Lidiane Dutra
  • Home
  • Sobre
  • _Sobre mim
  • _Currículo
  • Trabalhos
  • _Portfólio
  • _Encomendas
  • Blog
  • _Arquivo
  • _FAQ
  • Contato
Reflexões
Mostrando postagens com marcador Reflexões. Mostrar todas as postagens
Reflexões

Algumas resoluções

Nos últimos anos, janeiro é marcado por uma grande movimentação aqui no blog, pois geralmente é o mês que estou mais descansada, em férias escolares, e tenho mais tempo para desenhar, postar e ler. Mas esse ano virei mais uma chave em relação à presença online, arte, universo e tudo mais, e venho aqui compartilhar algumas resoluções para 2026:

A primeira resolução foi colocada em prática logo no início do ano. Depois de 5 anos, resolvi trocar o layout do blog e passei um final de semana me dedicando a atualizar plugins, corrigir erros e inspecionar elementos no html para deixar tudo do jeito que queria. O tema escolhido é da Maira Gall, que eu já vinha querendo a algum tempo. Amo esse tipo de coisa, embora não seja profissional em programação e me restrinja a fazer o básico, pois sinto que realmente estou construindo algo, como se fosse uma reforma na minha casa ou redecorar um ambiente. Também retorno ao tempo em que blog tinha cara de blog, e não de site. Tudo agora é importante e merece destaque, não só meu trabalho artístico, mas também os textos, as demais páginas, o conjunto da obra, que vai para seu 16° aniversário (meu blog já pode votar!).

Em 2024 tive uma newsletter no Substack por um brevíssimo período, mas que gerou textos muito prolíficos, e um deles falava sobre como eu estava saindo das redes sociais. E sigo nesse movimento, mantendo ativas somente três redes (ativas no sentido de que entro nelas com regularidade). Para esse ano, quero fazer no Instagram um movimento que já fiz no TikTok: limpar o meu feed. E por quê? Porque a maioria das pessoas não quer mais ver arte, e compartilhar arte nas redes está cada vez mais difícil. Eu já venho falando isso a algum tempo: que o público se interessa por lifestyle e aesthetic; a valor agregado e performance, mas muito pouco por processo criativo. Então não vou colocar mais a minha energia num algoritmo que não me respeita, que exige minha presença constante e ainda usa meu trabalho para treinar IA. Na última newsletter da Loish (uma artista com mais de 2 milhões de seguidores só no Instagram), ela fala que já está há 20 anos divulgando seu trabalho na internet, e que não consegue mais ter uma fórmula ou acompanhar as exigências das redes. Por isso, ela tenta redirecionar o público para espaços nos quais ela possui mais controle, como o site, Patreon e a própria newsletter. E é por esse caminho que pretendo andar também. Além do mais, tenho uma tese para escrever!

Sobre limpar o feed: se você entrar hoje no meu Instagram, vai encontrar pouco mais de 100 fotos. Arquivei em torno de 200 postagens. Pode parecer loucura, mas é só uma rede social. E ainda: 1. o que publiquei lá, publiquei aqui também; 2. nós nos acostumamos a um fluxo intenso de compartilhamento de imagens, sejam fotos ou vídeos, pagamos para ter espaço na nuvem e armazenar os registros em nossos celulares (duas, três, quatro mil fotos num aparelho...), ficamos com a sensação de que se não há foto ou story, é como se não existíssemos. E não precisa ser assim. Para quem nasceu na era analógica, é só lembrar que o máximo de fotos que um rolo de filme fazia numa câmera fotográfica era 36 "poses" e, com muita sorte, se todas ficassem boas, lotavam um álbum. Nossa relação com as imagens precisa mudar, desacelerar.

E aí entramos na famigerada bolha da IA. Ninguém aguenta mais tanto conteúdo gerado por inteligência artificial, e já venho batendo nessa tecla também: arte está ficando nichada, e IA está sendo associada a "coisa de pobre" (vi muitos vídeos sobre o assunto recentemente, mas meu texto de 2023 já previa esse futuro). Existe uma saturação do olhar provocada por essas mídias, mas o movimento contrário não tem sido no sentido de democratizar a arte feita por humanos, pelo contrário: hoje em dia virou trend ter uma "analog bag", nada mais do que uma bolsa (de marca) com materiais de arte (caros) e livros (em edições luxuosas), para evitar o excesso de estímulo causado pelas redes. Novamente, invadimos o campo da performance, justamente registrando esses equipamentos analógicos e postando nas redes que dizemos ser contra. Então, para 2026 em diante, não quero circunscrever minha arte nesse lugar de autoafirmação sobre ser diferente por não consumir IA e por pintar aquarela, me colocando como erudita e acima da média populacional, apenas porque uso caderno e caneta. Não faz meu tipo.

Também entra na equação das resoluções uma pergunta que tenho me feito há anos: Por que faço o que faço? Qual a minha motivação para continuar a nadar, mesmo com tantas coisas contra? Por que sempre essas mulheres, esses temas, esse ouroboros de assuntos que se conectam com coisas feitas há mais de 10 anos, e que sempre se repetem? Eu tenho a tendência a levar muito a sério o entendimento das pessoas sobre o meu trabalho. Se alguém não entendeu é porque eu não expliquei direito, não ficou claro, não está inteligível. O grande exercício desse ano será: se entendeu ou não, não me interessa. Porque essa é a minha linguagem. Eu escolhi, conscientemente ou não, ao longo de mais de 20 anos, um conjunto de signos que me representa e que simplesmente acontece na minha obra. E sempre que trago um trabalho novo para o mundo, venho aqui, explico, mostro minhas referências, amplio aquela visão incial baseada na imagem. Se o público quiser ou não consumir isso, não vai mais, definitivamente, ser da minha conta. Lembrando: tenho uma tese para escrever, não vou mais me preocupar se a pessoa não entendeu de onde eu tirei uma imagem de Kali, por exemplo.

Indo mais a fundo no terreno artístico, chegamos na crítica construtiva. Eu já fui a pessoa que ia lá, mesmo sem ser solicitada, e fazia uma crítica construtiva para a outra pessoa, seja sobre sua técnica, sobre seu material ou sobre sua temática, afinal, estamos todas, todos e todes aqui para nos ajudar. Errado. A crítica, quando não solicitada, só mata a vontade da pessoa em criar. E eu fui aprendendo e me dando conta disso quando comecei a dar aula no ensino regular. A partir de uma certa idade, o desenho se torna um tabu para a maioria de nós, pois é cercado por comparações com os outros e, olha só, críticas construtivas, porém não solicitadas. Durante todo esse tempo que compartilho minha arte online, não foram poucas as vezes que as pessoas simplesmente me mandaram estudar. Como se eu não fizesse isso ou não fizesse o suficiente ou, ainda, como se eu não fizesse do jeito delas. Vai estudar anatomia, cenário, fundamentos (eu tenho uma faculdade de Artes Visuais!), pose dinâmica, gestual, enfim. E a maioria dessas críticas veio de gente conhecida, que estava ali para me ajudar. Só que isso foi gerando uma angústia enorme dentro de mim, pois toda a vez que eu publicava algo, a crítica construtiva caía no meu colo. Mais recentemente com o desenho digital, sempre disfarçada como aquele "toque" de quem é mais experiente ou mais intrometido, apenas.  E só eu sei o quanto isso me faz mal, pois me deixa insegura em coisas que eu demorei horrores para aprender e ter um resultado legal, na minha percepção. Então minha resolução em relação as críticas construtivas é não ouvi-las, mas também devolvendo o constrangimento sem medo nenhum. Achou meu trabalho ruim? Faz melhor e não me incomoda. Tenho uma tese para escrever.

