Lidiane Dutra
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Reflexões

Arte e IA, público e lifestyle


Desde o final de maio estou acompanhando alguns conteúdos gringos sobre as últimas atualizações na política de privacidade da Meta (que gerencia Facebook, Instagram e Whatsapp), mais precisamente as informações sobre o uso de conteúdos das plataformas para treinamento de IA generativa. Basicamente, a partir de 26 de junho, a Meta passará a usar as fotos, vídeos e textos dos usuários para treinar inteligência artificial. 

Isso impactou drasticamente em muitos artistas, que começaram a apagar fotos de seus feeds e se posicionarem contra essa política totalmente invasiva da Meta, e de tantas outras empresas. Muitos estão migrando massivamente para o app Cara, que ainda está em sua versão beta e travando muito (a promessa é de não tolerar conteúdos gerados por IA, mas teve gente que já deu uma espiada nos termos de uso deles e parece que esses conteúdos serão aceitos caso tenha uma legislação específica).

Já outros artistas começaram a fazer vídeos e tutoriais ensinando o tortuoso caminho até formulários da Meta que permitem que os usuários protejam seus conteúdos (em tese), limitando o acesso da empresa e coibindo o uso para treinamento de IA. Vi muitos conteúdos em inglês e, por conta disso, consegui eu mesma preencher, com resposta positiva para meu pedido de oposição ao uso do meu conteúdo. Nisso, várias pessoas começaram a me perguntar o caminho das pedras até o tal formulário, até que resolvi gravar o vídeo abaixo:


Ver essa foto no Instagram

Uma publicação compartilhada por Lidiane Dutra ✨ (@lidydutra)


Esse se tornou o vídeo mais assistido e compartilhado do meu perfil, uma movimentação nunca antes vista, pois várias pessoas não sabiam que o direito de se opor existia e que era possível preencher essa solicitação e receber uma resposta da Meta. A falta de conteúdos em português dentro do próprio Instagram talvez tenha sido uma barreira, pois não vejo os artistas brasileiros batendo tanto nessa tecla quanto o pessoal dos EUA e Europa. 

Também publiquei alguns stories relatando que desde o momento que preenchi o bendito formulário, comecei a perder seguidores, e se uma coisa tinha a ver com a outra, não era possível saber. O que posso afirmar é que há anos meu perfil no Instagram não cresce, e nos últimos tempos passei a compreender melhor o comportamento das pessoas lá, em relação ao que esperar de um artista que se divulga nas redes, e essa é a segunda parte desse post.


As pessoas não querem ver arte. Em sua grande maioria, elas não abrem o feed para acompanhar o processo criativo de um artista; para saber a diferença entre o azul cerúleo da Sennelier e o da Talens; para discutir a qualidade da cera dos lápis Polychromos; para entender o que é um papel acid-free ou para ver alguém com a roupa surrada refazendo um desenho pela milésima vez. Quem faz isso são outros artistas, na busca por compartilhar conhecimento. O público quer ver lifestyle. Ele quer um vídeo ou fotos legais, com a roupa da moda, num ateliê ou num lugar aesthetic. Ele quer dicas de decoração, de como tornar acessível aquela realidade tão bem editada para ele também. E nisso, a obra de arte se torna a moeda de troca do artista: tenha o meu trabalho e, com ele, você terá acesso a um status social que lhe permitirá ser tão aesthetic e descolado como eu.

E eu não estou criticando quem sacou essa dinâmica e aplica ao seu trabalho, sigo muitas pessoas que vendem essa narrativa e admiro quem a faz com autenticidade. Só que não é algo que todos vão ter condições ou vão se sujeitar a fazer. E nisso, o terreno das redes, que antes era um lugar mais horizontal para distribuir o conteúdo de quem não tinha tantos contatos ou tanto dinheiro para se promover, torna-se um ambiente hostil e impulsionado por algoritmos. E novamente quem tem tempo, dinheiro e conhecimento necessários para acessar essa engrenagem é quem vai se beneficiar. E isso vale para todos os momentos da nossa vida, aqui faço um recorte do que acontece entre artistas e plataformas de divulgação.

