Nos últimos anos, janeiro é marcado por uma grande movimentação aqui no blog, pois geralmente é o mês que estou mais descansada, em férias escolares, e tenho mais tempo para desenhar, postar e ler. Mas esse ano virei mais uma chave em relação à presença online, arte, universo e tudo mais, e venho aqui compartilhar algumas resoluções para 2026:

A primeira resolução foi colocada em prática logo no início do ano. Depois de 5 anos, resolvi trocar o layout do blog e passei um final de semana me dedicando a atualizar plugins, corrigir erros e inspecionar elementos no html para deixar tudo do jeito que queria. O tema escolhido é da Maira Gall, que eu já vinha querendo a algum tempo. Amo esse tipo de coisa, embora não seja profissional em programação e me restrinja a fazer o básico, pois sinto que realmente estou construindo algo, como se fosse uma reforma na minha casa ou redecorar um ambiente. Também retorno ao tempo em que blog tinha cara de blog, e não de site. Tudo agora é importante e merece destaque, não só meu trabalho artístico, mas também os textos, as demais páginas, o conjunto da obra, que vai para seu 16° aniversário (meu blog já pode votar!).

Em 2024 tive uma newsletter no Substack por um brevíssimo período, mas que gerou textos muito prolíficos, e um deles falava sobre como eu estava saindo das redes sociais. E sigo nesse movimento, mantendo ativas somente três redes (ativas no sentido de que entro nelas com regularidade). Para esse ano, quero fazer no Instagram um movimento que já fiz no TikTok: não postar a esmo e limpar o feed. E por quê? Porque a maioria das pessoas não quer mais ver arte, e compartilhar arte nas redes está cada vez mais difícil. Eu já venho falando isso a algum tempo: que o público se interessa por lifestyle e aesthetic; a valor agregado e performance, mas muito pouco por processo criativo. Então não vou colocar mais a minha energia num algoritmo que não me respeita, que exige minha presença constante e ainda usa meu trabalho para treinar IA. Na última newsletter da Loish (uma artista com mais de 2 milhões de seguidores só no Instagram), ela fala que já está há 20 anos divulgando seu trabalho na internet, e que não consegue mais ter uma fórmula ou acompanhar as exigências das redes. Por isso, ela tenta redirecionar o público para espaços nos quais ela possui mais controle, como o site, Patreon e a própria newsletter. E é por esse caminho que pretendo andar também. Além do mais, tenho uma tese para escrever!

Sobre limpar o feed: se você entrar hoje no meu Instagram, vai encontrar pouco mais de 100 fotos. Arquivei mais de 200 postagens. Pode parecer loucura, mas: 1. o que publiquei lá, publiquei aqui também; 2. nós nos acostumamos a um fluxo intenso de compartilhamento de imagens, sejam fotos ou vídeos, pagamos para ter espaço na nuvem e armazenar os registros em nossos celulares (duas, três, quatro mil fotos num aparelho...), ficamos com a sensação de que se não há foto ou story, é como se não existíssemos. E não precisa ser assim. Para quem nasceu na era analógica, é só lembrar que o máximo de fotos que uma câmera fotográfica (o filme, no caso, por vez) fazia eram 36 "poses" e, com muita sorte, todas ficavam boas e lotavam um álbum. Nossa relação com as imagens precisa mudar, desacelerar.

E aí entramos na famigerada bolha da IA. Ninguém aguenta mais tanto conteúdo gerado por inteligência artificial, e já venho batendo nessa tecla também: arte está ficando nichada, e IA está sendo associada a "coisa de pobre" (vi muitos vídeos sobre o assunto recentemente, mas meu texto de 2023 já previa esse futuro). Existe uma saturação do olhar provocada por essas mídias, mas o movimento contrário não tem sido no sentido de democratizar a arte feita por humanos, pelo contrário: hoje em dia virou trend ter uma "analog bag", nada mais do que uma bolsa (de marca) com materiais de arte (caros) e livros (em edições luxuosas), para evitar o excesso de estímulo causado pelas redes. Novamente, invadimos o campo da performance, justamente registrando esses equipamentos analógicos e postando nas redes que dizemos ser contra. Então, para 2026 em diante, não quero circunscrever minha arte nesse lugar de autoafirmação sobre ser diferente por não consumir IA e por pintar aquarela, me colocando como erudita e acima da média populacional, apenas porque uso caderno e caneta. Não faz meu tipo.

