figura solar de Éowyn, com o semblante fechado, mostrando que, não importa o quão poderosa pode ser uma ameaça, ela estará pronta para enfrentá-la. Complementei com a Simbelmynë, flor que cresce nos túmulos dos antigos reis de Rohan.


A princípio, essa arte teria um lettering na parte inferior mas, depois de concluir a pintura, vi que ficaria muito pesado e tiraria toda a atenção da figura central, por isso apaguei. Utilizei o papel da Hahnemühle, que absorveu toda a umidade de um dia chuvoso e ficou extremamente sensível à borracha e até mesmo à fita crepe azul. 

Comecei com uma aguada lilás ao fundo, utilizando um pouco as aquarelas peroladas da Koi. Eu já tive uma experiência ruim no passado com a Koi, por ser uma aquarela muito opaca e de difícil mistura (na minha opinião). A linha perolada continua com uma textura bem semelhante a um guache, porém, isso se torna positivo na hora de cobrir uma área, pois dá pra ver a presença da cor e do brilho. Claro que, na hora de digitalizar, esse brilho some.


Para o elmo do Rei Bruxo, usei cinza payne puro do lado esquerdo e, do lado direito, misturado com um pouco de azul da Prússia. O restante da figura foi colorido da maneira habitual, e finalizei os detalhes com lápis de cor e marcadores. O tempo úmido não ajudou e, por conta da sensibilidade do papel, não consegui fazer muitas camadas. Para as flores, usei aquarela perolada branca e um pouco de cinza. O resultado:

Materiais utilizados

  • Papel Hahnemühle 300g;
  • Aquarelas Van Gogh e Koi;
  • Pincéis Keramik;
  • Lápis de cor Polycolor Koh-I-Noor;
  • Multiliner Sakura;
  • Marcador metálico Uni Pin.


Esse trabalho foi um refresco no meu processo criativo, que andava super parado, embora eu tenha muitas ideias (que não estão indo para o papel). Acho que preciso confiar mais na minha intuição!

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08/08/2019

Pablo Picasso pintando com a luz. Fonte: Resource Magazine

Faz muito tempo (muito mesmo, acho que a última postagem desse tipo é de 2016) que não faço resenhas de materiais. Há alguns anos adotei a prática de falar sobre o que estou usando de maneira contextualizada, geralmente quando produzo uma ilustração e mostro o passo-a-passo. Acredito que, dessa forma, quem me lê pode ver o material em ação, com um propósito específico determinado e, a partir da minha experiência, decidir se é algo que ela quer experimentar também. Quando esses materiais vão se repetindo, faço uma postagem atualizada com meus favoritos, e daí especifico marcas e outras características, mas tudo dentro da minha esfera pessoal de vivências.

O mesmo acontece com tutoriais. Embora a galáxia em aquarela seja o post mais acessado do blog, não me sinto mais confortável para chegar aqui e dizer como fazer um desenho, mesmo que eu reforce que é da minha maneira, e que ela não é a única. Também prefiro contextualizar dentro de um trabalho autoral, mostrando como pintei a pele, como fiz o cabelo de uma figura, como cheguei na mistura desejada.

Indo um pouco além, também deixei de mostrar muitas coisas do meu espaço de trabalho, principalmente livros. Prefiro trazer para cá coisas significativas, como o livro Pequeno Guia de Incríveis Artistas Mulheres, ou os que uso em sala de aula, pois são obras que vão instigar a pesquisa e o crescimento de quem, por acaso, venha cair aqui.

Todas essas posturas vêm de uma série de confluências: a responsabilidade que é falar sobre algo na internet; a exposição que isso traz; o cenário político atual; o consumismo desenfreado que isso pode gerar; a ideia de que precisamos saber tudo, o tempo todo.

Quando alguém comenta num post antigo desse tipo, dizendo que veio parar no blog por causa de uma resenha ou de um tutorial, e gostaria de ver mais, fico feliz mas não me prendo a isso para continuar escrevendo aqui. Vou mostrando meu trabalho, contando sobre o que acho ser relevante na minha vida docente, mas deixo todo mundo livre para ler ou não ler o blog.

