Lidiane Dutra
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Dicas Livros

Arte e Medo

 


Disclaimer: O Rio Grande do Sul está em estado de calamidade pública, devido às enchentes que atingiram quase 90% das cidades. O site AJUDA-RS tem uma lista atualizada de locais para doação, vaquinhas confiáveis, pessoas e animais encontrados, abrigos e voluntariado. Ajude o RS doando, compartilhando e apoiando os gaúchos. Apoie artistas, editoras, agentes culturais que foram atingidos pelas enchentes. Se não puder doar, mande uma mensagem para aquela pessoa que mora no RS, certamente sua preocupação faz diferença nessa hora. Eu estou bem, a salvo, mas a minha cidade também precisa de ajuda. Para ajudar Rio Grande, em específico, recomendo seguir o perfil SOS Rio Grande.

Meu último post foi sobre o livro O Ato Criativo, cheio de ressalvas quanto a abordagem privilegiada do autor. Mas Arte e Medo: observações sobre os desafios (e recompensas) de fazer arte, lançado originalmente em 1993 e traduzido agora pela Seiva, vai totalmente na contramão da leitura anterior.

O foco da obra é no fazer artístico - o fazer de pessoas comuns, fazer que nem sempre será reconhecido, vendido ou exposto num museu, mas que carrega significado e importância para quem o faz. Em tempos de documentar a vida na internet, para deixá-la para uma posteridade que sabe-se lá se virá ou não, um livro com mais de 30 anos vem nos lembrar que a boa arte é aquela que faz sentido para quem a produz, e que reconhecimento, fama ou qualquer outra contrapartida é quase um efeito colateral.

...as únicas pessoas que vão se importar com seu trabalho são aquelas que se importam pessoalmente com você. Aquelas próximas o bastante para saber que fazê-lo é essencial para o seu bem-estar. Elas sempre irão se importar com o seu trabalho, se não por ser excepcional, por ser seu... (p. 19)

Arte e medo não é um livro carregado de receitas, não ensina a ganhar seguidores e nem a fazer seu trabalho bombar. É um livro que fala muito mais à solidão do artista, aquela da página em branco, e ao medo de iniciar um novo projeto, de não ser bom o suficiente, de se tornar uma farsa ou uma cópia. É o tipo de livro "de ateliê", que nos coloca de novo nos trilhos, quando parecemos estar perdidos no meio do nosso próprio processo.

Na verdade, uma das poucas certezas sobre a cena artística contemporânea é que alguém, que não é você, está decidindo qual arte - e quais artistas - faz parte dela. São tempos difíceis para a modéstia, a artesania e a ternura. (p. 78)

Apensar de ser fininho, a leitura não é tão rápida assim, pois nos faz pensar, recordar, dar voltas e criar cenários e discussões em nossa cabeça. O medo é algo que vai nos acompanhar durante a jornada artística, mas, na minha opinião, a solidão é o ponto-chave do livro e como vamos aprendendo a conviver com ela - muito mais do que o receio de qualquer coisa.

Uma das partes que mais me pegou foi sobre arte e docência, pois passo por isso na minha rotina:

Quem leciona já conhece o padrão. Ao final da semana escolar, o sujeito tem pouca energia sobrando para qualquer atividade artística mais exigente do que preparar argila ou limpar pincéis. Ao final do semestre, dar atenção aos trabalhos inacabados (e aos relacionamentos desgastados) pode muito bem ser mais urgente do que criar qualquer arte nova. Existe um risco real (e com exemplos abundantes) de que um artista que leciona descambe para algo muito menor: um professor que costumava fazer arte. (p. 88)

Após concluir essa leitura, fiquei pensando o por quê artistas precisam de obras assim, que validem seus sentimentos e sua prática (não vejo o mesmo interesse em publicações para cirurgiões, advogados ou engenheiros). Trabalhar com a área de humanas e com subjetividades nos leva a ser testados o tempo todo, e isso é bastante cansativo, pois o trabalho não acaba ao chegar em casa, ele está sempre permeando tudo e bebendo de todas as fontes para ser feito. 

Talvez seja uma das tantas lições que uma sociedade focada na produtividade e na performance deva aprender: que a arte nem sempre vai gerar um produto, nem sempre terá uma utilidade, ou uma explicação óbvia para o restante das pessoas.

