Lidiane Dutra
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Aquarela Portfólio

Coração das estrelas 🌠


No dia 24 de setembro passado, meu pai faleceu. Foi, sem dúvidas, o momento mais difícil da minha vida, até agora. Eu estava com ele no hospital, quando sua jornada encerrou, aos 86 anos de idade. Por mais que eu já tenha lido vários livros sobre morte, absolutamente nada me preparou para esse momento.

Descobri que a saudade é uma constante. E a tristeza vai e vem com o passar dos dias. E foi num desses dias que resolvi homenagear o pai com uma aquarela. Eu já tinha decidido que faria uma versão de Estelar II. Só que, dessa vez, a garota seguraria um coração em suas mãos (o órgão). Existem muitos detalhes para esse simbolismo, que prefiro guardar para mim. E foi tentando dar sentido ao luto, que nasceu a ilustração a seguir:



O resultado:


E então vem o luto. E luto não é sinônimo de dor. É justamente a expressão da dor. Desde sempre, é isso que nós, seres humanos, fazemos: damos sentido às coisas através da linguagem. Por isso é tão importante que o luto tenha espaço e tempo para acontecer. - Caitlin Doughty, Para Toda a Eternidade, p. 15.

Obrigada por tudo, pai. 

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Aquarela Portfólio Processo criativo

Wild Spirit 🍃


Ano passado eu havia pensado numa proposta de refazer alguns trabalhos antigos, em comemoração aos 10 anos do bloguinho. Veio a pandemia, me desanimei, refiz a proposta no meio do caminho, mas fiquei com essa vontade de, de tempos em tempos, voltar a alguns desenhos do passado e pensar em novas formas de reinterpretá-lo. E um dos trabalhos que já estava na minha lista é um que acabei deletando o post original, mas ele ficou na minha pasta do Pinterest, que ainda guarda umas antiguidades: chama Ventania e mostra uma mulher de longos cabelos, segurando uma bússola e com uma coruja no ombro.


Esse trabalho originalmente é um A3, e eu realmente amei toda a proposta na época. Esse cabelo foi uma delícia fazer e a corujinha é um xodó. Com o passar dos anos, vi que poderia melhorar algumas coisas, afinar e amadurecer um conjunto de ideias que estavam ali, latentes. E foi isso que fiz agora.


Uma das primeiras coisas que pensei foi que esse trabalho merecia ganhar cor. Adoro trabalhar só com grafite, mas também tenho me empenhado em construir uma paleta de cores pessoal, que represente meu amadurecimento enquanto pessoa e artista. Que fale sobre a minha jornada e o que gosto de retratar. Por isso, comecei pelo estudo da paleta. Em seguida, resolvi retirar alguns elementos e inserir outros: a tatuagem de filtro dos sonhos se tornou uma lua tríplice e a mão já não segura uma bússola, mas sim abraça o corpo, num gesto de encontro e entendimento pessoal: não preciso mais buscar externamente aquilo que encontrei no meu interior. Também acrescentei ramos de alecrim estilizados, que é uma planta que afasta os pensamentos negativos.



Outro ponto importante é em relação ao papel: usei uma gramatura inferior ao que costumo usar para aquarela e o resultado foi bastante satisfatório. Para quem não deseja construir muitas camadas e ainda deseja trabalhar com outros materiais por cima, 220g é uma boa gramatura. Depois de inserir o fundo em aquarela, fiz todos os detalhes com lápis de cor e marcadores, a mistura de materiais que mais amo. O resultado:



Materiais utilizados

  • Papel Concept Sketch & Draw Hahnemuhle 220g;
  • Aquarelas Van Gogh;
  • Pincéis pelo sintético Giotto;
  • Lápis de cor Polycolor Koh-I-Noor;
  • Marcadores Pentel.



2012 x 2021


Esse foi mais um trabalho que me deixou extremamente feliz por (re)fazer e me mostrou direções artísticas que desejo tomar daqui por diante. São as cores, os temas e as formas que quero explorar na minha arte, principalmente porque mês que vem estou de aniversário, então essa época sempre é significa um momento de fazer muitos estudos e ilustrações que falam diretamente ao meu coração.


Alguns acreditam que apenas um grande poder é capaz de manter o mal sob controle. Mas não é isso que tenho visto. Eu descobri que são as pequenas ações cotidianas de pessoas comuns que mantêm a escuridão distante. Pequenos gestos de gentileza e amor. — Gandalf
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Portfólio Processo criativo

Mandrágora 🌱


A mandrágora é uma planta medicinal, com efeitos alucinógenos, que está presente em diversas lendas e culturas. Do Egito Antigo aos tempos bíblicos, passando pelos usos mágicos na Idade Média, até os dias atuais e sua presença em franquias como Harry Potter. É a planta usada por Circe, a planta que grita ao ser arrancada da terra. 

