Eu fui, eu tava: Ensino remoto raiz

09/08/2021


A querida Re, do blog Mulher Vitrola, lançou uma Blogagem Coletiva (já participei de várias) muito especial, um grande encontro de gerações, para falar sobre coisas nostálgicas que vivemos e épocas marcantes das nossas vidas. O tema eu fui, eu tava é para unir todas as tribos, como o Norvana...

Eu resolvi falar de uma coisa que está bastante em alta (e enquanto professora, estou participando em modo hard), mas na sua forma raiz: o ensino remoto. Lá nos idos do filme Titanic, antes da internet e dos tutoriais sobre absolutamente tudo, vi uma propaganda do Instituto Universal Brasileiro numa revista, e resolvi me inscrever. Eu era uma adolescente morando no interior, com pouco acesso a qualquer coisa mais "atual", e tinha uma vontade absurda de melhorar meu desenho, mas as seleções para a Escola de Belas Artes da cidade não estavam nos planos da minha família. Então peguei minha mesada e investi no curso de Desenho Artístico, Publicitário e Pintura.

Funcionava assim: todo mês eu recebia uma apostila pelo correio, e elas se alternavam entre os três temas do curso: desenho artístico, publicidade e pintura. Periodicamente, também, vinham as avaliações. O curso era apostilado e o tira-dúvidas era por telefone, ou então no acompanhamento das avaliações, ou seja: falar com o professor era uma tarefa impensável, se comparada aos dias de hoje.

Eu só consegui enviar uma avaliação, pois tive muita dificuldade em encontrar os materiais para realizar o curso, principalmente a parte do desenho publicitário. Mas paguei tudo e fiquei com as apostilas e, ao longo dos anos, principalmente os que antecederam a faculdade, fui estudando aqueles fundamentos ali. A parte publicitária ficou bastante defasada e, com o tempo, me desfiz dela. Mas a de desenho e pintura é muito boa, e dá uma ótima base para quem quer começar a desenhar, num modo mais tradicional (gesture, por exemplo, não é abordado).

Separei algumas fotos dessas apostilas e gostaria de ir comentando ao longo do post:


Essas acima são as apostilas do curso de Pintura. Um dos primeiros conteúdos abordados é a teoria das cores e o círculo cromático, e isso mostra o quanto o curso era correto, apesar de parecer duro aos olhos de hoje: ele começava do zero e do que é fundamental.



Alguns exercícios de natureza-morta (still life) em aquarela e de contraste tonal. Sempre havia uma demonstração do conteúdo abordado através de um exercício, que precisávamos replicar. Nesse exercício, além do conteúdo, era também apresentada uma técnica, como aquarela, pastel, óleo, acrílica. Tudo era realmente muito explicado, pois como não havia a figura do professor presente, o estudante tinha que ser capaz de aprender o que estava na apostila sozinho.



Agora, algumas páginas das apostilas de desenho artístico. Dá pra ter uma ideia do que era estudado pelo sumário, novamente com ênfase no básico dos fundamentos, indo gradativamente para a parte mais complexa. E também a parte do desenho da figura humana permeava todas as apostilas, começando da construção da cabeça e seus elementos, para depois as composições mais complexas, envolvendo a figura de corpo inteiro.



Os famosos esquemas para desenhar as partes do rosto, que vemos bastante hoje em dia nas redes sociais... E um estudo detalhado da posição das mãos.



Incidência de sombra e luz e diferentes rotações da cabeça.



Os conteúdos relacionados à anatomia eram bem completos, falando sobre a musculatura e ossatura do corpo humano, bem como mostrando esquemas de proporção das partes.



Por fim, alguns exemplos de composição com tecidos, desenho de animais e, é claro, ilustração botânica. Por mais que seja um material que tem, por alto, uns 30 anos e já esteja defasado em vários pontos (optei por não mostrar os nus, pois o que mais aparece é mulher pelada pra desenhar...), algumas coisas são atemporais, embora hoje em dia se encontre esse conteúdo muito melhor explicado em plataformas como a Domestika, e também no YouTube e outras redes sociais.



