Lidiane Dutra
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Reflexões

Um ateliê é mais que um espaço: sobre construir um sentimento por mais de 20 anos


Semana passada terminei o excelente curso A artista em seu ateliê, oferecido pela Isabel Carvalho (Um Teto Seu). Durante quatro encontros, a relação entre a artista e seu espaço de criação foi dissecada, e me fez pensar em várias questões que antes eu não havia dado atenção. Mas também me fez relembrar de dois anos atrás, quando decidi criar uma newsletter. Todo mundo estava criando uma, e eu sentia vontade de voltar a escrever algumas reflexões (já era o bichinho do doutorado batendo na porta), mas não queria tumultuar o blog. Por isso, criei uma conta no Substack, que foi sumariamente implodida alguns meses depois, mesmo com o número de inscritos crescendo rapidamente. Me senti pressionada a escrever algo relevante a cada newsletter, coisa que nunca aconteceu por aqui. Mas valeu a experiência, e acabei guardando todos os textos com carinho. 

E justo o primeiro texto falava sobre... o ateliê (o nome da news era Do meu ateliê). Transcrevo parte dele agora, dois anos depois, pois ainda ressoa muito o sentimento que cultivo por esse lugar. Seguem, também, algumas fotos, umas atuais, outras nem tanto, mas que fazem parte da história do meu ateliê.


Quando pensei em criar uma newsletter, o primeiro pensamento que me veio à cabeça foi: quero que as pessoas sintam como se estivessem conversando comigo no meu ateliê, sobre os mais variados assuntos. Se o blog é meu ambiente profissional, nela quero falar sobre tudo, do mesmo jeito que faço em casa, no meu ateliê. Só que esse ateliê não é somente um lugar onde sento para desenhar, planejar aulas ou ler. É um sentimento que cultivo há vinte anos, é um compromisso com a minha arte. E para tornar compreensível para quem me lê, preciso voltar um pouco no tempo e explicar como esse sentimento nasceu.

Entrei na graduação em Artes Visuais no ano de 2005. Na época, o professor de desenho solicitou que tivéssemos, cada estudante, uma prancheta de Eucatex tamanho A3 ou mais, para produzirmos nossos trabalhos numa superfície lisa, visto que nossas mesas e bancadas eram totalmente corroídas por cupins. Essa prancheta foi meu o primeiro ateliê. Eu a colocava sobre a minha cama, e nela produzia meus trabalhos da faculdade e também treinava desenhando catálogos, revistas e qualquer fotografia que pudesse servir de modelo. Eu só queria desenhar.


No último ano de faculdade, uma colega me deu uma mesa de desenho de segunda mão, que ela tinha feito a partir de um tampo de fórmica também usado… essa mesa foi pintada, restaurada e ficou no meu quarto durante anos, sendo minha mesa “oficial”. Ali fui organizando minha pequena coleção de livros técnicos, e os materiais de desenho em canecas. Chegou uma hora que a mesa não aguentou mais, além de começar a ficar desconfortável. Foi aí que comprei uma escrivaninha branca, linda, em estilo provençal. Era meu sonho materializado com o dinheiro que recebia de uma bolsa de trabalho. Agora eu tinha gavetas para guardar meus materiais e um suporte adequado para minha impressora.

Depois comprei uma estante e um livreiro, para acomodar mais livros. E também prateleiras. Tudo isso dentro do meu quarto, na casa dos meus pais, enquanto eu lidava ao mesmo tempo com a felicidade por poder comprar esse mobiliário, e também com a frustração por já ter passado dos 30 e permanecer sem um teto todo meu.


Em 2018, finalmente fui chamada no concurso público para professora que realizei quatro anos antes. E em 2020 eu tinha minha casa. A única coisa que eu falava constantemente para meu companheiro era: eu quero ter um ateliê, a casa precisa ter ateliê. E depois de ponderar espaço e orçamento, decidimos por construir um mezanino para ser esse lugar.