Já falei: Sobre frustração e se definir artista

5★
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Livros

O Ato Criativo: uma forma de ser



O Ato Criativo: uma forma de ser, é um livro escrito pelo produtor musical Rick Rubin. Descobri esse título através das minhas pesquisas pela Amazon e só depois fiquei sabendo do hype em outras redes sociais. Rubin é produtor de um dos meus álbuns favoritos, o autointitulado da banda Audioslave, de 2002. E também do Vol. 3: (The Subliminal Verses), do Slipknot, de 2004.


A obra é uma mistura de Roube como um artista & conselhos de vida do autor e, apesar de algumas passagens inspiradoras, como um todo, achei o livro bem mais do mesmo, com aquela vibe espiritual de boutique, vinda de gente privilegiada, que já conquistou uma posição de destaque em seu nicho e agora prega coisas como: tire cinco minutos do seu dia para meditar e você verá um milagre acontecer em sua vida.


O livro é dividido em capítulos curtos, nos quais Rubin fala sobre a fonte para inspiração, a constância no trabalho criativo, o sentido da obra de arte para o artista e para o espectador, alternando com pequenos poemas, que oferecem para os leitores um lembrete do por quê se dedicar à criação e como podemos vencer nosso próprios demônios para enfrentar seja a folha em branco, a primeira nota de uma música ou os movimentos num palco.

Viver como um artista é uma prática.

Você se engaja nela

ou não


Não faz sentido dizer que você não é bom nisso.

É como dizer "Não sou bom em ser monge".

Você vive como um monge ou não.


Tendemos a pensar na obra do artista

como o produto.


A obra real do artista

é um modo de estar no mundo.


(p. 37)

Dentre os capítulos que mais gostei está Hábitos, no qual o autor traz uma lista de pensamentos e hábitos não propícios ao trabalho, dentre eles culpar os outros pelas interferências no seu processo e não se sentir bom o bastante. Também gostei de Sucesso, no qual Rubin fala que essa medida está entre artista e obra; no quanto o artista está pronto para deixar sua criação ir, e não baseado em sucesso popular, que depende de um conjunto de fatores e alinhamentos (muito necessário em tempos de redes sociais). 


Mas o tom geral do livro é bem ligado com espiritualidade, e não há nada de errado com isso, o problema é aquele que falei lá no começo: é o de uma pessoa privilegiada, que pode se dar ao luxo de sair para fazer uma trilha para se reconectar com sua criatividade, por exemplo. E sabemos que essa não é a realidade da grande maioria dos artistas, que estão numa luta diária para pagar as contas.


O Ato Criativo custa R$ 59,90 e não vou impedir ninguém de gastar esse valor, caso queira realmente ler esta obra, mas deixo registrado aqui que existem muitos livros mais densos, com mais lastro teórico e até com vivências artísticas mais próximas da realidade de muitos criadores. Para uma lista com várias indicações que já resenhei aqui no blog, vá até a seção FAQ ou procure pela tag LIVROS.

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Reflexões

Quase quarentando e (ainda) blogando

Uma jovem prestes a criar um blog, com seus longos cabelos. À esquerda, embaixo, meu orientador Victor Hugo. Turma de 2009 do Mestrado em Educação Ambiental da FURG.

 14 anos. Essa é a idade de um adolescente do 9º ano, que está às portas do Ensino Médio. Quando esse estudante estava nascendo, eu digitei pela primeira vez no blogspot desenharehpreciso. E os motivos de clicar em publicar logo após definir meu user nada tinham a ver necessariamente com desenho. Eu precisava qualificar meu projeto de dissertação, havia rompido com meu orientador original e tinha sido acolhida por outro orientador, o professor Victor Hugo, falecido há quase dois anos. O Victor sempre me falava que não havia motivos pra sofrer, que as coisas não precisavam ser um sofrimento. 14 anos mais tarde e talvez eu ainda não leve esse conselho dele como deveria.


