Vamos falar sobre cópia?

04/08/15


Nos últimos dias acompanhei um caso no YouTube relacionado à cópia das ilustrações de algumas artistas, incluindo a Jennalee Auclair, que fez um vídeo sobre a questão. Situações que envolvem plágio e uso não autorizado de conteúdo são uma dor de cabeça sem fim. Digo por experiência própria, pois desde que fiz a resenha do giz de cera tons de pele, vários sites têm republicado as minhas imagens sem permissão e sem créditos. É chato e muito desgastante.

Quando as pessoas lucram em cima da cópia fica ainda pior, pois imaginem vocês todo o trabalho que envolve produzir, por exemplo, uma estampa, que você vai colocar na sua loja virtual e, de repente, uma confecção de fundo de quintal pega a sua imagem da internet (que já está em baixa resolução), apaga qualquer sinal de crédito e põe a arte à venda.

Mas será que nós, enquanto sociedade, não encorajamos esse comportamento? Numa época em que curtidas, elogios e SDV transbordam nas nossas time lines, a cópia é o caminho mais fácil para o "sucesso", por se tratar de uma fórmula pré-pronta: você faz o que todos estão fazendo, pega um recorte daqui, outro de lá, e voilà: tem seu público fiel formado. Se alguém acusar de plágio, é só dizer que foi inspiração, apagar e daqui a alguns meses começar tudo de novo.

Da parte legal que envolve direitos autorais, todos nós que produzimos arte e conteúdo estamos bastante cientes. O meu objetivo com este post é pontuar a necessidade de uma sociedade que pare de educar para e pela cópia. E quem fala aqui é a professora, que se recusa a ir pelo caminho mais fácil. Que senta ao lado do aluno e o encoraja a construir seu próprio repertório.


No livro Formas de Pensar o Desenho, Edith Derdyk dedica um capítulo inteiro para falar sobre imitação e cópia. Embora o público alvo seja professores que trabalham com crianças em idade escolar, acho válido trazer os dois conceitos abordados pela autora, pois eles são a síntese do que aqui vou chamar de educação para o plágio e educação para a construção de repertório:

CÓPIA: "O ensino fundamentado na cópia inibe toda e qualquer manifestação expressiva e original. A criança, autorizada a agir dessa forma, certamente irá repetir fórmulas conhecidas diante de qualquer problema ou situação que exige respostas. Ela, com todo o seu potencial aventureiro, deixa de se arriscar, de se projetar. Seu desenho enfraquece, tal como o seu próprio ser." (p. 107)

IMITAÇÃO: "A imitação possui significado distinto da cópia. Ela decorre da experiência pessoal, orientada pela seleção natural que a criança efetua dos 'objetos', para então apropriar-se deste ou daquele conteúdo, forma, figura, tema, através da representação. Imitar é a maneira de se apropriar. A capacidade de imitar só é possível quando a criança está apta a reproduzir e simbolizar imagens mentais internas. A imitação representa estas imagens mentais sob forma de linguagem, ampliando o repertório gráfico através da repetição. Esta também faz parte do processo de aquisição do conhecimento. Basta olhar para uma criança aprendendo a andar. A repetição é a incorporação de gestos, de elementos gráficos, de conteúdos que vão se acrescentando ao repertório infantil, por livre-arbítrio. A criança detém o poder de decisão." (p. 110)

Podemos, a partir desses dois trechos, concluir que, para Derdyk, a cópia inibe o desenvolvimento do processo criativo, enquanto a imitação e a repetição são maneiras naturais da criança adquirir conhecimento. Frisei bastante a autora porque euzinha (minha opinião particular) não concordo com o termo imitação, acho que ele é muito limitado (dentro da ampla definição que ela mesma dá) e carrega em si vários estereótipos, difíceis de desconstruir. Como esse livro foi escrito na década de 1990, talvez nem a Edith concorde mais com o termo que usou. 


Então qual é o nosso papel, já que estamos na rede? Além de agir em prol dos nossos direitos, podemos também seguir um viés pedagógico e mostrar para os leitores o quanto copiar o trabalho de alguém é prejudicial para ambos os lados.

Sei que tem muita gente cara de pau, que copia para se dar bem mesmo, mas também lidamos com crianças, pré-adolescentes, pessoas em construção, por isso elas precisam ser educadas. Ainda há salvação, sabe? Sempre procuro pensar por esse lado, e o exemplo que dou é muito simples: é mais fácil um anônimo reconhecer que errou e pedir desculpas, do que uma grande rede de fast fashion brasileira que roubou a arte da Ëlodie e até hoje nega.

A seguir, uma lista de coisas que podemos pensar:

Educação para o plágio
- a pessoa não arrisca coisas novas e não testa seus limites;
- falta profundidade no aprendizado;
- é comum pular etapas (por exemplo, não estudar anatomia, ponto de fuga, etc.);
- a pessoa adquire os "vícios" daqueles que copia;
- falta de entendimento global e estrutural: a pessoa não sabe explicar por que tomou determinadas decisões.

Educação para a construção de repertório
- aprendizado a partir da coleta de informações;
- uso contínuo de referência;
- embasamento teórico-prático;
- treino constante;
- aprender com erros e acertos (seus e dos outros).

E nunca é demais dizer que, mesmo se você quiser copiar a ilustração de um artista para estudar,  ou para prestar uma homenagem, lembre-se que:
- cópia não pode ser comercializada;
- cópia/inspiração deve ser sinalizada;
- o artista precisa consentir com a publicação;
- todas as obras são protegidas pela Lei de Direitos Autorais.

Atualização em 15/09/2018

Indico a leitura desses textos para complementar o que falei acima:
- Nada se cria;
- A cópia como ferramenta de estudo;
- Máquina de xerox barata;
- Influência, inspiração e referência: o que são?

E se gostou desse texto, não esqueça de indicar a autoria e não copiar na íntegra! ;)

Abraços,
Lidiane :-)