Lenço Verde
Faz pouco mais de um ano que comecei a desenhar digitalmente, de forma autodidata, olhando tutoriais pela internet. Não acho que evoluí tanto quanto gostaria, me vejo hoje num platô de aprendizado que me incomoda um pouco, mas mesmo assim já é um percurso que me orgulha demais. Eu não sabia nada! Por isso, nunca pare de estudar. Fiz um speed painting desse desenho, que compartilhei nas redes:
Arte e IA, público e lifestyle
Desde o final de maio estou acompanhando alguns conteúdos gringos sobre as últimas atualizações na política de privacidade da Meta (que gerencia Facebook, Instagram e Whatsapp), mais precisamente as informações sobre o uso de conteúdos das plataformas para treinamento de IA generativa. Basicamente, a partir de 26 de junho, a Meta passará a usar as fotos, vídeos e textos dos usuários para treinar inteligência artificial.
Isso impactou drasticamente em muitos artistas, que começaram a apagar fotos de seus feeds e se posicionarem contra essa política totalmente invasiva da Meta, e de tantas outras empresas. Muitos estão migrando massivamente para o app Cara, que ainda está em sua versão beta e travando muito (a promessa é de não tolerar conteúdos gerados por IA, mas teve gente que já deu uma espiada nos termos de uso deles e parece que esses conteúdos serão aceitos caso tenha uma legislação específica).
Já outros artistas começaram a fazer vídeos e tutoriais ensinando o tortuoso caminho até formulários da Meta que permitem que os usuários protejam seus conteúdos (em tese), limitando o acesso da empresa e coibindo o uso para treinamento de IA. Vi muitos conteúdos em inglês e, por conta disso, consegui eu mesma preencher, com resposta positiva para meu pedido de oposição ao uso do meu conteúdo. Nisso, várias pessoas começaram a me perguntar o caminho das pedras até o tal formulário, até que resolvi gravar o vídeo abaixo:
Esse se tornou o vídeo mais assistido e compartilhado do meu perfil, uma movimentação nunca antes vista, pois várias pessoas não sabiam que o direito de se opor existia e que era possível preencher essa solicitação e receber uma resposta da Meta. A falta de conteúdos em português dentro do próprio Instagram talvez tenha sido uma barreira, pois não vejo os artistas brasileiros batendo tanto nessa tecla quanto o pessoal dos EUA e Europa.
Também publiquei alguns stories relatando que desde o momento que preenchi o bendito formulário, comecei a perder seguidores, e se uma coisa tinha a ver com a outra, não era possível saber. O que posso afirmar é que há anos meu perfil no Instagram não cresce, e nos últimos tempos passei a compreender melhor o comportamento das pessoas lá, em relação ao que esperar de um artista que se divulga nas redes, e essa é a segunda parte desse post.
As pessoas não querem ver arte. Em sua grande maioria, elas não abrem o feed para acompanhar o processo criativo de um artista; para saber a diferença entre o azul cerúleo da Sennelier e o da Talens; para discutir a qualidade da cera dos lápis Polychromos; para entender o que é um papel acid-free ou para ver alguém com a roupa surrada refazendo um desenho pela milésima vez. Quem faz isso são outros artistas, na busca por compartilhar conhecimento. O público quer ver lifestyle. Ele quer um vídeo ou fotos legais, com a roupa da moda, num ateliê ou num lugar aesthetic. Ele quer dicas de decoração, de como tornar acessível aquela realidade tão bem editada para ele também. E nisso, a obra de arte se torna a moeda de troca do artista: tenha o meu trabalho e, com ele, você terá acesso a um status social que lhe permitirá ser tão aesthetic e descolado como eu.
E eu não estou criticando quem sacou essa dinâmica e aplica ao seu trabalho, sigo muitas pessoas que vendem essa narrativa e admiro quem a faz com autenticidade. Só que não é algo que todos vão ter condições ou vão se sujeitar a fazer. E nisso, o terreno das redes, que antes era um lugar mais horizontal para distribuir o conteúdo de quem não tinha tantos contatos ou tanto dinheiro para se promover, torna-se um ambiente hostil e impulsionado por algoritmos. E novamente quem tem tempo, dinheiro e conhecimento necessários para acessar essa engrenagem é quem vai se beneficiar. E isso vale para todos os momentos da nossa vida, aqui faço um recorte do que acontece entre artistas e plataformas de divulgação.
