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09/02/2018

A Redoma de Vidro (The Bell Jar)


TRIGGER WARNING: esta postagem fala sobre o livro A Redoma de Vidro, de Sylvia Plath, e contém relatos sobre depressão, que podem desencadear gatilhos emocionais. Prossiga com cautela. ❤️


Na última semana terminei a leitura de A Redoma de Vidro (The Bell Jar), livro da autora norte-americana Sylvia Plath, uma obra que sempre tive muita vontade de ler e estava na minha estante há bastante tempo, mas que me deixava com um pouco de receio, por conta do teor da narrativa. O livro conta a história de Esther, uma jovem estudante universitária que, de repente, descobre-se com depressão. Vou deixar o link para o vídeo-resenha da Tati Feltrin, para quem deseja saber mais informações.

É fácil devorar o livro em poucos dias, mas economizei a leitura para não acabar logo. A escrita de Sylvia é muito poética e de fácil compreensão. Demorei um pouco para simpatizar com a personagem principal, no início achei que ela era uma moça mimada, mas quando percebi estava envolvida no seu relato e em como a depressão mudou completamente sua vida.


Deve haver um bocado de coisas que um banho quente não cura, mas não conheço muitas delas. Sempre que fico triste pensando que um dia vou morrer, ou perco o sono de tão nervosa, ou estou apaixonada por alguém que não verei por uma semana, me deixo sofrer até certo ponto e então digo: "vou tomar um banho quente".

A ideia de ilustrar o livro surgiu das imagens que Sylvia cria para a história. A que mais me impactou foi a da própria redoma de vidro ("bell jar" significa campânula, uma espécie de cúpula de vidro muito usada por colecionadores para proteger e, ao mesmo tempo, colocar em exposição plantas, ossos e artigos de antiquário), seguida pelo banho quente do trecho acima; as "cabeças flutuantes", que é como a personagem vai se referir várias vezes a pessoas que estão ou surgem ao seu redor e também os figos e a figueira.

Resolvi representar a personagem Esther, com sua cabeça flutuante na água turva do banho quente, dentro da redoma de vidro. Além disso, aquarelei dois figos - um maduro e outro seco - para marcar outra passagem importante do livro. Confesso que a imagem final da ilustração me incomoda demais. Mas acredito que se ficasse algo muito fofo ou confortável de se olhar, não faria jus ao texto que a inspirou.  O resultado final fico assim:

Utilizei um papel para aquarela antigo, que veio junto do livro Aquarela: o jeito fácil. Desenhei a campânula usando uma cuia para a parte de cima, e régua para as laterais. Fiz uma grande aguada para a parte do líquido se misturando ao cabelo, e o restante da figura trabalhei com aquarela e lápis de cor. O fundo foi inserido digitalmente no Photoshop.

Materiais utilizados

- Papel para aquarela 180g;
- Aquarelas Cotman;
- Pincéis Keramik;
- Lápis de cor Polycolor;
- Bruhes de aquarela para Photoshop.

Para a pessoa dentro da redoma de vidro, vazia e imóvel como um bebê morto, o mundo inteiro é um sonho ruim.

Eu via minha vida se ramificando à minha frente como a figueira verde daquele conto.Da ponta de cada galho, como um enorme figo púrpura, um futuro maravilhoso acenava e cintilava. Um desses figos era um lar feliz com marido e filhos, outro era uma poeta famosa, outro, uma professora brilhante, outro era Ê Gê, a fantástica editora, outro era feito de viagens à Europa, África e América do Sul, outro era Constantin e Sócrates e Átila e um monte de amantes com nomes estranhos e profissões excêntricas, outro era uma campeã olímpica de remo, e acima desses figos havia muitos outros que eu não conseguia enxergar.Me vi sentada embaixo da árvore, morrendo de fome, simplesmente porque não conseguia decidir com qual figo eu ficaria. Eu queria todos eles, mas escolher um significava perder todo o resto, e enquanto eu ficava ali sentada, incapaz de tomar uma decisão, os figos começaram a encolher e ficar pretos e, um por um, desabaram no chão aos meus pés.

A Redoma de Vidro é uma leitura densa, porém muito boa, e confesso que depois dela não sei o que ler a ponto de se igualar à experiência que tive. É também um livro que vai acionar muitos gatilhos emocionais para quem sofre de depressão ou ansiedade, até mesmo pela própria história de vida da autora, que cometeu suicídio aos 30 anos, logo após a publicação de sua obra-prima. Portanto, quem é sensível a esses temas, vá com calma.

Deixe nos comentários suas impressões a respeito dessa interpretação visual que fiz do livro, e se você também o leu, conte sua experiência. Da Sylvia Plath, também tenho um livro chamado Desenhos, com uma série de sketches feitos por ela ao longo da vida. Vou deixar aqui o link para a pesquisa de imagens do Google com alguns desses trabalhos.

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