Ilustrações para livro infantil
Em março recebi um e-mail da ONG portuguesa Ajudaris, a respeito de um projeto colaborativo chamado Histórias da Ajudaris em Gondomar, um livro cheio de contos escritos por crianças em situação de vulnerabilidade social, e ilustrado por diferentes artistas. Fiquei feliz com o convite e por saber que meu trabalho chega em lugares tão distintos quanto o interior do RS até a Europa.
Por se tratar de um projeto sem fins lucrativos, de uma instituição que eu não conhecia, tratei de me informar sobre, pesquisar no site quem já havia participado, como era o livro, escrevi um e-mail com dúvidas que foi prontamente respondido e, depois de ponderar, resolvi aceitar o convite.
Para quem fica receoso em participar de projetos que não vão pagar em dinheiro, de estar caindo no conto do pagamento através de divulgação, sugiro que se informe sobre o proponente e analise o contexto da situação. Acho que trabalho solidário sempre é válido, não é uma coisa que vai desvalorizar sua arte ou desestabilizar o mercado. Então, a dica que dou é: pesquise sobre quem está entrando em contato e quais formas de contrapartida, que não seja a financeira, vão te oferecer.
Acabei ilustrando dois contos bem curtinhos, de uma menina e de um menino, histórias encantadas repletas de princesas, dragões e castelos:
Ilustração Menina
O texto conta a história de três irmãs que partilham um grande coração, e que saem em altas aventuras por reinos encantados. Para esse trabalho, busquei referências na história da arte, pois eu precisava ter em mente que o universo dessas crianças pertence a uma cultura completamente diferente da minha. Acabei me inspirando na pintura As Três Graças, de Emile Vernon, para compor o universo dessas irmãs. O coração em formato de colcha de retalhos faz alusão às aventuras vividas e compartilhadas.
Materiais utilizados
- Papel Canson Montval 300g;
- Lápis Staedtler Mars Lumograph 2B;
- Aquarelas Van Gogh e W&N;
- Pincéis Keramik pelo sintético;
Ilustração Menino
O conto narra a história de um menino que, ao ficar velho, gostaria de renascer como criança num mundo de fantasia, com direito a castelos, dragões e muita magia. Resolvi voltar para o efeito galáxia em aquarela e reproduzir a silhueta de um castelo, envolto nessa atmosfera mágica de, literalmente, um universo de possibilidades.
Materiais utilizados
- Papel Canson Montval 300g;
- Aquarelas Van Gogh e W&N;
- Guache Talens branco;
- Guache Talens branco;
- Pincéis Keramik pelo sintético;
- Marcador Posca e multiliner Copic.
- Marcador Posca e multiliner Copic.
Você pode conhecer mais sobre o projeto no site da Ajudaris e ver as edições anteriores do livro. Assim que eu tiver um exemplar, atualizo esse post com imagens. Fiquei bastante feliz com o resultado, espero que os pequenos autores gostem do meu trabalho e sintam-se abraçados, aqui do Brasil, pois fiz cada traço com muito carinho e amor.
Atualizado em 19/11/17: meu exemplar do livro chegou na semana passada e fiquei emocionada com o resultado final.
Atualizado em 19/11/17: meu exemplar do livro chegou na semana passada e fiquei emocionada com o resultado final.
Wonder✨Woman
Fui assistir Mulher-Maravilha há uma semana e saí do cinema extasiada, querendo chutar todas as bundas à minha frente e fazer treinamento intensivo com as amazonas. O filme é incrível, entrega muito bem a história de origem da personagem e não consigo visualizar nenhuma outra atriz, além de Gal Gadot, no papel de Diana. Claro que não demorou muito para que eu pensasse numa fanart e, em pouco tempo, já estava esboçando minha princesa. Só custei a postar o resultado porque estava envolvida com os preparativos da exposição Elementais, que acontece mês que vem.
