Mostre seu trabalho!

Por - 24.11.17


Há mais ou menos uns dois anos atrás o livro Roube como um Artista foi a sensação dos círculos criativos. Muita gente da área indicou a obra de Austin Kleon por seu caráter inovador, divertido e leve, mas confesso que peguei certo ranço por esse título clickbait e achei que muita gente interpretou o pensamento de Picasso (bons artistas copiam, grandes artistas roubam) de maneira extremamente equivocada. Nunca se viu tanto plágio como agora, daí meu desconforto mais em relação a essa interpretação errônea, do que ao livro em si.

Mas resolvi dar outra chance para o autor assim que Mostre seu Trabalho foi lançado no Brasil. E a impressão que tive, ao ler este livro, foi que o próprio Austin estava se dando uma segunda chance para ser melhor compreendido. Achei que encontraria mais um guia cheio de receitinhas prontas sobre divulgação em tempos de internet, mas a obra é uma verdadeira aula sobre ética no trabalho criativo, e deveria ser lido por todas as pessoas do planeta - sério. A seguir, minhas impressões a respeito da leitura:

Os blogs não morreram

Várias coisas que o autor coloca já passavam pela minha cabeça nos últimos tempos. Foi como se eu encontrasse uma voz amiga que dissesse: tudo bem, estamos juntos nessa. Primeiramente, ele já explica que a obra é destinada a quem não gosta de se autopromover na internet e lança a indagação: imagine se seu chefe não precisar ler seu currículo porque já lê seu blog? Nunca deixei de acreditar no poder que o blog ou site pessoal tem para promover um artista, pois as redes sociais mudam a todo momento, enquanto o blog funciona como um registro dos processos criação. E é a partir desse ponto que Austin começa sua reflexão. 

A nossa sociedade acredita, ainda hoje, no mito do artista solitário (e mentalmente perturbado, como já escrevi numa edição da newsletter), que espreme o cérebro ao máximo em seu ateliê e entrega algo genial ao mundo, meses mais tarde. Mas para o autor Brian Eno, faz mais sentido a ideia de cena, de ecossistema de talentos, onde é possível apoiar, trocar, exibir trabalhos, copiar, roubar ideias e contribuir. Nesse sentido, a internet é um terreno fértil, pois a cena garante que não só os "gênios", como pessoas em todos os níveis, possam colaborar.

A importância dos processos

"Assim como em qualquer trabalho, existe uma distinção 
entre o processo de pintar e o produto final do processo."

Lá na minha adolescência (e na de muita gente), era comum que todos os trabalhos ficassem guardados naqueles fichários pretos que, aos poucos, deformavam com o acúmulo de volume. Eram rascunhos, retratos, fanarts, tudo compartilhado em reuniões presenciais (amanhã, no recreio, vou trazer minha pasta!), nas quais os artistas podiam trocar artes entre si e ver de perto o que o colega produzia. No período pré-digital, era totalmente aceitável que esse mundo maravilhoso ficasse restrito às pastas ou, no caso dos artistas famosos, a canais especializados, como revistas e galerias. Porém, hoje, todo mundo pode documentar facilmente o seu processo criativo e disponibilizar isso ao público.

Nesse ponto, Austin Kleon faz uma observação muito pertinente: embora seja muito fácil compartilhar nossos processos - e até mesmo mais interessante para um empregador observar esse relatório diário do que um portfólio - nem tudo é passível de divulgação. Dividir é diferente de sobrecarregar! O primeiro diz respeito a colocar algo útil no mundo, já o segundo não acrescenta nada ao seu trabalho ou aos outros. Faça o teste do e daí? antes de compartilhar qualquer coisa, questione a pertinência e relevância do que vai colocar no seu feed.

Dentro desse aspecto, o autor novamente bate na tecla da importância de ter um espaço só seu, com domínio próprio, e que seja alimentado com certa frequência. Não abandone seu blog pela mais nova rede social.

"Não pense no seu blog como uma máquina de autopromoção, mas como uma máquina de se autoinventar. Online, você pode ser a pessoa que realmente deseja ser. Preencha o site com seu trabalho, suas ideias e as coisas que lhe interessam."