Quantas vezes as fotos do meu ateliê ou até mesmo as minhas selfies tiveram mais acesso do que meu próprio trabalho? E quantas vezes me culpei por não fazer um vídeo extremamente elaborado (mas que passasse uma vibe descompromissada, que é mais cool) apresentando o que faço como um grande projeto, mostrando como sou uma pessoa realizada por trabalhar em tantas frentes com o que amo? É uma conta muito abusiva e que não fecha, pois não é real para mim.
Qual a solução para todos esses problemas? Não sei. Vamos conseguir legalizar as questões referentes ao uso de IA e direitos autorais ou seremos engolidos pelas grandes corporações que só visam lucro? Também não sei. Tudo é muito nebuloso e às vezes é bom dar alguns passos para trás, a fim de ter mais clareza para o que se está observando. Minha dica é: siga tendo consciência do próprio trabalho, dos seus caminhos, de sua marca no mundo e da sua voz artística, a ponto de não se preocupar em buscar validação externa através de redes, embora elas sirvam não só para mostrar trabalhos ao mundo, mas também vendê-los. Não entre em narrativas impossíveis de sustentar, seguir as trends pode ser um caminho curto até os números, mas pode cobrar um alto preço pela sua autenticidade.
Carmilla
Recentemente li o clássico do horror Carmilla: a vampira de Karnstein, de Sheridan Le Fanu. A sensação foi a mesma de quando li Drácula, um texto que demora muito para ir até "os finalmentes" e, quando vai, acaba muito rápido. Mas ali está a base para o próprio Drácula e toda a sorte de vampiros que vieram posteriormente, com a sensualidade e o apetite por sangue já tão conhecidos pela cultura pop. A minha edição traz também O Vampiro, de John Polidori, tão xoxo quanto, ainda na minha modesta opinião.
A história é narrada por Laura, uma jovem que vive na Estíria, na companhia do pai e de duas amas. Numa noite cheia de eventos estranhos, Carmilla é deixada na porta da residência de Laura, aos cuidados daquela família. E é aí que coisas sinistras começam a acontecer, não sem antes um flashback de Laura pequenina, sendo atacada por uma criatura, ainda no berço.
Carmilla serviu muito mais como uma metáfora para mim, neste exato momento planetário, do que como um conto de terror. Ela é aquela presença constante, pegajosa, que faz você viver à mercê de seu humor e gostos, arrastando-o para o fundo do poço na menor das oportunidades. O vampirismo não precisa ser necessariamente um morto-vivo drenando o seu sangue, mas pode muito bem ser um colega de trabalho que não suporta seu sucesso, um familiar invejoso ou um amigo de Instagram que não curte o que você posta, não torce por você, mas está na primeira fila para ver o seu fracasso (a excelente série What We Do In The Shadows personifica o "vampiro energético" na figura hilária de Colin Robinson).
Laura é uma moça que vive longe de tudo e todos, numa época em que nos bailes aristocráticos acontecia a vida social, e Carmilla, com seus belos e espessos cabelos, parece ser a única janela da jovem para o mundo exterior. Entre cartas, coincidências e mal-estar inexplicáveis, Carmilla (ironicamente escrito por um homem) é o retrato do quão cruel pode ser a vida de uma garota, esteja ela sujeita às convenções da sociedade, esteja ela perambulando pela noite em busca de uns pescoços para morder. De todo modo, elas devem ser punidas de maneira exemplar.
Hell is a teenage girl. - Jennifer's Body (2009)
Materiais utilizados
- Papel Concept da Hahnemuhle;
- Marcadores nanquim de todas as espessuras Sakura;
- Marcadores Copic;
- Algumas pitadas de lápis de cor e caneta com glitter.
Acho que aproveitei para produzir e publicar tudo o que pude durante o mês de maio, mas sabe-se lá quando vou voltar por aqui. De qualquer forma, foi um pagamento e tanto para a dívida de abandono que eu tenho eternamente com esse espaço.
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