Matrioska
E assim que comecei a pintar, não parei até terminar toda a base. Como está fazendo um clima muito quente, a tinta seca bem rápido, então para evitar manchas, as aguadas precisavam ser bem generosas - e ao mesmo tempo precisas, pois como já falei, não podia errar hehehehe. Foi um desafio e tanto! Depois de feito todo o fundo, passei uma segunda demão onde precisava e passei aos detalhes dos rostinhos e também os ornamentos, que fiz com caneta dourada.
Optamos também por fazer um sombreado no chão, para que a matrioska não ficasse "voando" no papel. Usei pouquíssimos recursos adicionais à tinta, apenas um lápis de cor para conferir profundidade em algumas partes do rosto e a caneta naquim para o contorno dos olhos e detalhes muito miúdos. De resto, confiei na tinta e confiei no processo.
Detalhe do ornamento, que é igual em todas as matrioskas, para evitar poluição visual. Abaixo, uma foto minha com o trabalho já finalizado para vocês terem uma ideia do tamanho do papel, bem diferente do que estou acostumada a trabalhar.
Materiais utilizados
- Papel para aquarela Arches 100% algodão;
- Aquarelas Talens e White Nights;
- Guache Talens;
- Marcadores Derwent e Sakura para os detalhes;
- Lápis Koh-I-Noor para os detalhes;
- Pincéis sortidos;
- Spray fixador.
Acima, eu feliz com o resultado de um trabalho tão bonito e que adorei fazer. Agradeço à Rami por ter me indicado, à Gabi por confiar no meu trabalho, à outra Gabi, que gentilmente fez a ponte da entrega, e a todos que, de uma maneira ou de outra, continuam me apoiando para que, 14 anos depois, eu continue produzindo arte.
E se você quiser uma arte exclusiva, tradicional ou digital, para chamar de sua, estou com encomendas abertas. Todo o mês, abrirei quatro vagas na minha agenda para comissões de retratos e outros trabalhos que dialoguem com o meu estilo. Se você se interessou, basta mandar um e-mail para lidiane@lidydutra.com ou entrar em contato pelo direct do meu Instagram.
Ceto observa suas filhas
Ceto é a deusa grega associada ao perigos do mar, representando as baleias, tubarões e monstros marinhos. Gerou outros monstros conhecidos da mitologia, como a Equidna, Cilla e as Górgonas (dentre elas, está a Medusa).
Ceto associa-se à Hekate sob o epíteto Krataiis (forte, poderosa, rochosa), como mãe do monstro Cilla. No blog Singing for Her vocês podem encotrar uma explicação detalhada para essa associação.
Quando pensei nessa ilustração, me veio à mente, primeiramente, essa imagem de Ceto buscando suas filhas no mar profundo; imaginei essa mãe vigilante e atenta, procurando as filhas - vistas como monstros pela humanidade, mas ainda assim suas filhas. Também é uma referência aos tenomes, yokais japonses que possuem os olhos nas palmas das mãos (a inspiração mais famosa em um tenome é o Homem Pálido, do filme O Labirinto do Fauno), e também na Medusa de Caravaggio e sua expressão de assombro.
Tenho aproveitado as férias para voltar às origens do modo como pinto: marcando valores, fazendo primeiro a pele, depois acrescentando os detalhes... E para essa ilustra, o mar profundo também se confunde com o céu de tempestade. Acho que isso é um sinal para que eu volte a fazer mais galáxias. Um pouco do processo:
Materiais utilizados
- Papel para aquarela Strathmore;
- Aquarelas Whtite Nights;
- Pincéis da Shein;
- Lápis de cor Polycolor;
- Marcadores Pentel e Derwent para os detalhes.
A Deusa Tríplice
Há algum tempo atrás, encontrei uma linda foto que mostrava a comunhão entre as três idades da mulher - a jovem, a mãe e a anciã - e guardei a referência para depois. Passado algum tempo, fiz um esboço e deixei na minha já famosa pasta dos projetos, aqueles trabalhos que um dia verão a luz, mas que eu deixo marinando para pegá-los no tempo correto. Acredito que todas as ideias nascem e demoram certo tempo para se desenvolverem, é como a semente germinando na terra até se tornar árvore.