No início, eu não tinha móveis suficientes para completar o espaço. Durante alguns anos, minha antiga cômoda com cara de quarto acomodou papéis e outros materiais. Fui pegando coisas que minha sogra não queria mais, comprando móveis usados, e meu marido fez alguns livreiros para mim. Comprei outra mesa, mais livros chegaram, outros saíram. Coloquei quadros nas paredes. Os gatos têm seus lugares cativos sobre cadeiras, móveis e sofás. E o Sushi tem o péssimo hábito de fazer xixi no piso, que deveria ser de cimento queimado, mas ficou parecendo um contra-piso mal acabado e manchado.


Mas como todos esses lugares se tornaram um sentimento? Quando eu decidi que aquela prancheta de Eucatex seria meu primeiro ateliê, assumi um compromisso com a minha arte, de que não importasse o lugar, o material, o tempo que tivesse disponível, eu sempre abriria espaço para a arte na minha vida, e ela sempre teria lugar em qualquer ambiente que eu estivesse. Meu ateliê já foi o hospital, cuidando do meu pai. Já foi o intervalo do recreio. Já foi sala de espera. É sala de aula.

Fazer questão desse espaço de ateliê dentro da minha casa, numa sociedade que não valoriza os artistas, na qual os aparelhos culturais são negligenciados pelo Estado, e o professor de Artes tem apenas 45 minutos de aula, além de ser um privilégio, é o meu modo de dizer que arte importa, que por mais que as rotinas tentem me afastar dela, é para ela que sempre vou voltar, é o que me move e me dá motivos para continuar trabalhando e continuar criando.


Ateliê é um sentimento para mim, que significa amor, resistência, desígnio. E sigo teimosamente acreditando nesse sentimento.
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Libertem a mulher louca


Eu ainda não consigo fazer arte pensando na Mimi, mas todo acolhimento que recebi no post anterior me ajudou a processar um pouco desse luto. Ainda espero as cinzas dela, acredito que, quando pegá-las, um novo ciclo se iniciará. E tenho usado a arte para encarar o luto. Estou fazendo o ótimo curso A Artista em seu Ateliê, da Isabel Carvalho (Um Teto Seu). Cada aula é como um baú de tesouros se abrindo à minha frente. Meu projeto de doutorado segue parado, mas tenho recolhido fragmentos de músicas, pinturas e textos, na ânsia de dar sentido a algo, que ainda não sei o que é, mas parece ser bonito.

Conviver com o luto não é uma tarefa fácil, ainda mais quando é por um animal. Existe muita invalidação. Tento dar sentido às atividades diárias, uma tarefa nem sempre grata. O mundo segue naturalmente, enquanto a pessoa enlutada está numa eterna pausa. Nesse contexto, tive vontade de criar algo. Há mais ou menos uns 10 anos atrás, li pela primeira vez O papel de parede amarelo, da autora Charlotte Perkins Gilman. E tenho me pegado pensando nessa mulher perdendo a sanidade aos poucos, trancada em casa, tentando achar sentido diante de um velho papel de parede amarelo.

Escolhi uma imagem de um frame do filme O Morro dos Ventos Uivantes como base, e pensei nessa mulher louca rasgando o papel de parede com as mãos, tentando achar algo novo ou ressignificado. O papel de parede amarelo segue desgastado, as unhas enegrecidas abrindo sulcos na parede. O que se revela é uma natureza-morta, ou still life (lembrando que o luto tem muitas formas de ser elaborado…). Esse estilo de pintura era muito praticado por mulheres artistas até o século XIX, pois em muitos países era proibido o acesso ao modelo vivo, especialmente o nu, quiçá o masculino.

A natureza-morta passa a ser a composição mais acessível em muitos ateliês de artistas mulheres, ateliês que muitas vezes eram nos ambientes domésticos. Ao rasgar o papel de parede e revelar um still life, a mulher louca se liberta das amarras da sanidade através da arte possível. A arte que está ao seu alcance naquele momento. E elabora o luto com as armas que tem.