Por fim, uma das minhas maiores resoluções para 2026 é, talvez, a mais contraditória: não desenhar também é desenhar. Vim marcando em alguns parágrafos a frase tenho uma tese para escrever e, nesse exato momento, estou num ponto em que olhei para trás e vi minha dissertação, que fala sobre desenho, e senti um puta orgulho do texto que escrevi, da pesquisa que fiz e uma vontade enorme de retomar isso de onde parei. Ainda não sei como vou fazer isso, e nem posso ficar falando sobre, mas é algo que vai envolver muita leitura acadêmica e muitas horas dedicadas à teoria. E eu não posso me colocar num lugar de culpa, de ai, poderia estar desenhando, mas estou lendo/escrevendo/estudando outra coisa. Isso também vai ser desenho. Desenho de ideias, de sonhos, de propostas, que precisam de tempo e de dedicação para acontecer. E quando pontuei, ao longo do texto, a necessidade de escrever uma tese, quis reafirmar para mim, para ti, para o universo, que não vou perder tempo com ladaia de bilionário dono de rede social, de gente desocupada ou de vozes sabotadoras da minha própria cabeça. Não quero envolver meu doutorado em sofrimento, honrando o legado que meu ex-orientador me deixou. São 41 anos de vida, 21 de trajetória acadêmica, 16 aqui nesse espaço virtual. Estou dando uma grande banana para o sistema e assumindo os riscos de fazer as coisas no meu ritmo. Se vai dar bom? Não sei, mas acho que são resoluções muito boas.

Espero que tenha ressoado aí o que escrevi por aqui. Mas se não, é só seguir adiante. Para quem fica e me acompanha, vou passar a postar minhas artes, reflexões e afins muito mais aqui no blog. Como disse acima, não me sinto mais a vontade para postar com a regularidade que eu tinha. Vou sempre compartilhar o que estou fazendo e o link para que as pessoas saibam quando tem postagem nova. Talvez crie um destaque no Instagram para facilitar a busca. E sigo postando story dos meus vinis, dos meus gatos e outras coisas totamente nonsense. E é isso aí. 

A vida presta. Feliz 2026!

Leia mais →
Arte Digital Reflexões

The category is: Krampus


Para fechar os trabalhos do ano fiz, mais uma vez, a representação de Krampus. Adoro como esse ser mítico foi reinterpretado nos últimos tempos e, na minha versão, ele está absolutely cunty.

Sempre que chega o final do ano, fico com aquela sensação de que poderia ter feito mais, ter estudado mais, me sinto um hamster dentro da rodinha. Por isso, resolvi listar algumas coisas, para lembrar de que foi um ano e tanto:

  • Criei meu logotipo, baseado naquilo que acredito e dá sentido à minha arte;
  • Participei de uma feira, desenhando ao vivo e superando o medo que eu tinha de me expor;
  • Vendi meus trabalhos;
  • Li muitos livros sobre arte;
  • Transformei livros lidos em ilustrações;
  • Ilustrei nove mulheres rio-grandinas notáveis, num material que virou referência para a rede municipal de ensino;
  • Ilustrei a capa dos cadernos dos kits escolares (e recebi os parabéns da prefeita por isso!);
  • Tive minha 1° exposição individual na Galeria Breche da Escola de Belas Artes Heitor de Lemos, um reconhecimento pelo meu trabalho que me emocionou muito;
  • Passei no doutorado, depois de 14 anos afastada da academia;
  • Fui trabalhar na Secretaria de Educação - e tenho feito muitas ilustrações por lá;
  • Comprei meu iPad e comecei a ilustrar no Procreate;
  • Consegui fazer dois projetos de desenho do início ao fim nos meses de outubro e novembro.


Eu sempre coloco como resolução estudar mais, e me culpo muito por não conseguir me dedicar a isso na intensidade que gostaria. E agora, com o doutorado, sinto que essa sensação se estendeu às leituras e até mesmo ao tempo de ócio. Então, só quero manejar tudo da melhor maneira possível no próximo ano. E seguir usando esse espaço para me expressar, talvez com mais intensidade, visto que as redes sociais estão perdendo o encanto cada vez mais.

Desejo uma despedida tranquila de 2025 e um 2026 repleto de possibilidades.

"Não precisa ter pressa. Não há necessidade de brilhar. Não precisa ser niguém além de si mesmo." - Virginia Woolf
Leia mais →
Dicas Livros Reflexões

Minha opinião sobre os livros para colorir, 10 anos depois


Há dez anos atrás Jardim Secreto virava uma frebre mundial, com milhares de exemplares vendidos. Na época, diversas pessoas tomaram conta do YouTube e do Instagram, as principais redes sociais naquele momento, ensinando como colorir os livros para colorir, mostrando canetinhas diversas (as mais famosas eram as Copic e as Chameleon, que mudavam de cor conforme eram pressionadas) e ensinando as técnicas "corretas" para cobrir peles, paisagens, flores, dentre outros.


Os livros para colorir causaram um alvoroço e, depois de Jardim Secreto, a autora Johanna Basford lançou uma leva de outros títulos explorando mundos mágicos (exceto sobre Halloween pois, segundo ela, não se sentiria confortável em desenhar coisas assustadoras para compor um livro). Também vieram na esteira desse sucesso muitos títulos semelhantes, de mandalas a gatos psicodélicos, passando por obras de arte para colorir e oceanos cheios de tesouros.


Naquela época, fui indagada sobre o que eu achava desses livros, e a minha resposta foi: acho o máximo. Tomando como exemplo Jardim Secreto, era um livro com ilustrações extremamente elaboradas, e requeria da pessoa o desenvolvimento de um senso estético para preencher as composições. Fiz algumas páginas para colorir com ilustrações minhas e, recentemente, montei outro mini e-book com mais alguns trabalhos, e com a mesma proposta.