E chegou o momento dessa semente germinar. Hoje é um dia muito especial para uma libriana como eu, pois encerra-se um ciclo cármico de 14 anos! E nada melhor do que comemorar com uma aquarela com um forte simbolismo: o da Deusa Tríplice. É muito comum confundir a Deusa Tríplice com Hekate. Mas elas são diferentes.
Hekate tem um aspecto triplo por ter parte nos três domínios (celeste/ terreno/ ctônico). Além disso, ela rege espaços liminares, como a encruzilhada tripla (em formato de Y). Na mitologia romana, Hekate é chamada de Trivia. Já a Deusa Tríplice, geralmente cultuada na Wicca, está associada à lua e suas fases: donzela (nova/crescente), mãe (cheia) e anciã (minguante). Então essa representação que trago hoje é a da Deusa Tríplice, não de Hekate. Eu também já cometi esse engano quando comecei a trabalhar com a Deusa, por isso gosto de explicar.
Essa ilustração foi feita bem do meu jeito mais tradicional, começando marcando as áreas de sombra com lápis e depois com tinta cinza, indo para o colorido da pele, e cada uma das deusas tem uma tonalidade de pele diferente. Depois fui para os cabelos, mantos e retornei para detalhes finos com tinta. Só aí passei para o lápis de cor e as finalizações com marcadores que gosto de fazer.
Esse trabalho me apresentou o desafio da anciã. E estou cheia de projetos envolvendo anciãs. Mas elas exigem um cuidado que ainda é muito novo para mim. Cada linha, cada ruga, a expressão dos olhos, dos lábios, é bem diferente e não pode ficar caricato. Então ainda quero me aperfeiçoar bastante na representação de mulheres mais velhas, para que elas se enxerguem nos meus trabalhos. O resultado:
Materiais utilizados
- Papel Arches grana fina 300g;
- Aquarelas White Nights;
- Pincéis para aquarela sortidos;
- Lápis de cor Polycolor;
- Marcadores Pentel para os detalhes.
Citrus
Sigo estudando desenho digital no Infinite Painter, e dessa vez quis fazer algo que fugisse um pouco da minha paleta de cores habitual. Durante os últimos anos, eu ouvi muito que deveríamos ter uma paleta de cores reduzida. Que isso imprimia personalidade ao nosso trabalho e auxiliava os clientes a nos distinguir dos demais artistas.
Ao longo do tempo, criei basicamente duas paletas: uma para trabalhar figura humana e elementos da natureza, e outra para tudo que envolvia galáxias. Praticamente aboli todas as cores "limão", que considero muito fora da curva, e fui neutralizando minhas cores, evitando algo muito discrepante.
Porém, estou lendo o ótimo livro O ato criativo, do produtor musical Rick Rubin, e num dos capítulos ele foi certeiro: se você tem trabalhado sempre com a mesma paleta de cores, desconsidere-a ao começar um novo trabalho. Pois, ao longo do processo criativo, seguir sempre com o mesmo manual pode nos levar à insatisfação, e é da ordem natural do artista experimentar coisas novas.
Aquilo foi um estalo e tanto na minha mente, e me dei conta que estava com a ferramenta perfeita em mãos para fazer esses experimentos de maneira livre e descompromissada. Por isso, tentei explorar nuances nessa figura que geralmente evito: cores mais blocadas, reduzi o esfumado às áreas de destaque, e escolhi cores mais vívidas, como o laranja em contraste com o verde, e o pêssego (cor do ano da Pantone). Também limpei outros elementos que gosto de exagerar, como cabelos, cílios, detalhes mínimos. O resultado:
Finalizando, coloquei a figura dentro de uma forma abstrata, achei que ficou um bom elemento de design para se aplicar a posters, bolsas, etc.
Quem quiser me acompanhar em tempo quase real, é só me seguir no Instagram, TikTok ou Pinterest.
Sobre frustração e se definir artista
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| Foto de Artiom Vallat na Unsplash |
Esse texto ressoa alguns sentimentos que estão latentes desde 2022 e que eu já havia começado a escrever no início do ano passado, mas que não publiquei. Aproveitando que hoje é um dia portal e Deipnon, vou jogar essas reflexões para o universo, para que encontrem vez e voz em outros corações e mentes.



















