Lidiane Dutra
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Arte Digital Reflexões

The category is: Krampus


Para fechar os trabalhos do ano fiz, mais uma vez, a representação de Krampus. Adoro como esse ser mítico foi reinterpretado nos últimos tempos e, na minha versão, ele está absolutely cunty.

Sempre que chega o final do ano, fico com aquela sensação de que poderia ter feito mais, ter estudado mais, me sinto um hamster dentro da rodinha. Por isso, resolvi listar algumas coisas, para lembrar de que foi um ano e tanto:

  • Criei meu logotipo, baseado naquilo que acredito e dá sentido à minha arte;
  • Participei de uma feira, desenhando ao vivo e superando o medo que eu tinha de me expor;
  • Vendi meus trabalhos;
  • Li muitos livros sobre arte;
  • Transformei livros lidos em ilustrações;
  • Ilustrei nove mulheres rio-grandinas notáveis, num material que virou referência para a rede municipal de ensino;
  • Ilustrei a capa dos cadernos dos kits escolares (e recebi os parabéns da prefeita por isso!);
  • Tive minha 1° exposição individual na Galeria Breche da Escola de Belas Artes Heitor de Lemos, um reconhecimento pelo meu trabalho que me emocionou muito;
  • Passei no doutorado, depois de 14 anos afastada da academia;
  • Fui trabalhar na Secretaria de Educação - e tenho feito muitas ilustrações por lá;
  • Comprei meu iPad e comecei a ilustrar no Procreate;
  • Consegui fazer dois projetos de desenho do início ao fim nos meses de outubro e novembro.


Eu sempre coloco como resolução estudar mais, e me culpo muito por não conseguir me dedicar a isso na intensidade que gostaria. E agora, com o doutorado, sinto que essa sensação se estendeu às leituras e até mesmo ao tempo de ócio. Então, só quero manejar tudo da melhor maneira possível no próximo ano. E seguir usando esse espaço para me expressar, talvez com mais intensidade, visto que as redes sociais estão perdendo o encanto cada vez mais.

Desejo uma despedida tranquila de 2025 e um 2026 repleto de possibilidades.

"Não precisa ter pressa. Não há necessidade de brilhar. Não precisa ser niguém além de si mesmo." - Virginia Woolf
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Dicas Livros Reflexões

Minha opinião sobre os livros para colorir, 10 anos depois


Há dez anos atrás Jardim Secreto virava uma frebre mundial, com milhares de exemplares vendidos. Na época, diversas pessoas tomaram conta do YouTube e do Instagram, as principais redes sociais naquele momento, ensinando como colorir os livros para colorir, mostrando canetinhas diversas (as mais famosas eram as Copic e as Chameleon, que mudavam de cor conforme eram pressionadas) e ensinando as técnicas "corretas" para cobrir peles, paisagens, flores, dentre outros.


Os livros para colorir causaram um alvoroço e, depois de Jardim Secreto, a autora Johanna Basford lançou uma leva de outros títulos explorando mundos mágicos (exceto sobre Halloween pois, segundo ela, não se sentiria confortável em desenhar coisas assustadoras para compor um livro). Também vieram na esteira desse sucesso muitos títulos semelhantes, de mandalas a gatos psicodélicos, passando por obras de arte para colorir e oceanos cheios de tesouros.


Naquela época, fui indagada sobre o que eu achava desses livros, e a minha resposta foi: acho o máximo. Tomando como exemplo Jardim Secreto, era um livro com ilustrações extremamente elaboradas, e requeria da pessoa o desenvolvimento de um senso estético para preencher as composições. Fiz algumas páginas para colorir com ilustrações minhas e, recentemente, montei outro mini e-book com mais alguns trabalhos, e com a mesma proposta.

O que me chateava já lá atrás era a quantidade de gente que brotou do rejunte querendo ensinar técnicas para as pessoas, que só desejavam dar uma pausa e, talvez, recordar a infância, quando também coloriam livros da Barbie e de personagens de filmes e desenhos. Também começou um consumismo desenfreado por lápis e canetinhas profissionais, materiais caros e que servem a outras propostas. Tudo virou uma corrida para mostrar a quantidade de coisas que as pessoas compravam, e teve gente que se endividou em nome desse hobby.

Recentemente, percebi uma movimentação estranha nas estatísticas da postagem na qual dou a minha opinião, de maio de 2015. Em algumas semanas, ela foi simplesmente a postagem mais acessada do blog. Novamente o interesse sobre o assunto cresceu, levantado agora pelos Bobbie Goods. Para a minha surpresa, me deparei com alguns vídeos no TikTok que usavam meu texto como roteiro, me fazendo lembrar aquele gosto amargo do plágio que tanto vivenciei nos 15 anos desse espaço. 

Por isso, resolvi refrescar minha opinião sobre os livros de colorir para adultos. Continuo achando a proposta excelente, mas alguns pontos chamaram minha atenção nessa nova leva de livrinhos:

Infantilização das narrativas: se antes tínhamos ilustrações intrincadas e complexas composições, os livros de colorir atuais apresentam uma infantilização de suas narrativas, substituindo os mundos mágicos elaborados por ursinhos em atividades aconchegantes em suas casinhas. É como se tivéssemos realmente retornado aos livros para colorir da infância, só que dessa vez em folhas de 180g próprias para marcadores a base de álcool.

Não tenho nada contra pintar Bobbie Goods, até comprei um similar. Só achei peculiar essa simplicação dos livros, efeito talvez da massificação e da rapidez trazidas com o TikTok (sempre ele) e com algoritmos contruídos para dar uma experiência cada vez mais individualizada para o usuário, o colocando dentro de uma bolha. Acho curioso como a complexidade das mandalas foi substituída por cenários extremamente simplificados, compostos por céu, casa, chão, urso... É como se até mesmo aquilo que foi feito para um momento de pausa não devesse nos tomar muito tempo, sendo colorido com a maior rapidez possível, o que nos leva ao próximo tópico.

Performance para consumo rápido: se há 10 anos atrás os cenários já eram montados para a performance, agora isso escalonou. É preciso mostrar quantas páginas foram coloridas e como elas foram criativamente preenchidas com cores e texturas; é preciso catalogar as texturas encontradas; é preciso ensinar a sobrepor luz e sombra nas cenas; é preciso ter uma placa muito específica para colocar embaixo da folha, evitando que a tinta passe para o outro desenho; é preciso acelerar o vídeo 2x para mostrar como somos produtivos em nossos hobbies. Fora isso, as canetas do momento são as Touch ou as Ohuhu, que são importadas e caras, junto aos lápis de cor com todo tipo de efeito possível. Toda a performance do colorir é voltada para a rede social, para o desejo e para o consumo. Há quem vai colorir porque realmente quer, e há quem vai vender o desejo não só pelo livro, como pelo material, pela mesa, pelo quarto milimetricamente pensado para aparecer no vídeo, pela luminária, pelo telefone. É doentio e sintomático de uma sociedade em recessão econômica, na qual as narrativas estão cada vez mais conservadoras.  

Uso de IA para baratear custos e surfar no hype: se antes as editoras tinham que recorrer aos bancos de imagem para elaborar um livro para colorir às pressas, hoje é só dar um comando para a inteligência artificial gerar uma infinidade de ilustrações, que podem ser impressas e publicadas em questão de dias. São imagens que emulam os Bobbie Goods e também qualquer outra coisa que seja relevante o suficiente para alguém obter lucro com ela. Os direitos autorais não importam, o que importa é o dinheiro que se pode ganhar com isso. De editoras grandes a pequenos criadores que enxergam nesses livros gerados por IA uma oportunidade de renda, vamos engrossando o caldo das imagens massificadas e não fazendo os debates que precisamos sobre as implicações éticas, ambientais e estéticas dessas novas tecnologias.