Foi muito legal revisitar essas apostilas, pois muito do que sei vem daqui, e também como forma de mostrar para quem está começando agora o quanto era difícil achar conteúdos sobre artes, gratuitos então, nem se fala! Sempre existiram as boas almas que disponibilizavam materiais e traduções preciosas, mas comparado à oferta de conteúdos que temos hoje em dia, foi um salto e tanto.


Por isso, valorize o artista que produz conteúdo, que ensina a desenhar e pintar, e disponibiliza esse material de graça na internet. Sempre curta, compartilhe e apoie da maneira que for possível, pois é uma luta permanente por reconhecimento e para driblar algoritmos. E se o seu artista favorito lançou um curso ou material pago, e você puder investir, faça isso! Todo mundo sai ganhando. 😉


Para saber como participar da Blogagem Coletiva, é só clicar aqui.

Comentários

  1. As famosas apostilas... Na época, eu lembro das apostilas do Telecurso 2000 aprendi um pouco de matemática e o inicio da regra de três assistindo/lendo as aulas. Adoro desenhar com luz [Fotografia] mas, desenhar mesmo eu sou um desastre hehehe

    xxoxo

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    1. Eu lembro muito do Telecurso 2000, tinha muita gente que estudava por ele para fazer as provas de supletivo! Achava legal como parecia uma espécie de novela/série, com as situações encenadas. Hoje a gente vê os vídeos no youtube e percebe que muitas coisas tinham aquele filtro da falta de noção dos anos 90 BR hahahahahhaa

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  2. Nossa que bacana!
    No ensino fundamental uma professora de artes levava essas apostilas e eu adorava, levava pra casa no fim de semana e tentava ler e fazer os exercícios ao máximo. Hoje está muito mais acessível os conteúdos e percebo em mim que me falta "tempo" pra aprender tudo

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    1. Também sinto essa falta de tempo para aprender tanta coisa. Vejo pelo Domestika, são tantos cursos legais que quero fazer, mas acabo demorando demais para concluir os que compro e fico ansiosa pelos que vão sendo lançados a cada semana.

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  3. Ai, eu adorei isso! Eu lembro demais de ver propagandas de cursos assim, e principalmente, de sentir muita vontade de participar de um. Esse post me fez pensar sobre várias coisas - e principalmente, nos caminhos de artista. Que legal esse compartilhamento e concordo totalmente com você ao final do post. É muito conteúdo anos a fio, isso precisa ser apoiado!

    Adorei sua partipação na Blogagem e amei seu post Lidy 💜

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    1. Obrigada, Re! Acho importante resgatar essas histórias, às vezes as redes nos enganam, passam a sensação de que tudo foi inventado agora, em vídeos de 15 segundos, mas é um longo caminho que vem sendo construído há anos.

      Lembro que seguia uma artista portuguesa e ela fazia resenha de materiais artísticos como as resenhas de maquiagem, isso já tem mais de 10 anos. E a Fernanda Guedes, que tinha um blog onde compartilhava os sketchbooks e projetos, muito antes dos desafios mensais virarem moda... É muita história!

      Adorei participar da blogagem, acendeu uma chama em mim, me deu um impulso criativo que estava precisando.

      Beijos!! :*

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  4. Nossa, eu lembro das propagandas do Instituto Universal Brasileiro! Nunca comprei, mas sempre me perguntava se cursos à distância funcionavam. Hoje temos a informação ao alcance do clique, mas ainda assim muita gente não sabe usar.

    Muito legal o seu texto, amei! 🤍

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    1. Obrigada, Sybylla! <3

      Penso muito nisso de saber usar a informação.
      Quando comecei a trabalhar na EaD pública, tínhamos uma disciplina nos cursos chamada "Alfabetização Digital", que ensinava desde a entrar no ambiente do curso até criar e-mail e pesquisar num site. Com o tempo, essa disciplina foi ficando defasada, mas desde o ano passado, com o ensino remoto, vi que muitos adolescentes não sabem esse básico da navegação na internet. Talvez seja a hora de retomar essa alfabetização digital, pra evitar que uma geração toda se perca em fake news.

      Abraços!!!

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