Eu não queria fazer um retrato da Gal Gadot, mas sim uma homenagem à Mulher-Maravilha, desde o filme até os quadrinhos, a série da década de 1970 com Lynda Carter, a animação Liga da Justiça (que amo), e também à origem grega da deusa. Por isso, pesquisei algumas imagens de estátuas gregas, para estudar a expressão, além de referências de cabelos que a personagem já usou e detalhes da nova tiara, que achei maravilhosa. Fiquei satisfeita logo no primeiro esboço, e parti para a ação.
Ainda embalada pelo MerMay, decidi trabalhar com lápis grafite, só que, desta vez, num mix de graduações, para conseguir vários efeitos. Fui do HB ao 5B, para ter controle sobre os fios do cabelo e também sobre a suavidade do esfumado no rosto. Para a tiara, optei por usar o marcador dourado da Bic pois, ao contrário da Posca, o efeito dele é mais envelhecido e, além disso, também permite sobrepor camadas após seco. Aqui, utilizei lápis 2B para fazer as hachuras, e me surpreendi com o efeito metálico bem realista que consegui. O resultado ficou assim:
Materiais utilizados
- Papel Canson Layout 180g;- Lápis HB, 2B, 4B e 5B (Staedtler, Koh-I-Noor e Bruynzeel);
- Marcador dourado Bic Marking e branco Posca;
- Multiliner Staedtler 0.2;
- Lápis de cor Caran D'Ache.
Recomendo que você assista Mulher-Maravilha, independentemente de gênero e preferência por Marvel ou DC pois, além de ser um ótimo filme de super-herói, também é um ótimo filme de guerra e retrata vários aspectos presentes na nossa sociedade, como a desigualdade, a ambiguidade que nos torna humanos, o machismo (velado ou não) e a luta por um mundo mais justo.
5 ensinamentos que o MerMay deixou
Eu sempre procuro tirar algum ensinamento de todas as coisas que me proponho a fazer, seja um trabalho comissionado, uma leitura ou um desafio de desenho. Para muitos isso pode parecer bobagem, mas nós somos a soma de todas essas experiências, de nada adianta pagar caro por um curso ou por um material artístico, se o fazer cotidiano não é levado em consideração.
Recebi uma quantidade enorme de feedback durante o MerMay, que há muito tempo não acontecia, talvez porque o público anda saturado de redes sociais e acabou retornando para o blog. Como cada ilustração tinha uma história, um processo e até trilha sonora, foi muito legal acompanhar a reação de quem me segue em diferentes lugares, quais sereias foram mais curtidas, e o quanto as experiências e olhares dos outros completavam meu trabalho. Recebi também muitas dicas de onde poderia melhorar, sugestões de cabelos, corpos, histórias, enfim, foi muito participativo.
Diante disso, resolvi listar cinco ensinamentos que ficaram com o MerMay, assim como fiz durante minha primeira participação no Inktober. Creio que é importante dividir essas experiências porque se nós quisermos ambientes seguros para discutir arte, precisamos criar estes espaços de diálogo. Definitivamente, caixa de comentários de redes sociais não são indicadas para qualquer debate que pretende-se minimamente saudável, então acredito muito nesse movimento de criar aquilo que desejamos ler.
1. Você não é todo mundo: é bem frase de mãe, mesmo, e faz todo o sentido. A primeira "regra" para participar de um desafio de desenho é querer. Faça porque você deseja e se sente bem, não porque todo mundo está fazendo. Se você acha que vai se estressar e tudo virar uma grande obrigação, nem comece. Outra coisa importante é não desenhar para ganhar like. Esse é o grande mal do mundo virtual da arte, as pessoas estão mais preocupadas em ter um retorno em curtidas, do que desenvolver sua técnica e percepção estética. Por isso, não embarque na moda, pense bem se é algo que vai trazer algum retorno efetivo de aprendizado, contatos e satisfação pessoal.
