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08/07/2019

Arte é mais que um algoritmo


Não é de hoje que as discussões sobre mudanças no algoritmo do Instagram tomam conta das redes sociais e grupos dedicados à arte. Muitos artistas, principalmente aqueles com menor visibilidade, estão preocupados com o alcance dos seus posts e possível queda no número de encomendas por conta disso.

Engajamento virou pauta, muito mais do que estudar os fundamentos do desenho, redigir um bom contrato, compreender o processo criativo ou como abrir um MEI. E isso passou a me preocupar, em muitos níveis. Primeiro, porque cada vez mais jovens estão começando a ilustrar, pessoas na faixa dos 15-17 anos, em idade escolar. Segundo, porque o número virou ponto de chegada, e não o trabalho em si. Por isso, gostaria de abrir um espaço para reflexão sobre todas essas questões.

Se você olhar minha última foto na conta artística que mantenho no Instagram, o número de curtidas é pífio. Minha conta estacionou em número de seguidores no começo de 2018 e, de lá pra cá, só cai. Tudo começou a cair quando não tive mais tempo para me dedicar àquela rede social. Dispender vários minutos por dia para seguir, curtir, comentar e compartilhar virou luxo na minha rotina, o máximo que consigo fazer é, duas vezes por semana, curtir tudo o que posso dos meus contatos e postar alguns stories. Foto no feed é raridade ainda maior, visto que também produzo pouco. Somado a isso, deixei de seguir em torno de 500 contas, entre perfis inativos e artistas que já não rolava tanta identificação assim com o trabalho. Acabei criando uma conta pessoal para seguir amigos e postar fotos aleatórias, sem pressão, e desopilei ainda mais daquela rede.

Foi libertador não ter que me preocupar em postar e parar de achar que meu trabalho era medido pelo número de curtidas. Num primeiro momento, a leitura que vocês podem fazer é que hoje eu não vivo de freela e posso me dar ao luxo de não me preocupar em manter redes sociais ativas, mas a realidade é que, mesmo quando eu pegava trabalhos comissionados, raramente eles vinham de redes sociais, mas sim daqui do blog e de indicações. E até hoje, quando surge uma proposta, é porque a pessoa me encontrou pelo blog, ou porque um amigo encomendou algo comigo há alguns anos e me recomendou.

A Camis Gray, ilustradora que adoro, compartilhou um tweet sensato esses dias, que diz:
É realmente interessante dar uma olhada no Behance para comprovar o que a Camis falou. Tem muitos ilustradores que sequer possuem conta no Instagram, mas estão consolidados no mercado de trabalho, realizando projetos em grandes empresas. Outros tantos usam as redes como forma de divulgar trabalhos pessoais, despretensiosos, pois em alguns casos, a confidencialidade faz parte do contrato, e só depois de finalizada é que a peça pode ser divulgada em portfólio.

Quando vejo postagens em grupos de arte e ilustração, nas quais as pessoas estão arrancando os cabelos por engajamento e criando grupos onde tem hora pra postar, curtir e comentar, fico bastante desconfortável. É como se existisse uma ansiedade coletiva para atualizar o feed e receber curtidas; como se isso fosse medir a importância de um trabalho e gerar dinheiro. Vejo até artistas fazendo "estudo de caso" de profissionais com grande número de seguidores (como o Gabriel Picolo, que tem mais de 2 milhões de seguidores no Instagram e hoje trabalha para a DC), esquecendo-se que quem está no "topo" é porque escreveu uma trajetória de muito trabalho até chegar lá. Não existe fórmula pronta.

E dá-lhe reclamação por não ter visibilidade, por ter muita gente que "não merece" e consegue trabalhos legais, e a pessoa ali, imersa naquele círculo vicioso de tomar os outros como exemplo, sem olhar com carinho para o próprio trabalho, sem enxergar o propósito daquilo que faz. Na minha opinião, é isso que tem matado a capacidade criativa de uma geração inteira de jovens artistas. Ter reconhecimento é legal, receber feedback de um grande público é muito bom, mas saber porque você realmente está ilustrando e aonde quer chegar com seu trabalho é melhor ainda, pois é algo permanente.

Vai chegar um dia em que as redes sociais como conhecemos vão desaparecer. Surgirão outras e, com elas, diferentes formas de compartilhar e consumir arte. Pode ser que toda a internet mude a qualquer instante, e não são as pessoas com o maior número de visualizações que vão sobreviver, mas sim aquelas que realmente amam o que fazem e se dedicam a sempre estudar, aprimorar e buscar parcerias de trabalho sólidas que, independentemente do meio, vão buscá-las quando precisarem de alguém para um projeto bacana.

Arte não é um algoritmo, e a nossa vida também não é.

2 comentários:

  1. Massa, Lidy! Tb tenho pensado bastante nesse assunto... esse ano minha mãe descobriu um cancer de mama e estamos todos aqui em casa mto em função de cuidar disso há meses - eu em especial q tou gerenciando tudo - (ela fez cirurgia há 2 semanas e estamos aguardando exames pra saber se terá de fazer quimio). Daí não tenho conseguido produzir mto mto menos postar por n ter tempo e as vezes só n tar com cabeça mesmo. E isso tem me feito refletir mto sobre essas questões todas de como as redes sociais são esquisitas e significam mto pouca coisa... profissionalmente... e tb diante da vida como um todo. Tb me incomoda esse desespero coletivo com relação a curtidas e algoritmo... mas é aquela coisa. As redes sociais se fazem de mais importantes q realmente são. Creio q pra ganhar nossa atenção cada vez mais. Não q eu n goste mais de internet e tal... mas me desencantei um tanto. Enfim... Besos e sempre bom te ler.

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    Respostas
    1. Oi Lila! Desde já mandando tudo de bom pra sua mãe pra sua família toda, que os resultados dos exames sejam positivos e que tudo fique bem logo, logo <3
      Eu tenho me desencantado muito com as redes sociais e com a internet, procuro passar menos tempo aqui do que passava uns 2 anos atrás. Até mesmo no blog, só venho quando quero e me sinto bem para compartilhar.
      Desde que comecei a dar aula e passei a ter contato com uma realidade muito dura, com crianças vindas do sistema, com fome, abusadas, passei a enxergar os "problemas" com algoritmos e coisas do gênero como muito pequenos. Claro que cada um tem a sua realidade e o que é pequeno para mim, pode ser grande para outra pessoa, mas é preciso sair dessa bolha para ver que existe algo maior lá fora.
      Sempre que vejo as pessoas desesperadas em busca de likes, paro e penso se realmente querem compartilhar arte ou se querem fama e números. Sempre gosto de pensar que a internet me deu oportunidade de mostrar trabalhos que ficariam para sempre numa pasta preta, e que eu poderia me conectar com outras pessoas, com os mesmos gostos e que pudessem somar, mas o número nunca foi a meta.
      Por mais que eu tente, principalmente nos grupos, fazer com que as pessoas entendam que tá tudo bem não alcançar o algoritmo, não vejo esse quadro melhorando. Talvez quando as redes que conhecemos acabarem e outras surgirem, com uma nova proposta.
      Bjks

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