Um retrato através do tempo

Este mês eu completo 36 voltas em torno do sol e, falo com tranquilidade, fiz as pazes com muitas coisas em mim. Entre elas, a minha aparência, de maneira geral. Embora ainda tenha uma queixa ou outra, hoje sou muito mais tolerante com o espelho do que há 10 anos atrás, mesmo que o colágeno já não seja o mesmo.

Depois de fazer dois autorretratos praticamente na sequência (um em junho e outro em setembro) eu me peguei perguntando: quantas vezes já me retratei? E como me retratei? Fui buscar alguns desses autorretratos para tentar responder a essas duas perguntas e ver tanto o que mudou na minha autoimagem quanto no meu traço. Gostaria que vocês me acompanhassem nessa tour que é metade tbt e metade terapia kkkkkk:


Definitivamente, não acho algo fácil para alguém se autorretratar. Acredito que, mesmo as pessoas mais experientes no assunto, precisam sempre colocar a própria imagem em perspectiva, e escolher quais aspectos desejam salientar ou ocultar em si mesmos. E isso, por si só, já é um grande exercício de autoconhecimento. Talvez, também, seja por essa razão que sempre passo o autorretrato como atividade para as minhas turmas.

Quando comecei a ilustrar, muitas pessoas me diziam que as mulheres eram muito parecidas comigo, o que geralmente eu respondia com um sorriso amarelo e uma revirada interna de olhos, pois realmente tinha pouco a ver. A primeira vez que realmente sentei para fazer um autorretrato com essa intencionalidade, foi em 2014 (acima). Usei como banner do blog por um bom tempo e, embora tenha curtido na época, não posso deixar de notar a cara de c* e de tristeza da pessoa... Parece que estou morrendo, ou que recebi uma notícia triste, só pela minha expressão. Acho que tive tanto medo de falhar em capturar a minha própria fisionomia, que fiquei muito engessada em parecer real.


Ainda em 2014, para o inkt*ber daquele ano, peguei a mesma foto de referência do retrato anterior e criei... um monstro? Sinceramente não sei o que quis fazer aqui, além da tentativa falha em reproduzir o efeito galáxia nas órbitas (eu ainda estava tentando). A cara de c* ainda é a mesma, e acho que nem é culpa da foto, mas do medo de errar (já falei bastante sobre meus fantasmas com o desenho nessa época neste post aqui).


Em 2015 me transformei em personagem, e foi uma das minhas primeiras tentativas de estilização na vida, por conta de uma oficina com a Andréia Pires. Como a temática era toda infantil, e eu recém tinha cortado o cabelo, o visual ficou bem menos dark que os retratos anteriores, e abriu caminho para que eu tentasse me arriscar mais. Mesmo assim, levei dois anos para fazer outro retrato, dessa vez bem diferente.


Foi só em 2017 que fiz um retrato que realmente olhei, gostei e senti que alcancei meu objetivo. Tudo aqui funciona super bem, eu estava num momento feliz com a minha arte e isso transpareceu na ilustração. Agora sim, tinha galáxia, tinha expressão mais relaxada e feliz, tinha um conjunto de elementos que fazem parte do meu trabalho e estavam todos ali, presentes. Durante muito tempo esse retrato me representou e, de certo modo, ele ainda me representa, pois consigo me enxergar muito nele. Tanto que demorei mais três anos para me retratar novamente.


Esse ano, bem no meio de uma pandemia e da construção da minha casa, senti vontade de produzir um autorretrato para aquele momento. Na realidade, tive a ideia e consegui colocá-la de uma maneira (de certa forma) rápida no papel. Eu já estava matriculada no curso da Isadora Zeferino e sabia que acabaria fazendo outro retrato em breve, e acabei considerando este como o trabalho que fechou o ciclo na casa dos meus pais e no quarto que por tantos anos foi meu ateliê. E não deixa de ter uma melancoliazinha ali no meu olhar, dada a conjuntura.


Por fim, meu retrato mais recente. Saindo completamente de uma paleta de cores naturalista e apostando na estilização que o curso exigia, consegui colocar tanta coisa nessa representação... já tem sorrisinho, tem olhar tranquilo, tem flor... e misteriosamente não tem o crescente na testa. Será um sinal, ou só esqueci? Esclarecendo, foi a segunda opção, pois a composição estava perfeitinha desse jeito, e se eu adicionasse mais um elemento no rosto, iria acabar poluindo (mistério resolvido).

Não sei quanto tempo mais demorarei para fazer um novo autorretrato, mas cada vez que o faço é como se me abraçasse e me entendesse cada vez mais. Como disse lá no começo, não é uma tarefa fácil, mas recomendo que você tente, mesmo que não seja profissional. É um jeito de se olhar com carinho, de ver o quanto mudamos interna e externamente.

Vou deixar dois vídeos abaixo, para pensar a questão do retrato, da representação e da selfie. Um é do canal Curta! e outro do canal Educação para a cultura visual em media social. Assista:

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