14 anos separam aquela Lidiane jovem, de 25 anos, que precisava escrever um projeto de mestrado, que recém estava começando a falar no MSN com um cara apresentado por uma amiga, e que usava um espaço que ela não sabia mexer muito bem, pois tinha chegado atrasada nesse rolê de blog (a infância e adolescência humildes não permitiram ela ter um computador até entrar na faculdade), postando desenhos escaneados numa qualidade minúscula, sem muito o que dizer sobre, e quando dizia, numa linguagem acadêmica e meio truncada.


14 anos é uma vida, tantas redes sociais surgiram e se foram, o Orkut virou acervo de museu, o TikTok já é oficialmente uma rede de pessoas de meia idade, e os jovens postam suas fotos no VSCO, aquele mesmo que a gente usava pra colocar efeito bokeh nas fotos do Tumblr. Todas, eu disse todas as pessoas que eu seguia em 2010 tomaram outros rumos na vida. Eu mesma já estou há mais de meia década dando aula. Mas todas as postagens eu lembro como se tivessem sido escritas ontem.


Entrar aqui sempre é uma cápsula do tempo: eu volto ao passado, registro o presente e projeto o futuro. Às vezes dá a sensação de permanecer parada no mesmo lugar. Por que ainda faço isso? Ainda tem sentido? Precisa fazer? E pra quem?


Ontem mesmo, conversando com uma amiga, ela falou sobre essa mulher moderna, quase quarentona, mas que continua ligada nas coisas. Eu sou essa mulher. Sempre que um estudante fala sora, mas tu sabe tal coisa? (geralmente um meme) eu me sinto ofendida, afinal eu ainda sou jovem. Uma jovem de meia idade! Não cite a magia profunda para mim, eu estava lá quando ela foi criada...


Então é sempre nesse misto de sentimentos, que vão se intensificando com o passar do tempo, com as tendências sendo reeditadas, com coisas indo e vindo, com as intermitências do tempo, que sigo por aqui. Postando meus trabalhos, falando coisas que talvez só façam sentido pra mim, e que talvez não cheguem a um número considerável de pessoas. Eu estou deixando cada vez mais as redes sociais, pra mim é um alívio não me manter informada sobre coisas que vão me deixar péssima. Diminuí meu número de redes para 3 e os serviços de streaming são basicamente pra ouvir música e ver vídeos para me distrair enquanto faço faxina na casa ou desenho. Eu sou uma jovem de meia idade, mas estou envelhecendo, e o blog vem cumprindo sua função de fazer minha presença na web  sem me preocupar muito em voltar no dia seguinte. 


Estarei aqui para a festa de debutante desse espaço, com direito a vestido e bolo? Não sei, mas enquanto eu estiver aqui, sigo postando meu trabalho, as coisas que fazem sentido pra mim, criando minha própria bolha e vivendo a máxima dos pinguins de Madagascar: sorria e acene.


A vida não precisa ser esse sofrimento todo.

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Aquarela Portfólio Processo criativo

Matrioska

 


Esse é o processo de um trabalho muito especial, uma encomenda feita para a psicóloga Gabriella Domingues, por indicação da Rami Aquarelas. A Gabi queria a representação de uma matrioska, boneca russa colocada uma dentro da outra, pois é uma imagem que ela associa à sua abordagem de trabalho. Foi a primeira vez que utilizei o desenho digital como suporte para os estudos.

Começamos com um brainstorming sobre as matrioskas e as posições possíveis. Também levei em consideração as cores do consultório da Gabi e o tamanho sugerido pela arquiteta para o quadro. Nesse caso, trabalhei num papel Arches 100% algodão tamanho 56 x 76 cm. Após alguns estudos no digital, chegamos na ideia abaixo, a construção da matrioska maior com outras três dentro dela e a delimitação de um contorno externo só. Em seguida, imprimi esse estudo digital em ladrilho, para ficar exatamente do tamanho correto para passar para o papel.


Em seguida, passei para o preparo das tintas. Como eu precisava fazer toda a pintura num fôlego só, preparei bastante base que eu não precisasse adicionar nem água, nem mais tinta. Como as cores eram bem pasteis, principalmente os rosas, misturei guache branco para dar esse efeito mais opaco. Mas nas partes marrons e verdes, utilizei aquarela pura. Como eu tinha apenas uma folha de papel, tudo precisou ser milimetricamente posicionado, nada poderia dar errado! A cor pigmento ficou um pouco mais forte que o estudo digital, mas mesmo assim mantendo a paleta, e adquirindo mais contraste entre as matrioskas rosadas, que estavam muito iguais.