Livros para colorir de artistas que recomendo


Mini e-book para colorir: ano passado lancei um mini e-book com poucas ilustrações, pois já lancei várias páginas para colorir ao longo do tempo e as disponibilizei gratuitamente. Esse e-book foi feito com a exposição Trívia em mente, para quem gosta de figuras femininas poderosas.



Wildflower Folk, da Christine Karron: descobri esse livro nas minhas andanças pela Amazon e achei uma pérola. Talvez eu nunca tenha coragem para colorir essas páginas, pois elas já são por si só uma obra de arte. A Christine está lançando outro livro de colorir, então vale a pena acompanhar o trabalho dela.

Wildlings, da Clarissa Paiva: a Clarissa é uma artista brasileira com um traço lindo e mágico, e o seu livro de colorir foi lançado em 2021. As ilustrações, assim como as da Christine Karron, são maravilhosas mesmo sem colorir, a vontade é de emoldurar todas.

31 bruxas para colorir, da Carol Rempto: esse é para quem curte personagens de terror fofos, com 31 desenhos de bruxas. Dá pra colorir um desenho por dia, numa espécie de desafio ao estilo Inktober.

Floriography Coloring Book, da Jessica Roux: para quem gosta do livro Floriografia, ele possui uma versão para colorir (ainda não traduzida). O diferencial desse livro é que na página ao lado está a ilustração completa com cores, que serve como uma espécie de guia.

Não são de colorir, mas inspiram a criar




Painting Calm, da Inga Buividavice: outro livro que achei na Amazon ao acaso, Painting Calm tem uma proposta slow, com aquarelas inspiradas nas cores e formas da natureza. É um livro com atividades tanto para principiantes quanto pessoas experientes em aquarela, feito para desestressar e ampliar o repertório imagético.



Watercolor with me in the forest, da Dana Fox: esse livro é todo feito em papel para aquarela com excelente gramatura, suportando muitas camadas de tinta e água. Traz ilustrações mágicas, inspiradas na natureza, e também o risco do desenho, para que a pessoa foque em aquarelar, de acordo com as guias apresentadas.

Uma coisa é certa: temos a necessidade de criar algo e, seja através de livros para colorir, para desestressar ou para aquarelar, o importante é que cada um procure aquilo que o faz feliz e bem, não só porque está na moda, dá status ou visualizações. Se o desejo é movido pelo consumismo ou pela ideia de "não ficar para trás" numa modinha, pense duas vezes antes de gastar dinheiro com livros, canetas e lápis.

*Os links para os livros das artistas mencionadas não são patrocinados.

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Livros Reflexões

Linda Nochlin e "Por que não houve grandes mulheres artistas?"

 

Salomé com a cabeça de São João Batista, Artemisia Gentileschi, 1610-15.
Salomé com a cabeça de São João Batista, Artemisia Gentileschi. 1610-15.

Por que não houve grandes mulheres artistas? é um artigo de Linda Nochlin publicado na década de 1970, no qual a autora responde a essa questão de maneira incisiva: não existiram grandes mulheres artistas do mesmo modo que não existiram grandes artistas orientais, africanos e sul-americanos, pois a arte ocidental está alicerçada num forte recorte social, que privilegia o homem branco europeu burguês. Fora desse recorte, não há espaço para se pensar a genialidade ou a grandeza artística.

Eu poderia encerrar o post aqui, mas são tantas camadas (e longe de mim contemplar todas elas), que minha cabeça ficou fervilhando após a leitura do texto. Na realidade, ela vem fervilhando desde Modos de Ver, que trouxe uma forte interrogação e me fez entrar num hiato de produção pessoal, justo por não ver muita coerência entre a minha leitura e a minha prática artística. E é saudável que esses momentos de choque aconteçam, pois o questionamento é uma constante da vida, quem não se questiona é porque já se conformou com uma situação péssima, ou é tão privilegiado que pode se dar ao luxo de viver uma existência alienada da realidade.

Em Modos de Ver, John Berger traz uma problematização extensa sobre alguns dos pilares imagéticos da tradição ocidental, como o nu, a pintura a óleo e a natureza morta. Todos esses, em algum grau, servem para reafirmar a noção de propriedade sobre alguém ou algo, seja do corpo da mulher, do acúmulo de riquezas ou de grandes extensões de terra. E como proprietário, se entende o homem branco europeu burguês.

Nochlin faz um caminho semelhante, partindo do pressuposto de que a pergunta é um tanto truncada. Ela nos leva a pensar, num primeiro momento, que sim, existem muitas mulheres artistas, e passamos a elencá-las como uma lista de supermercado, justificando que não há cabimento pensar que grandes mulheres artistas nunca existiram. Ou então, seguimos a linha de que há um estilo de arte inerentemente feminino difícil de mapear.

Mas, de acordo com Nochlin, a resposta correta é de que não existiram grandes mulheres artistas do mesmo modo que não existiram afroamericanos equivalentes a Kooning ou Warhol, pois as coisas na arte e em tantas outras esferas é desestimulante “para todos aqueles que, como as mulheres, não tiveram a sorte de nascer brancos, preferencialmente classe média e acima de tudo homens.” (p. 8)

a ingênua ideia de que arte é a expressão individual de uma experiência emocional, a tradução da vida pessoal em termos visuais. A arte quase sempre não é isso; a grande arte nunca o é. O fazer arte envolve uma forma própria e coerente de linguagem, mais ou menos dependente ou livre de convenções, esquemas ou noções temporalmente definidos que precisam ser aprendidos ou trabalhados através do ensino ou de um período longo de experimentação individual. A linguagem da arte, materialmente incorporada em tinta, linha sobre tela ou papel, na pedra, ou barro, plástico ou metal nunca é uma história dramática ou um sussurro confidencial. (p. 7)

São poucas as áreas vistas como historicamente femininas que são disputadas por homens e, quando isso acontece, geralmente a posição alcançada surge acompanhada pelo status: homens cozinheiros se tornam chefs, por exemplo, enquanto as mulheres seguem exercendo as funções mais rotineiras dessas profissões.

No cerne da pergunta Por que não houve grandes mulheres artistas? estão embutidos vários estereótipos a respeito do fazer artístico, dentre eles, o mito do Grande Artista, aquele que possui a genialidade, sem levar em conta as condições sociais, econômicas, de gênero e raça que possibilitam que esses artistas desenvolvam suas técnicas. Isso cria uma narrativa romantizada e cheia de lendas sobre artistas descobertos em condições excepcionais, ou que superaram seus mestres de maneira notável. Mas, como aponta Nochlin:

Não há dúvida, por exemplo, que o jovem Picasso tenha, aos quinze anos (e, em apenas um dia) passado em todos os exames admissionais para a Academia de Arte de Barcelona e, mais tarde, para a de Madri, uma grande demonstração de proeza, já que a maioria dos candidatos precisava de um mês para tal. Porém, gostaria de saber mais sobre histórias semelhantes de candidatos precoces que não alcançaram nada mais além da mediocridade ou o próprio fracasso. Estes são casos que não interessam aos historiadores da arte, estudar com mais detalhes, por exemplo, o papel protagonizado pelo pai de Picasso, professor de arte, na sua precocidade pictórica. E se Picasso tivesse nascido menina? Teria o senhor Ruiz prestado tamanha atenção ou estimulado a mesma ambição de sucesso na pequena Pablita? (p. 17-8)

Nos Séculos XVII e XVIII, a transmissão da profissão artística de pai para filho era amplamente reconhecida. E os filhos dos acadêmicos não pagavam taxas pelas aulas. Muitos artistas tinham pais também artistas, o que ampliava o acesso ao que precisavam para desenvolver sua arte. Sendo assim, esses artistas tiveram contato, desde a mais tenra idade, quando os estímulos são essenciais para aquisição da linguagem e desenvolvimento expressivo, aos materiais e métodos que possibilitaram aflorar seu “talento", em detrimento de qualquer ideia de gênio absoluto isolado do meio social.

