Lidiane Dutra
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Perséfone n.2

 


Essa ilustração é uma variação feita logo depois da primeira Perséfone, publicada aqui ontem. A única diferença é que usei uma caneta nanquim para fazer a cobertura do manto, e um lápis branco para as dobras do tecido. De resto, tudo igual.




Novamente a edição está com bastante ruído, mostrando todos os detalhes da folha, propositalmente. Em tempo: hoje é celebrado O Rito de Seus Fogos Sagrados, dedicado à Hekate. A Deusa tem papel fundamental no mito de Perséfone, ao mostrar para Deméter o que havia acontecido com sua amada filha.   

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Perséfone n.1

 


As últimas semanas têm sido de uma espera estranha. Esperamos a água baixar, esperamos o vento virar, esperamos a água descer do Guaíba e olhamos nos mapas as áreas que vão alagar. E seguindo os passos da Sue, não serei testemunha da enchente, não vou poetizar em cima da tragédia de tantas pessoas, no alto do privilégio que tenho neste momento. Acredito que a arte precisa ser política, consciente, social e, agora, temos várias ações acontecendo para que os artistas e profissionais criativos do RS mantenham seu sustento, como a Contrate RS. 


Lá pela 43ª ilustração do cavalo caramelo em cima do telhado, fiquei me questionando se a arte está sendo mesmo política, de denúncia, ativista, ou apenas entrando na onda em busca de visualizações (tenho a mesma sensação com artista que publica caricatura instantaneamente após a morte de algum famoso). E nada contra quem está fazendo isso, se no final estão ajudando quem precisa com pix, cesta básica, cobertor, abrigo.  


Neste momento, arte para mim significa fuga. Da realidade, dos problemas, desse cotidiano que já vinha massacrando desde antes (2024 tem sido especialmente difícil para qualquer professor). Então fugi para aquele meu lugar seguro, com lápis e papel na mão, uma profusão de figuras e cabelos que me acalmam enquanto espero. E ninguém melhor para representar do que a deusa do submundo e da primavera: Perséfone.



Perséfone, para mim, é o epítome da fuga consciente em direção ao inconsciente. Só descendo ao submundo dos nossos medos, e passando uma temporada com eles, é que podemos emergir com plena consciência de quem somos e do que queremos. Nem sempre a beleza está no lado primaveril da vida, o inverno também ensina lições sobre recolhimento, autoaceitação e o movimento de deixar algo morrer para renascer de outro jeito.



O material utilizado foi o papel Concept da Hahnemühle e o lápis 5B Bruynzeel da Sakura. Deixei a edição da imagem propositalmente menos polida, para mostrar as texturas do papel e do lápis.

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Arte e Medo

 


Disclaimer: O Rio Grande do Sul está em estado de calamidade pública, devido às enchentes que atingiram quase 90% das cidades. O site AJUDA-RS tem uma lista atualizada de locais para doação, vaquinhas confiáveis, pessoas e animais encontrados, abrigos e voluntariado. Ajude o RS doando, compartilhando e apoiando os gaúchos. Apoie artistas, editoras, agentes culturais que foram atingidos pelas enchentes. Se não puder doar, mande uma mensagem para aquela pessoa que mora no RS, certamente sua preocupação faz diferença nessa hora. Eu estou bem, a salvo, mas a minha cidade também precisa de ajuda. Para ajudar Rio Grande, em específico, recomendo seguir o perfil SOS Rio Grande.

Meu último post foi sobre o livro O Ato Criativo, cheio de ressalvas quanto a abordagem privilegiada do autor. Mas Arte e Medo: observações sobre os desafios (e recompensas) de fazer arte, lançado originalmente em 1993 e traduzido agora pela Seiva, vai totalmente na contramão da leitura anterior.

O foco da obra é no fazer artístico - o fazer de pessoas comuns, fazer que nem sempre será reconhecido, vendido ou exposto num museu, mas que carrega significado e importância para quem o faz. Em tempos de documentar a vida na internet, para deixá-la para uma posteridade que sabe-se lá se virá ou não, um livro com mais de 30 anos vem nos lembrar que a boa arte é aquela que faz sentido para quem a produz, e que reconhecimento, fama ou qualquer outra contrapartida é quase um efeito colateral.

...as únicas pessoas que vão se importar com seu trabalho são aquelas que se importam pessoalmente com você. Aquelas próximas o bastante para saber que fazê-lo é essencial para o seu bem-estar. Elas sempre irão se importar com o seu trabalho, se não por ser excepcional, por ser seu... (p. 19)

Arte e medo não é um livro carregado de receitas, não ensina a ganhar seguidores e nem a fazer seu trabalho bombar. É um livro que fala muito mais à solidão do artista, aquela da página em branco, e ao medo de iniciar um novo projeto, de não ser bom o suficiente, de se tornar uma farsa ou uma cópia. É o tipo de livro "de ateliê", que nos coloca de novo nos trilhos, quando parecemos estar perdidos no meio do nosso próprio processo.

Na verdade, uma das poucas certezas sobre a cena artística contemporânea é que alguém, que não é você, está decidindo qual arte - e quais artistas - faz parte dela. São tempos difíceis para a modéstia, a artesania e a ternura. (p. 78)

Apensar de ser fininho, a leitura não é tão rápida assim, pois nos faz pensar, recordar, dar voltas e criar cenários e discussões em nossa cabeça. O medo é algo que vai nos acompanhar durante a jornada artística, mas, na minha opinião, a solidão é o ponto-chave do livro e como vamos aprendendo a conviver com ela - muito mais do que o receio de qualquer coisa.

Uma das partes que mais me pegou foi sobre arte e docência, pois passo por isso na minha rotina:

Quem leciona já conhece o padrão. Ao final da semana escolar, o sujeito tem pouca energia sobrando para qualquer atividade artística mais exigente do que preparar argila ou limpar pincéis. Ao final do semestre, dar atenção aos trabalhos inacabados (e aos relacionamentos desgastados) pode muito bem ser mais urgente do que criar qualquer arte nova. Existe um risco real (e com exemplos abundantes) de que um artista que leciona descambe para algo muito menor: um professor que costumava fazer arte. (p. 88)

Após concluir essa leitura, fiquei pensando o por quê artistas precisam de obras assim, que validem seus sentimentos e sua prática (não vejo o mesmo interesse em publicações para cirurgiões, advogados ou engenheiros). Trabalhar com a área de humanas e com subjetividades nos leva a ser testados o tempo todo, e isso é bastante cansativo, pois o trabalho não acaba ao chegar em casa, ele está sempre permeando tudo e bebendo de todas as fontes para ser feito. 

Talvez seja uma das tantas lições que uma sociedade focada na produtividade e na performance deva aprender: que a arte nem sempre vai gerar um produto, nem sempre terá uma utilidade, ou uma explicação óbvia para o restante das pessoas.

Já falei: Sobre frustração e se definir artista

5★
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