E assim que comecei a pintar, não parei até terminar toda a base. Como está fazendo um clima muito quente, a tinta seca bem rápido, então para evitar manchas, as aguadas precisavam ser bem generosas - e ao mesmo tempo precisas, pois como já falei, não podia errar hehehehe. Foi um desafio e tanto! Depois de feito todo o fundo, passei uma segunda demão onde precisava e passei aos detalhes dos rostinhos e também os ornamentos, que fiz com caneta dourada.




Optamos também por fazer um sombreado no chão, para que a matrioska não ficasse "voando" no papel. Usei pouquíssimos recursos adicionais à tinta, apenas um lápis de cor para conferir profundidade em algumas partes do rosto e a caneta naquim para o contorno dos olhos e detalhes muito miúdos. De resto, confiei na tinta e confiei no processo.



Detalhe do ornamento, que é igual em todas as matrioskas, para evitar poluição visual. Abaixo, uma foto minha com o trabalho já finalizado para vocês terem uma ideia do tamanho do papel, bem diferente do que estou acostumada a trabalhar.



Materiais utilizados

  • Papel para aquarela Arches 100% algodão;
  • Aquarelas Talens e White Nights;
  • Guache Talens;
  • Marcadores Derwent e Sakura para os detalhes;
  • Lápis Koh-I-Noor para os detalhes;
  • Pincéis sortidos;
  • Spray fixador.



Acima, eu feliz com o resultado de um trabalho tão bonito e que adorei fazer. Agradeço à Rami por ter me indicado, à Gabi por confiar no meu trabalho, à outra Gabi, que gentilmente fez a ponte da entrega, e a todos que, de uma maneira ou de outra, continuam me apoiando para que, 14 anos depois, eu continue produzindo arte.


E se você quiser uma arte exclusiva, tradicional ou digital, para chamar de sua, estou com encomendas abertas. Todo o mês, abrirei quatro vagas na minha agenda para comissões de retratos e outros trabalhos que dialoguem com o meu estilo. Se você se interessou, basta mandar um e-mail para lidiane@lidydutra.com ou entrar em contato pelo direct do meu Instagram.

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Aquarela Portfólio

Ceto observa suas filhas

 


Ceto é a deusa grega associada ao perigos do mar, representando as baleias, tubarões e monstros marinhos. Gerou outros monstros conhecidos da mitologia, como a Equidna, Cilla e as Górgonas (dentre elas, está a Medusa).


Ceto associa-se à Hekate sob o epíteto Krataiis (forte, poderosa, rochosa), como mãe do monstro Cilla. No blog Singing for Her vocês podem encotrar uma explicação detalhada para essa associação.


Quando pensei nessa ilustração, me veio à mente, primeiramente, essa imagem de Ceto buscando suas filhas no mar profundo; imaginei essa mãe vigilante e atenta, procurando as filhas - vistas como monstros pela humanidade, mas ainda assim suas filhas. Também é uma referência aos tenomes, yokais japonses que possuem os olhos nas palmas das mãos (a inspiração mais famosa em um tenome é o Homem Pálido, do filme O Labirinto do Fauno), e também na Medusa de Caravaggio e sua expressão de assombro.



Tenho aproveitado as férias para voltar às origens do modo como pinto: marcando valores, fazendo primeiro a pele, depois acrescentando os detalhes... E para essa ilustra, o mar profundo também se confunde com o céu de tempestade. Acho que isso é um sinal para que eu volte a fazer mais galáxias. Um pouco do processo:




O resultado final:


Materiais utilizados

  • Papel para aquarela Strathmore;
  • Aquarelas Whtite Nights;
  • Pincéis da Shein;
  • Lápis de cor Polycolor;
  • Marcadores Pentel e Derwent para os detalhes.

Se você deseja um retrato no mesmo estilo dessa pintura ou em desenho digital, basta encaminhar um e-mail para lidiane@lidydutra.com ou entrar em contato pelo direct do meu Instagram ou TikTok.