É claro que AMO resenhas, e acompanho blogs que fazem trabalhos maravilhosos, desde produtos para pele até filmes, mas, especificamente em relação a materiais e técnicas artísticas, não pretendo mais dispender tempo e energia para testar, fotografar, organizar e me expor por um produto que pode ter funcionado muito para mim, mas que pode ter sido uma dor de cabeça para outra pessoa. Ou mostrar como fazer um determinado efeito e tempos depois descobrir que existe um jeito muito mais fácil de fazer a mesma coisa, e que fiquei ensinando "errado".

Mas o mais importante de tudo, e o ponto onde realmente quero chegar, é o fator viva a sua experiência. Eu sou o tipo de pessoa que compra muita coisa por impulso, ou por achar a embalagem bonita, ou por decidir tentar uma técnica nova (oi, pastel oleoso!), e sai cada lambança que me deixa dias pensando na quantidade de prestações que ainda vou pagar por algo que achei péssimo, ou no porquê de não ter comprado logo uma coleção inteira do que mais amei testar. E é essa experiência que vejo faltar nos artistas, atualmente.

Todo mundo está tão preocupado em postar seu trabalho da melhor forma possível que acaba perdendo oportunidades extraordinárias de se jogar em coisas novas e absurdas. Picasso foi um artista reconhecido pelo incontável número de experimentações durante sua longa carreira, criando novas técnicas de fazer, apreciar e se relacionar com a arte. Hoje estamos todos preocupados com likes e no melhor que podemos mostrar. Só que nem sempre este melhor é o que realmente queremos mostrar, ou ainda, se realmente queremos mostrar.

Ontem li uma publicação da Brunna Mancuso sobre querer dar novos rumos para a carreira dela, experimentar coisas novas e parar de se importar com números. E acho que todo artista deveria seguir os passos dela. É legal pesquisar sobre materiais novos e marcas confiáveis? Nossa, se é. É legal ter muita gente reconhecendo nosso trabalho? Puxa, nem me fale! Mas também é bom se permitir: experimentar, errar, errar bastante, fazer absolutamente nada, errar mais um pouco, testar novamente aquele tubo de tinta perdido dentro da gaveta, esvaziar todas as gavetas e partir para algo totalmente novo e inóspito.

A experimentação aguça a curiosidade, que anda de mãos dadas com a nossa criatividade. Mesmo que nossos feeds mostrem coisas interessantes e criativas, ou que o blog mais completo ofereça todo conteúdo para começar a desenhar do zero, é só na prática e na tentativa e erro que o trabalho realmente emerge.  

A inspiração existe, mas precisa te encontrar trabalhando.
Pablo Picasso
02/08/2019


Entramos em agosto e percebi que ainda não tinha feito um resumo do que rolou no meu primeiro semestre docente de 2019. Ano passado, recebi um feedback tão positivo com minhas postagens, que se transformaram em categoria permanente aqui no blog - sala de aula.

Este ano troquei de escola, estou ministrando aulas no meu amado CAIC, onde fiz estágio, que conta com uma sala de artes para trabalhar com as turmas (o que facilita muito o desenvolvimento de atividades com tinta, sucata, materiais alternativos, pois não preciso ficar carregando essas coisas o tempo todo, escola afora). Tenho feito coisas muito legais, que nunca imaginei possíveis, e estou muito feliz na profissão. As fotos a seguir são um resumo do que publiquei nas redes sociais, mas tem muito mais coisa que simplesmente não consegui fotografar.


As primeiras atividades envolveram muita tinta e o reconhecimento do nosso principal instrumento de trabalho: a mão! O registro de nossas mãos é algo que nos acompanha desde o tempo das cavernas, então nada melhor do que iniciar o ano marcando nossa passagem pelo mundo gráfico.


As bailarinas de Degas e o teatro de sombras foram atividades desenvolvidas com os 4ºs e 3ºs anos, respectivamente. 


Tarsila do Amaral é a artista mais celebrada pelas turmas. Temos uma reprodução enorme do Abaporu na sala de artes e, graças à professora Suzi Barros, que trabalhou o tema brasilidade ano passado, praticamente todos os estudantes conhecem as obras de Tarsila. Na segunda foto, o trabalho criativo de um aluno do 2º ano a partir do livro Tarsila e o papagaio Juvenal.