A ilustração foi feita no Procreate (minha Apple Pencil estragou e estou usando a caneta da WB, que não perde em nada e tem ótimo custo benefício), e a imagem da pintura vintage é Europeana, via Unsplash. No blog Valkirias tem um texto ótimo sobre O Papel de Parede Amarelo e o quanto de autobiografia a autora colocou no conto.
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Reflexões

carta para a mimi

oficialmente mimi, de mimosa. bibiti, bibita, chimimi, chimima, biti, pois não conheço gato que não tenha uns 50 nomes inventados ao longo da vida.

apareceu na rua da casa dos meus pais, por volta de 2019. um ano antes, tínhamos resgatado a luna na mesma rua. vinha até a porta da casa disputar comida junto com os cães e as pombinhas, junto à sua provável mãe felina. chamou atenção por ser tão linda, o longo rabo peludo. com o tempo, a mãe sumiu. a “gatinha” ficou.

“gatinha, vai pra tua casa!” dizíamos nos dias frios, nos dias chuvosos, nas noites escuras. ela seguia na porta. eu querendo pegar, minha mãe irredutível: já tínhamos a luna.

a gatinha apareceu roliça. prenha. seguia na rua. mas ela tem casa, é daquelas guriazinhas… que foram embora. a gatinha ficou. prenha.

numa noite chuvosa, ela pediu pra entrar. minha mãe não abriu. anos depois, ainda se culpava por isso. no outro dia, no alpendre de uma casa vazia, lá estava a gatinha com seus três filhotes. cheguei do trabalho, peguei a chave da casa na imobiliária e levei a gatinha e os filhotes. naquele momento sussurrei pra ela: tu nunca mais vais sofrer.

ela vai se chamar mimi, pois é muito mimosa. ela fica, os filhotes vamos doar. os filhotes ficaram: a cabeçuda (yoda) e os thundercats tygra e cheetara.

construímos nossa casa e viramos uma família: antonio, eu, sushi, mimi, yoda, tygra e cheetara. por seis anos fomos essa família.

comida, carinho, lareira, cama. mimi dormia em cima de mim ou ao meu lado, de conchinha, embaixo das cobertas. desenvolvi posições para conseguir me virar e dormir com ela ali, que nem fazia menção de se mexer. quando o frio apertava, ela pedia pra entrar embaixo das cobertas, deitava no meu braço, fazia pãozinho na minha barriga.

alternava entre o meu colo e o do antonio. pela manhã, ao acordar, eu gostava de encostar na barriguinha dela, sentir o cheirinho “de dormida”. fazia sonzinhos e dava tapinhas supersônicos para brincar. foi ficando menos arisca, mais relaxada. 

eu olhava pra mimi e dizia “eu te amo” todo dia. achava ela tão linda e tão perfeita. os olhos, o narizinho, o pelo. falava o quanto ela era linda e perfeita. 

no meu íntimo, ela era a minha criança. o mais próximo do instinto materno que passou pelo meu ser. se eu tivesse uma criança, queria que fosse exatamente como ela. 

no meu íntimo, ainda, eu tinha um medo irracional de perder a mimi. tinha medo de doença, da velhice. me achava totalmente despreparada para a hora da despedida.

a mimi tá molinha, disse o antonio. foi numa quarta à noite. ela não saía da mesma posição. suspeitei da pancreatite, que ela já teve. não dormi naquela noite. ela ficou ronronando ao meu lado, mas não dormiu também. duas semanas antes, o yoda teve infecção urinária e ficou internado. eu estava apavorada. no dia seguinte, levamos ela no veterinário. durante a coleta de sangue, uma crise. algo muito sério.

água na pleura. cardiopatia hipertrófica. grave. internação, exame, drenagem. yoda sem conseguir urinar novamente. os dois internados. no retorno pra casa, mimi estava diferente. errática, não queria deitar comigo, não respondia, se atirava no chão frio.

o quadro não melhora. antonio, a mimi não está mais aqui. choro. internação. era sábado. quatro dias.

a temperatura baixíssima, o coração vacilando. progressão: óbito. 

minha filha, eu te amo. se for pra ficar, reage. se não, vai em paz, na luz, tu foste muito amada, eu te amo muito, não quero te ver sofrer. não sofre. ela aperta meu dedo com a patinha.

e como a chama de uma vela, o coração da mimi parou. aos oito anos. ela seguia perfeitinha. tudo nela. parecia que estava dormindo. todos os meus medos se tornando realidade. a minha criança foi embora.