Nessa representação, quis usar a forma feminina em harmonia com a natureza, ela própria a raiz fértil que faz as folhagens crescerem. A mandrágora/mulher como deusa da fertilidade, seu corpo como parte do todo natural, e não um fetiche ao olhar masculino.

Essa ilustração surgiu de forma bastante espontânea, mas a partir de um sentimento que eu já venho cultivando há um bom tempo: o de representar o nu feminino apenas como um corpo funcional, e não como fetiche. Vejo muitos ilustradores fazendo nus, mas as imagens carregam um desconforto, justamente por conta do male gaze, que é essa representação feminina feita por e para homens heterossexuais.

Lembro das imagens das vênus da fertilidade, deusas esculpidas com fartos seios e vulvas aparentes, e essas imagens não parecem desconfortáveis, justamente por serem corpos com um propósito que não é o da sexualização, pura e simples. Até mesmo imagens contemporâneas, como as da ilustradora Priscila Barbosa, que dá um sentido político aos corpos, principalmente aos diversos, não possuem esse aspecto de voyeurismo que muitos homens insistem em transmitir nas suas obras. 

Essas divagações me levaram à figura da mandrágora, com suas raízes que parecem um ser humano em miniatura. Resolvi juntar as vênus neolíticas com essa planta, criando a representação de uma mulher/raiz com seu corpo volumoso, estriado (a inspiração veio da textura das batatas!), e que sustenta uma grande cabeleira verdejante. A imagem do corpo como sustentáculo e nutriente para a vida, como lugar seguro, se apresentando para o mundo da maneira que é, e não como os outros esperam que seja.

Geralmente, nas representações da mandrágora, a expressão facial é de medo ou terror, mas aqui quis representar a plenitude e a felicidade pela abundância; a mente fértil de ideias, que precisa ter uma boa base para se desenvolver.


Materiais utilizados:

  • Papel para desenho 180g Spiral;
  • Lápis de cor Staedtler Design Journey;
  • Edição e aplicação de efeitos no Photoshop.

Após digitalizar, fiz algumas aplicações de manchas, como se a ilustração fizesse parte de um livro antigo, usado por feiticeiras. Para saber mais sobre os usos da mandrágora, recomendo a leitura do TCC Plantas mágicas no medievo: mulheres, magia e igreja, de Valentino Sterza (Universidade Federal da Paraíba, 2019).

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Blogagem Coletiva Reflexões

Eu fui, eu tava: Ensino remoto raiz 📪


A querida Re, do blog Mulher Vitrola, lançou uma Blogagem Coletiva (já participei de várias) muito especial, um grande encontro de gerações, para falar sobre coisas nostálgicas que vivemos e épocas marcantes das nossas vidas. O tema eu fui, eu tava é para unir todas as tribos, como o Norvana...

Eu resolvi falar de uma coisa que está bastante em alta (e enquanto professora, estou participando em modo hard), mas na sua forma raiz: o ensino remoto. Lá nos idos do filme Titanic, antes da internet e dos tutoriais sobre absolutamente tudo, vi uma propaganda do Instituto Universal Brasileiro numa revista, e resolvi me inscrever. Eu era uma adolescente morando no interior, com pouco acesso a qualquer coisa mais "atual", e tinha uma vontade absurda de melhorar meu desenho, mas as seleções para a Escola de Belas Artes da cidade não estavam nos planos da minha família. Então peguei minha mesada e investi no curso de Desenho Artístico, Publicitário e Pintura.

Funcionava assim: todo mês eu recebia uma apostila pelo correio, e elas se alternavam entre os três temas do curso: desenho artístico, publicidade e pintura. Periodicamente, também, vinham as avaliações. O curso era apostilado e o tira-dúvidas era por telefone, ou então no acompanhamento das avaliações, ou seja: falar com o professor era uma tarefa impensável, se comparada aos dias de hoje.

Eu só consegui enviar uma avaliação, pois tive muita dificuldade em encontrar os materiais para realizar o curso, principalmente a parte do desenho publicitário. Mas paguei tudo e fiquei com as apostilas e, ao longo dos anos, principalmente os que antecederam a faculdade, fui estudando aqueles fundamentos ali. A parte publicitária ficou bastante defasada e, com o tempo, me desfiz dela. Mas a de desenho e pintura é muito boa, e dá uma ótima base para quem quer começar a desenhar, num modo mais tradicional (gesture, por exemplo, não é abordado).

Separei algumas fotos dessas apostilas e gostaria de ir comentando ao longo do post:


Essas acima são as apostilas do curso de Pintura. Um dos primeiros conteúdos abordados é a teoria das cores e o círculo cromático, e isso mostra o quanto o curso era correto, apesar de parecer duro aos olhos de hoje: ele começava do zero e do que é fundamental.



Alguns exercícios de natureza-morta (still life) em aquarela e de contraste tonal. Sempre havia uma demonstração do conteúdo abordado através de um exercício, que precisávamos replicar. Nesse exercício, além do conteúdo, era também apresentada uma técnica, como aquarela, pastel, óleo, acrílica. Tudo era realmente muito explicado, pois como não havia a figura do professor presente, o estudante tinha que ser capaz de aprender o que estava na apostila sozinho.