Não vou comentar sobre como Nochlin fecha seu texto, pois acho válida a leitura do artigo na íntegra, e também a reflexão trazida pela Edições Aurora no posfácio. Mas o que fica é que precisamos retirar uma grande camada de verniz romantizador da história da arte e de como mulheres e minorias são tratadas pelas instituições oficiais e entre seus pares.

O que fica para mim, enquanto artista, é que não tenho a pretensão de salvar o planeta com a minha arte, nem que sou o último baluarte da arte feminina, mas que o ato de criar é valioso para mim e dá sentido à minha vida. E isso precisa bastar.

O artigo de Linda Nochlin pode ser encontrado aqui.
5★
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Reflexões

Como tem sido participar de feiras (uma reflexão)


Tem sido louco (sobem os créditos).


Brincadeiras à parte, tem sido um verdadeiro exercício de desprendimento de tudo que eu acreditava já saber sobre meu próprio trabalho e sobre como o público enxerga e consome arte. E esse exercício tem me desacomodado um bocado, e me feito recalcular rotas que pareciam já estar estabelecidas.

Background

Eu vim da loja online e da comissão. Durante anos, tive lojas nas mais variadas plataformas, comecei lá nos concursos de estampa do Camiseteria e depois migrei direto pro Society6, um site internacional que me ajudou a vender demais, principalmente na época das Catrinas. Tem gente em todas as partes do mundo com produtos com essa estampa, acho isso sensacional. 

Depois, arrisquei em espaços nacionais, como a Urban Arts, que foi muito boa até exigir exclusividade das artes e eu optar por sair fora (eles tinham lojas físicas pelo país também) e outros sites menores, como Vandal e Vitrinepix. Até que cheguei na minha colaboração mais longa, com a Colab55, que tinha um formato muito parecido com o Society6, mas que com o tempo se mostrou inviável por conta do frete. Vale lembrar que nesse meio tempo ainda tive apoiadores pelo Padrim (pior experiência do planeta) e segui com comissões de tudo um pouco.

Em 2018, tive minha primeira nomeação em concurso público (a segunda foi em 2020), e tomei uma decisão:  já que eu tinha como pagar minhas contas e me sustentar com meu salário de professora, eu ia canalizar através da arte inteiramente a minha visão pessoal de mundo, dar vazão aos projetos engavetados e não me importar mais em pegar qualquer trabalho para fazer, nem em ficar divulgando loja ou produtos. E foi assim até o ano passado, quando decidi voltar a aceitar encomendas muito selecionadas, daquelas que eu olhasse e dissesse: poxa, isso aqui vale a pena.

Ou seja, passei os últimos anos totalmente abstraída de que poderia gerar um produto com uma arte minha, ou vender um original. Quando aconteceu o primeiro convite para participar de uma feira, nem pensei em nada disso, só fui na cara e na coragem para pintar ao vivo e me desprender de um medo interno que era produzir na frente de um grupo de pessoas.

voltando para o presente

Já para a segunda feira, decidi dar um passo além. Ao observar os demais expositores, vi que poderia ser uma oportunidade não só de mostrar meu trabalho, como também oferecê-lo ao público através de alternativas mais baratas, como os prints, que já eram muito conhecidos por mim do tempo das lojas online.

Acabei fazendo um investimento em prints tamanho A4, A5 e A6, e ainda alguns originais menores. Comprei expositores para apresentar esses trabalhos de uma forma melhor e também embalagens. Mandei fazer um carimbo com a minha marca, e durante todo esse percurso vieram as dificuldades com fornecedores, correios e tudo o mais. Mas esse investimento não foi algo financeiramente inviável: foi bastante calculado e que poderia ser resgatado a curto, médio ou longo prazo. E assim fui para a minha segunda participação em feira, ainda pintando, mas também vendendo.

a reação do público

O que pude perceber foi um choque muito grande entre a minha visão e a das pessoas. Não digo apenas sobre arte em si, mas sobre tudo: sobre o que é um produto artístico, sobre apresentação desse produto, sobre significado desse produto... foi uma queda no vale da estranheza (não estou dizendo que isso é ruim).

No começo, as pessoas nem paravam na minha banca. Quando começaram a parar e expliquei do que se tratava, muitos olhavam com aquela expressão de que interessante, mas logo seguiam seu caminho. No geral, a maioria não sabia o que era um print e precisei explicar que é uma impressão de boa qualidade. Quem já me conhecia chegou na banca e comprou. Mas quem estava ali passando me via meio que como um corpo estranho, tentando decifrar a utilidade.

Também aconteceu muito de perguntarem o significado das obras. E aqui vem um sentimento que me pega de jeito de vez em quando: estar cronicamente online, registrando e catalogando meu processo criativo, seja aqui no blog ou nas redes sociais, não quer dizer que as pessoas vão internalizar sobre o que se trata, pois a grande maioria está apenas vivendo sua vida, e não há nada de errado com isso.

Conclusão (por enquanto)

Embora eu tenha vendido um pouco, fica a sensação de que eu preciso construir uma ponte com o público presencial desses eventos se quiser continuar participando deles. Seja explicando o que é um print, por que um original é caro, do que se trata o tema da obra, qual a diferença entre baixar uma imagem da internent e imprimir ou gerar uma imagem de IA e comprar de uma artista.

Vejo esses espaços como lugar pra fazer uma renda extra, para me apresentar regularmente ao público da minha própria cidade e para criar conexões. Sem paranoia, sem pressão de vender tudo o que apresento. E aqui falo isso com total respeito aos expositores que participam de eventos regularmente e preciam manter uma constância de vendas. O meu lugar é o de uma pessoa que tem seu emprego formal e que também é artista, e quer um espaço para educar o público para a arte e, consequentemente, vender o que produz. 

Então, participar de feiras e eventos vem muito nesse sentido de educar, de formar público, de dizer que arte rio-grandina não é só sobre a cidade, mas também pode ser uma deusa, também pode ser abstrato, também pode abrir outras possibilidades. E vender também.

Por ora, o investimento inicial foi feito e vou jogar com isso para os próximos eventos, e talvez apresente outras formar de fazer arte ao vivo, seja desenhando no tablet, ou com uma oficina. Também não pretendo participar de todos os eventos que surgirem, pois preciso conciliar com meus projetos pessoais e dar tempo para pensar no que expor numa próxima vez.

Acho que era isso, fico aliviada de poder colocar pra fora esse caos criativo que se instalou dentro de mim nos últimos tempos. Sigam me acompanhando para ver por onde ando e como estou me saindo.
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Dicas Livros Reflexões

Modos de ver, de John Berger

 


Pense num livro que oferece uma visão totalmente disruptiva sobre arte e suas relações com a publicidade e com o capitalismo? Modos de ver é um livro originado a partir da série homônima de 1972. Embora mais de 50 anos separem o lançamento da obra da minha leitura, esse é um daqueles livros atemporais, e que merecem ser relidos de tempos em tempos. Custei a trazer uma impressão aqui, pois foi muito difícil colocar em palavras o tanto que esse livro me impactou, e o quanto eu ansiava por um texto tão incisivo e ao mesmo tempo tão irreverente.