Visitamos a exposição Interfaces: um sentido visual a partir do toque, do artista André Barbachan, no Espaço Incomum do Campus Carreiros da FURG e até fomos notícia no site da universidade.


Sempre trabalho a questão da diversidade e luto pelo fim do estereótipo da "cor de pele". Os gizes de cera Uniafro são sucesso entre as turmas, os alunos ficam procurando o giz que mais se assemelha ao seu tom de pele, e é um processo lindo ver as crianças se descobrindo e se sentindo contempladas.


Magritte falou que ceci n'est pas une pipe, em sua obra A traição das imagens e, aqui, as turmas do 4º expandiram a ideia em inusitadas releituras.


Também produzimos nossas próprias tintas naturais, com pigmentos como argila, cúrcuma, curry e vários temperinhos que encontramos na cozinha. Essa atividade só foi possível graças ao atendimento da professora Vivian Paulitsch e da estudante Lara Freitas, do curso de Artes Visuais da FURG.


O 2º ano fez desenhos gigantes no papel, aproveitando o espaço da sala para deitar, brincar e se divertir. Momentos lúdicos que tornam as aulas mais interessantes, principalmente para os pequenos.


Os desafios da internet também estão presentes nas aulas e, na época do Mermay, surgiram muitas sereias. Na primeira foto, o trabalho da Emilly, que costuma levar um pequeno sketchbook para as aulas e, nele, faz todo o rascunho do projeto, antes de colocar no papel. É uma atitude que partiu dela, confesso que o coração não aguenta de tão quentinho que fica ao ver isso.


Também trabalhamos arte aborígene e pintamos pedras em pontilhismo, lembrando os grafismos do tempo do sonho.


Por fim, a obra Menino com lagartixas, de Lasar Segall, ganhou uma releitura utilizando folhas de árvore e gramíneas. Fiz muitas outras atividades, como tangram, pirâmides do Egito, cartazes, quebra-cabeças, até mesmo um livro, mas muita coisa fica de fora, pois não dá tempo de registrar. 

Dar aulas é algo que me motiva a pesquisar coisas novas, estou sempre de olho no Pinterest, no Portal do Professor e no site da Nova Escola, mas a grande maioria das ideias vêm da conversa e da troca com as colegas, que buscam integrar as ações, a fim de possibilitar uma experiência de aprendizagem mais ampla para as turmas.

Para ver mais postagens como esta e outras dicas, é só acessar a categoria sala de aula.
15/07/2019


Mais uma para a série de deusas do arco-íris, com seus cabelos coloridos, que tenho feito para me manter produtiva. Tecnicamente, a série terminaria aqui, com a deusa de cabelos verdes, mas decidi fazer uma última ilustração, uma deusa negra de cabelos roxos, então aguardem o número 4. Veja todas as ilustrações aqui.

Para essa ilustra, resolvi usar outros lápis de cor que estavam guardados há muito tempo, os maravilhosos Karat, da Staedtler. São lápis aquareláveis, mas que não deixam a pintura pastosa. Senti que o material que eu vinha usando não daria o tom de verde desejado ao cabelo, por isso troquei. Utilizei somente dois tons de verde, e já consegui esse degradê maravilhoso (nas áreas escuras, usei preto).


O processo de pintura é praticamente o mesmo das outras deusas, começo pelo cabelo e depois vou construindo as camadas de pele. Aqui, novamente usei o Polycolor. O resultado:

Materiais utilizados

  • Papel Canson Bristol;
  • Lápis de cor Karat, da Staedtler;
  • Lápis de cor Polycolor, da Koh-I-Noor;
  • Multiliner Copic;
  • Caneta metálica Uni Paint.


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08/07/2019


Não é de hoje que as discussões sobre mudanças no algoritmo do Instagram tomam conta das redes sociais e grupos dedicados à arte. Muitos artistas, principalmente aqueles com menor visibilidade, estão preocupados com o alcance dos seus posts e possível queda no número de encomendas por conta disso.