O que me chateava já lá atrás era a quantidade de gente que brotou do rejunte querendo ensinar técnicas para as pessoas, que só desejavam dar uma pausa e, talvez, recordar a infância, quando também coloriam livros da Barbie e de personagens de filmes e desenhos. Também começou um consumismo desenfreado por lápis e canetinhas profissionais, materiais caros e que servem a outras propostas. Tudo virou uma corrida para mostrar a quantidade de coisas que as pessoas compravam, e teve gente que se endividou em nome desse hobby.

Recentemente, percebi uma movimentação estranha nas estatísticas da postagem na qual dou a minha opinião, de maio de 2015. Em algumas semanas, ela foi simplesmente a postagem mais acessada do blog. Novamente o interesse sobre o assunto cresceu, levantado agora pelos Bobbie Goods. Para a minha surpresa, me deparei com alguns vídeos no TikTok que usavam meu texto como roteiro, me fazendo lembrar aquele gosto amargo do plágio que tanto vivenciei nos 15 anos desse espaço. 

Por isso, resolvi refrescar minha opinião sobre os livros de colorir para adultos. Continuo achando a proposta excelente, mas alguns pontos chamaram minha atenção nessa nova leva de livrinhos:

Infantilização das narrativas: se antes tínhamos ilustrações intrincadas e complexas composições, os livros de colorir atuais apresentam uma infantilização de suas narrativas, substituindo os mundos mágicos elaborados por ursinhos em atividades aconchegantes em suas casinhas. É como se tivéssemos realmente retornado aos livros para colorir da infância, só que dessa vez em folhas de 180g próprias para marcadores a base de álcool.

Não tenho nada contra pintar Bobbie Goods, até comprei um similar. Só achei peculiar essa simplicação dos livros, efeito talvez da massificação e da rapidez trazidas com o TikTok (sempre ele) e com algoritmos contruídos para dar uma experiência cada vez mais individualizada para o usuário, o colocando dentro de uma bolha. Acho curioso como a complexidade das mandalas foi substituída por cenários extremamente simplificados, compostos por céu, casa, chão, urso... É como se até mesmo aquilo que foi feito para um momento de pausa não devesse nos tomar muito tempo, sendo colorido com a maior rapidez possível, o que nos leva ao próximo tópico.

Performance para consumo rápido: se há 10 anos atrás os cenários já eram montados para a performance, agora isso escalonou. É preciso mostrar quantas páginas foram coloridas e como elas foram criativamente preenchidas com cores e texturas; é preciso catalogar as texturas encontradas; é preciso ensinar a sobrepor luz e sombra nas cenas; é preciso ter uma placa muito específica para colocar embaixo da folha, evitando que a tinta passe para o outro desenho; é preciso acelerar o vídeo 2x para mostrar como somos produtivos em nossos hobbies. Fora isso, as canetas do momento são as Touch ou as Ohuhu, que são importadas e caras, junto aos lápis de cor com todo tipo de efeito possível. Toda a performance do colorir é voltada para a rede social, para o desejo e para o consumo. Há quem vai colorir porque realmente quer, e há quem vai vender o desejo não só pelo livro, como pelo material, pela mesa, pelo quarto milimetricamente pensado para aparecer no vídeo, pela luminária, pelo telefone. É doentio e sintomático de uma sociedade em recessão econômica, na qual as narrativas estão cada vez mais conservadoras.  

Uso de IA para baratear custos e surfar no hype: se antes as editoras tinham que recorrer aos bancos de imagem para elaborar um livro para colorir às pressas, hoje é só dar um comando para a inteligência artificial gerar uma infinidade de ilustrações, que podem ser impressas e publicadas em questão de dias. São imagens que emulam os Bobbie Goods e também qualquer outra coisa que seja relevante o suficiente para alguém obter lucro com ela. Os direitos autorais não importam, o que importa é o dinheiro que se pode ganhar com isso. De editoras grandes a pequenos criadores que enxergam nesses livros gerados por IA uma oportunidade de renda, vamos engrossando o caldo das imagens massificadas e não fazendo os debates que precisamos sobre as implicações éticas, ambientais e estéticas dessas novas tecnologias.

Livros para colorir de artistas que recomendo


Mini e-book para colorir: ano passado lancei um mini e-book com poucas ilustrações, pois já lancei várias páginas para colorir ao longo do tempo e as disponibilizei gratuitamente. Esse e-book foi feito com a exposição Trívia em mente, para quem gosta de figuras femininas poderosas.



Wildflower Folk, da Christine Karron: descobri esse livro nas minhas andanças pela Amazon e achei uma pérola. Talvez eu nunca tenha coragem para colorir essas páginas, pois elas já são por si só uma obra de arte. A Christine está lançando outro livro de colorir, então vale a pena acompanhar o trabalho dela.

Wildlings, da Clarissa Paiva: a Clarissa é uma artista brasileira com um traço lindo e mágico, e o seu livro de colorir foi lançado em 2021. As ilustrações, assim como as da Christine Karron, são maravilhosas mesmo sem colorir, a vontade é de emoldurar todas.

31 bruxas para colorir, da Carol Rempto: esse é para quem curte personagens de terror fofos, com 31 desenhos de bruxas. Dá pra colorir um desenho por dia, numa espécie de desafio ao estilo Inktober.

Floriography Coloring Book, da Jessica Roux: para quem gosta do livro Floriografia, ele possui uma versão para colorir (ainda não traduzida). O diferencial desse livro é que na página ao lado está a ilustração completa com cores, que serve como uma espécie de guia.

Não são de colorir, mas inspiram a criar




Painting Calm, da Inga Buividavice: outro livro que achei na Amazon ao acaso, Painting Calm tem uma proposta slow, com aquarelas inspiradas nas cores e formas da natureza. É um livro com atividades tanto para principiantes quanto pessoas experientes em aquarela, feito para desestressar e ampliar o repertório imagético.



Watercolor with me in the forest, da Dana Fox: esse livro é todo feito em papel para aquarela com excelente gramatura, suportando muitas camadas de tinta e água. Traz ilustrações mágicas, inspiradas na natureza, e também o risco do desenho, para que a pessoa foque em aquarelar, de acordo com as guias apresentadas.

Uma coisa é certa: temos a necessidade de criar algo e, seja através de livros para colorir, para desestressar ou para aquarelar, o importante é que cada um procure aquilo que o faz feliz e bem, não só porque está na moda, dá status ou visualizações. Se o desejo é movido pelo consumismo ou pela ideia de "não ficar para trás" numa modinha, pense duas vezes antes de gastar dinheiro com livros, canetas e lápis.

*Os links para os livros das artistas mencionadas não são patrocinados.

Leia mais →
Livros Reflexões

Linda Nochlin e "Por que não houve grandes mulheres artistas?"

 

Salomé com a cabeça de São João Batista, Artemisia Gentileschi, 1610-15.
Salomé com a cabeça de São João Batista, Artemisia Gentileschi. 1610-15.

