Um Pinterest analógico para chamar de meu
Lá em 2010 ou 2011 lembro de ter visto numa postagem no extinto blog da Fernanda Guedes (que eu visitava todo dia, pois era uma fonte inesgotável de inspiração) uma coisa até então desconhecida pela minha pessoa: um lookbook. Basicamente, um pequeno caderno cheio de recortes de revista com imagens de modelos, vestidos, bijouterias... achei aquilo incrível e, como eu consumia muitas revistas na época, montei os meus, que tenho até hoje.
O tempo passou, criei uma conta no Pinterest (minha rede social mais bem sucedida, diga-se de passagem) e não vi mais necessidade em ter um suporte físico para as imagens que estavam facilmente à disposição na web, organizadas em pastas por categoria. Só que, em 2014, vi que novamente tinha acumulado certo número de revistas, por razões que a própria razão desconhece, e decidi recortar as imagens mais interessantes e organizá-las num caderno.
Corta para 2018, quando estou fazendo uma faxina nas caixas nas quais guardo meus sketchbooks, e encontro o tal lookbook de 2014! Com algumas páginas preenchidas e outras vazias, acredito que minha ideia era intercalar desenhos com as imagens. Porém, por algum motivo, deixei isso de lado e simplesmente esqueci da existência desse caderno.
Como a vida de uma acumuladora é f*da, adivinhe só o que aconteceu? Não comprei mais nenhuma revista mas, em compensação, IMPRIMI várias imagens do Pinterest para usar como referência em meus trabalhos, presas por um enorme clipes de metal, que já dava sinais de ferrugem. Decidi tomar uma decisão: ao invés de jogar tudo fora, colei as imagens impressas nas folhas em branco do caderno e montei um grande Pinterest analógico, que faz uma ponte entre 2014 e o tempo presente.
A partir disso, tomei a decisão de não comprar nem imprimir imagens e tentar usar tudo o que está neste caderno, pelo menos para rascunhar e ter um banco de ideias. Ando em falta com meus sketchbooks, meus estudos têm sido em folhas soltas, e vi nesse movimento todo a oportunidade de voltar a produzir em série, num caderno, observando minha evolução, e me distrair menos na internet com coisas aleatórias (mas é óbvio que vou continuar pinando muito). Deu um gostinho de nostalgia e também de fisicalidade que há muito precisava experimentar.
Se você está na mesma situação de acumulação de imagens, recomendo este exercício: pegue um caderno antiguinho, separe o que é mais interessante e solte a imaginação!
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Brígida (Hibisco) 🌺
Ano passado comecei uma série de ilustrações chamada Botânicas que, até o momento, contava com três mocinhas que gosto muitíssimo, mas estava completamente sem tempo para dar continuidade ao projeto. Alguns meses atrás dei início ao rascunho da próxima Botânica, e desta vez queria que a planta homenageada fosse o hibisco. No meio do caminho, acabei comprando um oráculo novo, chamado O Oráculo da Deusa, e achei na carta da deusa Brígida, a carta da inspiração, um nome e um motivo bastante apropriados para batizar essa ilustra.
O início das ilustrações é sempre o mesmo, principalmente quando vou trabalhar com aquarela: rascunho, que depois é passado a limpo para o papel definitivo via mesa de luz; marcação dos valores com grafite - aqui usei lápis 4B sobre papel para aquarela satinado; em seguida, marco os valores novamente com payne's grey e só depois começo a construir a cor de fundo para a pele, cabelos e demais áreas que levarão uma maior quantidade de tinta. Depois de terminar essa etapa, parto para os detalhes:
A finalização fica por conta dos meus amados lápis Polycolor para retrato, até gostaria de testar outros, mas esses aqui cumprem tão bem sua função que não penso em gastar com materiais tão cedo. E para o rosto, principalmente os cílios enormes, escolho sempre cantas multiliner bem fininhas, para fazer o efeito fio a fio. O resultado:
Materiais utilizados
- papel para aquarela Moulin DuRoy satinado;
- lápis grafite Lyra 4B;
- aquarelas Van Gogh;
- pinceis Keramik linha 411;
- lápis de cor Polycolor Koh-I-Noor;
- Multiliner Copic e marcador Stabilo;
- Caneta gel branca e dourada para os detalhes.
Sempre finalizo com uma camada de spray fixador e trato a imagem digitalmente no Photoshop.