Lá em junho do ano passado eu já tinha publicado um texto reflexivo sobre arte, IA e lifestyle, sobre o que o público espera ver de um artista na internet - não os seus métodos, ou os seus materiais, mas sim a aesthetic da sua vida e quanto isso agrega de valor ao ser consumido. E alguns meses mais tarde, ao ler John Berger, senti que minha linha de pensamento tinha algum fundamento. Vou colocar abaixo a sinopse da editora e em seguida minhas partes favoritas:


Nestes ensaios clássicos baseados na série televisiva inglesa Modos de ver, exibida em 1972, John Berger revoluciona a crítica de arte ao apontar as estruturas de poder presentes no processo de criação de imagens. Se hoje, cinquenta anos após a escrita deste livro, ainda é preciso reforçar que “uma imagem é a recriação ou a reprodução de uma visão” — ou, como afirma Djaimilia Pereira de Almeida em seu prefácio, que devemos encarar “a visão enquanto vivificação e a observação da arte como paralela à observação da vida” —, a leitura de Berger, essencial em tempos de propagandas por toda parte, se faz mais urgente do que nunca.


O primeiro texto parte da pintura a óleo, técnica consagrada pela arte europeia. Após a reprodutibilidade técnica, tornou-se possível ver trabalhos a óleo fora dos castelos, igrejas e residências privadas a que se destinaram um dia, e, isolados de seu contexto original, eles circulam pelo mundo sem serem de fato compreendidos. Quando se instituiu que eram obras de arte, esses trabalhos passaram a ser interpretados — e mistificados — segundo pressupostos como beleza, verdade e genialidade, os quais eram ditados pelo modo de ver específico de uma minoria social no poder.

Em outro ensaio, John Berger aborda a representação da mulher na arte ocidental, apreendendo de que maneiras na tradição do nu o corpo feminino se tornou objeto a serviço do olhar masculino. Com perspicácia, o autor afirma que o protagonista de um nu jamais é mostrado: ele é o espectador diante do quadro, para quem as “figuras assumem a sua nudação”. Berger esmiúça, ainda, as naturezas-mortas, que em seu auge expunham objetos extorquidos por feitorias escravocratas. E não se priva de olhar para o impacto da publicidade no século 20, expondo como ela se vale da tradição artística para explorar os impulsos consumistas de quem a observa.

Coletivo, emancipatório e com toda a vitalidade da insurreição social dos anos 1970, Modos de ver é um tratado contra o sequestro do olhar pela imagem na sociedade capitalista e um alerta para a linguagem não verbal.
A própria sinopse já entrega vários pontos interessantíssimos, e tentar ir além aqui é chover no molhado. Então, trago os pontos que mais me impactaram e me fizeram pensar (e me tiraram o sono):

A reprodutibilidade técnica

Logo no primeiro capítulo, o autor vai trazer uma reflexão atualizada acerca da reprodutibilidade de imagens (Walter Benjamin) e o quanto as reproduções de obras (Monalisa, por exemplo), se tornam elas mesmas referenciais, a partir do momento que são postas ao lado de outras imagens. Berger faz uma crítica à noção de patrimônio cultural nacional, que está amparado numa noção de autoridade da arte.
A arte do passado não existe mais da forma como existia. A sua autoridade está perdida. Em seu lugar, há uma linguagem de imagens. O que importa, agora, é saber quem utiliza essa linguagem e para quais fins. Isso envolve questões de direitos autorais de reprodução, controle de gráficas e editoras de arte, a totalidade da política de programação de galerias e museus de arte públicos. (...) Um povo ou uma classe alienada de seu próprio passado tem muito menos liberdade para fazer escolhas e agir como povo ou como classe que outros capazes de encontrar seu lugar na história. É por essa razão - e só por ela - que toda a arte do passado se tornou agora uma questão política. (p. 46)

Sobre nudez e nudação

Sabe aquele artista que sempre representa o corpo nu, principalmente o feminino, com um toque fetichista e que causa um incômodo que muitas mulheres, ao ver a obra, não sabem dizer de onde vem? Aqui nós temos uma explicação muito contundente (vinda de um homem branco europeu, a ironia). Berger fala que a mulher nasce num espaço pré determinado socialmente, e é acompanhada pela sua autoimagem durante toda a vida. A mulher vive em constante vigília sobre seus atos, principalmente em relação aos homens. "Homens olham para mulheres; mulheres observam a si mesmas sendo olhadas." (p. 58)

Vergonha, vaidade, julgamento e submissão são expressados em nus femininos a partir da história de Eva, dentro da tradição europeia; nus que possuem como protagonista não o corpo desnudo, mas o espectador, geralmente um homem, que olha para ele (modelo e obra) como senhor e dono dessa propriedade. A partir disso, Berger traz os conceitos de nudez e nudação, dentro da tradição pictórica europeia: nudez é estar desnudo, o nu é uma forma artística. Estar desnudo é algo natural, fazemos para tomar banho, por exemplo. Estar nu é ser visto desnudo por outros e se tornar um objeto por isso.

A pintura a óleo

A pintura a óleo que Berger fala não é apenas a técnica, mas sim a forma de expressão artística que se desenvolveu no período de ascensão do capitalismo, e que exigia semelhança pictórica, para que o colecionador pudesse legitimar suas posses através da arte. 
A pintura a óleo teve sobre as aparências o mesmo efeito que o capitalismo teve sobre as relações sociais.  Reduziu tudo ao padrão nivelador dos objetos. Tudo se tornou permutável porque tudo se tornou mercadoria. Toda realidade era medida mecanicamente por sua materialidade. (p. 101)
O mesmo vai acontecer com as naturezas-mortas, que se tornaram a tradução visual das grandes propriedades de terra, encomendadas pelos seus senhores para novamente mostrar um marcador de classe social. Dá vontade de sair correndo e gritando depois de ler esse capítulo.

Imagens publicitárias

Já as imagens publicitárias se valem desses elementos da tradição europeia para nos vender uma vida que não achamos que precisamos ter, mas que o capitalismo tardio nos faz acreditar que sim, precisamos. Elas criam necessidade de consumo.
A publicidade tem sempre em vista o futuro consumidor. Oferece-lhe uma imagem de si mesmo tornada atraente pelo produto ou pela oportunidade que ela procura ven-der. A imagem o induz a invejar a si mesmo tal como ele poderia vir a ser. No entanto, o que torna invejável essa "pessoa que ele poderia vir a ser"? A inveja alheia. A publicidade não tem a ver com os objetos, e sim com as relações sociais. Não é o prazer que ela promete, e sim a felicidade: a felicidade tal como vista do ex-terior, pelos outros. O glamour é a felicidade de ser invejado. (p. 150)
Depois de ler essa paulada, não cheguei a nenhuma conclusão, apenas a reflexões que vão se intensificando através das minhas vivências e do próprio curso da história, vide o que estamos observando acontecer com a moderação de conteúdo em redes sociais e toda a narrativa criada em períodos eleitorais, por exemplo. Ter consciência de toda essa trama é assustador, a vontade é largar tudo e sumir do mapa, mas é extremamente necessário para um artista engajado em seu tempo. Afinal, nossa arte serve a quem?

5★
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Reflexões

Arte e IA, público e lifestyle


Desde o final de maio estou acompanhando alguns conteúdos gringos sobre as últimas atualizações na política de privacidade da Meta (que gerencia Facebook, Instagram e Whatsapp), mais precisamente as informações sobre o uso de conteúdos das plataformas para treinamento de IA generativa. Basicamente, a partir de 26 de junho, a Meta passará a usar as fotos, vídeos e textos dos usuários para treinar inteligência artificial. 

Isso impactou drasticamente em muitos artistas, que começaram a apagar fotos de seus feeds e se posicionarem contra essa política totalmente invasiva da Meta, e de tantas outras empresas. Muitos estão migrando massivamente para o app Cara, que ainda está em sua versão beta e travando muito (a promessa é de não tolerar conteúdos gerados por IA, mas teve gente que já deu uma espiada nos termos de uso deles e parece que esses conteúdos serão aceitos caso tenha uma legislação específica).

