Há muito o que lutar antes de comemorar

8.3.17

Hoje comemora-se o Dia Internacional da Mulher e, rosas e bombons à parte, se formos colocar na balança de um lado as vitórias e do outro os desafios que precisamos superar, o peso está bem desigual e favorável ao segundo quesito, infelizmente. Ainda somos invisibilizadas em nosso trabalho, nossa arte é taxada como lúdica, mesmo quando esta não é a intenção. Somos as musas, mas ainda lutamos para ter o protagonismo além de um nu na tela.

Há mais de 30 anos, o grupo Guerrilla Girls mostra ao público a disparidade entre homens e mulheres (e demais minorias) no mundo da arte e, passado tanto tempo, os números continuam desanimadores. Homens brancos ainda são maioria nos museus, nas coleções e em exposições individuais. Embora a crescente expansão de coletivos formados apenas por mulheres e iniciativas de visibilidade como, por exemplo, o financiamento coletivo de projetos, ainda é muito pequena a participação feminina no mercado de arte (tanto artistas quanto galeristas, curadoras, etc.). Essa matéria, sobre a última ação do GG, traz dados atualizados sobre o tema (está em português de Portugal).


A sensação que fica, pelo menos para mim, é que ser mulher e artista é ter que se provar várias vezes: sempre brota alguém do chão para questionar seus métodos, processo criativo, ou até mesmo para por em dúvida como você conseguiu levantar dinheiro para realizar um projeto. Acredite, o sucesso de algumas mulheres, mesmo que seja algo efêmero e menor que os 15 minutos de fama, incomoda muito homem, que é incapaz de ver na colega uma igual, uma profissional que merece respeito.

E aí dá-lhe comentário anônimo para desmerecer o que a pessoa faz, boicote nos grupos locais, até mesmo criação de clube do bolinha virtual para sacanear as minas. Acredite, isso acontece muito, e a todo momento. Mas também tem competição entre as mulheres... Óbvio, mas isso é resultado desse ambiente patriarcal em que vivemos, que estimula a rixa em vez da sororidade.

Felizmente, o cenário está mudando e cada vez mais artistas se unem para servir de suporte umas para as outras. Precisamos de contatos de trabalho mas, às vezes, o que queremos é alguém que entenda o que passamos e possa nos dar um ombro amigo para desabafar. Se eu vejo um futuro melhor? Sim, com certeza, e a internet tem sido um catalizador de ações e um excelente veículo de divulgação para artistas independentes, mesmo com todo o hate que possa vir junto.

Agradeço imensamente todas as minas que me acompanham, apoiam, dão dicas e puxões de orelha e estão sempre dispostas a crescer e levar consigo o maior número possível de companheiras de jornada. A vocês, meu feliz dia e suporte incondicional, sempre. 💜

Edit: achei que seria desnecessário dizer que a crítica não é ao nu como forma artística, tampouco à demonização do corpo da mulher, mas sim ao sistema que transforma esses corpos em objetos para consumo e deleite, enquanto as artistas são privadas de uma participação maior nos espaços expositivos e, principalmente, dando a sua versão do corpo feminino, livre de estereótipos e das amarras de gênero. Fica aí o reforço. 

Fonte das imagens: Guerrilla Girls

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2 Comentários

  1. Oi Lydi! É triste ler matérias como essa, principalmente quando você faz parte dos números. Não tenho a ilustração como trabalho ainda, mas estou tentando justamente me inserir profissionalmente e sei o quanto é difícil. Infelizmente a falta de respeito ainda é grande :(

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    1. Oi Thaís, é uma luta diária. Para entrar no mercado, para se manter no mercado, para justificar as escolhas desde material até temática nas ilustrações, mas acho válido cada vez mais mulheres denunciando esses abusos, que ficavam escondidos por vergonha, por medo de represália. Hoje já não tenho receio de dizer que o meio artístico é machista, pois encontrei companheiras de jornada. E elas fazem coro, e isso nos dá espaço. E por isso não desanimo :)
      Beijão!

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