Por que não houve grandes mulheres artistas? é um artigo de Linda Nochlin publicado na década de 1970, no qual a autora responde a essa questão de maneira incisiva: não existiram grandes mulheres artistas do mesmo modo que não existiram grandes artistas orientais, africanos e sul-americanos, pois a arte ocidental está alicerçada num forte recorte social, que privilegia o homem branco europeu burguês. Fora desse recorte, não há espaço para se pensar a genialidade ou a grandeza artística.

Eu poderia encerrar o post aqui, mas são tantas camadas (e longe de mim contemplar todas elas), que minha cabeça ficou fervilhando após a leitura do texto. Na realidade, ela vem fervilhando desde Modos de Ver, que trouxe uma forte interrogação e me fez entrar num hiato de produção pessoal, justo por não ver muita coerência entre a minha leitura e a minha prática artística. E é saudável que esses momentos de choque aconteçam, pois o questionamento é uma constante da vida, quem não se questiona é porque já se conformou com uma situação péssima, ou é tão privilegiado que pode se dar ao luxo de viver uma existência alienada da realidade.

Em Modos de Ver, John Berger traz uma problematização extensa sobre alguns dos pilares imagéticos da tradição ocidental, como o nu, a pintura a óleo e a natureza morta. Todos esses, em algum grau, servem para reafirmar a noção de propriedade sobre alguém ou algo, seja do corpo da mulher, do acúmulo de riquezas ou de grandes extensões de terra. E como proprietário, se entende o homem branco europeu burguês.

Nochlin faz um caminho semelhante, partindo do pressuposto de que a pergunta é um tanto truncada. Ela nos leva a pensar, num primeiro momento, que sim, existem muitas mulheres artistas, e passamos a elencá-las como uma lista de supermercado, justificando que não há cabimento pensar que grandes mulheres artistas nunca existiram. Ou então, seguimos a linha de que há um estilo de arte inerentemente feminino difícil de mapear.

Mas, de acordo com Nochlin, a resposta correta é de que não existiram grandes mulheres artistas do mesmo modo que não existiram afroamericanos equivalentes a Kooning ou Warhol, pois as coisas na arte e em tantas outras esferas é desestimulante “para todos aqueles que, como as mulheres, não tiveram a sorte de nascer brancos, preferencialmente classe média e acima de tudo homens.” (p. 8)

a ingênua ideia de que arte é a expressão individual de uma experiência emocional, a tradução da vida pessoal em termos visuais. A arte quase sempre não é isso; a grande arte nunca o é. O fazer arte envolve uma forma própria e coerente de linguagem, mais ou menos dependente ou livre de convenções, esquemas ou noções temporalmente definidos que precisam ser aprendidos ou trabalhados através do ensino ou de um período longo de experimentação individual. A linguagem da arte, materialmente incorporada em tinta, linha sobre tela ou papel, na pedra, ou barro, plástico ou metal nunca é uma história dramática ou um sussurro confidencial. (p. 7)

São poucas as áreas vistas como historicamente femininas que são disputadas por homens e, quando isso acontece, geralmente a posição alcançada surge acompanhada pelo status: homens cozinheiros se tornam chefs, por exemplo, enquanto as mulheres seguem exercendo as funções mais rotineiras dessas profissões.

No cerne da pergunta Por que não houve grandes mulheres artistas? estão embutidos vários estereótipos a respeito do fazer artístico, dentre eles, o mito do Grande Artista, aquele que possui a genialidade, sem levar em conta as condições sociais, econômicas, de gênero e raça que possibilitam que esses artistas desenvolvam suas técnicas. Isso cria uma narrativa romantizada e cheia de lendas sobre artistas descobertos em condições excepcionais, ou que superaram seus mestres de maneira notável. Mas, como aponta Nochlin:

Não há dúvida, por exemplo, que o jovem Picasso tenha, aos quinze anos (e, em apenas um dia) passado em todos os exames admissionais para a Academia de Arte de Barcelona e, mais tarde, para a de Madri, uma grande demonstração de proeza, já que a maioria dos candidatos precisava de um mês para tal. Porém, gostaria de saber mais sobre histórias semelhantes de candidatos precoces que não alcançaram nada mais além da mediocridade ou o próprio fracasso. Estes são casos que não interessam aos historiadores da arte, estudar com mais detalhes, por exemplo, o papel protagonizado pelo pai de Picasso, professor de arte, na sua precocidade pictórica. E se Picasso tivesse nascido menina? Teria o senhor Ruiz prestado tamanha atenção ou estimulado a mesma ambição de sucesso na pequena Pablita? (p. 17-8)

Nos Séculos XVII e XVIII, a transmissão da profissão artística de pai para filho era amplamente reconhecida. E os filhos dos acadêmicos não pagavam taxas pelas aulas. Muitos artistas tinham pais também artistas, o que ampliava o acesso ao que precisavam para desenvolver sua arte. Sendo assim, esses artistas tiveram contato, desde a mais tenra idade, quando os estímulos são essenciais para aquisição da linguagem e desenvolvimento expressivo, aos materiais e métodos que possibilitaram aflorar seu “talento", em detrimento de qualquer ideia de gênio absoluto isolado do meio social.

Não vou comentar sobre como Nochlin fecha seu texto, pois acho válida a leitura do artigo na íntegra, e também a reflexão trazida pela Edições Aurora no posfácio. Mas o que fica é que precisamos retirar uma grande camada de verniz romantizador da história da arte e de como mulheres e minorias são tratadas pelas instituições oficiais e entre seus pares.

O que fica para mim, enquanto artista, é que não tenho a pretensão de salvar o planeta com a minha arte, nem que sou o último baluarte da arte feminina, mas que o ato de criar é valioso para mim e dá sentido à minha vida. E isso precisa bastar.

O artigo de Linda Nochlin pode ser encontrado aqui.
5★
Leia mais →
Reflexões

Como tem sido participar de feiras (uma reflexão)


Tem sido louco (sobem os créditos).


Brincadeiras à parte, tem sido um verdadeiro exercício de desprendimento de tudo que eu acreditava já saber sobre meu próprio trabalho e sobre como o público enxerga e consome arte. E esse exercício tem me desacomodado um bocado, e me feito recalcular rotas que pareciam já estar estabelecidas.

Background

Eu vim da loja online e da comissão. Durante anos, tive lojas nas mais variadas plataformas, comecei lá nos concursos de estampa do Camiseteria e depois migrei direto pro Society6, um site internacional que me ajudou a vender demais, principalmente na época das Catrinas. Tem gente em todas as partes do mundo com produtos com essa estampa, acho isso sensacional. 

