Part of your world
Só para constar que participei do Mermay esse ano, com um mês de atraso na postagem e de uma maneira bastante modesta. Ainda não quero voltar a desenhar sereias, ainda mais que veio todo o hype do filme novo.
Usei lápis de cor escolar da Tris e canetinhas com glitter. Valeu pelo exercício, a pose saiu totalmente da minha cabeça, sempre é uma vitória quando consigo deixar as proporções minimamente harmoniosas.
Continue a nadar...
Hekate Astrodia
Hekate Astrodia, a caminhante das estrelas, é um dos muitos epítetos da deusa (para conhecer outros epítetos, acesse este link). Eu venho representando Hekate há alguns anos, e quanto mais estudo, mais agrego informações aos meus trabalhos. Para esse, quis colocar alguns elementos bem significativos, como: o manto, as chaves e a coroa, como também conferir à figura uma postura mais régia, mas também que passasse muita tranquilidade, como um ser que viveu muitas eras.
De acordo com o livro Bruxaria Hekatina, da Marcia C. Silva, numa representação romana que se encontra no Vaticano, Hekate aparece coroada com uma coroa de sete raios. Esses raios, segundo a autora, "são associados com a lua e representam Hekate iluminando a escuridão." (p. 58) Lembrou uma outra estátua famosa? Pois essa associação é meramente especulação, e não há nenhuma comprovação de que existe relação entre a deusa e a Estátua da Liberdade. Já as estrelas "podem simbolizar o papel de Hekate como guia, como os marinheiros faziam na Antiguidade." (p.64)
Usei o papel Aquarela XL da Canson, que não garante uma performance 100%, principalmente na absorção da tinta, por isso, lancei mão das aquarelas da White Nights, que funcionam em praticamente todos os tipos de papel. Assim, consegui preservar todos os efeitos de cor e cobertura que queria.
Fiz o fundo com uma tinta arroxeada bem granulada, em seguida cobri a pele com uma mistura de marrom, ocre e vermelho, e o cabelo com uma camada bem espessa. Depois, fui para o manto. Finalizei com os detalhes em dourado das estrelas (sete em cada lado) e a coroa. O resultado:
Materiais utilizados
- Papel para aquarela XL Canson;
- Aquarelas White Nights;
- Pinceis da Shein;
- Marcador dourado Pentel.
Mulher-árvore
E encontre seu caminho com o vento soprando por trás
Que o sol ilumine o seu rosto
Que a chuva umedeça os seus campos até nos encontrarmos
Que a deusa mantenha no aconchego de suas mãos
Que o círculo se abra mas não se quebre
Que amor da deusa esteja entre nós
Feliz encontro, feliz despedida
Feliz reencontro irmãs
Essa ilustração faz parte dos meus estudos sobre os ciclos femininos e leituras sobre a Deusa Tríplice (donzela, mãe e anciã). Existem muitas representações, principalmente em oráculos, da mulher em suas três fases, personificadas em uma árvore.
A ordem das mulheres no "corpo" da árvore alterna, mas na minha imaginação ela sempre esteve assim: a donzela no tronco, a mãe na folhagem verde, e a anciã na copa, abraçando as outras duas fases. A partir daí, trabalhei alguns simbolismos particulares, sempre com a belíssima Bênção Celta, das Melissas, como trilha sonora.
Comecei como sempre, pela line art, e fui acrescentando tons de marrom, verde, azul e cinza até o ponto que se mesclassem e passassem a sensação de uma árvore com o caule jovem, a folhagem robusta e as folhas secas que, nesse caso, foram representadas em tom grisalho, ao invés de amarelado.
A lua vermelha representa o ciclo menstrual que, nessa narrativa, conduz as três gerações de mulheres (a menarca, o amadurecimento fértil e a menopausa). Tanto a jovem quanto a anciã estão com os olhos fechados, porém, a última está com o terceiro olho (a sua intuição) tão desperto quanto a mulher adulta. O restante dos detalhes fica a critério de cada pessoa que contemplar a imagem. O resultado final:
Materiais utilizados
- Papel para aquarela Canson XL;
- Aquarelas Van Gogh;
- Pincéis Keramik;
- Lápis Polycolor;
- Fundo adicionado digitalmente com Photoshop.
Essa ilustração demonstra a passagem e o valor do tempo, e foi concebida com muita doçura, durante longas e demoradas tardes. Sempre que eu puder ir contra os algoritmos e dedicar tempo de qualidade para minha arte, será um ganho.
Branca de Neve
Era uma vez um rascunho, que permaneceu por bons meses na pastinha encantada dos projetos, e que desejou criar vida através de uma reinterpretação da personagem Branca de Neve. O tema era batido, pensou o rascunho, mas com criatividade e boas referências, poderia dar certo. E foi assim que o rascunho se tornou uma ilustração completa, feita em aquarela, e viveu feliz para sempre.
