Redesenhando: Pirata


Demorou um pouquinho, mas consegui fazer mais um trabalho do meu projeto pessoal para este ano: redesenhar algumas ilustrações antigas, que gosto muito, como parte da comemoração pelos 10 anos do blog. E a escolhida é uma das minhas favoritas, e também a de muita gente: Pirata, de 2013.

Na época, essa ilustra significou muito para mim, pois ela foi feita de uma maneira muito rápida, com um material que curto bastante (esferográfica) e conseguiu dar um fôlego na minha produção. Senti que conseguia ser criativa, despretensiosa e obter um bom resultado se eu curtisse mais o processo e simplificasse algumas coisas.

O que resolvi mudar

Quando decidi mexer nessa ilustração, pensei em não inventar muito, não sair demais da proposta inicial. Aí veio o coronavírus, a quarentena, e toda essa carga emocional que paira sobre as nossas cabeças desde então. Senti que se fosse refazer a pirata nesse momento, ela precisaria carregar uma mensagem a mais. Por isso tomei a liberdade de fazer alterações bem significativas.


A primeira coisa que acrescentei foi um braço. A pirata de 2020 não quer continuar com um dos olhos fechados, por isso ela está prestes a tirar o tapa-olho. Ela quer ver tudo, ela quer ver a verdade. Esse foi o ponto central que trabalhei: ela não está ali para entreter. Ela não sorri, está levemente curvada para frente, com uma expressão cansada. O barco que ela carrega na cabeça está mais elaborado, mais pesado, e dele sai o cordão com uma âncora. Os pássaros também tomam uma forma menos abstrata do que gaivotas infantis sobrevoando a cena.



Depois, a mudança mais radical foi com o material. Utilizei aquarela e, se antes a figura estava flutuando na folha, agora ela emerge da água. E é na direção da água que está o cordão com a âncora. O cabelo tem a mesma cor do líquido, mas continua com a mesma marca que torna a primeira ilustra tão marcante. É um cabelo-kraken. Em seguida, toda a figura ganha cor, o que também deixa bastante diferente da proposta original.

A caneta dourada aqui vem para trazer a ideia de tesouro, que pode ser algo que aprisiona (a corrente no pescoço, a âncora) ou que liberta (os pássaros). Finalizei a figura com lápis de cor e caneta nanquim, como de costume. O resultado:

Materiais utilizados

  • Papel para aquarela grana fina Harmony Hahnemühle;
  • Aquarelas Van Gogh;
  • Pincel Keramik;
  • Lápis de cor SuperSoft Faber-Castell;
  • Canetas Sakura e Posca.


Acredito que a maior diferença está no espírito da figura: antes ela transmitia alegria, inocência, agora ela está afogada nesse mar de incerteza que o planeta se converteu, carregando seus próprios pesos, seus tesouros ou despojos de guerra, tentando não afundar, tentando equilibrar os sentimentos, mas com esse profundo desejo de liberdade, que está presente no movimento da mão prestes a retirar o tapa-olho.

Se antes o meio mal estava influenciando meu processo de criação, aqui ele está por todos os lados - até debaixo d'água. Deixe um comentário com a sua interpretação e o que você achou das mudanças. Em algum momento desse ano, volto com mais um redesenhando.

Comentários

  1. É muito legal, essa ideia de fazer uma releitura de um desenho nosso né? Eu fiz isso uma ou duas vezes e o resultado sempre me impressiona, como evoluímos com o passar dos anos.

    Dez anos, é muito tempo! Gostaria de lembrar ou ter anotado quando foi a primeira vez que publiquei algo na internet, mas isso já se perdeu em meio as brumas do tempo. Parabéns Lidy! Apesar disso, lembro que o seu foi um dos primeiros blogs que conheci naquela época, te acompanhar a tanto tempo, é um privilégio.

    Mesmo com todo o peso que o desenho carrega, adorei a pintura, ficou muito intensa.

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    Respostas
    1. Obrigada, Mateus! É muito tempo mesmo, tenho alunos que nem eram nascidos e eu já estava aqui kkkkkk

      Mas acho que é um registro interessante da nossa trajetória. O Austin Kleon fala muito isso em "Mostre seu trabalho", e como as coisas vão mudando com o tempo. Os próximos trabalhos que vou redesenhar são bem antigos. Vamos ver como vou me sair.

      Abraços!

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