Depois, arrisquei em espaços nacionais, como a Urban Arts, que foi muito boa até exigir exclusividade das artes e eu optar por sair fora (eles tinham lojas físicas pelo país também) e outros sites menores, como Vandal e Vitrinepix. Até que cheguei na minha colaboração mais longa, com a Colab55, que tinha um formato muito parecido com o Society6, mas que com o tempo se mostrou inviável por conta do frete. Vale lembrar que nesse meio tempo ainda tive apoiadores pelo Padrim (pior experiência do planeta) e segui com comissões de tudo um pouco.

Em 2018, tive minha primeira nomeação em concurso público (a segunda foi em 2020), e tomei uma decisão:  já que eu tinha como pagar minhas contas e me sustentar com meu salário de professora, eu ia canalizar através da arte inteiramente a minha visão pessoal de mundo, dar vazão aos projetos engavetados e não me importar mais em pegar qualquer trabalho para fazer, nem em ficar divulgando loja ou produtos. E foi assim até o ano passado, quando decidi voltar a aceitar encomendas muito selecionadas, daquelas que eu olhasse e dissesse: poxa, isso aqui vale a pena.

Ou seja, passei os últimos anos totalmente abstraída de que poderia gerar um produto com uma arte minha, ou vender um original. Quando aconteceu o primeiro convite para participar de uma feira, nem pensei em nada disso, só fui na cara e na coragem para pintar ao vivo e me desprender de um medo interno que era produzir na frente de um grupo de pessoas.

voltando para o presente

Já para a segunda feira, decidi dar um passo além. Ao observar os demais expositores, vi que poderia ser uma oportunidade não só de mostrar meu trabalho, como também oferecê-lo ao público através de alternativas mais baratas, como os prints, que já eram muito conhecidos por mim do tempo das lojas online.

Acabei fazendo um investimento em prints tamanho A4, A5 e A6, e ainda alguns originais menores. Comprei expositores para apresentar esses trabalhos de uma forma melhor e também embalagens. Mandei fazer um carimbo com a minha marca, e durante todo esse percurso vieram as dificuldades com fornecedores, correios e tudo o mais. Mas esse investimento não foi algo financeiramente inviável: foi bastante calculado e que poderia ser resgatado a curto, médio ou longo prazo. E assim fui para a minha segunda participação em feira, ainda pintando, mas também vendendo.

a reação do público

O que pude perceber foi um choque muito grande entre a minha visão e a das pessoas. Não digo apenas sobre arte em si, mas sobre tudo: sobre o que é um produto artístico, sobre apresentação desse produto, sobre significado desse produto... foi uma queda no vale da estranheza (não estou dizendo que isso é ruim).

No começo, as pessoas nem paravam na minha banca. Quando começaram a parar e expliquei do que se tratava, muitos olhavam com aquela expressão de que interessante, mas logo seguiam seu caminho. No geral, a maioria não sabia o que era um print e precisei explicar que é uma impressão de boa qualidade. Quem já me conhecia chegou na banca e comprou. Mas quem estava ali passando me via meio que como um corpo estranho, tentando decifrar a utilidade.

Também aconteceu muito de perguntarem o significado das obras. E aqui vem um sentimento que me pega de jeito de vez em quando: estar cronicamente online, registrando e catalogando meu processo criativo, seja aqui no blog ou nas redes sociais, não quer dizer que as pessoas vão internalizar sobre o que se trata, pois a grande maioria está apenas vivendo sua vida, e não há nada de errado com isso.

Conclusão (por enquanto)

Embora eu tenha vendido um pouco, fica a sensação de que eu preciso construir uma ponte com o público presencial desses eventos se quiser continuar participando deles. Seja explicando o que é um print, por que um original é caro, do que se trata o tema da obra, qual a diferença entre baixar uma imagem da internent e imprimir ou gerar uma imagem de IA e comprar de uma artista.

Vejo esses espaços como lugar pra fazer uma renda extra, para me apresentar regularmente ao público da minha própria cidade e para criar conexões. Sem paranoia, sem pressão de vender tudo o que apresento. E aqui falo isso com total respeito aos expositores que participam de eventos regularmente e preciam manter uma constância de vendas. O meu lugar é o de uma pessoa que tem seu emprego formal e que também é artista, e quer um espaço para educar o público para a arte e, consequentemente, vender o que produz. 

Então, participar de feiras e eventos vem muito nesse sentido de educar, de formar público, de dizer que arte rio-grandina não é só sobre a cidade, mas também pode ser uma deusa, também pode ser abstrato, também pode abrir outras possibilidades. E vender também.

Por ora, o investimento inicial foi feito e vou jogar com isso para os próximos eventos, e talvez apresente outras formar de fazer arte ao vivo, seja desenhando no tablet, ou com uma oficina. Também não pretendo participar de todos os eventos que surgirem, pois preciso conciliar com meus projetos pessoais e dar tempo para pensar no que expor numa próxima vez.

Acho que era isso, fico aliviada de poder colocar pra fora esse caos criativo que se instalou dentro de mim nos últimos tempos. Sigam me acompanhando para ver por onde ando e como estou me saindo.
Leia mais →
Dicas Livros Reflexões

Modos de ver, de John Berger

 


Pense num livro que oferece uma visão totalmente disruptiva sobre arte e suas relações com a publicidade e com o capitalismo? Modos de ver é um livro originado a partir da série homônima de 1972. Embora mais de 50 anos separem o lançamento da obra da minha leitura, esse é um daqueles livros atemporais, e que merecem ser relidos de tempos em tempos. Custei a trazer uma impressão aqui, pois foi muito difícil colocar em palavras o tanto que esse livro me impactou, e o quanto eu ansiava por um texto tão incisivo e ao mesmo tempo tão irreverente.


Lá em junho do ano passado eu já tinha publicado um texto reflexivo sobre arte, IA e lifestyle, sobre o que o público espera ver de um artista na internet - não os seus métodos, ou os seus materiais, mas sim a aesthetic da sua vida e quanto isso agrega de valor ao ser consumido. E alguns meses mais tarde, ao ler John Berger, senti que minha linha de pensamento tinha algum fundamento. Vou colocar abaixo a sinopse da editora e em seguida minhas partes favoritas:


Nestes ensaios clássicos baseados na série televisiva inglesa Modos de ver, exibida em 1972, John Berger revoluciona a crítica de arte ao apontar as estruturas de poder presentes no processo de criação de imagens. Se hoje, cinquenta anos após a escrita deste livro, ainda é preciso reforçar que “uma imagem é a recriação ou a reprodução de uma visão” — ou, como afirma Djaimilia Pereira de Almeida em seu prefácio, que devemos encarar “a visão enquanto vivificação e a observação da arte como paralela à observação da vida” —, a leitura de Berger, essencial em tempos de propagandas por toda parte, se faz mais urgente do que nunca.


