Kali ūüĆļ

17/01/23


Kali é uma Deusa Negra hindu (para aprofundamento no conceito das Deusas Negras, recomendo fortemente a leitura do livro Mistérios da Lua Negra, de Demetra George), também relacionada ao aspecto triplo (criação, preservação e destruição). Ela controla o poder do tempo, que a tudo devora. De acordo com Claudiney Prieto, no livro Todas as deusas do mundo:

    Kali √© uma deusa muito antiga. Sua pele negra demonstra que ela pr√©-data a invas√£o ariana, de pele clara, no continente indiano. Esse conflito torna-se vis√≠vel em muitos mitos em que Kali se esfor√ßa para defender seu povo contra invasores. A paix√£o e a ferocidade de Kali s√£o divididas em seu aspecto de Deusa pr√©-ariana e como consorte de Shiva, que inspira o seu poder de Shakti ou energia feminina.

    Os invasores introduziram a cultura dos Deuses patriarcais na √ćndia, mas Kali continuou a ser cultuada por v√°rias tribos matriarcais, como os Shabara de Orissa. (p. 163)

Kali √© retratada de muitas formas e possui tamb√©m muitos ep√≠tetos. Em sua representa√ß√£o mais conhecida, ela apresenta longos cabelos pretos, a l√≠ngua estendida para fora, dentes afiados e brancos, v√°rios bra√ßos (o n√ļmero de bra√ßos varia) e um colar de cabe√ßas ou cr√Ęnios, dentre outros simbolismos. Na arte popular indiana, as divindades de pele negra s√£o retratadas na cor azul, por isso Kali (a negra) aparece sempre dessa cor. Tamb√©m acompanha as representa√ß√Ķes de Kali o hibisco vermelho, que representa sua l√≠ngua.


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Eu n√£o vou me aprofundar nos mitos e lendas indianos, prefiro sempre indicar um livro com um estudo mais denso. Os dois livros que cito acima s√£o muito bons, mas para quem deseja ler um texto na internet, recomendo este aqui: Kali: a mulher mais poderosa do universo.


Fazer a representação de uma divindade de outra cultura, principalmente oriental, sempre é inquietante, pois me coloca de frente à questão: estou fazendo uma leitura respeitosa dessa cultura ou cometendo um ato de apropriação cultural? E acho importante, enquanto artista, não me escorar na "liberdade criativa" para realizar um trabalho vazio e até mesmo ofensivo.


Por isso, quando li Mist√©rios da Lua Negra, dentre outros livros, e tomei contato com Kali, assim como tem acontecido com outras divindades, decorrente do meu estudo sobre bruxaria, entendi que poderia utilizar os meus conhecimentos para represent√°-la com o m√°ximo de respeito e unidade, e que n√£o se tornasse um trabalho puramente est√©tico e sem sentido. Eu n√£o queria tomar decis√Ķes que visualmente parecessem bonitas, mas que desrespeitassem a religi√£o e a espiritualidade de outras pessoas. E espero ter conseguido isso, tomando as decis√Ķes que vou explicar a seguir. 



A primeira atitude que tomei foi procurar representa√ß√Ķes de Kali na internet, e achei muitas imagens, que dividi em duas categorias: as imagens tradicionais indianas, que seguem a corrente popular de representa√ß√£o, com cores muito saturadas, aten√ß√£o aos detalhes e uma fisicalidade como se fosse uma escultura representada na pintura; e as imagens ocidentalizadas, que mostram uma imagem embranquecida da deusa, geralmente com um corpo mais magro, com tra√ßos ocidentais, com a express√£o suavizada, e com uma paleta de cores mais neutra.


Eu quis me afastar das imagens ocidentalizadas, por entender que elas representam um whitewashing gigante, assim como j√° acontece com outras figuras orientais, que sempre t√™m suas caracter√≠sticas culturais substitu√≠das por caracter√≠sticas ocidentais alinhadas ao padr√£o est√©tico dominante. Por isso, mantive tanto a paleta de cores, como a express√£o facial de f√ļria o mais pr√≥ximo poss√≠vel das imagens tradicionais. Mesmo colocando o meu olhar, e optando pelo retrato, que √© meu foco, esse foi o ponto que me guiou, nem que eu tivesse que sair da minha paleta de cores ou da minha zona de conforto neutra. E foi a partir da√≠ que constru√≠ a figura.



Outro ponto √© que, nas imagens tradicionais, geralmente Kali est√° com o rosto em meio perfil, por isso tamb√©m quis manter essa representa√ß√£o. O azul √© muito saturado, e se acentua no rosto, com todo sombreamento em preto, que geralmente n√£o uso. Para essa ilustra√ß√£o, fiz toda a base com aquarela (√ļmido sobre √ļmido) e complementei os contrastes com l√°pis de cor. Os cabelos s√£o uma massa escura e esvoa√ßante. Suas joias s√£o em tons dourados com detalhes em pedraria, que se complementam nos hibiscos (em tons de vermelho vivo e vermelho alaranjado) e no fundo da imagem. Sobre o colar de cr√Ęnios, coloquei 7 em evid√™ncia, por ser o n√ļmero regente do ano de 2023, e por n√£o conseguir colocar a varia√ß√£o total de cr√Ęnios, que pelas minhas pesquisas fica entre 51 e 108.



Materiais utilizados

  • Papel para aquarela 100% algod√£o Hahnem√ľhle;
  • Aquarelas White Nights;
  • L√°pis de cor Albrecht D√ľrer e Bruynzeel;
  • Pinc√©is que comprei na Shein;
  • Marcadores Pilot e Derwent.

O resultado desse trabalho me encantou e me trouxe muita paz. Não sei se consegui integrar meu pensamento com a minha prática e tornar essa representação respeitosa o suficiente, por isso estou aberta às críticas de quem segue o hinduísmo e viu incongruências na ilustração. Vou deixar aqui um vídeo mostrando detalhes que a digitalização não pega, e também um trecho do Claudiney Prieto:


    Kali √© a corporifica√ß√£o da viol√™ncia feminina, protetora do cora√ß√£o, aquela que vem para nos afastar de tudo o que n√£o √© verdadeiro. √Č a feroz energia da psique, a luz da discrimina√ß√£o, a espada do conhecimento, o poder para reconhecer o que precisa ser feito. A espada de Kali se transforma e redefine nossas vidas, nos afiando e nos esculpindo, trazendo a ordem para fora do caos, nos ensinando os significados, as belezas e os prop√≥sitos de nossas vidas. Kali √© a sombra fertilizadora, a guardi√£ da profunda escurid√£o vazia, os sempre mutantes ciclos do tempo. (p. 166)