Já outros artistas começaram a fazer vídeos e tutoriais ensinando o tortuoso caminho até formulários da Meta que permitem que os usuários protejam seus conteúdos (em tese), limitando o acesso da empresa e coibindo o uso para treinamento de IA. Vi muitos conteúdos em inglês e, por conta disso, consegui eu mesma preencher, com resposta positiva para meu pedido de oposição ao uso do meu conteúdo. Nisso, várias pessoas começaram a me perguntar o caminho das pedras até o tal formulário, até que resolvi gravar o vídeo abaixo:


Ver essa foto no Instagram

Uma publicação compartilhada por Lidiane Dutra ✨ (@lidydutra)


Esse se tornou o vídeo mais assistido e compartilhado do meu perfil, uma movimentação nunca antes vista, pois várias pessoas não sabiam que o direito de se opor existia e que era possível preencher essa solicitação e receber uma resposta da Meta. A falta de conteúdos em português dentro do próprio Instagram talvez tenha sido uma barreira, pois não vejo os artistas brasileiros batendo tanto nessa tecla quanto o pessoal dos EUA e Europa. 

Também publiquei alguns stories relatando que desde o momento que preenchi o bendito formulário, comecei a perder seguidores, e se uma coisa tinha a ver com a outra, não era possível saber. O que posso afirmar é que há anos meu perfil no Instagram não cresce, e nos últimos tempos passei a compreender melhor o comportamento das pessoas lá, em relação ao que esperar de um artista que se divulga nas redes, e essa é a segunda parte desse post.


As pessoas não querem ver arte. Em sua grande maioria, elas não abrem o feed para acompanhar o processo criativo de um artista; para saber a diferença entre o azul cerúleo da Sennelier e o da Talens; para discutir a qualidade da cera dos lápis Polychromos; para entender o que é um papel acid-free ou para ver alguém com a roupa surrada refazendo um desenho pela milésima vez. Quem faz isso são outros artistas, na busca por compartilhar conhecimento. O público quer ver lifestyle. Ele quer um vídeo ou fotos legais, com a roupa da moda, num ateliê ou num lugar aesthetic. Ele quer dicas de decoração, de como tornar acessível aquela realidade tão bem editada para ele também. E nisso, a obra de arte se torna a moeda de troca do artista: tenha o meu trabalho e, com ele, você terá acesso a um status social que lhe permitirá ser tão aesthetic e descolado como eu.

E eu não estou criticando quem sacou essa dinâmica e aplica ao seu trabalho, sigo muitas pessoas que vendem essa narrativa e admiro quem a faz com autenticidade. Só que não é algo que todos vão ter condições ou vão se sujeitar a fazer. E nisso, o terreno das redes, que antes era um lugar mais horizontal para distribuir o conteúdo de quem não tinha tantos contatos ou tanto dinheiro para se promover, torna-se um ambiente hostil e impulsionado por algoritmos. E novamente quem tem tempo, dinheiro e conhecimento necessários para acessar essa engrenagem é quem vai se beneficiar. E isso vale para todos os momentos da nossa vida, aqui faço um recorte do que acontece entre artistas e plataformas de divulgação.

Quantas vezes as fotos do meu ateliê ou até mesmo as minhas selfies tiveram mais acesso do que meu próprio trabalho? E quantas vezes me culpei por não fazer um vídeo extremamente elaborado (mas que passasse uma vibe descompromissada, que é mais cool) apresentando o que faço como um grande projeto, mostrando como sou uma pessoa realizada por trabalhar em tantas frentes com o que amo? É uma conta muito abusiva e que não fecha, pois não é real para mim.

Qual a solução para todos esses problemas? Não sei. Vamos conseguir legalizar as questões referentes ao uso de IA e direitos autorais ou seremos engolidos pelas grandes corporações que só visam lucro? Também não sei. Tudo é muito nebuloso e às vezes é bom dar alguns passos para trás, a fim de ter mais clareza para o que se está observando. Minha dica é: siga tendo consciência do próprio trabalho, dos seus caminhos, de sua marca no mundo e da sua voz artística, a ponto de não se preocupar em buscar validação externa através de redes, embora elas sirvam não só para mostrar trabalhos ao mundo, mas também vendê-los. Não entre em narrativas impossíveis de sustentar, seguir as trends pode ser um caminho curto até os números, mas pode cobrar um alto preço pela sua autenticidade. 
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Reflexões

Quase quarentando e (ainda) blogando

Uma jovem prestes a criar um blog, com seus longos cabelos. À esquerda, embaixo, meu orientador Victor Hugo. Turma de 2009 do Mestrado em Educação Ambiental da FURG.

 14 anos. Essa é a idade de um adolescente do 9º ano, que está às portas do Ensino Médio. Quando esse estudante estava nascendo, eu digitei pela primeira vez no blogspot desenharehpreciso. E os motivos de clicar em publicar logo após definir meu user nada tinham a ver necessariamente com desenho. Eu precisava qualificar meu projeto de dissertação, havia rompido com meu orientador original e tinha sido acolhida por outro orientador, o professor Victor Hugo, falecido há quase dois anos. O Victor sempre me falava que não havia motivos pra sofrer, que as coisas não precisavam ser um sofrimento. 14 anos mais tarde e talvez eu ainda não leve esse conselho dele como deveria.


14 anos separam aquela Lidiane jovem, de 25 anos, que precisava escrever um projeto de mestrado, que recém estava começando a falar no MSN com um cara apresentado por uma amiga, e que usava um espaço que ela não sabia mexer muito bem, pois tinha chegado atrasada nesse rolê de blog (a infância e adolescência humildes não permitiram ela ter um computador até entrar na faculdade), postando desenhos escaneados numa qualidade minúscula, sem muito o que dizer sobre, e quando dizia, numa linguagem acadêmica e meio truncada.


14 anos é uma vida, tantas redes sociais surgiram e se foram, o Orkut virou acervo de museu, o TikTok já é oficialmente uma rede de pessoas de meia idade, e os jovens postam suas fotos no VSCO, aquele mesmo que a gente usava pra colocar efeito bokeh nas fotos do Tumblr. Todas, eu disse todas as pessoas que eu seguia em 2010 tomaram outros rumos na vida. Eu mesma já estou há mais de meia década dando aula. Mas todas as postagens eu lembro como se tivessem sido escritas ontem.


Entrar aqui sempre é uma cápsula do tempo: eu volto ao passado, registro o presente e projeto o futuro. Às vezes dá a sensação de permanecer parada no mesmo lugar. Por que ainda faço isso? Ainda tem sentido? Precisa fazer? E pra quem?


Ontem mesmo, conversando com uma amiga, ela falou sobre essa mulher moderna, quase quarentona, mas que continua ligada nas coisas. Eu sou essa mulher. Sempre que um estudante fala sora, mas tu sabe tal coisa? (geralmente um meme) eu me sinto ofendida, afinal eu ainda sou jovem. Uma jovem de meia idade! Não cite a magia profunda para mim, eu estava lá quando ela foi criada...


Então é sempre nesse misto de sentimentos, que vão se intensificando com o passar do tempo, com as tendências sendo reeditadas, com coisas indo e vindo, com as intermitências do tempo, que sigo por aqui. Postando meus trabalhos, falando coisas que talvez só façam sentido pra mim, e que talvez não cheguem a um número considerável de pessoas. Eu estou deixando cada vez mais as redes sociais, pra mim é um alívio não me manter informada sobre coisas que vão me deixar péssima. Diminuí meu número de redes para 3 e os serviços de streaming são basicamente pra ouvir música e ver vídeos para me distrair enquanto faço faxina na casa ou desenho. Eu sou uma jovem de meia idade, mas estou envelhecendo, e o blog vem cumprindo sua função de fazer minha presença na web  sem me preocupar muito em voltar no dia seguinte. 


Estarei aqui para a festa de debutante desse espaço, com direito a vestido e bolo? Não sei, mas enquanto eu estiver aqui, sigo postando meu trabalho, as coisas que fazem sentido pra mim, criando minha própria bolha e vivendo a máxima dos pinguins de Madagascar: sorria e acene.