não consigo criar arte pra ti nesse momento, meu amorzinho. eu queria muito. mas não consigo. não aceito. tínhamos tanto ainda pela frente. no laudo dos teus exames, a perfeição do teu corpinho, exceto teu coração. doença silenciosa, que te levou em tão pouco tempo, tanto que os remédios não ficaram prontos a tempo.

a casa está estranhamente silenciosa. nós aguardamos a chegada das tuas cinzas. não consegui te enterrar. pela primeira vez falei em voz alta: eu quero ficar com as cinzas dela, e de todos eles quando chegar a hora, pois quando eu morrer, também quero ser cremada, e aí sim, misturem nossas cinzas para que possamos ficar juntos.

dia 20 farão sete dias da tua partida. ainda chamo teu nome, choro e me desespero. poucas pessoas entendem esse luto, mas as que entendem me dão forças e apoio suficientes. aos 41 anos, pedi: eu quero a minha mãe. não suportei tua partida. perdi meu pai, perdi minha filha, minha criança.

meu amor, me perdoa por não conseguir transformar tua perfeição em arte. sou muito limitada. mas espero, do fundo da minha alma, que no meu regresso ao útero da grande mãe, te reencontre lá. e, mais uma vez, possa gritar: biiiiitiiiiiiiiiiiii

com amor, lidiane.

*esse texto não tem revisão, e não terá.

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Duplo

Esse trabalho começou a ser gestado em janeiro desse ano, e eu demorei exatos cinco meses para finalizá-lo. Fui fazendo tudo muito aos poucos, sem pressa. Passei semanas sem sequer olhar para a folha. No início, eu nem tinha um conceito claro do que ia fazer. Seria somente a figura da parte superior, apoiada numa superfície, em tons de azul e roxo, como se fosse um crepúsculo. Depois, pensei que a superfície poderia ser espelhada. Por fim, tive a ideia de projetar a figura abaixo, como se fosse um reflexo, mas não um reflexo comum. Aqui, as figuras iam se fundir em algum ponto, e o que era apenas uma imagem refletida, passaria a ser um duplo.

Os tons de azul foram substituídos por vermelho, pois tenho um quadro enorme na parede que é nesses tons, e peguei a paleta de lá. As duas figuras têm diferenças sutis entre uma e outra, elas são, mas ao mesmo tempo não são a mesma coisa. E os cabelos se fundem entre o que é real e o que deveria ser reflexo.

Não são gêmeas, não são reflexos, são duplos. Em alemão, a palavra doppelgänger designa o fenômeno desse sósia "do mal" como um ser fantasmagórico, que tenta roubar a vida do outro. Mas não era no doppelgänger que eu estava exartamente pensando enquanto desenhava, mas sim na nossa capacidade individual de encarar os nossos duplos, sejam eles bons ou maus, e lidar com suas consequências.


Se o reflexo no espelho não fosse um reflexo, como reagiríamos?


Materiais utilizados

  • Papel Concept Hahnemuhle 220g;
  • Lápis de cor aquarelável Pentel;
  • Marcadores Uni Pin ponta pincel, Uni Ball dourada e Posca branca.
Este trabalho não utilizou IA generativa.
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O redemoinho

 

O redemoinho é uma arte digital que criei para o ano letivo de 2026 da Rede Municipal de Ensino. Fiz cada um desses peixinhos, um a um, cada um deles tem uma carinha e manchinhas próprias, individuais, como as singularidades que cada um de nós temos também.

O termo redemoinho deriva de um comportamento típico de cardumes, quando os indivíduos se unem em nado sincronizado, em formato espiralado, para escapar de predadores, busca alimentar, reprodução e eficiência hidrodinâmica.

Inspirada pela foto vencedora do concurso BMC Ecology and Evolution 2021, e pelo movimento de circularidade das cirandas, em consonância com a cultura oceânica e a identidade visual construída ao longo de 2025, baseada em azulejos portugueses.

A espiral de peixinhos já tomou conta das escolas da rede e está sendo abraçada por professoras, professores e estudantes. E é impossível falar de espiral sem lembrar desse cântico do Claudiney Prieto:

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