O primeiro texto parte da pintura a óleo, técnica consagrada pela arte europeia. Após a reprodutibilidade técnica, tornou-se possível ver trabalhos a óleo fora dos castelos, igrejas e residências privadas a que se destinaram um dia, e, isolados de seu contexto original, eles circulam pelo mundo sem serem de fato compreendidos. Quando se instituiu que eram obras de arte, esses trabalhos passaram a ser interpretados — e mistificados — segundo pressupostos como beleza, verdade e genialidade, os quais eram ditados pelo modo de ver específico de uma minoria social no poder.

Em outro ensaio, John Berger aborda a representação da mulher na arte ocidental, apreendendo de que maneiras na tradição do nu o corpo feminino se tornou objeto a serviço do olhar masculino. Com perspicácia, o autor afirma que o protagonista de um nu jamais é mostrado: ele é o espectador diante do quadro, para quem as “figuras assumem a sua nudação”. Berger esmiúça, ainda, as naturezas-mortas, que em seu auge expunham objetos extorquidos por feitorias escravocratas. E não se priva de olhar para o impacto da publicidade no século 20, expondo como ela se vale da tradição artística para explorar os impulsos consumistas de quem a observa.

Coletivo, emancipatório e com toda a vitalidade da insurreição social dos anos 1970, Modos de ver é um tratado contra o sequestro do olhar pela imagem na sociedade capitalista e um alerta para a linguagem não verbal.
A própria sinopse já entrega vários pontos interessantíssimos, e tentar ir além aqui é chover no molhado. Então, trago os pontos que mais me impactaram e me fizeram pensar (e me tiraram o sono):

A reprodutibilidade técnica

Logo no primeiro capítulo, o autor vai trazer uma reflexão atualizada acerca da reprodutibilidade de imagens (Walter Benjamin) e o quanto as reproduções de obras (Monalisa, por exemplo), se tornam elas mesmas referenciais, a partir do momento que são postas ao lado de outras imagens. Berger faz uma crítica à noção de patrimônio cultural nacional, que está amparado numa noção de autoridade da arte.
A arte do passado não existe mais da forma como existia. A sua autoridade está perdida. Em seu lugar, há uma linguagem de imagens. O que importa, agora, é saber quem utiliza essa linguagem e para quais fins. Isso envolve questões de direitos autorais de reprodução, controle de gráficas e editoras de arte, a totalidade da política de programação de galerias e museus de arte públicos. (...) Um povo ou uma classe alienada de seu próprio passado tem muito menos liberdade para fazer escolhas e agir como povo ou como classe que outros capazes de encontrar seu lugar na história. É por essa razão - e só por ela - que toda a arte do passado se tornou agora uma questão política. (p. 46)

Sobre nudez e nudação

Sabe aquele artista que sempre representa o corpo nu, principalmente o feminino, com um toque fetichista e que causa um incômodo que muitas mulheres, ao ver a obra, não sabem dizer de onde vem? Aqui nós temos uma explicação muito contundente (vinda de um homem branco europeu, a ironia). Berger fala que a mulher nasce num espaço pré determinado socialmente, e é acompanhada pela sua autoimagem durante toda a vida. A mulher vive em constante vigília sobre seus atos, principalmente em relação aos homens. "Homens olham para mulheres; mulheres observam a si mesmas sendo olhadas." (p. 58)

Vergonha, vaidade, julgamento e submissão são expressados em nus femininos a partir da história de Eva, dentro da tradição europeia; nus que possuem como protagonista não o corpo desnudo, mas o espectador, geralmente um homem, que olha para ele (modelo e obra) como senhor e dono dessa propriedade. A partir disso, Berger traz os conceitos de nudez e nudação, dentro da tradição pictórica europeia: nudez é estar desnudo, o nu é uma forma artística. Estar desnudo é algo natural, fazemos para tomar banho, por exemplo. Estar nu é ser visto desnudo por outros e se tornar um objeto por isso.

A pintura a óleo

A pintura a óleo que Berger fala não é apenas a técnica, mas sim a forma de expressão artística que se desenvolveu no período de ascensão do capitalismo, e que exigia semelhança pictórica, para que o colecionador pudesse legitimar suas posses através da arte. 
A pintura a óleo teve sobre as aparências o mesmo efeito que o capitalismo teve sobre as relações sociais.  Reduziu tudo ao padrão nivelador dos objetos. Tudo se tornou permutável porque tudo se tornou mercadoria. Toda realidade era medida mecanicamente por sua materialidade. (p. 101)
O mesmo vai acontecer com as naturezas-mortas, que se tornaram a tradução visual das grandes propriedades de terra, encomendadas pelos seus senhores para novamente mostrar um marcador de classe social. Dá vontade de sair correndo e gritando depois de ler esse capítulo.

Imagens publicitárias

Já as imagens publicitárias se valem desses elementos da tradição europeia para nos vender uma vida que não achamos que precisamos ter, mas que o capitalismo tardio nos faz acreditar que sim, precisamos. Elas criam necessidade de consumo.
A publicidade tem sempre em vista o futuro consumidor. Oferece-lhe uma imagem de si mesmo tornada atraente pelo produto ou pela oportunidade que ela procura ven-der. A imagem o induz a invejar a si mesmo tal como ele poderia vir a ser. No entanto, o que torna invejável essa "pessoa que ele poderia vir a ser"? A inveja alheia. A publicidade não tem a ver com os objetos, e sim com as relações sociais. Não é o prazer que ela promete, e sim a felicidade: a felicidade tal como vista do ex-terior, pelos outros. O glamour é a felicidade de ser invejado. (p. 150)
Depois de ler essa paulada, não cheguei a nenhuma conclusão, apenas a reflexões que vão se intensificando através das minhas vivências e do próprio curso da história, vide o que estamos observando acontecer com a moderação de conteúdo em redes sociais e toda a narrativa criada em períodos eleitorais, por exemplo. Ter consciência de toda essa trama é assustador, a vontade é largar tudo e sumir do mapa, mas é extremamente necessário para um artista engajado em seu tempo. Afinal, nossa arte serve a quem?

5★
Leia mais →
Reflexões

Arte e IA, público e lifestyle


Desde o final de maio estou acompanhando alguns conteúdos gringos sobre as últimas atualizações na política de privacidade da Meta (que gerencia Facebook, Instagram e Whatsapp), mais precisamente as informações sobre o uso de conteúdos das plataformas para treinamento de IA generativa. Basicamente, a partir de 26 de junho, a Meta passará a usar as fotos, vídeos e textos dos usuários para treinar inteligência artificial. 

Isso impactou drasticamente em muitos artistas, que começaram a apagar fotos de seus feeds e se posicionarem contra essa política totalmente invasiva da Meta, e de tantas outras empresas. Muitos estão migrando massivamente para o app Cara, que ainda está em sua versão beta e travando muito (a promessa é de não tolerar conteúdos gerados por IA, mas teve gente que já deu uma espiada nos termos de uso deles e parece que esses conteúdos serão aceitos caso tenha uma legislação específica).