A vida não precisa ser esse sofrimento todo.

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Reflexões

Sobre frustração e se definir artista

 

Foto de Artiom Vallat na Unsplash


Esse texto ressoa alguns sentimentos que estão latentes desde 2022 e que eu já havia começado a escrever no início do ano passado, mas que não publiquei. Aproveitando que hoje é um dia portal e Deipnon, vou jogar essas reflexões para o universo, para que encontrem vez e voz em outros corações e mentes.

Geralmente as férias são o período que eu mais me dedico à arte, por motivos óbvios: não preciso planejar aulas e nem encontrar um espaço no meio da rotina de trabalho. Posso sentar com calma e passar a tarde toda me dedicando à aquarela, ao desenho, à criação. Costumo dizer que durante as férias eu deixo de ser professora, sequer faço menção ao trabalho docente, só retomo essa parte da minha vida quando preciso retornar à escola.

Só que esse ano resolvi fazer diferente. Estou de férias. E isso quer dizer que estou criando no meu tempo, lendo no meu tempo, fazendo vários nada, passeando no shopping, tirando o sono atrasado, vendo programas que não preciso usar muito meu cérebro. Enfim, estou descansando e organizando a minha cabeça e minha vida. 

Os últimos três anos foram muito complicados e me vi em alguns dilemas que achei que já haviam sido superados. 2022 foi um ano extremamente difícil em sala de aula. Depois de dois anos de ensino remoto, perdi a conta de quantas vezes fui testada por estudantes que não queriam estar ali, e deixavam isso bem claro. Minha aula passou a ser chata, eu virei uma carrasca, tudo porque eu queria… dar aula. Já em 2023 assumi mais uma coordenação e não tive turmas. Mas em compensação, tive que lidar com toda a carga mental que é planejar formações pedagógicas, cobrar planejamento, projetos, auxiliar no dia-a-dia e no burocrático de uma escola.

Me vi num lugar de insatisfação pessoal impensável a essa altura do campeonato: eu tinha emprego, casa, realização. Mas passei a me sentir frustrada demais: enquanto professora, por não conseguir dar aula do jeito que queria, enquanto coordenadora, por não avançar no trabalho pedagógico, e enquanto artista por não encontrar motivação para criar, não por causa de bloqueio criativo, mas porque fui engolida pela rotina e precisei deixar a arte de lado em muitos momentos.

Passei a ver amigos e outros artistas se realizando em suas carreiras, participando de feiras, pegando comissões, expondo, e me peguei estagnada na vida. A mesma sensação que me consumia lá atrás e eu via todos passando em concursos, com estabilidade, enquanto eu esperava a minha vez. E ela apareceu. Só que todo aquele planejamento que eu havia feito de passar num concurso, ter uma renda para me manter e poder escolher o que eu queria com minha arte deixou de fazer sentido, pois na minha cabeça eu não estava fazendo “nada”. A arte se transformou numa vírgula da minha vida, e a docência era toda a pedreira que dizem que é. Vi toda uma trajetória de mais de uma década passar batido diante dos meus olhos, me recolhi numa concha muito amarga, muito negativa. Eu não era mais artista, era só uma professora que desenhava nas horas vagas, e às vezes nem isso.

E foi daí que a insatisfação só aumentou, se transformou em tristeza e até mesmo em dor física. Eu dei errado, não consegui ser boa o suficiente pra me sustentar com arte, e nem estava sendo uma boa professora. Todo mundo se realizou, menos eu. Fracassei, enquanto todos pensavam que eu seria aquela que despontaria. Uma amiga me aconselhou a ser mais otimista, que as coisas boas vinham. Outra me disse que estava tentando passar em concurso para equilibrar arte e docência, assim como eu. Outra, queria abandonar a docência pra se dedicar à arte. Outra, ainda, ia abandonar a arte para se reposicionar no mercado.

Depois de várias crises e uma bateria de exames que constataram vários problemas hormonais, resolvi colocar a cabeça pra fora dessa água turva em que estava metida, e comecei um processo interno de me auto-analisar para perceber o que realmente me fazia artista e o que significava realização pessoal para mim. Após mais uma rodada de conversas com outras artistas (obrigada, Rami, por ter me lembrado de que nos piores momentos com meu pai no hospital, eu estava produzindo arte), comecei a ponderar muitas coisas.

A primeira delas é que bom ter um emprego estável. Um emprego com responsabilidade social, que me permite pagar as contas, sustentar a casa, comprar materiais e investir na minha arte, me proporcionando escolher em quais projetos desejo trabalhar, ou se desejo desenhar somente pra mim. Não é o emprego com a melhor remuneração do mundo, mas foi o que escolhi como profissão, e também quando decidi que era melhor assim, para justamente tirar das minhas costas essa necessidade de viver de freelancer e sem a menor estabilidade financeira, sem saber o dia de amanhã. E dificuldades todos os empregos têm. O pulo do gato é saber o que fazer com essas dificuldades. Se o desaforo de um estudante ou até mesmo de um colega vai me afetar ou, se como a adulta que sou, vou dar de ombros e seguir minha vida. Se vou dizer não quando algo ultrapassar o que está descrito na minha função, ou se vou aceitar ser explorada só para parecer legal. Se vou tentar colocar pitadas do que acredito no dia-a-dia, ou se vou me deixar levar pela situação de terra arrasada que outras pessoas tão frustradas quanto eu tentam colocar em cada momento.

A segunda delas é, afinal, de quem eu preciso de validação pra me considerar artista? Eu tenho um diploma em Artes Visuais, trabalho há mais de dez anos com isso, tenho obras em acervos, estou esperando por acaso alguém vir com uma vara de condão e me abençoar ou me nomear? Tudo que eu faço já não é suficiente? A validação precisa vir de dentro ou de fora? Eu que sou uma defensora do tempo real que temos, e não daquele tempo idealizado; eu que corri atrás de uma ferramenta digital para incluir arte na minha rotina, estava fazendo justamente uma das coisas que mais condeno, que é achar que preciso me sustentar totalmente de arte, trabalhar com arte 12 horas por dia, receber biscoito e aplausos de pessoas que eu acho desprezíveis, ou fazer parte de círculos de gente alienada da realidade.

E foi a partir desses movimentos de análise, de conversa e de tratamento mesmo, que percebi que as minhas definições de ser artista, de ser professora e de ter sucesso, estavam passando por ruídos externos e, principalmente, sendo filtradas pela ótica de frustrações que não eram minhas, mas que eu projetava em mim. Quantas vezes nós estamos relativamente de boas com nosso trabalho e somos atravessados por uma opinião não solicitada, que fica dias martelando na nossa cabeça? Ou nos sentimos orgulhosos de alguma conquista, mas outra pessoa conquistou mais ou menos e isso reverberou em nós de alguma forma e nos afetou?

É difícil não se deixar afetar por todo nosso contexto de vida, mas um dos meus principais mantras para 2024 é me submeter somente à minha verdade. E a minha definição de artista, dentro do que considero como verdadeiro, é ter esse privilégio de poder criar. O ato criativo passou por muitas redefinições ao longo dos últimos anos. Temos autores que defendem que todos podem criar, outros que questionam justamente essa necessidade. Hoje em dia, todos são criadores de conteúdo... Mas, para mim, a criação é um ato inerentemente humano, é o divino dentro de nós, e o que dá sentido à nossa existência. E se eu acreditar que é isso que me define, este é o caminho que devo seguir.

Se você é artista ou está passando por momentos de insatisfação na vida, sinta-se abraçado.

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Reflexões

Blogar é envelhecer?