Deixe que eu me aproxime de vocêatravés da brumaatravés do fogoatravés das plantasatravés das fontes profundas e abundantescom ideiasvisõespalavrasmúsica que penetra os ouvidosdeixe que eu a comovaanimeestimuleaté que suas perspectivas mudeme sua mente/corpo/espírito explodae você seja deixada em péno rastro do que foi reveladoe a vida pareça muito doce
O poema acima foi extraído d'O Oráculo da Deusa. Feliz com o resultado dessa ilustra e por estar me adaptando cada vez melhor ao scanner. Feliz também por conseguir, de alguma forma, seguir ilustrando, mesmo com tanto trabalho pela frente.
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Pequeno Guia de Incríveis Artistas Mulheres
Tenho trazido mais dicas, desabafos e leituras porque, basicamente, é o que tenho feito nos últimos tempos. Só consegui retomar meus estudos de desenho essa semana, em decorrência das férias escolares. Ainda pretendo fazer um resumão do meu primeiro semestre docente mas, antes disso, quero publicar outras coisas pra não ficar falando só de escola.
O livro do qual quero falar é, ao mesmo tempo, necessário e muito triste. Pequeno guia de incríveis artistas mulheres que sempre foram consideradas menos importantes que seus maridos, escrito pela Beatriz Calil, é um daqueles livros que lança uma luz sobre o apagamento da produção feminina na história da arte e, além disso, sobre o quanto artistas mulheres são lembradas como acessórias aos seus maridos e companheiros. Ou é a esposa dedicada, que cuida e deixa seu esposo criar, ou a amante/musa destruidora de lares.
Sinopse: Como o título entrega, trata-se de um trabalho artístico corajoso: admite, desde o princípio, o equívoco de uma história que escolheu celebrar os homens artistas em detrimento de suas companheiras. Que relegou o brilhantismo delas e de suas obras às celas de manicômios, salas de estar, camas. Que transformou mulheres fortes em vítimas de abuso, artistas competentes em belas acompanhantes para eventos sociais. E então o olhar de Beatriz pousa sobre elas. É que é tempo ainda - é sempre - de lhes fazer justiça.
Beatriz selecionou 16 artistas estrangeiras (ela planeja um segundo volume só com artistas brasileiras), entre elas Simone de Beauvoir e Camille Claudel, para contar brevemente suas histórias, obras de destaque, relevância para o meio artístico e como foram sumariamente apagadas ou relegadas à coadjuvantes dos homens aos quais estavam ligadas. Um dos casos mais emblemáticos, para mim, é Yoko Ono: artista multifacetada, é vista por muitos apenas como esposa de John Lennon e responsável pela separação dos Beatles (olhos revirando).
Por também ser artista visual, a autora fez intervenções em imagens dessas artistas, apagando os homens das fotografias. É nesse espaço em branco deixado pela figura masculina que as histórias das mulheres são recontadas, num esforço para que sua relevância não seja esquecida.
“Todo esse meu trabalho partiu, na verdade, das fotos das artistas com os maridos. Comecei a interferir nessas imagens. Em muitas delas, fica claro que o importante ali é o marido. A mulher está sorrindo olhando para ele, ou ele está em maior destaque. E muitas são divulgadas com legendas como ‘Picasso e a amante’, ‘fulano e a esposa’”. Comecei a buscar inverter isso na própria imagem.” - Beatriz Calil, em entrevista ao NEXO.
Link para matéria © 2018 | Todos os direitos deste material são reservados ao NEXO JORNAL LTDA., conforme a Lei nº 9.610/98. A sua publicação, redistribuição, transmissão e reescrita sem autorização prévia é proibida.
Por ser um livro curto (58 páginas) li de uma só vez, e recomendo fortemente que todas as mulheres que trabalham com arte tenham acesso a este tipo de informação. Ao final do texto, a autora traz estatísticas relacionadas à representatividade feminina em galerias de São Paulo e os dados são alarmantes, apesar de não causarem surpresa. Aqui no blog já publiquei um texto sobre as musas, que deu bastante o que falar na época, e serve como complemento para quem se interessou pelo livro. Adquiri meu exemplar diretamente pelo site da Editora Urutau.
Dois links com entrevistas de Beatriz Calil:
- "A raiz do machismo não se encontra isolada no mundo das artes; é um problema político e social que precisa seguir mudando" - para o Portal Geledés;
- "O guia das 'incríveis artistas vistas como menos importantes que os maridos'" - para o NEXO.
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