2. Trace um plano de estudos: a pergunta aqui é o que eu quero com esse desafio? Você pode desenhar livremente, ou então fazer um plano de estudo mais elaborado, de acordo com as suas necessidades. Eu, por exemplo, defini que aproveitaria o MerMay para treinar anatomia, gestual e figuras de corpo inteiro, em diferentes posições. A partir disso, defini os materiais que utilizaria, quantas ilustrações faria, os dias das postagens... Ao me organizar, eu criei uma rotina, que foi posta em prática durante o mês de maio. É muito fácil que isso se torne hábito, com o tempo, pois aprendemos a criar um ambiente saudável para estudar.
3. Pesquise referências: não só imagéticas, como também históricas, musicais, folclóricas, literárias. Pense fora da caixa e amplie seu repertório. O resultado não será sentido somente no traço, mas também no seu conhecimento de mundo, e na sua habilidade de desenvolver trabalhos que dialoguem com outras obras. Monte painéis de referência, tanto no Pinterest quanto coletando citações em livros, filmes e canções. Uma das coisas que fiz para o MerMay foi buscar músicas que combinassem com as ilustrações. Pesquisei "mermaid" no Spotify e peneirei tudo o que me interessava. Depois, procurei a letra, vi se realmente tinha relação com o tema, pesquisei nomes para essas personagens, busquei informações em sites e livros sobre mitologia, até criar um mundo para cada uma delas. Muitas pessoas são contra esse método de construção de uma obra, pois creem erroneamente que a ilustração não fala por si, que precisa de bula de remédio, mas não é verdade. Quanto mais escopo você tem, mais oportunidades de trabalho aparecem, pois você mostra que é capaz de contar histórias através do desenho.
4. Faça por você, não pelos outros: é impossível agradar a gregos e troianos, um ditado antigo e bastante aplicável aqui. Entenda que não dá para satisfazer as vontades de todo mundo e, retornando ao primeiro tópico, faça o desafio por você. As pessoas vão sugerir várias coisas ao longo da sua jornada; algumas serão dicas preciosas que farão seu trabalho melhorar, outras serão sugerências que devem ser deixadas de lado. Também haverá quem não goste do que você está fazendo e dirá isso com todas as letras, e tá tudo bem. Ficamos mal no começo, mas é só não dar bola e seguir em frente, não leve para o lado pessoal. Acredito que, novamente, as redes sociais nos tornam viciados em aceitação, e não precisa ser assim. Quando o próprio Tom Bancroft curtiu o tweet com minha Mer-Tea, soube que estava no caminho certo, e isso nos leva ao último item:
5. Tenha respeito por quem criou o desafio: particularmente, vi bastante coisa absurda acontecer durante o MerMay, não sei se porque ele tomou uma proporção maior. O fato é que muitos grupos distorceram o desafio, tinha gente brotando do chão pra cagar regra de como desenhar, e confesso que fiquei bastante assustada. Como já expliquei anteriormente, a ideia original é do Tom Bancroft, que criou uma linda história esse ano, The Mermaid Who Wanted To Fly, e ainda repostou ilustras de vários artistas ao redor do mundo. O que custa respeitar esse cara, que já fez tanta coisa sensacional? A dica sempre é: se um termo bomba na sua time line, vá correndo pesquisar, pois certamente ele foi criado por alguém, e outras pessoas curtiram e estão replicando a ideia. Mas ela tem uma fonte primária, então, busque-a e respeite-a.
Ao longo dessa postagem coloquei todas as minhas artes, para que os leitores pudessem ter uma visão geral de quanto evoluí, da primeira até a última. É importante frisar que nem tudo é lindo e maravilhoso, tem muitos erros e trabalho pesado por trás de cada ilustra. Não é só sentar e fazer, pelo menos para mim. Se é para os outros, maravilha, mas essa não é minha realidade. Estudo pra caramba, leio sobre arte para fazer valer minha formação acadêmica, por isso estou sempre exigindo respeito de quem trabalha com isso, chego a ser a chata do rolê, mas não me importo. Ah, e a sereia mais curtida nas redes sociais foi Lorelei, por isso ela está em destaque! 😉
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