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Aquarela Portfólio Processo criativo

A Deusa Tríplice

 


Há algum tempo atrás, encontrei uma linda foto que mostrava a comunhão entre as três idades da mulher - a jovem, a mãe e a anciã - e guardei a referência para depois. Passado algum tempo, fiz um esboço e deixei na minha já famosa pasta dos projetos, aqueles trabalhos que um dia verão a luz, mas que eu deixo marinando para pegá-los no tempo correto. Acredito que todas as ideias nascem e demoram certo tempo para se desenvolverem, é como a semente germinando na terra até se tornar árvore. 


E chegou o momento dessa semente germinar. Hoje é um dia muito especial para uma libriana como eu, pois encerra-se um ciclo cármico de 14 anos! E nada melhor do que comemorar com uma aquarela com um forte simbolismo: o da Deusa Tríplice. É muito comum confundir a Deusa Tríplice com Hekate. Mas elas são diferentes. 


Hekate tem um aspecto triplo por ter parte nos três domínios (celeste/ terreno/ ctônico). Além disso, ela rege espaços liminares, como a encruzilhada tripla (em formato de Y). Na mitologia romana, Hekate é chamada de Trivia. Já a Deusa Tríplice, geralmente cultuada na Wicca, está associada à lua e suas fases: donzela (nova/crescente), mãe (cheia) e anciã (minguante). Então essa representação que trago hoje é a da Deusa Tríplice, não de Hekate. Eu também já cometi esse engano quando comecei a trabalhar com a Deusa, por isso gosto de explicar.




Essa ilustração foi feita bem do meu jeito mais tradicional, começando marcando as áreas de sombra com lápis e depois com tinta cinza, indo para o colorido da pele, e cada uma das deusas tem uma tonalidade de pele diferente. Depois fui para os cabelos, mantos e retornei para detalhes finos com tinta. Só aí passei para o lápis de cor e as finalizações com marcadores que gosto de fazer.


Esse trabalho me apresentou o desafio da anciã. E estou cheia de projetos envolvendo anciãs. Mas elas exigem um cuidado que ainda é muito novo para mim. Cada linha, cada ruga, a expressão dos olhos, dos lábios, é bem diferente e não pode ficar caricato. Então ainda quero me aperfeiçoar bastante na representação de mulheres mais velhas, para que elas se enxerguem nos meus trabalhos. O resultado:



Materiais utilizados

  • Papel Arches grana fina 300g;
  • Aquarelas White Nights;
  • Pincéis para aquarela sortidos;
  • Lápis de cor Polycolor;
  • Marcadores Pentel para os detalhes.

Lá pelas bandas do TikTok estão dizendo que esse ano é um grande retorno à 2014 e toda estética do caveirismo e das galáxias, por exemplo. Foi uma época bem efervescente por aqui, lembro de blogagens coletivas, tags, dentre outras coisas que me conectaram com muita gente legal. É engraçado ver que continuo por aqui, fazendo basicamente a mesma coisa, que é compartilhar meus trabalhos nesse formato. Até pensei em revisitar alguns trabalhos, mas acho que não. A Deusa ensina que nascemos, crescemos, e morremos para renascer, então nada de se apegar ao passado. Daqui pra frente, só pra frente (e sem carma!). 
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Arte Digital Portfólio

Citrus

 


Sigo estudando desenho digital no Infinite Painter, e dessa vez quis fazer algo que fugisse um pouco da minha paleta de cores habitual. Durante os últimos anos, eu ouvi muito que deveríamos ter uma paleta de cores reduzida. Que isso imprimia personalidade ao nosso trabalho e auxiliava os clientes a nos distinguir dos demais artistas.


Ao longo do tempo, criei basicamente duas paletas: uma para trabalhar figura humana e elementos da natureza, e outra para tudo que envolvia galáxias. Praticamente aboli todas as cores "limão", que considero muito fora da curva, e fui neutralizando minhas cores, evitando algo muito discrepante. 


Porém, estou lendo o ótimo livro O ato criativo, do produtor musical Rick Rubin, e num dos capítulos ele foi certeiro: se você tem trabalhado sempre com a mesma paleta de cores, desconsidere-a ao começar um novo trabalho. Pois, ao longo do processo criativo, seguir sempre com o mesmo manual pode nos levar à insatisfação, e é da ordem natural do artista experimentar coisas novas. 


