O Hierofante ★
Desde 2018 tenho ilustrado o arcano regente do ano, algo que começou de uma maneira despretensiosa, e hoje levo como uma pequena tradição, que serve para fechar um ciclo e abrir outro. Geralmente, começo o esboço no final de dezembro, para fazer os acabamentos no dia 01 de janeiro, assim passo o primeiro dia do novo ano desenhando, em paz, com minhas tintas e lápis. Neste álbum do Behance é possível ver os arcanos anteriores, ou então aqui pelo blog, navegando pelos arquivos de janeiro dos últimos três anos.
A carta de 2021 é O Papa/O Sumo Sacerdote/O Hierofante. Dependendo do deck de tarô, o arcano V vai aparecer com um desses nomes, representado por um pontífice ou por um alto sacerdote. Eu fiquei em dúvida entre representar o papa numa visão mais dark (usando o vocalista do Ghost como referência) ou então representar Anúbis, o deus egípcio com cabeça de chacal. Depois de uma enquete no Twitter, ganhou Anúbis, e parti para a busca de referências.
Foi um pouco demorado chegar nessa composição, pois todas as imagens que eu encontrava ou eram de decks de tarô egípcio super estilizados, ou de escavações, ou de concepts nas quais Anúbis era um cara fortão e mal encarado. Então tentei pensar em coisas da própria arte egípcia que me agradam (e que costumo falar nas minhas aulas): lei da frontalidade, uso de tons terrosos, simetria, harmonia. Foi aí que surgiu o primeiro esboço, no qual a coroa e a vestimenta se integram num círculo, e os ombros do deus servem como base para a balança (libriana mode on). A partir, daí fui refinando o conceito.
Usei um dos meus godês para fazer o círculo maior, e vários potinhos de tinta para os círculos menores e arestas do fundo. Também usei muita régua, coisa que não curto muito, mas precisava deixar tudo da maneira mais harmônica possível (e menos torta). Para a cabeça de Anúbis, tentei não deixar muito estereotipado, nem realista, me baseando em figuras egípcias mesmo. Já para as cores, tentei trabalhar de acordo com o círculo cromático e também com as tonalidades que encontramos associadas ao deus.
Depois de finalizada, joguei a ilustração no Photoshop e fiz alguns ajustes que julguei necessários: retirei a cruz ansata, pois ficou muito torta e era um ponto focal que tirava a harmonia da ilustração, e também coloquei uma textura de papiro ao fundo, e acho que isso fez toda a diferença na finalização, pois deu o toque "antigo" que faltava. O resultado:
Materiais utilizados
- Papel Moulin DuRoy 300g, grana fina;
- Aquarelas White Nights;
- Pincéis pelo sintético Giotto;
- Lápis de cor Bruynzeel;
- Marcador dourado Sakura;
- Fundo aplicado digitalmente no Photoshop.
A instituição do sagradoMilênios se passaram e as vidas de muitos homens e mulheres vieram e se foram. Em seu lugar, eles deixaram história, e nessa história eles deixaram um poço de sabedoria, experiência, conhecimentos e ensinamentos. É a partir desse poço de sabedoria e conhecimentos antigos que a tradição surge, assim como os meios mais eficazes pelos quais essas tradições podem ser ensinadas e acessadas: organizações, instituições. Essas entidades foram planejadas originalmente como um ambiente seguro e estável para transmitir a tradição e a sabedoria pertencentes a elas. Quando entrar na minha igreja, descobridor da sabedoria, você se envolverá na rica tradição sobre a qual ela é erigida; quando buscar meu conhecimento, você também assumirá seu lugar legítimo na longa fila de todos aqueles outros acólitos e neófitos sedentos de conhecimento. Eu sou o mensageiro da nobre e grandiosa sabedoria buscada por milhões de pessoas, oferecida a elas a todo momento por aqueles que aceitaram o manto do papa, revelador do sagrado. Eu posso lhe mostrar os mistérios e lhe entregar as chaves para os portões da sabedoria, mas você precisa estar ciente de que receber a sabedoria tradicional de um mestre é um passo necessário para qualquer caminho verdadeiro de conhecimento.- Tarô Iluminati
Cabe aqui ressaltar que faço essas ilustrações com intuito artístico, tomando liberdades artísticas. Não pretendo lançar um deck com todas elas, então não me prendo a todos os elementos associados às cartas. Se você é tarólogo e veio parar aqui no meu blog, e está prestes a escrever um comentário me xingando, por favor, leve em consideração que é uma representação puramente artística.
