Eu tento fazer o movimento de compreender o artista que não se posiciona. Seja porque depende de encomendas para viver, seja porque tem um público diverso, seja porque acha que arte e política não caminham juntas. Tento, mas não consigo. Pois entendo que nosso estar no mundo é político, e desde sempre arte foi um campo político em disputa. Hoje, por exemplo, já existem vários estudos que reforçam que as pinturas rupestres foram feitas, em sua maioria, por mulheres, mas como por muitos anos os pesquisadores eram homens, essa possibilidade sempre era descartada. Então, quem detém a narrativa, detém a história e o direito de escolher o que merece ou não ser contado.

Além de artista, sou professora. Vivi o momento político de 2018 dentro de uma sala de aula de escola pública, vivi a pandemia e o ensino remoto, e todas as consequências que isso trouxe para a educação nos anos posteriores. Presenciei como as políticas públicas (ou a falta delas) podem impactar na vida de um estudante e sua família.

Se eu andar um pouco mais para trás,  posso retornar ao ano de 2005, quando entrei na universidade pública e sequer asfalto havia dentro do campus. Presenciei a expansão universitária com o REUNI, as bolsas de estudo chegando, os programas de pós-graduação stricto sensu ao alcance da comunidade. E vi tudo isso desmoronar como um castelo de cartas. Hoje, quando me perguntam como vai o doutorado, eu respondo que vai bem, mas no meu íntimo sempre perpasso uma trajetória de mais de vinte anos sendo testemunha ocular do processo educacional brasileiro.

Indo mais atrás ainda, eu fui a criança periférica, moradora de um dos bairros mais antigos da cidade, e também uma das zonas de sacrifício mais famosa, devido à poluição causada pelo distrito industrial e suas fábricas de fertilizante. Com uma família toda da classe trabalhadora, sem nome ou posição social para garantir estabilidade na vida.

Por tudo isso e por muitas outras coisas, eu me recuso a depositar meu voto num projeto que vai contra a nossa soberania nacional, contra a classe trabalhadora, contra a arte, contra a educação.


Brilhe a Estrela Austral é uma arte que traz muitas simbologias, a começar pelo mapa. Essa imagem é do Atlas Celestial de Flamsteed, de 1795, e foi retirada do Public Domain Image Archive. Mais do que uma imagem em domínio público (e que está numa coleção estadunidense), sabemos que os mapas são formas de reafirmar o poderio de nações e sua influência sobre o restante do mundo, através de distorções que aumentam ou diminuem países, os colocam no centro, à leste, oeste ou abaixo de debate geopolítico. Esse é um mapa vintage que apresenta as constelações do Hemisfério Sul, feito pelo astrônomo inglês John Flamsteed. Aqui, me reaproprio dessa produção europeia e coloco uma mulher latina ao centro, pois o eleitorado feminino ainda é o que mais defente e vota em pautas progressistas e na garantia de direitos das minorias.

Em seu olho esquerdo dourado, está pintada a estrela vermelha, que mais do que simbolizar o Partido dos Trabalhadores, nos puxa para essa centralidade da narrativa, o olhar para o meio, o centro, o coração. Olhar para as nossas raízes, para o que nos torna brasileiros, para nossa soberania. Ela não sorri, ela encara o espectador, como a grande maioria das minhas ilustrações, pois o que me move politicamente na arte é o protagonismo feminino. Sua figura se mescla ao mapa: agora ela já faz parte dele, é impossível não notar a sua presença.

Ilustração digital feita no Procreate.


Ao som do mar e à luz do céu profundo 
Devolver tudo ao povo da América 
E me tornar o sol do novo mundo

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