Lidiane Dutra
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Deméter

 


Após representar por duas vezes uma jovem mulher (aqui e aqui), decidi resgatar o rascunho de uma anciã e me voltar para os lápis de cor. Não estou conseguindo fazer nada com aquarela, nada que remeta levemente à água. Quando terminei esse trio de mulheres, concluí que estava diante das deusas Perséfone e de sua mãe, Deméter.


No curso As chaves de Hekate, a Márcia C. Silva fala da confusão que fazemos ao associar Hekate com a anciã no mito de Perséfone. Se analisarmos a tragetória das deusas, Hekate seria a virgem, Perséfone a mãe e Deméter a anciã. E faz todo o sentido quando estudamos os mitos com um olhar mais cuidadoso. Deméter é a deusa grega da colheita e da agricultura. Quando sua filha foi raptada por Hades, fez a terra mergulhar no inverno, impedindo que as plantas crescessem. 


Embora a descrição da deusa fale de seus cabelos loiros, essa representação traz consigo o prata azulado de uma cabeleira grisalha. 



Tomei o cuidado de fazer as linhas com grafite vermelho, para não ficar uma marcação feia ao final. Não usei canetas para os contornos (com excessão dos olhos), tudo foi feito com lápis de cor, para manter a suavidade.



É impossível não lembrar de outro trabalho meu, de oito anos atrás: a Sereia que fiz para um projeto chamado Ilustraday. As duas figuras estão praticamente na mesma posição e com o mesmo olhar, é bonito pensar que está acontecendo uma passagem de tempo no meu trabalho, assim como na vida, abraçando todas as idades da mulher.



Os materiais utilizados foram o papel Concept da Hahnemühle, e os lápis de cor Vibes da Tris. Novamente, a edição está mais crua, mostrando todas as texturas do papel e dos lápis.



Em mais um dos sinais que o universo me manda, acabei contemplando os Mistérios de Elêusis nessas três figuras, e nessa semana de lua cheia. Khaire! 

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Perséfone n.2

 


Essa ilustração é uma variação feita logo depois da primeira Perséfone, publicada aqui ontem. A única diferença é que usei uma caneta nanquim para fazer a cobertura do manto, e um lápis branco para as dobras do tecido. De resto, tudo igual.




Novamente a edição está com bastante ruído, mostrando todos os detalhes da folha, propositalmente. Em tempo: hoje é celebrado O Rito de Seus Fogos Sagrados, dedicado à Hekate. A Deusa tem papel fundamental no mito de Perséfone, ao mostrar para Deméter o que havia acontecido com sua amada filha.   

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Perséfone n.1

 


As últimas semanas têm sido de uma espera estranha. Esperamos a água baixar, esperamos o vento virar, esperamos a água descer do Guaíba e olhamos nos mapas as áreas que vão alagar. E seguindo os passos da Sue, não serei testemunha da enchente, não vou poetizar em cima da tragédia de tantas pessoas, no alto do privilégio que tenho neste momento. Acredito que a arte precisa ser política, consciente, social e, agora, temos várias ações acontecendo para que os artistas e profissionais criativos do RS mantenham seu sustento, como a Contrate RS. 


Lá pela 43ª ilustração do cavalo caramelo em cima do telhado, fiquei me questionando se a arte está sendo mesmo política, de denúncia, ativista, ou apenas entrando na onda em busca de visualizações (tenho a mesma sensação com artista que publica caricatura instantaneamente após a morte de algum famoso). E nada contra quem está fazendo isso, se no final estão ajudando quem precisa com pix, cesta básica, cobertor, abrigo.  


Neste momento, arte para mim significa fuga. Da realidade, dos problemas, desse cotidiano que já vinha massacrando desde antes (2024 tem sido especialmente difícil para qualquer professor). Então fugi para aquele meu lugar seguro, com lápis e papel na mão, uma profusão de figuras e cabelos que me acalmam enquanto espero. E ninguém melhor para representar do que a deusa do submundo e da primavera: Perséfone.



Perséfone, para mim, é o epítome da fuga consciente em direção ao inconsciente. Só descendo ao submundo dos nossos medos, e passando uma temporada com eles, é que podemos emergir com plena consciência de quem somos e do que queremos. Nem sempre a beleza está no lado primaveril da vida, o inverno também ensina lições sobre recolhimento, autoaceitação e o movimento de deixar algo morrer para renascer de outro jeito.



O material utilizado foi o papel Concept da Hahnemühle e o lápis 5B Bruynzeel da Sakura. Deixei a edição da imagem propositalmente menos polida, para mostrar as texturas do papel e do lápis.

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