Foi a primeira vez que usei as aquarelas da White Nights e os pincéis da Giotto (deu pra ver que a lista de materiais é totalmente diferente do post anterior), e ainda quero falar desses materiais, em específico. Mas já posso adiantar que não poderia estar mais feliz com o investimento, pois me surpreendi muito positivamente com a qualidade de ambos. Acredito que são as melhores aquarelas que já tive na vida. Mas vou testar mais, e deixar para opinar melhor numa próxima oportunidade.
Para ver meus trabalhos em tempo (quase real) é só seguir meu Instagram. Quer comprar uma ilustra? Tem na Colab55. Quer encomendar? Clica aqui.
Meus materiais favoritos 💜 2021
Mais um ano chegou, e está na hora de atualizar o post com meus materiais favoritos de desenho e pintura!
Estelar II ✨
Lá no começo do ano, antes da pandemia e da suspensão de tantos planos em nossas vidas, eu tinha decidido comemorar os 10 anos do blog redesenhando algumas das ilustrações mais marcantes e mais queridas, tanto por mim, quanto pelo público que acompanha esse modesto espaço. Eu havia selecionado seis trabalhos para fazer a cada dois meses, mas não segui esse percurso. Acabei fazendo quatro: Bruxa, Pirata, o reboot da série de Catrinas e, por fim, cheguei em Estelar.
Há cinco anos atrás, essa galáxia em aquarela seria um divisor de águas para mim, tanto por ter conseguido chegar nos resultados que eu almejava, como por fazer uma ilustra tão pessoal se tornar tão amada, por tantas pessoas. Sem dúvidas, foi a ilustração mais vendida na minha loja, e um dos meus trabalhos mais vistos, tanto aqui, quanto nas redes sociais. Durante a exposição Elementais (2017), tinha lista de espera para o print dela. E foram várias amigas que mandaram fotos de suas camisetas, cadernos, bolsas e canecas com essa estampa.
E foi com um friozinho na barriga que publiquei a foto abaixo, no meu Instagram. Ao mesmo tempo que estava feliz em revisitar uma arte tão significativa, estaria também mexendo com os afetos de quem ama Estelar tanto quanto eu, o que me deixava levemente aflita. Como diz a Elizabeth Gilbert, depois que publicamos nosso trabalho, ele é do mundo, então as pessoas vão reagir a ele, cada uma da sua maneira. Para minha felicidade, as reações foram as mais calorosas possíveis.
Antes de falar sobre a ilustra atual, preciso relembrar fatos importantes sobre a antiga: Estelar chegou num momento muito difícil, a perda do meu cachorrinho Axl, depois de muito lutar contra um tumor. Foi algo que entristeceu toda a família, durante muitos meses. E eu, particularmente, vinha de um momento de insatisfação com meu trabalho, de várias tentativas fracassadas de lidar com aquarela, de muito material jogado fora, e um sentimento de incapacidade muito grande. E foi me deixando levar pelo sentimento que, numa tarde, apareceu uma menininha mirradinha, de pijama, com as mãos no peito, como se estivesse fazendo um desejo, e um enorme cabelo com todas as cores de galáxia que pude colocar.