Engajamento virou pauta, muito mais do que estudar os fundamentos do desenho, redigir um bom contrato, compreender o processo criativo ou como abrir um MEI. E isso passou a me preocupar, em muitos níveis. Primeiro, porque cada vez mais jovens estão começando a ilustrar, pessoas na faixa dos 15-17 anos, em idade escolar. Segundo, porque o número virou ponto de chegada, e não o trabalho em si. Por isso, gostaria de abrir um espaço para reflexão sobre todas essas questões.

Se você olhar minha última foto na conta artística que mantenho no Instagram, o número de curtidas é pífio. Minha conta estacionou em número de seguidores no começo de 2018 e, de lá pra cá, só cai. Tudo começou a cair quando não tive mais tempo para me dedicar àquela rede social. Dispender vários minutos por dia para seguir, curtir, comentar e compartilhar virou luxo na minha rotina, o máximo que consigo fazer é, duas vezes por semana, curtir tudo o que posso dos meus contatos e postar alguns stories. Foto no feed é raridade ainda maior, visto que também produzo pouco. Somado a isso, deixei de seguir em torno de 500 contas, entre perfis inativos e artistas que já não rolava tanta identificação assim com o trabalho. Acabei criando uma conta pessoal para seguir amigos e postar fotos aleatórias, sem pressão, e desopilei ainda mais daquela rede.

Foi libertador não ter que me preocupar em postar e parar de achar que meu trabalho era medido pelo número de curtidas. Num primeiro momento, a leitura que vocês podem fazer é que hoje eu não vivo de freela e posso me dar ao luxo de não me preocupar em manter redes sociais ativas, mas a realidade é que, mesmo quando eu pegava trabalhos comissionados, raramente eles vinham de redes sociais, mas sim daqui do blog e de indicações. E até hoje, quando surge uma proposta, é porque a pessoa me encontrou pelo blog, ou porque um amigo encomendou algo comigo há alguns anos e me recomendou.

A Camis Gray, ilustradora que adoro, compartilhou um tweet sensato esses dias, que diz:
É realmente interessante dar uma olhada no Behance para comprovar o que a Camis falou. Tem muitos ilustradores que sequer possuem conta no Instagram, mas estão consolidados no mercado de trabalho, realizando projetos em grandes empresas. Outros tantos usam as redes como forma de divulgar trabalhos pessoais, despretensiosos, pois em alguns casos, a confidencialidade faz parte do contrato, e só depois de finalizada é que a peça pode ser divulgada em portfólio.

Quando vejo postagens em grupos de arte e ilustração, nas quais as pessoas estão arrancando os cabelos por engajamento e criando grupos onde tem hora pra postar, curtir e comentar, fico bastante desconfortável. É como se existisse uma ansiedade coletiva para atualizar o feed e receber curtidas; como se isso fosse medir a importância de um trabalho e gerar dinheiro. Vejo até artistas fazendo "estudo de caso" de profissionais com grande número de seguidores (como o Gabriel Picolo, que tem mais de 2 milhões de seguidores no Instagram e hoje trabalha para a DC), esquecendo-se que quem está no "topo" é porque escreveu uma trajetória de muito trabalho até chegar lá. Não existe fórmula pronta.

E dá-lhe reclamação por não ter visibilidade, por ter muita gente que "não merece" e consegue trabalhos legais, e a pessoa ali, imersa naquele círculo vicioso de tomar os outros como exemplo, sem olhar com carinho para o próprio trabalho, sem enxergar o propósito daquilo que faz. Na minha opinião, é isso que tem matado a capacidade criativa de uma geração inteira de jovens artistas. Ter reconhecimento é legal, receber feedback de um grande público é muito bom, mas saber porque você realmente está ilustrando e aonde quer chegar com seu trabalho é melhor ainda, pois é algo permanente.

Vai chegar um dia em que as redes sociais como conhecemos vão desaparecer. Surgirão outras e, com elas, diferentes formas de compartilhar e consumir arte. Pode ser que toda a internet mude a qualquer instante, e não são as pessoas com o maior número de visualizações que vão sobreviver, mas sim aquelas que realmente amam o que fazem e se dedicam a sempre estudar, aprimorar e buscar parcerias de trabalho sólidas que, independentemente do meio, vão buscá-las quando precisarem de alguém para um projeto bacana.

Arte não é um algoritmo, e a nossa vida também não é.