Aquilo foi um estalo e tanto na minha mente, e me dei conta que estava com a ferramenta perfeita em mãos para fazer esses experimentos de maneira livre e descompromissada. Por isso, tentei explorar nuances nessa figura que geralmente evito: cores mais blocadas, reduzi o esfumado às áreas de destaque, e escolhi cores mais vívidas, como o laranja em contraste com o verde, e o pêssego (cor do ano da Pantone). Também limpei outros elementos que gosto de exagerar, como cabelos, cílios, detalhes mínimos. O resultado:



Finalizando, coloquei a figura dentro de uma forma abstrata, achei que ficou um bom elemento de design para se aplicar a posters, bolsas, etc.


Quem quiser me acompanhar em tempo quase real, é só me seguir no Instagram, TikTok ou Pinterest.

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Reflexões

Sobre frustração e se definir artista

 

Foto de Artiom Vallat na Unsplash


Esse texto ressoa alguns sentimentos que estão latentes desde 2022 e que eu já havia começado a escrever no início do ano passado, mas que não publiquei. Aproveitando que hoje é um dia portal e Deipnon, vou jogar essas reflexões para o universo, para que encontrem vez e voz em outros corações e mentes.

Geralmente as férias são o período que eu mais me dedico à arte, por motivos óbvios: não preciso planejar aulas e nem encontrar um espaço no meio da rotina de trabalho. Posso sentar com calma e passar a tarde toda me dedicando à aquarela, ao desenho, à criação. Costumo dizer que durante as férias eu deixo de ser professora, sequer faço menção ao trabalho docente, só retomo essa parte da minha vida quando preciso retornar à escola.

Só que esse ano resolvi fazer diferente. Estou de férias. E isso quer dizer que estou criando no meu tempo, lendo no meu tempo, fazendo vários nada, passeando no shopping, tirando o sono atrasado, vendo programas que não preciso usar muito meu cérebro. Enfim, estou descansando e organizando a minha cabeça e minha vida. 

Os últimos três anos foram muito complicados e me vi em alguns dilemas que achei que já haviam sido superados. 2022 foi um ano extremamente difícil em sala de aula. Depois de dois anos de ensino remoto, perdi a conta de quantas vezes fui testada por estudantes que não queriam estar ali, e deixavam isso bem claro. Minha aula passou a ser chata, eu virei uma carrasca, tudo porque eu queria… dar aula. Já em 2023 assumi mais uma coordenação e não tive turmas. Mas em compensação, tive que lidar com toda a carga mental que é planejar formações pedagógicas, cobrar planejamento, projetos, auxiliar no dia-a-dia e no burocrático de uma escola.

Me vi num lugar de insatisfação pessoal impensável a essa altura do campeonato: eu tinha emprego, casa, realização. Mas passei a me sentir frustrada demais: enquanto professora, por não conseguir dar aula do jeito que queria, enquanto coordenadora, por não avançar no trabalho pedagógico, e enquanto artista por não encontrar motivação para criar, não por causa de bloqueio criativo, mas porque fui engolida pela rotina e precisei deixar a arte de lado em muitos momentos.

Passei a ver amigos e outros artistas se realizando em suas carreiras, participando de feiras, pegando comissões, expondo, e me peguei estagnada na vida. A mesma sensação que me consumia lá atrás e eu via todos passando em concursos, com estabilidade, enquanto eu esperava a minha vez. E ela apareceu. Só que todo aquele planejamento que eu havia feito de passar num concurso, ter uma renda para me manter e poder escolher o que eu queria com minha arte deixou de fazer sentido, pois na minha cabeça eu não estava fazendo “nada”. A arte se transformou numa vírgula da minha vida, e a docência era toda a pedreira que dizem que é. Vi toda uma trajetória de mais de uma década passar batido diante dos meus olhos, me recolhi numa concha muito amarga, muito negativa. Eu não era mais artista, era só uma professora que desenhava nas horas vagas, e às vezes nem isso.