Dali em diante, Estelar virou meu trabalho de referência. Assim como aconteceu com as Catrinas, agora as pessoas me reconheciam pelas galáxias. Até concurso literário essa ilustra ganhou (sem meu consentimento, o que gerou o maior barraco). Durante anos, peguei muitas encomendas cuja solicitação era: fazer uma galáxia em aquarela. Um dos posts mais acessados do blog é justamente o tutorial que fiz, a partir dessa ilustra (plagiado por várias pessoas e perfis de lojas artísticas). Só que, quanto mais o tempo passava, mais eu percebia os erros anatômicos e o tanto que eu poderia melhorar o desenho (a ideia sempre esteve no ponto, para mim). Então, há duas semanas atrás, tirei uma foto minha de referência e arrumei tudo o que precisava para, enfim, nascer Estelar II:
Não foi fácil chegar no resultado final das cores. Antes dessa, houve duas versões descartadas (uma totalmente, a outra guardei para quando for famosa e valer rios de dinheiro kkkk), pois eu sentia que precisava ser fiel, ao mesmo tempo que deveria adicionar e subtrair coisas. A primeira mudança que faz diferença, para mim, é que estamos diante de uma mulher adulta, e não mais uma criança. Esse é o ponto crucial de Estelar II: o amadurecimento. Do corpo, da mente, do espírito, dos desejos, dos sonhos e esperanças. É algo que realmente me toca (talvez por ter usado uma foto minha como referência? talvez pelo meu momento de vida?) e dá sentido ao restante: agora sua pele tem cor e textura, o pijama branco continua ali, mas sem as bolinhas que o infantilizava, e o cabelo de galáxia foi feito da mesma maneira que o da original, mas com a diferença que escolhi uma paleta de cores menor e mais neutra, além de pegar leve com os efeitos com branco e metálico. O fundo foi feito com guache preto e, também ao contrário da primeira, aqui a textura do papel aparece, o que dá a sensação de vazio preenchido: ela está no escuro, mas não é uma escuridão total. Uma das coisas mais legais é ver as duas ilustrações lado a lado:
Não dá a sensação de que a garotinha cresceu? O Antonio comentou que a forma como o efeito galáxia está organizado dá a impressão de que, na primeira, ela está cheia de dúvidas e, na segunda, não tanto. E isso é sensacional, pois cada um faz uma leitura bastante particular da obra, o que só acrescenta mais camadas de significado.
Outra coisa que mexeu demais comigo foi redigitalizar a primeira ilustra. Logo que me mudei, sem querer, formatei o HD do computador e perdi todos os arquivos. O Antonio conseguiu recuperar tudo, exceto as ilustrações digitalizadas. Foram 10 anos perdidos, alguns recuperei em drives e e-mails para clientes, outros ainda aguardam que eu sente diante do scanner e refaça arquivo por arquivo. E foi dessa necessidade que percebi o quanto eu editava demais e, muitas vezes, chapava o efeito original da pintura. Hoje só faço pequenas correções de cor e de elementos tortos, retiro poeira, aplico o multiply e voilà. De certa forma, foi uma libertação do sentido de perfeição e de limpeza que eu colocava sobre as ilustras.
Materiais utilizados
- Papel Aquarelle XL Canson;
- Aquarelas Maimeri, Van Gogh, Cotman e Sennelier;
- Guache TGA;
- Pincéis Keramik;
- Marcadores Sakura;
- Lápis de cor Polycolor;
- Verniz para fixar tudo e durar bastante.
E com esse redesenho mais do que especial, encerro 2020, um ano que me fez ter muitos reencontros com meu passado artístico, no qual cada revisita foi a Lidiane de hoje dando um abraço na Lidiane de ontem, dizendo que tá tudo bem. Esse é meu summary of art e estou muito feliz com ele.
Aproveito para dizer que o ciclo de Estelar (a original) na minha loja se encerrou e, a partir de hoje, vocês passam a encontrar a versão atualizada dessa ilustra. Espero que ela desperte os mesmos sentimentos bons que a primeira, e que vocês curtam os produtos que preparei com ela. O link para a Colab55 está aqui.
Se eu pudesse resumir meus desejos para 2021 numa só palavra, seria VACINA. Se cuidem e cuidem dos seus entes queridos. Não vamos relaxar agora durante as festas de final de ano, pois não há leitos nas UTIs para todos, e ainda estamos em meio a uma pandemia. Todo cuidado é preciso. Um grande beijo e até 2021! ✨
Só para baixinhos 💋
Como uma criança típica da década de 1980, é claro que fui baixinha da Xuxa, daquelas que tinha os discos, que teve a boneca e o microfone, e até um cinto e um tênis. Eu realmente tive uma fase super apaixonada pela Xuxa, comprava o que podia, assistia aos programas, e colecionava muitas fotos, desde os encartes dos discos até as embalagens de suco Frisco (crianças analógicas). Para provar meu ponto de autêntica baixinha, resgatei a foto abaixo, muito conceitual olhando no espelho (na realidade era para mostrar o tamanho do meu cabelo, gigantesco), na qual estou com camiseta e cinto personalizados:
Recentemente tive a oportunidade de ler o livro Memórias, no qual a Xuxa revisita a sua carreira e conta diversos fatos desconhecidos do grande público, ou conhecidos só por quem era muito fã (não chega a ser uma biografia, e algumas coisas são bastante pontuais, particularmente eu não veria problemas num livro mais longo e aprofundado). Dentre as memórias estão diversas fotos e ensaios para álbuns, produtos, bastidores de turnês e da nave (quem nunca sonhou em entrar na nave da Xuxa?). E foi nesse clima nostálgico que me peguei no Pinterest, buscando por algumas fotos de looks icônicos, servidos ao longo de quase quarenta anos de carreira.
