Lidiane Dutra
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Libertem a mulher louca


Eu ainda não consigo fazer arte pensando na Mimi, mas todo acolhimento que recebi no post anterior me ajudou a processar um pouco desse luto. Ainda espero as cinzas dela, acredito que, quando pegá-las, um novo ciclo se iniciará. E tenho usado a arte para encarar o luto. Estou fazendo o ótimo curso A Artista em seu Ateliê, da Isabel Carvalho (Um Teto Seu). Cada aula é como um baú de tesouros se abrindo à minha frente. Meu projeto de doutorado segue parado, mas tenho recolhido fragmentos de músicas, pinturas e textos, na ânsia de dar sentido a algo, que ainda não sei o que é, mas parece ser bonito.

Conviver com o luto não é uma tarefa fácil, ainda mais quando é por um animal. Existe muita invalidação. Tento dar sentido às atividades diárias, uma tarefa nem sempre grata. O mundo segue naturalmente, enquanto a pessoa enlutada está numa eterna pausa. Nesse contexto, tive vontade de criar algo. Há mais ou menos uns 10 anos atrás, li pela primeira vez O papel de parede amarelo, da autora Charlotte Perkins Gilman. E tenho me pegado pensando nessa mulher perdendo a sanidade aos poucos, trancada em casa, tentando achar sentido diante de um velho papel de parede amarelo.

Escolhi uma imagem de um frame do filme O Morro dos Ventos Uivantes como base, e pensei nessa mulher louca rasgando o papel de parede com as mãos, tentando achar algo novo ou ressignificado. O papel de parede amarelo segue desgastado, as unhas enegrecidas abrindo sulcos na parede. O que se revela é uma natureza-morta, ou still life (lembrando que o luto tem muitas formas de ser elaborado…). Esse estilo de pintura era muito praticado por mulheres artistas até o século XIX, pois em muitos países era proibido o acesso ao modelo vivo, especialmente o nu, quiçá o masculino.

A natureza-morta passa a ser a composição mais acessível em muitos ateliês de artistas mulheres, ateliês que muitas vezes eram nos ambientes domésticos. Ao rasgar o papel de parede e revelar um still life, a mulher louca se liberta das amarras da sanidade através da arte possível. A arte que está ao seu alcance naquele momento. E elabora o luto com as armas que tem.


A ilustração foi feita no Procreate (minha Apple Pencil estragou e estou usando a caneta da WB, que não perde em nada e tem ótimo custo benefício), e a imagem da pintura vintage é Europeana, via Unsplash. No blog Valkirias tem um texto ótimo sobre O Papel de Parede Amarelo e o quanto de autobiografia a autora colocou no conto.
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Reflexões

carta para a mimi

oficialmente mimi, de mimosa. bibiti, bibita, chimimi, chimima, biti, pois não conheço gato que não tenha uns 50 nomes inventados ao longo da vida.

apareceu na rua da casa dos meus pais, por volta de 2019. um ano antes, tínhamos resgatado a luna na mesma rua. vinha até a porta da casa disputar comida junto com os cães e as pombinhas, junto à sua provável mãe felina. chamou atenção por ser tão linda, o longo rabo peludo. com o tempo, a mãe sumiu. a “gatinha” ficou.

“gatinha, vai pra tua casa!” dizíamos nos dias frios, nos dias chuvosos, nas noites escuras. ela seguia na porta. eu querendo pegar, minha mãe irredutível: já tínhamos a luna.

a gatinha apareceu roliça. prenha. seguia na rua. mas ela tem casa, é daquelas guriazinhas… que foram embora. a gatinha ficou. prenha.

numa noite chuvosa, ela pediu pra entrar. minha mãe não abriu. anos depois, ainda se culpava por isso. no outro dia, no alpendre de uma casa vazia, lá estava a gatinha com seus três filhotes. cheguei do trabalho, peguei a chave da casa na imobiliária e levei a gatinha e os filhotes. naquele momento sussurrei pra ela: tu nunca mais vais sofrer.