Já outros artistas começaram a fazer vídeos e tutoriais ensinando o tortuoso caminho até formulários da Meta que permitem que os usuários protejam seus conteúdos (em tese), limitando o acesso da empresa e coibindo o uso para treinamento de IA. Vi muitos conteúdos em inglês e, por conta disso, consegui eu mesma preencher, com resposta positiva para meu pedido de oposição ao uso do meu conteúdo. Nisso, várias pessoas começaram a me perguntar o caminho das pedras até o tal formulário, até que resolvi gravar o vídeo abaixo:


Ver essa foto no Instagram

Uma publicação compartilhada por Lidiane Dutra ✨ (@lidydutra)


Esse se tornou o vídeo mais assistido e compartilhado do meu perfil, uma movimentação nunca antes vista, pois várias pessoas não sabiam que o direito de se opor existia e que era possível preencher essa solicitação e receber uma resposta da Meta. A falta de conteúdos em português dentro do próprio Instagram talvez tenha sido uma barreira, pois não vejo os artistas brasileiros batendo tanto nessa tecla quanto o pessoal dos EUA e Europa. 

Também publiquei alguns stories relatando que desde o momento que preenchi o bendito formulário, comecei a perder seguidores, e se uma coisa tinha a ver com a outra, não era possível saber. O que posso afirmar é que há anos meu perfil no Instagram não cresce, e nos últimos tempos passei a compreender melhor o comportamento das pessoas lá, em relação ao que esperar de um artista que se divulga nas redes, e essa é a segunda parte desse post.


As pessoas não querem ver arte. Em sua grande maioria, elas não abrem o feed para acompanhar o processo criativo de um artista; para saber a diferença entre o azul cerúleo da Sennelier e o da Talens; para discutir a qualidade da cera dos lápis Polychromos; para entender o que é um papel acid-free ou para ver alguém com a roupa surrada refazendo um desenho pela milésima vez. Quem faz isso são outros artistas, na busca por compartilhar conhecimento. O público quer ver lifestyle. Ele quer um vídeo ou fotos legais, com a roupa da moda, num ateliê ou num lugar aesthetic. Ele quer dicas de decoração, de como tornar acessível aquela realidade tão bem editada para ele também. E nisso, a obra de arte se torna a moeda de troca do artista: tenha o meu trabalho e, com ele, você terá acesso a um status social que lhe permitirá ser tão aesthetic e descolado como eu.

E eu não estou criticando quem sacou essa dinâmica e aplica ao seu trabalho, sigo muitas pessoas que vendem essa narrativa e admiro quem a faz com autenticidade. Só que não é algo que todos vão ter condições ou vão se sujeitar a fazer. E nisso, o terreno das redes, que antes era um lugar mais horizontal para distribuir o conteúdo de quem não tinha tantos contatos ou tanto dinheiro para se promover, torna-se um ambiente hostil e impulsionado por algoritmos. E novamente quem tem tempo, dinheiro e conhecimento necessários para acessar essa engrenagem é quem vai se beneficiar. E isso vale para todos os momentos da nossa vida, aqui faço um recorte do que acontece entre artistas e plataformas de divulgação.

Quantas vezes as fotos do meu ateliê ou até mesmo as minhas selfies tiveram mais acesso do que meu próprio trabalho? E quantas vezes me culpei por não fazer um vídeo extremamente elaborado (mas que passasse uma vibe descompromissada, que é mais cool) apresentando o que faço como um grande projeto, mostrando como sou uma pessoa realizada por trabalhar em tantas frentes com o que amo? É uma conta muito abusiva e que não fecha, pois não é real para mim.

Qual a solução para todos esses problemas? Não sei. Vamos conseguir legalizar as questões referentes ao uso de IA e direitos autorais ou seremos engolidos pelas grandes corporações que só visam lucro? Também não sei. Tudo é muito nebuloso e às vezes é bom dar alguns passos para trás, a fim de ter mais clareza para o que se está observando. Minha dica é: siga tendo consciência do próprio trabalho, dos seus caminhos, de sua marca no mundo e da sua voz artística, a ponto de não se preocupar em buscar validação externa através de redes, embora elas sirvam não só para mostrar trabalhos ao mundo, mas também vendê-los. Não entre em narrativas impossíveis de sustentar, seguir as trends pode ser um caminho curto até os números, mas pode cobrar um alto preço pela sua autenticidade. 
Leia mais →
Reflexões

Quase quarentando e (ainda) blogando

Uma jovem prestes a criar um blog, com seus longos cabelos. À esquerda, embaixo, meu orientador Victor Hugo. Turma de 2009 do Mestrado em Educação Ambiental da FURG.

 14 anos. Essa é a idade de um adolescente do 9º ano, que está às portas do Ensino Médio. Quando esse estudante estava nascendo, eu digitei pela primeira vez no blogspot desenharehpreciso. E os motivos de clicar em publicar logo após definir meu user nada tinham a ver necessariamente com desenho. Eu precisava qualificar meu projeto de dissertação, havia rompido com meu orientador original e tinha sido acolhida por outro orientador, o professor Victor Hugo, falecido há quase dois anos. O Victor sempre me falava que não havia motivos pra sofrer, que as coisas não precisavam ser um sofrimento. 14 anos mais tarde e talvez eu ainda não leve esse conselho dele como deveria.


14 anos separam aquela Lidiane jovem, de 25 anos, que precisava escrever um projeto de mestrado, que recém estava começando a falar no MSN com um cara apresentado por uma amiga, e que usava um espaço que ela não sabia mexer muito bem, pois tinha chegado atrasada nesse rolê de blog (a infância e adolescência humildes não permitiram ela ter um computador até entrar na faculdade), postando desenhos escaneados numa qualidade minúscula, sem muito o que dizer sobre, e quando dizia, numa linguagem acadêmica e meio truncada.


14 anos é uma vida, tantas redes sociais surgiram e se foram, o Orkut virou acervo de museu, o TikTok já é oficialmente uma rede de pessoas de meia idade, e os jovens postam suas fotos no VSCO, aquele mesmo que a gente usava pra colocar efeito bokeh nas fotos do Tumblr. Todas, eu disse todas as pessoas que eu seguia em 2010 tomaram outros rumos na vida. Eu mesma já estou há mais de meia década dando aula. Mas todas as postagens eu lembro como se tivessem sido escritas ontem.


Entrar aqui sempre é uma cápsula do tempo: eu volto ao passado, registro o presente e projeto o futuro. Às vezes dá a sensação de permanecer parada no mesmo lugar. Por que ainda faço isso? Ainda tem sentido? Precisa fazer? E pra quem?


Ontem mesmo, conversando com uma amiga, ela falou sobre essa mulher moderna, quase quarentona, mas que continua ligada nas coisas. Eu sou essa mulher. Sempre que um estudante fala sora, mas tu sabe tal coisa? (geralmente um meme) eu me sinto ofendida, afinal eu ainda sou jovem. Uma jovem de meia idade! Não cite a magia profunda para mim, eu estava lá quando ela foi criada...