E foi daí que a insatisfação só aumentou, se transformou em tristeza e até mesmo em dor física. Eu dei errado, não consegui ser boa o suficiente pra me sustentar com arte, e nem estava sendo uma boa professora. Todo mundo se realizou, menos eu. Fracassei, enquanto todos pensavam que eu seria aquela que despontaria. Uma amiga me aconselhou a ser mais otimista, que as coisas boas vinham. Outra me disse que estava tentando passar em concurso para equilibrar arte e docência, assim como eu. Outra, queria abandonar a docência pra se dedicar à arte. Outra, ainda, ia abandonar a arte para se reposicionar no mercado.

Depois de várias crises e uma bateria de exames que constataram vários problemas hormonais, resolvi colocar a cabeça pra fora dessa água turva em que estava metida, e comecei um processo interno de me auto-analisar para perceber o que realmente me fazia artista e o que significava realização pessoal para mim. Após mais uma rodada de conversas com outras artistas (obrigada, Rami, por ter me lembrado de que nos piores momentos com meu pai no hospital, eu estava produzindo arte), comecei a ponderar muitas coisas.

A primeira delas é que bom ter um emprego estável. Um emprego com responsabilidade social, que me permite pagar as contas, sustentar a casa, comprar materiais e investir na minha arte, me proporcionando escolher em quais projetos desejo trabalhar, ou se desejo desenhar somente pra mim. Não é o emprego com a melhor remuneração do mundo, mas foi o que escolhi como profissão, e também quando decidi que era melhor assim, para justamente tirar das minhas costas essa necessidade de viver de freelancer e sem a menor estabilidade financeira, sem saber o dia de amanhã. E dificuldades todos os empregos têm. O pulo do gato é saber o que fazer com essas dificuldades. Se o desaforo de um estudante ou até mesmo de um colega vai me afetar ou, se como a adulta que sou, vou dar de ombros e seguir minha vida. Se vou dizer não quando algo ultrapassar o que está descrito na minha função, ou se vou aceitar ser explorada só para parecer legal. Se vou tentar colocar pitadas do que acredito no dia-a-dia, ou se vou me deixar levar pela situação de terra arrasada que outras pessoas tão frustradas quanto eu tentam colocar em cada momento.

A segunda delas é, afinal, de quem eu preciso de validação pra me considerar artista? Eu tenho um diploma em Artes Visuais, trabalho há mais de dez anos com isso, tenho obras em acervos, estou esperando por acaso alguém vir com uma vara de condão e me abençoar ou me nomear? Tudo que eu faço já não é suficiente? A validação precisa vir de dentro ou de fora? Eu que sou uma defensora do tempo real que temos, e não daquele tempo idealizado; eu que corri atrás de uma ferramenta digital para incluir arte na minha rotina, estava fazendo justamente uma das coisas que mais condeno, que é achar que preciso me sustentar totalmente de arte, trabalhar com arte 12 horas por dia, receber biscoito e aplausos de pessoas que eu acho desprezíveis, ou fazer parte de círculos de gente alienada da realidade.

E foi a partir desses movimentos de análise, de conversa e de tratamento mesmo, que percebi que as minhas definições de ser artista, de ser professora e de ter sucesso, estavam passando por ruídos externos e, principalmente, sendo filtradas pela ótica de frustrações que não eram minhas, mas que eu projetava em mim. Quantas vezes nós estamos relativamente de boas com nosso trabalho e somos atravessados por uma opinião não solicitada, que fica dias martelando na nossa cabeça? Ou nos sentimos orgulhosos de alguma conquista, mas outra pessoa conquistou mais ou menos e isso reverberou em nós de alguma forma e nos afetou?

É difícil não se deixar afetar por todo nosso contexto de vida, mas um dos meus principais mantras para 2024 é me submeter somente à minha verdade. E a minha definição de artista, dentro do que considero como verdadeiro, é ter esse privilégio de poder criar. O ato criativo passou por muitas redefinições ao longo dos últimos anos. Temos autores que defendem que todos podem criar, outros que questionam justamente essa necessidade. Hoje em dia, todos são criadores de conteúdo... Mas, para mim, a criação é um ato inerentemente humano, é o divino dentro de nós, e o que dá sentido à nossa existência. E se eu acreditar que é isso que me define, este é o caminho que devo seguir.

Se você é artista ou está passando por momentos de insatisfação na vida, sinta-se abraçado.

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