Quando o lúdico é um problema

27/04/16

Bey rainha, o resto nadinha. Imagem via.
Se você não estava procurando água em Marte, deve saber que Beyoncé lançou Lemonade, um trabalho extremamente maduro, influenciado pela cultura negra e pela jornada da própria cantora. Até aí, tudo bem. Acontece que, rolando meu feed do Twitter, encontrei uma crítica ao álbum que, dentre outras coisas, ressaltava o caráter lúdico da narrativa. Putz.

Já não é de hoje que percebo um fenômeno se abater sobre arte feita por mulheres. Por mais forte, referenciado e bem executado que seja, muitas vezes o trabalho produzido pelas minas é taxado apenas como lúdico. E isso se repete nas artes visuais, música, dança, literatura, dentre outros. Já vi até pesquisa acadêmica receber este "elogio".

Lúdico, para quem não sabe, se refere ao ato de brincar.  Uma atividade lúdica é aquela que envolve brincadeiras, jogos; algo capaz de facilitar a aprendizagem (dentro do discurso educacional) e de entreter, divertir.

Certa vez recebi uma mensagem, através do Facebook, de um ilustrador que conheceu meu trabalho a partir das lojas virtuais. No meio da conversa, o camarada me solta um: achei que seu trabalho é mais lúdico (que o dele). Numa outra ocasião, um cara também teceu comentário semelhante a respeito de um pequeno estudo, dizendo que admirava muito essa coisa lúdica.

É bem complicado encarar um feedback tão enviesado, afinal, meus trabalhos são reflexo das minhas próprias experiências, um espelho da mulher que sou, que fui e que desejo ser. Sem brincadeira. Explorar elementos fantásticos e referentes ao sagrado feminino não significa querer colocá-los de forma lúdica, existem n interpretações.


Diante disso, eu paro e penso: as pessoas realmente sabem do que estão falando ou apenas querem desqualificar o meu trabalho, dizendo que ele não é sério ou importante o suficiente para se igualar ao delas? Achei que era um problema isolado, até ver que acontecia com várias mulheres. 

Se até o álbum mais politicamente engajado da Beyoncé recebeu a alcunha de lúdico, temos um problema. Quando insistimos na ideia de que a arte produzida por mulheres é apenas uma brincadeira, um simples divertimento entre uma coisa mais importante e outra, não estamos levando essas produções a sério. Dizemos, nas entrelinhas, que os frutos daquela pesquisa não são suficientemente bons para estarem entre a arte de verdade. E o que é arte de verdade?


Claro que muitas artistas optam conscientemente por utilizar o lúdico em suas obras, principalmente as que têm o público infantil como foco. A grande questão é o nivelamento das produções, mesmo sem conhecer a trajetória da mulher. Isso reforça estereótipos muito problemáticos como, por exemplo, que a arte é só um hobby, que existem trabalhos "de mulherzinha" (um exemplo literário que cabe aqui é o chick lit).

Eu nem ia escrever esse post, porque: 1. não era uma pauta com a qual gostaria de lidar tão cedo; 2. da última vez que escrevi um texto reflexivo aqui, teve anônimo magoadíssimo, chorando nos comentários. Mas achei necessário trazer a questão à tona e gostaria que outras minas se juntassem ao debate, para que a gente possa trocar experiências.

Vocês já passaram por situações parecidas? Como reagiram?
Contem aí nos comentários e vamos fazer as ideais circularem.