Então é sempre nesse misto de sentimentos, que vão se intensificando com o passar do tempo, com as tendências sendo reeditadas, com coisas indo e vindo, com as intermitências do tempo, que sigo por aqui. Postando meus trabalhos, falando coisas que talvez só façam sentido pra mim, e que talvez não cheguem a um número considerável de pessoas. Eu estou deixando cada vez mais as redes sociais, pra mim é um alívio não me manter informada sobre coisas que vão me deixar péssima. Diminuí meu número de redes para 3 e os serviços de streaming são basicamente pra ouvir música e ver vídeos para me distrair enquanto faço faxina na casa ou desenho. Eu sou uma jovem de meia idade, mas estou envelhecendo, e o blog vem cumprindo sua função de fazer minha presença na web  sem me preocupar muito em voltar no dia seguinte. 


Estarei aqui para a festa de debutante desse espaço, com direito a vestido e bolo? Não sei, mas enquanto eu estiver aqui, sigo postando meu trabalho, as coisas que fazem sentido pra mim, criando minha própria bolha e vivendo a máxima dos pinguins de Madagascar: sorria e acene.


A vida não precisa ser esse sofrimento todo.

Leia mais →
Próximo
Assinar: Comentários (Atom)

Arquivo

  • março 2026 (1)
  • fevereiro 2026 (1)
  • janeiro 2026 (1)
  • dezembro 2025 (2)
  • novembro 2025 (1)
  • outubro 2025 (1)
  • setembro 2025 (1)
  • agosto 2025 (1)
  • julho 2025 (2)
  • junho 2025 (2)
  • maio 2025 (1)
  • abril 2025 (2)
  • março 2025 (2)
  • fevereiro 2025 (1)
  • janeiro 2025 (8)
  • dezembro 2024 (1)
  • novembro 2024 (2)
  • outubro 2024 (2)
  • setembro 2024 (1)
  • agosto 2024 (1)
  • julho 2024 (2)
  • junho 2024 (1)
  • maio 2024 (6)
  • abril 2024 (1)
  • março 2024 (1)
  • fevereiro 2024 (2)
  • janeiro 2024 (5)
  • dezembro 2023 (2)
  • novembro 2023 (3)
  • outubro 2023 (1)
  • setembro 2023 (2)
  • julho 2023 (4)
  • junho 2023 (3)
  • abril 2023 (2)
  • março 2023 (1)
  • fevereiro 2023 (1)
  • janeiro 2023 (4)
  • dezembro 2022 (1)
  • novembro 2022 (2)
  • outubro 2022 (1)
  • setembro 2022 (1)
  • agosto 2022 (1)
  • julho 2022 (2)
  • junho 2022 (1)
  • maio 2022 (1)
  • abril 2022 (3)
  • março 2022 (2)
  • fevereiro 2022 (2)
  • janeiro 2022 (3)
  • dezembro 2021 (2)
  • novembro 2021 (1)
  • outubro 2021 (2)
  • setembro 2021 (1)
  • agosto 2021 (3)
  • junho 2021 (4)
  • maio 2021 (1)
  • abril 2021 (1)
  • março 2021 (2)
  • fevereiro 2021 (1)
  • janeiro 2021 (6)
  • dezembro 2020 (2)
  • novembro 2020 (1)
  • outubro 2020 (3)
  • setembro 2020 (2)
  • agosto 2020 (2)
  • julho 2020 (2)
  • maio 2020 (5)
  • abril 2020 (3)
  • março 2020 (3)
  • fevereiro 2020 (2)
  • janeiro 2020 (3)
  • dezembro 2019 (3)
  • novembro 2019 (1)
  • outubro 2019 (6)
  • setembro 2019 (2)
  • agosto 2019 (2)
  • julho 2019 (2)
  • junho 2019 (3)
  • maio 2019 (3)
  • abril 2019 (1)
  • março 2019 (2)
  • fevereiro 2019 (3)
  • janeiro 2019 (4)
  • dezembro 2018 (2)
  • novembro 2018 (1)
  • outubro 2018 (4)
  • setembro 2018 (2)
  • agosto 2018 (2)
  • julho 2018 (4)
  • junho 2018 (5)
  • maio 2018 (4)
  • abril 2018 (3)
  • março 2018 (2)
  • fevereiro 2018 (3)
  • janeiro 2018 (5)
  • dezembro 2017 (3)
  • novembro 2017 (4)
  • outubro 2017 (4)
  • setembro 2017 (3)
  • agosto 2017 (4)
  • julho 2017 (5)
  • junho 2017 (2)
  • maio 2017 (8)
  • abril 2017 (4)
  • março 2017 (5)
  • fevereiro 2017 (4)
  • janeiro 2017 (6)
  • dezembro 2016 (4)
  • novembro 2016 (5)
  • outubro 2016 (5)
  • setembro 2016 (6)
  • agosto 2016 (5)
  • julho 2016 (8)
  • junho 2016 (5)
  • maio 2016 (8)
  • abril 2016 (8)
  • março 2016 (10)
  • fevereiro 2016 (6)
  • janeiro 2016 (8)
  • dezembro 2015 (10)
  • novembro 2015 (6)
  • outubro 2015 (12)
  • setembro 2015 (8)
  • agosto 2015 (31)
  • julho 2015 (5)
  • junho 2015 (8)
  • maio 2015 (5)
  • abril 2015 (7)
  • março 2015 (8)
  • fevereiro 2015 (5)
  • janeiro 2015 (6)
  • dezembro 2014 (9)
  • novembro 2014 (13)
  • outubro 2014 (12)
  • setembro 2014 (6)
  • agosto 2014 (7)
  • julho 2014 (6)
  • junho 2014 (2)
  • maio 2014 (2)
  • abril 2014 (4)
  • março 2014 (3)
  • fevereiro 2014 (6)
  • janeiro 2014 (5)
  • dezembro 2013 (6)
  • outubro 2013 (4)
  • setembro 2013 (3)
  • agosto 2013 (3)
  • julho 2013 (4)
  • junho 2013 (5)
  • maio 2013 (6)
  • abril 2013 (7)
  • março 2013 (9)
  • fevereiro 2013 (2)
  • janeiro 2013 (7)
  • dezembro 2012 (2)
  • novembro 2012 (2)
  • outubro 2012 (4)
  • setembro 2012 (2)
  • agosto 2012 (4)
  • maio 2012 (1)
  • abril 2012 (1)
  • fevereiro 2012 (1)
  • dezembro 2011 (1)
  • novembro 2011 (1)
  • outubro 2011 (2)
  • junho 2011 (1)
  • Termos de uso
© Lidiane Dutra • Todos os direitos reservados • Theme by MG Studio