Eu sou uma entusiasta dos contos de fada em suas versões originais, e acredito que essas histórias seculares, cheias de metáforas e arquétipos, ainda têm muito a nos ensinar, se olharmos para elas de forma crítica, mas também afetiva. Branca de Neve foi uma das primeiras histórias que conheci, lembro da minha mãe comprar um livro com ilustrações muito bonitas quando eu era pequena, e talvez esse seja o conto de fadas que eu mais tenha lido e assistido versões ao longo da minha vida.
E o esboço para essa ilustração não seria a Branca de Neve, só que fiquei tão encantada com uma referência da Mira Miroslavova que pensei: tenho a faca e o queijo na mão para fazer uma reinterpretação só minha. E assim criei algumas thumbnails para pensar na composição das cores e na atmosfera geral do trabalho - algo sombrio e que dialogasse com a versão original do conto e a versão da Disney que todo mundo conhece, só que sem aquele açúcar todo.
Utilizei o papel Arches e as aquarelas da White Nights, que são uma das melhores combinações que já usei, simplesmente não tem erro, é só seguir a ideia adiante. E para esse trabalho, além do estojo de cores tradicionais, usei também as tintas granuladas, principalmente no fundo e no vestido, para um efeito dramático.
E a referência à Disney ficou justamente no vestido, no qual captei a ideia geral e cores do corpete e mangas, mas mantive a cor profunda na saia, ao invés do amarelo ovo. O cabelo é denso e esvoaçante, preso por um laço vermelho. Essa Branca de Neve está perdida na floresta escura, cansada de tanto correr, por isso a manga caída e a expressão de quem está procurando algo distante, além do seu (e do nosso olhar). A maçã envenenada aparece em forma de amuleto em seu pescoço - um lembrete de que todas as pessoas, inclusive as boas, já foram vilãs na história de alguém (vi essa frase no Instagram e amei).
Materiais utilizados
- Papel para aquarela Arches 30g;
- Aquarelas White Nights;
- Lápis de cor Polycolor;
- Marcadores Pentel para os detalhes.
Muito orgulho envolvido na construção dessa pose e dessas mãozinhas. Um dos meus maiores medos, que era desenhar mãos, tem se tornado um dos meus maiores prazeres, já que elas podem comunicar tanto!
Essa ilustração deu tão certo do início ao fim (concepção, cores, execução), que resolvi fazer a aplicação dela numa capa de livro imaginária, seguindo uma sugestão que me deram alguns anos atrás, de utilizar contos em domínio público e criar portfólio em cima deles. É uma brincadeira bem pessoal mesmo, só para ver como ficaria, e curti bastante, achei que ficou muito fiel à atmosfera.
Diagramei também uma página com um trecho do conto, essa tradução tirei do site Contos de Grimm.
E se você se interessou pelo meu trabalho e gostaria de tirar a capa do seu livro do mundo das ideias e trazer para o mundo real (e ter seu final feliz), é só entrar em contato comigo e solicitar um orçamento.
The Season Of The Witch
Já que o outono é a estação das bruxas, nada melhor do que desenhar uma despretensiosamente. Esse é um daqueles rascunhos que tenho guardado há séculos, e que espera o momento ideal para ver a luz do dia. E como tenho lido muitos materiais sobre bruxaria, sinto que vou ficar cada vez mais monotemática em todos os meus trabalhos pessoais.
Minha última leitura foi (finalmente!) Bruxaria Hekatina, da Márcia C. Silva, uma extensa pesquisa da autora sobre a deusa Hekate e, talvez, o livro mais completo em língua portuguesa sobre a deusa e seu culto moderno. A Márcia tem um blog e um podcast, que já mencionei por aqui, e uma das coisas que mais gostei no livro foi conhecer os epítetos, tanto que fiz uma lista com os que mais me tocaram, para um dia fazer uma série (que ainda está no plano das ideias).
Estou usando bastante o sketchbook para técnica mista da Ótima com folhas destacáveis (tipo caderno inteligente) para esses trabalhos despretensiosos. Não é um papel que aguenta aguadas e mais aguadas de aquarela, mas suporta bem uma camada de tinta, para então trabalhar com lápis de cor ou outra técnica seca por cima. Como as folhas são destacáveis, o manuseio também é muito bom e, para mim, que tem uma dificuldade em lidar com cadernos, é uma forma de utilizar o sketchbook de forma gostosa e sem pressão.
Além do sketchbook mencionado, usei minhas tintas e canetas de sempre, e também os lápis Vibes, da Tris, que estou adorando, são lápis com uma qualidade muito semelhante ao Soft Color da Faber-Castell, e com cores lindas e vibrantes.
E esse desenho me lembrou que preciso trocar meu avatar! Já fazem três anos que usei meu projeto do curso da Isadora Zeferino para fazer meu avatar de redes sociais e, desde então, nunca mais troquei. Acho que ele combina muito comigo, mas também sinto vontade de mudar (e alinhá-lo mais com a paleta de cores que uso nas minhas ilustras). Por enquanto, ele vai ficando, mas em breve pretendo mudar. Será que vem uma bruxinha?
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