Foto de Marissa Lewis na Unsplash


Esses dias vi o vídeo de uma psicóloga no TikTok, falando que as mulheres millennials na casa dos 35-40 anos estão desaparecendo das redes sociais. Elas já não postam mais selfies, ou suas comidas favoritas, os lugares que frequentam, sua rotina. Parece ser um impulso low profile, um cansaço das redes, mas um olhar mais atendo mostra outro dado: essas mulheres podem simplesmente não querer mostrar seu envelhecimento para a audiência. Para uma geração que cresceu acompanhando o surgimento de todas as redes sociais, admitir que está se tornando velha, principalmente em relação à gen z, é assustador. Então essas mulheres estão simplesmente sumindo, evitando que perguntas sobre a aparência ou "deslizes geracionais" (uso de gírias, gostos, moda...) sejam analisados pela opinião pública. 

Não existe nada de errado em postar uma selfie, um prato bonito ou um lugar legal, e se mulheres mais velhas ficam constrangidas em postar suas rotinas em suas próprias redes sociais, só reforça o fato de que a pressão estética e a mercantilização em cima dos corpos femininos está a todo vapor, disfarçada de autocuidado ou outro nome mais adequado ao mercado. Em contrapartida, as gerações mais novas também parecem estar abandonando determinadas redes sociais "formatadas" por algo mais livre e personalizável. E é aí que a roda do tempo gira novamente, com muitas adolescentes voltando para o Tumblr e para a estética dos blogs, espaços que você pode customizar, explorar a quantidade de imagens, textos e vídeos que convém e manter uma conversa mais intimista.

A realidade é que os blogs nunca acabaram. O fato de não serem usados mais como até um tempo atrás não quer dizer que o formato morreu ou se esgotou, apenas voltou a ser mais nichado, como no começo. Ainda acompanho muitos blogs, como o Momentum Saga, o Hello Lolla e o da Melina Souza. Aliás, ela postou um desabafo esses dias em seu blog, falando sobre como o ambiente das redes está cada vez mais hostil (e eu complemento falando que essa hostilidade não vem só das pessoas, mas de políticas e de algoritmos cada vez mais agressivos, que empurram todos para a vala comum dos criadores de conteúdo, sendo que muitas das pessoas só quer postar pra se sentir bem!).

Me pergunto se ainda blogar em 2023 é um sinal de envelhecimento, amadurecimento, nostalgia ou um grande e sonoro dane-se para tudo o que especialistas em marketing digital e tendências ditam, seguindo apenas o fluxo afetivo de estar num lugar fazendo algo que me deixa feliz, ou apenas em paz comigo mesma.

Não canso de dizer o quanto o blog é um espaço seguro (retomei a caixa de comentários após um tempo fechada), onde sistematizo o meu trabalho, meu processo criativo e posso compreender minha arte e minha profissão. Mesmo que eu não poste com frequência ou fale sobre todo o tipo de assunto como há 7 anos atrás, ainda é aqui que está minha essência: uma artista e professora que gosta de coisas místicas, como boa cria dos anos 80 e 90. 

Esperar que os blogs voltem a ter seu auge é um pouco demais, acredito que esse tipo de espaço ficará cada vez mais nichado, cada vez mais intimista e cada vez mais voltado à resistência para quem curte slow content e quer ir contra à agressividade que os algoritmos impõe à vida digital.

Blogs que leio e amo

  • Momentum Saga
  • Melina Souza
  • Mulher Vitrola
  • Hello Lolla
  • Valkirias
  • Delirium Nerd (colaborei lá por um tempo)
  • Aline Valek
  • Zine Marítimas
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Reflexões

13 lições em 13 anos 💜

Quem estava por aqui nessa época? Print resgatado do web archive.

O post a seguir é uma carta de amor nada disfarçada a este blog.

Sempre que o blog faz aniversário só consigo pensar que estou aqui há x anos e contando… E a última vez que parei para pensar e escrever sobre isso foi há 5 anos.

Em 2018 o futuro parecia glorioso: eu recém tinha sido nomeada e achava que todos os meus problemas se resolveriam com um concurso público. Eu postei aquelas palavras de dentro do meu antigo quarto, na casa dos meus pais, me sentindo um pouco estagnada por ainda morar com eles e um outro tanto feliz por estar na minha melhor fase artística. Vou elaborar melhor esse pensamento mais para frente…

De lá pra cá, perdi e ganhei tanta coisa, que nem sei dizer se perdi mais ou ganhei mais. Acho que é um empate. Ganhei coisas que jamais sonhei, mas perdi meu chão, o que me deu a real noção da mortalidade.

13 anos é a idade de um estudante do 7º ano. Enquanto eu digitava desenharehpreciso no blogspot, esse estudante, que passou pelas minhas mãos ano passado, estava nascendo. E hoje esse mesmo estudante me chama de coroa e se pergunta que internet é essa que frequento, na qual as pessoas ainda escrevem. Porque hoje a moda são os vídeos, amanhã sabe-se lá o que será (a IA já está mostrando a que veio).

E o blog está aqui, não com tanta cara de blog assim, mas ainda aqui. Revisando os arquivos, foram tantas coisas que já passei, que seria difícil enumerar. Resolvi, então, listar 13 experiências em 13 anos de blog. Pegue o bloco de notas, abra a tag <head> e vem comigo!

Primeiro banner oficial do blog, e banner que fiz em 2012. Nessa época, ilustrei muitos banners para outras pessoas.

