O lugar ideal é você quem faz

20/03/17


Toda vez que posto foto do meu espaço de trabalho alguém comenta que também gostaria de ter um lugar ideal para desenhar, um cantinho sossegado e cheio de inspirações, no qual é possível colocar toda a criatividade para fora. Mas vou contar uma coisa para você: quem faz esse lugar ideal e especial somos nós.

Durante muito tempo, praticamente toda a minha adolescência e graduação, me dividi entre desenhar na mesa da cozinha ou usando a cama e uma prancheta como suporte. Depois, ganhei uma mesa de desenho usada, e ela me acompanhou durante vários anos. Também usava a mesa do computador (nos tempos do monitor de tubo!). Só quatro anos atrás pude comprar minha atual escrivaninha. Estante, livros, prateleiras, materiais... tudo veio com o tempo, e isso não é papo motivacional. Demorei ANOS para ter, literalmente, um canto para trabalhar.

Aí você vai dizer: que ótimo, deve ser sensacional ilustrar na santa paz do seu ateliê! Bom, eu divido a casa com mais três pessoas que, inevitavelmente, vão fazer barulho, até mesmo porque o mundo não para de girar para que eu desenhe. Além disso, soma-se o ruído da vizinhança, dos carros, das sirenes, do carrinho de picolé. Tem dias que acho que vou enlouquecer, sinto dores de cabeça, fico zonza. Mas eu não posso esperar eternamente o lugar ideal. Tenho um lugar real, e preciso extrair dele o melhor que consigo.


Vejo que muitas pessoas (e eu me enquadrei nessa durante um tempo) ficam esperando as condições ideais para começar o trabalho criativo e não avançam nos estudos. Primeiramente, esperam ter tempo; em seguida, desejam um ateliê de fazer inveja à Charmaine Olivia; depois, precisam de materiais caros, cursos em outra cidade/estado/país; por fim, aguardam pacientemente que a fada madrinha bata em sua cabeça com a vara de condão mágica da criatividade infinita. Só que isso não acontece nem nos contos de fada. É preciso começar e, para isso, usamos o que temos à mão.

Se você não der o pontapé inicial nos seus estudos e ficar só fantasiando no feed alheio ou no Pinterest, pouco vai mudar. Porque atrás de cada postagem que um artista faz mostrando seu estúdio, ou seus materiais, existem muitas horas de trabalho, esforço e dinheiro empregado. Já perdi a conta de quantas coisas deixei de comprar, ou de quantos lugares deixei de ir, para poder comprar material. Ano passado mesmo, cheguei a remendar algumas calças para poder pagar o curso da Sabrina (bendita fita termocolante!). E quantas outras vezes me amaldiçoei porque preferi comprar um batom, ou ir no restaurante oriental que curto, porque estaria desperdiçando dinheiro. Mas com o tempo percebi que faz parte do meu processo criativo me alimentar de outras coisas das quais gosto, para manter viva a vontade de criar.


Por que estou escrevendo isso? Para que você, que está aí do outro lado, esperando o momento certo, comece agora. Já. Não espere ter tudo o que acha ser necessário para criar, porque essa lista é infinita. Sempre que você pensar que comprou tudo, que deixou o lugar com a sua cara, aparece uma coisa totalmente inesperada. E não sinta um impulso consumista de ter o que o outro tem porque, como falei acima, por trás de cada post mostrando um ateliê ou uma mesa bagunçada, tem muito trabalho envolvido, nós só conseguimos ver uma pequena parcela, um frame disso (e que, muitas vezes, foi milimetricamente arrumado, em meio ao caos, só para aparecer bonitinho). Comece, essa é a dica de hoje!


Esse vídeo do Jake Parker vem bem a calhar nessa discussão. 😉

Das coisas que ninguém vê: meu edredom de oncinha, as naftalinas e anti-mofos espalhados pela estante com seu vidro trincado e as marcas de tinta que não saem mais da mesa...

Abraços! 💖