ela vai se chamar mimi, pois é muito mimosa. ela fica, os filhotes vamos doar. os filhotes ficaram: a cabeçuda (yoda) e os thundercats tygra e cheetara.

construímos nossa casa e viramos uma família: antonio, eu, sushi, mimi, yoda, tygra e cheetara. por seis anos fomos essa família.

comida, carinho, lareira, cama. mimi dormia em cima de mim ou ao meu lado, de conchinha, embaixo das cobertas. desenvolvi posições para conseguir me virar e dormir com ela ali, que nem fazia menção de se mexer. quando o frio apertava, ela pedia pra entrar embaixo das cobertas, deitava no meu braço, fazia pãozinho na minha barriga.

alternava entre o meu colo e o do antonio. pela manhã, ao acordar, eu gostava de encostar na barriguinha dela, sentir o cheirinho “de dormida”. fazia sonzinhos e dava tapinhas supersônicos para brincar. foi ficando menos arisca, mais relaxada. 

eu olhava pra mimi e dizia “eu te amo” todo dia. achava ela tão linda e tão perfeita. os olhos, o narizinho, o pelo. falava o quanto ela era linda e perfeita. 

no meu íntimo, ela era a minha criança. o mais próximo do instinto materno que passou pelo meu ser. se eu tivesse uma criança, queria que fosse exatamente como ela. 

no meu íntimo, ainda, eu tinha um medo irracional de perder a mimi. tinha medo de doença, da velhice. me achava totalmente despreparada para a hora da despedida.

a mimi tá molinha, disse o antonio. foi numa quarta à noite. ela não saía da mesma posição. suspeitei da pancreatite, que ela já teve. não dormi naquela noite. ela ficou ronronando ao meu lado, mas não dormiu também. duas semanas antes, o yoda teve infecção urinária e ficou internado. eu estava apavorada. no dia seguinte, levamos ela no veterinário. durante a coleta de sangue, uma crise. algo muito sério.

água na pleura. cardiopatia hipertrófica. grave. internação, exame, drenagem. yoda sem conseguir urinar novamente. os dois internados. no retorno pra casa, mimi estava diferente. errática, não queria deitar comigo, não respondia, se atirava no chão frio.

o quadro não melhora. antonio, a mimi não está mais aqui. choro. internação. era sábado. quatro dias.

a temperatura baixíssima, o coração vacilando. progressão: óbito. 

minha filha, eu te amo. se for pra ficar, reage. se não, vai em paz, na luz, tu foste muito amada, eu te amo muito, não quero te ver sofrer. não sofre. ela aperta meu dedo com a patinha.

e como a chama de uma vela, o coração da mimi parou. aos oito anos. ela seguia perfeitinha. tudo nela. parecia que estava dormindo. todos os meus medos se tornando realidade. a minha criança foi embora.

não consigo criar arte pra ti nesse momento, meu amorzinho. eu queria muito. mas não consigo. não aceito. tínhamos tanto ainda pela frente. no laudo dos teus exames, a perfeição do teu corpinho, exceto teu coração. doença silenciosa, que te levou em tão pouco tempo, tanto que os remédios não ficaram prontos a tempo.

a casa está estranhamente silenciosa. nós aguardamos a chegada das tuas cinzas. não consegui te enterrar. pela primeira vez falei em voz alta: eu quero ficar com as cinzas dela, e de todos eles quando chegar a hora, pois quando eu morrer, também quero ser cremada, e aí sim, misturem nossas cinzas para que possamos ficar juntos.

dia 20 farão sete dias da tua partida. ainda chamo teu nome, choro e me desespero. poucas pessoas entendem esse luto, mas as que entendem me dão forças e apoio suficientes. aos 41 anos, pedi: eu quero a minha mãe. não suportei tua partida. perdi meu pai, perdi minha filha, minha criança.

meu amor, me perdoa por não conseguir transformar tua perfeição em arte. sou muito limitada. mas espero, do fundo da minha alma, que no meu regresso ao útero da grande mãe, te reencontre lá. e, mais uma vez, possa gritar: biiiiitiiiiiiiiiiiii

com amor, lidiane.

*esse texto não tem revisão, e não terá.

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