Agora, algumas páginas das apostilas de desenho artístico. Dá pra ter uma ideia do que era estudado pelo sumário, novamente com ênfase no básico dos fundamentos, indo gradativamente para a parte mais complexa. E também a parte do desenho da figura humana permeava todas as apostilas, começando da construção da cabeça e seus elementos, para depois as composições mais complexas, envolvendo a figura de corpo inteiro.



Os famosos esquemas para desenhar as partes do rosto, que vemos bastante hoje em dia nas redes sociais... E um estudo detalhado da posição das mãos.



Incidência de sombra e luz e diferentes rotações da cabeça.



Os conteúdos relacionados à anatomia eram bem completos, falando sobre a musculatura e ossatura do corpo humano, bem como mostrando esquemas de proporção das partes.



Por fim, alguns exemplos de composição com tecidos, desenho de animais e, é claro, ilustração botânica. Por mais que seja um material que tem, por alto, uns 30 anos e já esteja defasado em vários pontos (optei por não mostrar os nus, pois o que mais aparece é mulher pelada pra desenhar...), algumas coisas são atemporais, embora hoje em dia se encontre esse conteúdo muito melhor explicado em plataformas como a Domestika, e também no YouTube e outras redes sociais.



Foi muito legal revisitar essas apostilas, pois muito do que sei vem daqui, e também como forma de mostrar para quem está começando agora o quanto era difícil achar conteúdos sobre artes, gratuitos então, nem se fala! Sempre existiram as boas almas que disponibilizavam materiais e traduções preciosas, mas comparado à oferta de conteúdos que temos hoje em dia, foi um salto e tanto.


Por isso, valorize o artista que produz conteúdo, que ensina a desenhar e pintar, e disponibiliza esse material de graça na internet. Sempre curta, compartilhe e apoie da maneira que for possível, pois é uma luta permanente por reconhecimento e para driblar algoritmos. E se o seu artista favorito lançou um curso ou material pago, e você puder investir, faça isso! Todo mundo sai ganhando. 😉


Para saber como participar da Blogagem Coletiva, é só clicar aqui.

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Aquarela Portfólio Processo criativo

Bonsai de Ficus 🌳



Eu ainda não tinha vindo aqui depois da mudança de layout do blog, na realidade não venho aqui há mais de um mês e acho interessante como, apesar de tudo, aqui é um espaço atemporal, nunca sinto que estou tirando a poeira de algo antiquado; é um lugar para o tempo certo.


E justamente nesse intervalo que estive ausente daqui, aconteceram várias discussões sobre - novamente - os algoritmos das redes sociais, o quanto a rede x ou a y vai privilegiar um conteúdo em detrimento ao outro. Enquanto isso, por aqui, sinto que estou longe de toda essa pressão, enquanto várias pessoas estão retomando as blogagens coletivas, se engajando em newsletters e mostrando que a internet é um espaço muito mais diverso do que qualquer rede comprada pelo tio Zuck. 


Resumindo um pouco desse layout: eu já queria trocar a carinha do blog há horas, mas não encontrava um template que correspondesse ao que gostaria de passar daqui por diante, até que fui de rodapé em rodapé nos blogs que leio (onde geralmente se encontra quem fez o template) e cheguei na loja da Kate. E agora tenho tudo o que queria para meu blog, que era dar bastante destaque para o portfólio, a loja e como entrar em contato comigo.  


🌳


Essa aquarela de bonsai (na verdade, pré-bonsai) surgiu de um rascunho feito em 2018! É pra isso que eu mantenho meu banco de ideias: além de sempre ter alguma coisa "no forninho", estou sempre me retroalimentando de coisas boas que fiz no passado, e que podem ser aproveitadas no futuro. É uma forma de olhar com carinho para a minha própria produção, e ver que nem tudo precisa ser uma grande novidade nunca antes vista. O processo criativo é cheio de surpresas, lidamos com fases de pura espontaneidade, alternando com outras de intensa pesquisa interna e externa.


E essa aquarela foi um grande exercício de construção de camadas de cor e textura, a partir das referências visuais das plantas aqui de casa. A figueira é uma árvore linda e que oferece muitas possibilidades de estudo, assim como a natureza de uma maneira geral. Observar árvores, flores, jardins e parques abre a nossa mente para a criação, é por isso que existe todo um movimento para desemparedar a infância, tornando as escolas lugares com amplo acesso às áreas naturais (tem um livro muito bom sobre o assunto aqui).


E como a era louca das plantas chega para todas, me aguardem, pois o que aparecia pontualmente entre um trabalho e outro vai se tornar bastante corriqueiro: já tenho uma costela-de-adão para chamar de minha e comecei a espalhar suculentas pela casa. Os motivos florais vêm com tudo.


Dolores II, a minha costela-de-adão. O hit vem!


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