Divulgar é diferente de spammar

Como disse anteriormente, minha grande birra com Roube como um Artista não era o livro em si, mas o tanto de pessoas que levaram o título ao pé da letra e começaram a plagiar enlouquecidamente em busca de likes. E parece que o autor percebeu a tragédia e correu atrás do prejuízo. A questão ética está presente em todo Mostre seu Trabalho, de maneira muito sutil. Desde creditar sempre suas fontes, incluir os links para o trabalho original, caso você for divulgar outro artista no seu blog, até mesmo em não compartilhar caso você não encontre a autoria do que deseja mostrar.

Acredite, você está falando para alguém, embora ache que só as paredes são capazes de ouvir. Por isso, dê mais importância para a qualidade do que a quantidade de seguidores e tenha algo a ensinar para eles. Não seja spam humano, pois uma das piores coisas da internet é, comprovadamente, o segue de volta. Afaste-se de pessoas tóxicas, que não estão dispostas a ver você e seu trabalho crescerem, e conecte-se com quem admira. Não alimente os trolls.

Numa das melhores passagens do livro, Austin fala que quando você coloca seu trabalho no mundo virtual, precisa estar preparado para o bom, o mau e o feio, e que ter seu trabalho odiado por certas pessoas é uma honra ♥. Essa frase virou meu mantra pessoal e me fez desencanar de muita coisa ruim, recomendo entoá-la 3 vezes ao dia.

Sobre ganhar dinheiro efetivamente a partir da divulgação do trabalho na internet, é preciso superar a ideia do artista faminto, e que vender vai corromper a sua criatividade. Muita gente ainda acredita que desenhar é um dom ou um hobby e se recusa a pagar para o artista desenvolver uma arte exclusiva. Ou então pensam que "se está na rede não tem dono" e copiam imagens com copyright até mesmo para fins comerciais.

Não tenha medo de cobrar pelo seu trabalho e coloque o preço que acha justo. Mantenha um mailing para ter um canal direto com seus leitores e clientes, assim é possível avisar sobre seus projetos e novidades. Crie horários de atendimento para responder e-mails e tirar dúvidas, não fique 100% disponível online, pois isso prejudica seu trabalho. E lembre-se de descansar um pouco para recuperar as energias.

Já no finalzinho do livro, o autor faz uma das colocações que mais me impactou (dentre tantas): a de que nunca começamos do zero e que, se for necessário, jogue fora todo material antigo. Isso tem tudo a ver com as práticas que tenho adotado desde o ano passado aqui no blog e também na minha vida offline. E tem sido bom porque praticamente não tenho mais bloqueio criativo (até passei a me questionar se esse conceito realmente existe ou se é uma imposição social para que sejamos produtivos sempre), e consegui entrar num fluxo de estudo, trabalho e lazer em arte que só sigo, sem me cobrar por as coisas não saírem do meu jeito. É o famoso exercício de desapego. E dá certo!

Considerações finais

Existem outros tantos tópicos abordados pelo Austin Kleon que ficaram de fora dessa pseudo-resenha. Pontuei o que chamou mais minha atenção, mas certamente é um livro cheio de camadas, e cada releitura será uma nova descoberta. O ranço foi substituído por admiração e recomendo, de coração aberto, que todas as pessoas que usam a internet para promover seu trabalho criativo, ensinar ou aprender sobre arte, leiam e absorvam os ensinamentos, principalmente no que tange ao respeito com nosso trabalho e com o alheio.

Em tempos de cópia e mau roubo, como o próprio autor coloca, desejo que Mostre seu Trabalho faça tanto sucesso quanto o primeiro livro, e que sirva para esse pessoal do bonde do plágio por a mão na consciência e repensar as próprias práticas.

Para mim, o ponto crucial foi o respeito pelo ato de blogar e a reverência com que o Austin fala sobre esses espaços que tanto podem acrescentar em nossas vidas. Não canso de dizer que este blog nasceu para me ajudar no mestrado e mudou completamente minha relação com o desenho, a profissão e o mundo. Através dele, fiz amizades e consegui projetos que jamais teria oportunidade se não tivesse apertado aquele botão laranja do Blogger lá em março de 2010. Se o seu blog está abandonado, saiba que o futuro continua nele, vale a pena tirar as teias de aranha e... mostrar seu trabalho!

Nota: ✩✩✩✩✩

Minha edição é em ebook, mas certamente comprarei um exemplar físico! Se você também leu o livro, deixe suas impressões nos comentários e vamos conversar a respeito.

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