Semana passada terminei o excelente curso A artista em seu ateliê, oferecido pela Isabel Carvalho (Um Teto Seu). Durante quatro encontros, a relação entre a artista e seu espaço de criação foi dissecada, e me fez pensar em várias questões que antes eu não havia dado atenção. Mas também me fez relembrar de dois anos atrás, quando decidi criar uma newsletter. Todo mundo estava criando uma, e eu sentia vontade de voltar a escrever algumas reflexões (já era o bichinho do doutorado batendo na porta), mas não queria tumultuar o blog. Por isso, criei uma conta no Substack, que foi sumariamente implodida alguns meses depois, mesmo com o número de inscritos crescendo rapidamente. Me senti pressionada a escrever algo relevante a cada newsletter, coisa que nunca aconteceu por aqui. Mas valeu a experiência, e acabei guardando todos os textos com carinho.
E justo o primeiro texto falava sobre... o ateliê (o nome da news era Do meu ateliê). Transcrevo parte dele agora, dois anos depois, pois ainda ressoa muito o sentimento que cultivo por esse lugar. Seguem, também, algumas fotos, umas atuais, outras nem tanto, mas que fazem parte da história do meu ateliê.
Quando pensei em criar uma newsletter, o primeiro pensamento que me veio à cabeça foi: quero que as pessoas sintam como se estivessem conversando comigo no meu ateliê, sobre os mais variados assuntos. Se o blog é meu ambiente profissional, nela quero falar sobre tudo, do mesmo jeito que faço em casa, no meu ateliê. Só que esse ateliê não é somente um lugar onde sento para desenhar, planejar aulas ou ler. É um sentimento que cultivo há vinte anos, é um compromisso com a minha arte. E para tornar compreensível para quem me lê, preciso voltar um pouco no tempo e explicar como esse sentimento nasceu.
Entrei na graduação em Artes Visuais no ano de 2005. Na época, o professor de desenho solicitou que tivéssemos, cada estudante, uma prancheta de Eucatex tamanho A3 ou mais, para produzirmos nossos trabalhos numa superfície lisa, visto que nossas mesas e bancadas eram totalmente corroídas por cupins. Essa prancheta foi meu o primeiro ateliê. Eu a colocava sobre a minha cama, e nela produzia meus trabalhos da faculdade e também treinava desenhando catálogos, revistas e qualquer fotografia que pudesse servir de modelo. Eu só queria desenhar.
No último ano de faculdade, uma colega me deu uma mesa de desenho de segunda mão, que ela tinha feito a partir de um tampo de fórmica também usado… essa mesa foi pintada, restaurada e ficou no meu quarto durante anos, sendo minha mesa “oficial”. Ali fui organizando minha pequena coleção de livros técnicos, e os materiais de desenho em canecas. Chegou uma hora que a mesa não aguentou mais, além de começar a ficar desconfortável. Foi aí que comprei uma escrivaninha branca, linda, em estilo provençal. Era meu sonho materializado com o dinheiro que recebia de uma bolsa de trabalho. Agora eu tinha gavetas para guardar meus materiais e um suporte adequado para minha impressora.
Depois comprei uma estante e um livreiro, para acomodar mais livros. E também prateleiras. Tudo isso dentro do meu quarto, na casa dos meus pais, enquanto eu lidava ao mesmo tempo com a felicidade por poder comprar esse mobiliário, e também com a frustração por já ter passado dos 30 e permanecer sem um teto todo meu.
Em 2018, finalmente fui chamada no concurso público para professora que realizei quatro anos antes. E em 2020 eu tinha minha casa. A única coisa que eu falava constantemente para meu companheiro era: eu quero ter um ateliê, a casa precisa ter ateliê. E depois de ponderar espaço e orçamento, decidimos por construir um mezanino para ser esse lugar.
No início, eu não tinha móveis suficientes para completar o espaço. Durante alguns anos, minha antiga cômoda com cara de quarto acomodou papéis e outros materiais. Fui pegando coisas que minha sogra não queria mais, comprando móveis usados, e meu marido fez alguns livreiros para mim. Comprei outra mesa, mais livros chegaram, outros saíram. Coloquei quadros nas paredes. Os gatos têm seus lugares cativos sobre cadeiras, móveis e sofás. E o Sushi tem o péssimo hábito de fazer xixi no piso, que deveria ser de cimento queimado, mas ficou parecendo um contra-piso mal acabado e manchado.
Mas como todos esses lugares se tornaram um sentimento? Quando eu decidi que aquela prancheta de Eucatex seria meu primeiro ateliê, assumi um compromisso com a minha arte, de que não importasse o lugar, o material, o tempo que tivesse disponível, eu sempre abriria espaço para a arte na minha vida, e ela sempre teria lugar em qualquer ambiente que eu estivesse. Meu ateliê já foi o hospital, cuidando do meu pai. Já foi o intervalo do recreio. Já foi sala de espera. É sala de aula.
Fazer questão desse espaço de ateliê dentro da minha casa, numa sociedade que não valoriza os artistas, na qual os aparelhos culturais são negligenciados pelo Estado, e o professor de Artes tem apenas 45 minutos de aula, além de ser um privilégio, é o meu modo de dizer que arte importa, que por mais que as rotinas tentem me afastar dela, é para ela que sempre vou voltar, é o que me move e me dá motivos para continuar trabalhando e continuar criando.
Ateliê é um sentimento para mim, que significa amor, resistência, desígnio. E sigo teimosamente acreditando nesse sentimento.
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