Também entra na equação das resoluções uma pergunta que tenho me feito há anos: Por que faço o que faço? Qual a minha motivação para continuar a nadar, mesmo com tantas coisas contra? Por que sempre essas mulheres, esses temas, esse ouroboros de assuntos que se conectam com coisas feitas há mais de 10 anos, e que sempre se repetem? Eu tenho a tendência a levar muito a sério o entendimento das pessoas sobre o meu trabalho. Se alguém não entendeu é porque eu não expliquei direito, não ficou claro, não está inteligível. O grande exercício desse ano será: se entendeu ou não, não me interessa. Porque essa é a minha linguagem. Eu escolhi, conscientemente ou não, ao longo de mais de 20 anos, um conjunto de signos que me representa e que simplesmente acontece na minha obra. E sempre que trago um trabalho novo para o mundo, venho aqui, explico, mostro minhas referências, amplio aquela visão incial baseada na imagem. Se o público quiser ou não consumir isso, não vai mais, definitivamente, ser da minha conta. Lembrando: tenho uma tese para escrever, não vou mais me preocupar se a pessoa não entendeu de onde eu tirei uma imagem de Kali, por exemplo.

Indo mais a fundo no terreno artístico, chegamos na crítica construtiva. Eu já fui a pessoa que ia lá, mesmo sem ser solicitada, e fazia uma crítica construtiva para a outra pessoa, seja sobre sua técnica, sobre seu material ou sobre sua temática, afinal, estamos todas, todos e todes aqui para nos ajudar. Errado. A crítica, quando não solicitada, só mata a vontade da pessoa em criar. E eu fui aprendendo e me dando conta disso quando comecei a dar aula no ensino regular. A partir de uma certa idade, o desenho se torna um tabu para a maioria de nós, pois é cercado por comparações com os outros e, olha só, críticas construtivas, porém não solicitadas. Durante todo esse tempo que compartilho minha arte online, não foram poucas as vezes que as pessoas simplesmente me mandaram estudar. Como se eu não fizesse isso ou não fizesse o suficiente ou, ainda, como se eu não fizesse do jeito delas. Vai estudar anatomia, cenário, fundamentos (eu tenho uma faculdade de Artes Visuais!), pose dinâmica, gestual, enfim. E a maioria dessas críticas veio de gente conhecida, que estava ali para me ajudar. Só que isso foi gerando uma angústia enorme dentro de mim, pois toda a vez que eu publicava algo, a crítica construtiva caía no meu colo. Mais recentemente com o desenho digital, sempre disfarçada como aquele "toque" de quem é mais experiente ou mais intrometido, apenas.  E só eu sei o quanto isso me faz mal, pois me deixa insegura em coisas que eu demorei horrores para aprender e ter um resultado legal, na minha percepção. Então minha resolução em relação as críticas construtivas é não ouvi-las, mas também devolvendo o constrangimento sem medo nenhum. Achou meu trabalho ruim? Faz melhor e não me incomoda. Tenho uma tese para escrever.

Por fim, uma das minhas maiores resoluções para 2026 é, talvez, a mais contraditória: não desenhar também é desenhar. Vim marcando em alguns parágrafos a frase tenho uma tese para escrever e, nesse exato momento, estou num ponto em que olhei para trás e vi minha dissertação, que fala sobre desenho, e senti um puta orgulho do texto que escrevi, da pesquisa que fiz e uma vontade enorme de retomar isso de onde parei. Ainda não sei como vou fazer isso, e nem posso ficar falando sobre, mas é algo que vai envolver muita leitura acadêmica e muitas horas dedicadas à teoria. E eu não posso me colocar num lugar de culpa, de ai, poderia estar desenhando, mas estou lendo/escrevendo/estudando outra coisa. Isso também vai ser desenho. Desenho de ideias, de sonhos, de propostas, que precisam de tempo e de dedicação para acontecer. E quando pontuei, ao longo do texto, a necessidade de escrever uma tese, quis reafirmar para mim, para ti, para o universo, que não vou perder tempo com ladaia de bilionário dono de rede social, de gente desocupada ou de vozes sabotadoras da minha própria cabeça. Não quero envolver meu doutorado em sofrimento, honrando o legado que meu ex-orientador me deixou. São 41 anos de vida, 21 de trajetória acadêmica, 16 aqui nesse espaço virtual. Estou dando uma grande banana para o sistema e assumindo os riscos de fazer as coisas no meu ritmo. Se vai dar bom? Não sei, mas acho que são resoluções muito boas.

Espero que tenha ressoado aí o que escrevi por aqui. Mas se não, é só seguir adiante. Para quem fica e me acompanha, vou passar a postar minhas artes, reflexões e afins somente aqui no blog. Como disse acima, não me sinto mais a vontade para postar com a regularidade que eu tinha. Vou sempre compartilhar o link para que as pessoas saibam quando tem postagem nova, talvez crie um destaque no Instagram para facilitar a busca. E sigo postando story dos meus vinis, dos meus gatos e outras coisas totamente nonsense. E é isso aí. 

A vida presta. Feliz 2026!