E um dos looks mais bonitos, na minha opinião, é do encarte para o Xou da Xuxa 4, no qual ela está vestida de toureira estilizada, numa referência à You Can Dance, da Madonna (uma rainha citando a outra, o auge). Então, resolvi pegar algumas das fotos desse ensaio para reproduzir (e aproveitar para estudar um pouco de anatomia), e escolhi uma para finalizar com lápis de cor e canetas metalizadas:
Achei um exercício super divertido e despretensioso, consegui passar algumas horas focada nele e esquecer os problemas. Foi nostálgico e também um pouco terapêutico, um momento para relaxar e me reconectar com a minha criança interior. Gostei de todos os resultados, acho que consegui prestar uma homenagem digna.
Os materiais que utilizei foram: papel para desenho 180g, lápis de cor Polycolor e canetas metálicas sortidas (peguei um pouco de tudo o que tinha por aqui). Até cheguei a digitalizar, mas o resultado não ficou legal, pois a textura do papel ficou muito marcada e chapou a tinta dourada, mas ficam aí os registros que fiz pelo celular.
Beijinho, beijinho e tchau, tchau!!!
Amanita 🍄
Apesar do blog estar parado há mais de um mês, tenho me concentrado em vários trabalhos. Fiz uma encomenda, resgatei trabalhos antigos para refazer com um novo olhar, e me dediquei a alguns esboços. Aliás, os esboços são parte constante da minha vida agora, é como se eu deixasse tudo em rascunho e curtisse isso, curtisse a possibilidade de, meses mais tarde, voltar com outras ideias, outras experiências, e retomar o trabalho. Também tenho usado o sketchbook de forma não muito linear e organizada, apenas registrando coisas, e isso tem sido libertador. É como se a ideia saísse de dentro de mim e eu não sofresse mais por tê-la deixado presa, ou a deixado ir embora.
Conciliar a vida de professora e a ilustração não é fácil, é uma corda bamba de sentimentos, e às vezes eu simplesmente não tenho vontade de desenhar, ou não me sinto confortável, e tenho me permitido ficar um pouco menos frustrada com isso, mentalizando que estou fazendo o melhor em ambos os lados, na medida do possível e do que uma pandemia pode me exigir.
Esse trabalho, em especial, era um rascunho muito antigo, acho que do ano passado, não recordo direito. Aí eu resolvi fazer o desenho final, na folha para aquarelar, em abril (veja aqui). Passaram uns meses, me mudei, e o projeto ficou ali. Quando sentei pra fazer, deu tudo errado, eu já não me identificava com o que tinha feito, mas achava que a ideia não era de todo desperdiçável, principalmente essa coisa da figura se integrar com o cogumelo.
Fui para o Coolors e para o Pinterest caçar paletas de cores para referência, mas num primeiro momento não me senti 100% com o que estava pintando. Achei tudo muito "natalino acidental", com cores muito puras e muito vivas, uns contornos meio esquisitos. Postei a imagem no Instagram e fiquei dias pensando no que estava me incomodando. Hoje, coloquei o trabalho no Adobe Colors (ele extrai diversos tipos de paletas da sua imagem - cores brilhantes, escuras, suaves...) e foi como uma revelação, pois percebi o quanto a paleta estava redondinha, e o problema não estava ali. A recepção do público foi super boa também, então eu cheguei a conclusão de que não sei hahahahahaha. Sério, eu não sei qual é e de onde vem meu estranhamento com esse trabalho, talvez ele esteja provocando alucinações e confusão mental, assim como o cogumelo amanita muscaria (mata-mosca) provoca. Será que é uma ilustração com poderes mágicos? 🍄 #atenta
- Papel para aquarela Harmony Hahnemühle;
- Aquarelas Van Gogh;
- Pincéis Karamik;
- Marcadores Sakura;
- Lápis de cor Polycolor;
- Foto de referência da Faestock.
Mesmo me sentindo altamente estranha em relação à essa ilustra, ela vai para a lojinha! Vamos aproveitar o clima natalino alucinógeno para apoiar uma artista independente. Para conhecer minha loja, clique aqui.
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