A nostalgia que envolve 2016 (uma década já se passou!) tomou conta da internet, e muitas pessoas passaram a reviver o ano em que colocávamos filtro de cachorrinho do Snapchat em todas as fotos. Nas artes, foi um ano muito importante para mim, pois comecei a Oficina de Aquarela da Sabrina Eras. Esse curso mudou a minha vida, pois aprendi a usar a aquarela sem medo, e consegui vencer um dos grandes bloqueios que me assombravam: voltar a estudar com ajuda de uma professora, depois de terminar o mestrado e jogar tudo pro alto. Fui seguindo por conta própria até o momento que não consegui mais. E a Sabrina foi essencial para me dar a confiança de que eu tanto precisava.

Também era um tempo em que eu participava dos grupos de desafio no Facebook (2Minds, Ilustraday, Girls Artist Gang), tinha loja online na Colab55 e ia me virando com encomendas. Mas também foi um ano que marcou um ponto de estagnação muito grande na minha vida, pois foi quando comecei a ver todo mundo "dando certo", enquanto eu me sentia paralisada na vida. Ainda demoraria mais dois anos para eu ser chamada no concurso público que me tornou professora, por exemplo.

Artisticamente, fiz três trabalhos que me definiram e ajudaram a pavimentar o caminho do que viria no ano seguinte: Hécate, um trabalho que foi um ponto de virada para minha espiritualidade e para a temática que seria recorrente dali em diante; também fiz meu Inktober mais consistente até o momento, e Sereia, feita para o Ilustraday de março de 2016, que virou um grande xodó, não só meu, como de muitas pessoas que me acompanhavam naquela época.

E é esse trabalho que decidi refazer, não para apontar todos os defeitos daquela época e tentar melhorá-lo, mas para prestar a reverência que ele merece, pois foi muito importante na minha vida. Se o primeiro foi um passo a mais no estudo da aquarela, a sua releitura é um passo a mais no estudo do digital.

Recordando: essa ilustração foi feita para um desafio cujo tema era sereia. Escolhi trabalhar com a ideia original do conto de Hans Christian Andersen, a história da sereiazinha em busca de uma alma imortal. Sua aparência gélida, etérea e sobre-humana é refletida na pele pálida, nos olhos tristes e na longa trança, que aqui faz às vezes da representação da cauda da sereia. 10 anos depois, todos os elementos-chave continuam lá: a pele pálida, a trança, o aspecto sobrenatural. Mas há uma mudança sutil: seus olhos não estão mais tristes, ela já não busca uma alma imortal: essa sereia tem a plena consciência de que virará espuma sobre as ondas e, embora seja uma figura aparentemente inocente, não pensará duas vezes em levar qualquer um para o fundo do oceano com ela.


Trabalhei novamente com os excelentes pincéis do Adilson Farias para Procreate, utilizando basicamente o que tem efeito de lápis 6B. Aqui dá pra ter uma noção de como foi feito o cabelo. Mudei poucos, mas significativos detalhes na figura, fazendo a transposição entre os suportes da melhor maneira possível.

Acho sempre um exercício interessante fazer a releitura de um trabalho depois de algum tempo, já fiz isso incontáveis vezes, mas sempre com um olhar respeitoso para o que foi feito no passado, naquele momento histórico, dispondo das condições que tínhamos. É muito triste quando um artista desdenha da própria história, mostrando os trabalhos anteriores como se fossem coisas horríveis, quando na verdade eles ajudaram imensamente na caminhada.