  1. aprendi a tirar meu trabalho de pastas e gavetas e mostrá-lo ao mundo, mesmo na época em que ele não era bom o suficiente para ser apreciado. Isso me deu coragem;
  2. entendi que precisaria lidar com as críticas, que não daria pra me esconder atrás de um sorriso amarelo, e que precisaria separar o que era construtivo e para o meu bem, daquilo que era o puro suco do chorume que só uma caixa de comentários raiz poderia proporcionar;
  3. acabei criando uma comunidade de pessoas dispostas a me acompanhar e a trocar suas experiências comigo, a se fortalecer a partir da arte e buscar melhorar, e isso me fez ver que o conhecimento se torna melhor quando compartilhado, e que ele não está restrito à academia ou um artigo publicado em revista com qualis A: ele pode estar na atenção e disponibilidade de alguém que tirou um tempo do seu dia pra dizer o quando você evoluiu do ponto x ao z. Houve uma época que consegui listar mais de 300 artistas mulheres no meu blogroll, para se ter uma ideia;
  4. aprendi a lidar com os trolls e vi como tem gente com tempo ocioso suficiente a ponto de criar vários perfis fake para dar unlike em série nos seus vídeos, e até mesmo só acompanhar a sua vida. E que o melhor remédio é não dar palco pra esse povo, que eles somem rapidinho;
  5. se hoje eu consigo chegar diante de uma turma com 30 adolescentes e falar a plenos pulmões, foi porque tive que aprender a ser comunicativa aqui e me mostrar sem medo. No começo eu era só uma assinatura nas postagens, hoje sou alguém que vai usar suas experiências para se comunicar com o público e comunicar suas intenções;
  6. percebi a seriedade em compartilhar o conhecimento que adquiri lá na construção da comunidade, e que a minha opinião poderia ser muito útil ou causar um efeito devastador em alguém. Foi por isso que parei tanto de fazer resenhas de materiais isoladamente, só para mostrá-los e causar a impressão de que aquilo precisaria ser comprado. Hoje prefiro falar o que uso dentro de um contexto e do que funciona para mim, e que isso pode ser diferente para os outros. Vez ou outra publico compras, mas deixo isso para a rede social das dancinhas;
  7. estudei a fundo as leis e direitos que falam sobre autoria, fui plagiada tantas vezes que fica difícil contabilizar, e o mais curioso é que muitas vezes o plagiador é uma pessoa com perfil acolhedor, que parece ser mais um admirador do seu trabalho, pra ganhar sua confiança e te confundir quando o plágio acontecer. Hoje sou muito mais atenta a copyright e copyleft, principalmente com a IA e as NFTs dominando o mercado de arte;
  8. aprendi a vender meu peixe, a diferenciar preço de valor e briguei muito, muito mesmo, para que a arte fosse reconhecida como o trabalho que é, pelo menos entre meus pares. Fui muito mal interpretada por isso, chamada de mercenária por perguntar se pagariam por um serviço, de reclamona por achar absurdo que um quadro deveria dividir espaço com uma goteira, e de ingrata quando questionei o que era arte para um grupo, se era só o belo decorativo, ou também o que nos incomoda e desacomoda. Hoje estou muito mais paz e amor por questões de saúde, já tive minha cota de briga pra essa vida. Respondi tantas vezes a pergunta “como faço pra ter uma loja virtual?” Que já perdi as contas;
  9. comecei a mexer em html e coisas básicas de programação para poder fazer ajustes pequenos de layout, e ajudei tantas pessoas a criar seu próprio blog com isso! E foi essa curiosidade de saber como a página funcionava por dentro que sempre fez eu me manter curiosa a respeito de tecnologias, embora eu não entenda nada além de abrir e fechar tag. Devo muito, muito mesmo, à Elaine Gaspareto, pessoa incrível que a todos ajudava com seus tutoriais, e que infelizmente foi mais uma vítima da Covid em nosso país;
  10. entendi que ser criativa é pesquisar e explorar sempre, que tudo muda o tempo todo e precisamos estar atentos ao que acontece à nossa volta. Seja pesquisar tendências de cores, redes sociais do momento, materiais, softwares, leituras… o mundo é fluido e o artista precisa entender isso;
  11. aprendi através do exemplo dos outros, para o bem e para o mal. Como lá no início tudo era mato, eu ia vendo o que os outros faziam e pensava se aquilo funcionaria pra mim ou não. Foi assim que descobri as lojas virtuais, os concursos de estampa, as publicações, como precificar commissions, dentre outros;
  12. experimentei várias formas de financiamento coletivo e descobri que não é o modelo ideal para mim, pois me senti muito cobrada pelos patronos a produzir, a estar sempre alegre e receptiva, mesmo quando me falavam coisas que me machucavam ou quando simplesmente não pagavam o boleto do apoio. Todo meu respeito a quem usa essa modalidade de renda, tento ser uma patrona que respeita os limites do artista que ajudo;
  13. por último, o poder da rede. Hoje em dia, ter uma persona online está muito ligado à fama, aos números, ao engajamento. Mas com o blog aprendi sobre o poder de várias pessoas se mobilizando em torno de algo. Seja uma blogagem coletiva sobre livros, um projeto fotográfico, o follow friday (compartilhar perfis e blogs amigos toda sexta-feira), e o boca a boca virtual: se eu trabalho com retratos, mas o cliente quer personagens, posso indicar quem faça, e sempre sou retribuída. E os clientes chegam porque conhecem não só o meu trabalho, mas a minha escrita e minha ética. E tudo isso vem desse organismo vivo e em eterno movimento que é a rede, a autonomia compartilhada que uma amiga querida cunhou para a sua tese.

Mais banners de épocas distintas, quando eu ainda colocava uma linha explicando o que fazia, e quando passei a usar somente o meu nome, até chegar à assinatura "crua"como é hoje em dia.

Eu não sei se o blog completará 14, 15, 20 anos… nunca é possível saber o próximo passo, mas estou muito feliz com a trajetória que construí até aqui, e que faz parte de mim. Assim como ser professora é só uma parte, ser blogueira raiz é outra, e que defendo! Blogueira pra mim não é termo pejorativo, foi o que me salvou de um bloqueio de escrita, e é o que continua me salvando toda vez que me sinto sozinha demais, e lembro que esse espaço está aqui. Pelo tempo que for, e contando…
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Dicas Reflexões

Uma casa virtual AINDA é importante 🏡

 

Photo by Vidar Nordli-Mathisen on Unsplash

Há cinco anos atrás, em 2017, na época em que eu ainda tinha energia, sanidade e tempo para escrever algo mais reflexivo ou com dicas para outros artistas, fiz um post com a seguinte chamada: Vale a pena ter um blog artístico?

Na época, todo mundo estava migrando em massa para o Instagram, meu próprio perfil cresceu muito nesse período, e quem ainda tinha um suspiro de presença virtual em blogs ou sites estava ensaiando o apagar das luzes definitivo. Como sou apegada, fui ficando por aqui, com momentos de maior e menor frequência, mas sempre em mente que esse espaço era meu, não dependia de algoritmo ou do humor do Mark Zuckerberg, além de ter uma ótima indexação no Google, pois existe desde 2010.

Em cinco anos vi muita coisa acontecer, quase não consegui acompanhar tudo (fiquei muito mais na posição de espectadora do que opinadora, pois 40h semanais de escola), vi os algoritmos mudarem tantas vezes que não consegui contar, vi redes surgindo e tomando o lugar de outras, vi bilionário comprando e falindo empresas e posso dizer, com a maior tranquilidade da galáxia, que ter sua casa virtual, seja ela um blog, site ou portfólio, AINDA é muito importante.

Nesse tempo todo, o meu espaço virtual sempre foi o lugar onde concentrei meu trabalho, minhas opiniões e meus gostos. Tal qual minha casa física, aqui só entra quem é convidado, embora seja um site aberto a qualquer um que tiver o link. Isso porque nunca deixei troll se criar em caixa de comentário. Aqui, não dependo de visualizações, de likes ou repost. A existência desse conteúdo se justifica por si só, ela está aqui, e depois que estiver, posso compartilhá-la com quem eu quiser, através da rede que eu escolher. Posso, inclusive, fazer um backup das publicações e apagá-las, arquivá-las ou colocar uma senha de acesso. Posso escolher não fazer nada, e deixar tudo aqui para quem tiver o link escolher a hora e o momento para ver o que tem de novo.

Aqui, pratico um exercício enorme de cultivo: se vou me inscrever para um edital, tudo está tão bem organizado, que não fica difícil achar o que preciso. Se quero mostrar meu trabalho para alguém, só direciono para a aba Portfólio. Num mundo tão rápido e tão massificado, é aqui que as coisas são semeadas, crescem, florescem, morrem e renascem.

E embora eu seja super apegada, a grande contradição é que aqui pratico também o desapego: se ninguém ver, se ninguém comentar (e não vai mesmo, pois desabilitei a caixa de comentário há meses), simplesmente não importa. Esse lugar depende só de mim.

Claro que uso redes, faço vídeos de gosto duvidoso, mas eu sempre vou ter esse lugar. E quando ele não tiver mais razão para existir, vou fechar a porta sem olhar pra trás. E o que mais tenho percebido são pessoas sacando que esse aterramento a algo seu faz sentido, visto a quantidade de sites que tenho acompanhado nascer. Gente ótima que só tinha uma ou duas redes sociais para mostrar o que produzia e agora tem um endereço lindo e todo organizado. Gente que, inclusive, me manda mensagem dizendo que veio aqui pegar inspiração para fazer sua própria casa virtual. Acho isso mágico e dá sentido ao compartilhar algo bom com alguém.

Por isso, ainda acho fundamental ter sua casa virtual, seu espaço, chame como quiser, mas um lugar que não seja a rede social do momento. Elas vão e vem, trazendo conteúdos cada vez mais picotados e formatados. Acredito que uma obra artística, literária ou musical, precisa de mais espaço para respirar e florescer. Seja a resenha de um livro, uma ilustração ou a cifra de uma música. Até mesmo o conteúdo audiovisual se beneficia de um espaço próprio, mais contemplativo. E num mundo onde zapear virou regra, a contemplação ainda é uma bênção.

Sugestão de leitura: Por que eu ainda blogo? - Momentum Saga

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