[Blogagem coletiva] #stopthebeautymadness na vida e na arte

24/09/14

Este post faz parte da blogagem coletiva do Rotaroots, um grupo de blogueiros saudosistas que resgata a velha e verdadeira paixão por manter seus diários virtuais. 

Relutei bastante em escolher os temas propostos este mês no Rotaroots porque achei que nenhum se encaixava à temática do blog (já aconteceu outras vezes, mas acabo mudando de opinião). A inspiração só veio mesmo depois de ler o discurso feminista da Emma Watson, a opinião da Giza Souza sobre o Desafio Sem Make e este post da Lola, além de um desabafo da Melina sobre corpo alheio que, infelizmente, ela tirou do ar (antes que digam qualquer coisa, entendi perfeitamente o que ela quis passar).

Em 2012, juntamente com o querido Jeronimo Sanz, fiz uma série chamada Quatro Elementos e a última ilustração gerou alguns comentários capciosos. Sem terem sido indagadas sobre, algumas pessoas vieram até mim dizer que a figura tinha ficado feia e nariguda. Confesso que foi ali que acendi o sinal vermelho para muitas questões envolvendo minha arte. Gostaria de saber porque uma mulher com nariz fora do padrão não pode ser representada?

Sempre - desde as priscas eras da faculdade - recebi acusações por desenhar mulheres com "cara de boneca". Teve muita gente dizendo que nada do que eu desenhava valia a pena, pois qualquer um fazia. Isso me gerou um trauma de anos e uma difícil recuperação, do traço e da confiança.

Aos poucos, fui transformando minha maneira de ver a arte e as questões de gênero. O primeiro contato veio nas aulas de História da Arte (beijo, Ivana!), através dos trabalhos do grupo Guerrilla Girls. A Olímpia delas é emblemática:


Naquela época tudo era incipiente e eu estava mais para absorver o máximo de informação do que refletir sobre. Isso só aconteceu anos depois. O que tudo isso tem a ver com minha arte hoje e com a proposta do Stop the Beauty Madness, tema especial da blogagem de setembro, é que padrões de beleza existem desde os tempos mais remotos e nós, mulheres, estamos sujeitas a eles - infelizmente - na vida real e na arte.

Das mulheres com "cara de boneca" até a busca por identidade na minha arte, tenho feito um longo percurso. Posso ter começado através de estereótipos sim, como muitas outras meninas, mas o que desejo e me esforço é para colocar a figura feminina como protagonista de minhas obras. Escolher outras formas de representar essa mulher, em todos os seus matizes (branca, negra, magra, gorda, loira, ruiva, índia, cis, hétero, gay, trans*...) é algo que tem sido construído no meu repertório, com a ajuda de grupos como o Selfless Portraits das Mina, retratos comissionados de gurias reais e vontade de aprender. E isso precisa partir de mim, não de alguém disposto a apontar o dedo  para o que faço, deliberadamente.

Então, convido a todxs que chegaram até aqui a parar de criticar absurdamente a arte feita por mulheres, já que os padrões seguidos há muito tempo são ditados por uma sociedade machista e patriarcal, que nos mede, nos pesa e diz o quanto valemos. Que decide se entraremos em museus como telas, meras passantes ou produtoras de arte. Essa desconstrução virá de nós, para nós. E cada uma, no seu tempo, encontrará espaço para fazer mulheres com todas as caras e corpos. De boneca ou não.

Vai ter mulher de todo tipo e, se reclamar, vai ter mais.
E antes que alguém venha aqui dizer "ai, mas teu texto está contraditório, porque se te diziam para parar de fazer mulher com 'cara de boneca' e tu acabou chegando a essa conclusão, eles estavam certos...", pare, agora. Porque 99,9% daquelas pessoas que me diziam isso, o faziam no intuito de que eu parasse de desenhar do meu jeito, para fazê-lo do jeito delas. Aí reside o x da questão, pois novamente é um padrão que se estabelece. E decidir como representarei minhas mulheres diz respeito a mim e às minhas referências. Daí a importância da desconstrução interna desses estereótipos impostos desde sempre. Ok?! ;)

Abraços,
Lidiane :-)