Arte é trabalho

06/08/17


Então Elementais passou... ontem fiz as últimas entregas dos prints vendidos (só sobraram dois!) e encerro, de vez, esta etapa proveitosa, porém cansativa, do meu ano artístico. Não espero voltar a expor tão cedo, pois minha vida parou para que eu pudesse dar conta de toda a carga física e emocional que esse tipo de atividade representa.

Talvez para quem esteja de fora, seja difícil compreender tudo o que envolve montar uma exposição. Recentemente reli o ótimo livro Reflexões sobre a Arte, do Alfredo Bosi, no qual o autor faz alguns apontamentos muito interessantes. Um deles é de que arte é um fazer humano, um conjunto de atos pelos quais se transforma o que a natureza e a cultura nos oferecem. O mesmo reitera que, por se tratar de uma produção, logo, a arte pressupõe trabalho. A própria distinção entre artista e artífice vem muito mais de uma separação econômica e social do que das diferenças entre o trabalho criativo de um ou outro.

Mas não é raro que uma parcela de pessoas fique com a impressão de que é fácil reunir um número x de obras para serem exibidas, afinal, o artista faz o que gosta e, naturalmente, tem um dom para isso. São tantos equívocos que fica difícil sistematizar, mas vou tentar: em primeiro lugar, todo profissional deveria gostar minimamente do que faz, e isso não vai impedir que momentos estressantes aconteçam, é natural. Segundo, dom não existe. Dizer que alguém tem o dom de desenhar é eliminar qualquer traço de estudo para se aprimorar. Recomendo dois vídeos interessantes sobre o assunto, um da Alê Presser e outro da Ana Blue.

Por trás das ilustrações plenamente alinhadas nos expositores, existe um mundo de trabalho que deve ser reconhecido, a começar pelo criativo: a concepção e execução das ideias, para posterior finalização e tratamento digital. Depois disso, o processo é puramente burocrático: colocar essas artes para venda, ficar de olho nos plágios, atualizar o portfólio e as redes para conseguir mais clientes. Sem contar as horas dedicadas aos estudos. Fora que, na grande maioria das vezes, o artista executa sozinho todas as atividades, desde a ideia que gerou o primeiro esboço, até a fila dos Correios para despachar uma encomenda. É por isso que esse processo não pode desaparecer sob a desculpa de ser fácil ou dom.

Para Elementais, tive que definir praticamente sozinha uma série de pormenores (tive ajuda do Antonio no serviço pesado): me reunir com a assessoria do shopping para escolher o mês; definir a quantidade de trabalhos, o tema e quais ilustras se encaixavam (foram horas planejando somente isso); pesquisar formatos de impressão e orçamentos em gráficas da cidade e de fora; me deslocar até outra cidade para buscar o material impresso; definir o valor final das peças e como as venderia; me programar para o dia da montagem e preparar o esquema de colagem, legendas e códigos interativos; divulgar fortemente, todos os dias; tirar fotos e comentar nas de quem me visitou; responder mensagens com dúvidas dos clientes; monitorar as peças reservadas; ir de vez em quando verificar se estava tudo bem com o material; marcar o dia e hora da desmontagem; desmontar com cuidado para não danificar; deixar o local limpo; fazer o acabamento, embalar e entregar os trabalhos vendidos; monitorar os pagamentos; não esquecer de fotografar e registrar todos os processos - de notas fiscais a e-mails.

Paralelo a isso segui trabalhando, produzindo, atualizando as redes com outras coisas, respondendo outros clientes, tentando estudar e viver um pouco. Então é muito importante criar a consciência coletiva de que quem faz o que gosta, geralmente em profissões criativas (ilustração, música, dança, teatro, animação de festa infantil, hora do conto e por aí vai), tem um trabalho como qualquer outro.

Outra coisa que acontece, frequentemente, é a supervalorização da aura artística, da arte como processo extraordinário, porém, sem fim comercial. Vejo muitos colegas acadêmicos condenarem quem, assim como eu, aceita encomendas, reproduz e vende seus trabalhos, através de uma leitura equivocada do ensaio de Walter Benjamin, publicado em 1936, chamado A obra de arte na era da sua reprodutibilidade técnica. Eu também acredito que o momento da criação é único e que a obra original carrega em si um significado que perdurará muito mais do que uma reprodução, porém, vivemos num mundo conectado, interativo, no qual o público pode acompanhar em tempo real o trabalho de seu artista favorito e, neste cenário, é compreensível que produtos, prints e até mesmo obras totalmente virtuais (como wallpapers para celular, por exemplo) sejam apreciadas - e vendidas. Inclusive, considera-se aqui o caso de ilustrações digitais, que só existem no computador mesmo, fazendo com que toda impressão seja uma espécie de original.*

Eu não quis escrever esta postagem para reclamar, pois só tenho a agradecer por ter mostrado meu trabalho e vendido a grande maioria, além do carinho e comparecimento em massa do público, que não só visitou, como fez questão de me ajudar na divulgação. Meu objetivo é dar visibilidade para este "outro lado" do processo criativo, que envolve burocracias, suor e problemas, mas que, mesmo assim, é uma parte importante do todo e deve ser encarada com a devida seriedade. E se for de interesse dos leitores, posso dar dicas para quem deseja montar uma exposição, a partir das minhas experiências.

Abraços,
Lidiane 💖

*Editei este parágrafo em 10/08 para melhorar a compreensão das minhas ideias.