Quantas vezes as fotos do meu ateliê ou até mesmo as minhas selfies tiveram mais acesso do que meu próprio trabalho? E quantas vezes me culpei por não fazer um vídeo extremamente elaborado (mas que passasse uma vibe descompromissada, que é mais cool) apresentando o que faço como um grande projeto, mostrando como sou uma pessoa realizada por trabalhar em tantas frentes com o que amo? É uma conta muito abusiva e que não fecha, pois não é real para mim.

Qual a solução para todos esses problemas? Não sei. Vamos conseguir legalizar as questões referentes ao uso de IA e direitos autorais ou seremos engolidos pelas grandes corporações que só visam lucro? Também não sei. Tudo é muito nebuloso e às vezes é bom dar alguns passos para trás, a fim de ter mais clareza para o que se está observando. Minha dica é: siga tendo consciência do próprio trabalho, dos seus caminhos, de sua marca no mundo e da sua voz artística, a ponto de não se preocupar em buscar validação externa através de redes, embora elas sirvam não só para mostrar trabalhos ao mundo, mas também vendê-los. Não entre em narrativas impossíveis de sustentar, seguir as trends pode ser um caminho curto até os números, mas pode cobrar um alto preço pela sua autenticidade. 
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Processo criativo Técnica Mista

Carmilla


Recentemente li o clássico do horror Carmilla: a vampira de Karnstein, de Sheridan Le Fanu. A sensação foi a mesma de quando li Drácula, um texto que demora muito para ir até "os finalmentes" e, quando vai, acaba muito rápido. Mas ali está a base para o próprio Drácula e toda a sorte de vampiros que vieram posteriormente, com a sensualidade e o apetite por sangue já tão conhecidos pela cultura pop. A minha edição traz também O Vampiro, de John Polidori, tão xoxo quanto, ainda na minha modesta opinião.

A história é narrada por Laura, uma jovem que vive na Estíria, na companhia do pai e de duas amas. Numa noite cheia de eventos estranhos, Carmilla é deixada na porta da residência de Laura, aos cuidados daquela família. E é aí que coisas sinistras começam a acontecer, não sem antes um flashback de Laura pequenina, sendo atacada por uma criatura, ainda no berço.

Carmilla serviu muito mais como uma metáfora para mim, neste exato momento planetário, do que como um conto de terror. Ela é aquela presença constante, pegajosa, que faz você viver à mercê de seu humor e gostos, arrastando-o para o fundo do poço na menor das oportunidades. O vampirismo não precisa ser necessariamente um morto-vivo drenando o seu sangue, mas pode muito bem ser um colega de trabalho que não suporta seu sucesso, um familiar invejoso ou um amigo de Instagram que não curte o que você posta, não torce por você, mas está na primeira fila para ver o seu fracasso (a excelente série What We Do In The Shadows personifica o "vampiro energético" na figura hilária de Colin Robinson). 

Laura é uma moça que vive longe de tudo e todos, numa época em que nos bailes aristocráticos acontecia a vida social, e Carmilla, com seus belos e espessos cabelos, parece ser a única janela da jovem para o mundo exterior. Entre cartas, coincidências e mal-estar inexplicáveis, Carmilla (ironicamente escrito por um homem) é o retrato do quão cruel pode ser a vida de uma garota, esteja ela sujeita às convenções da sociedade, esteja ela perambulando pela noite em busca de uns pescoços para morder. De todo modo, elas devem ser punidas de maneira exemplar.
Hell is a teenage girl. - Jennifer's Body (2009)

Materiais utilizados

  • Papel Concept da Hahnemuhle;
  • Marcadores nanquim de todas as espessuras Sakura;
  • Marcadores Copic;
  • Algumas pitadas de lápis de cor e caneta com glitter.

Acho que aproveitei para produzir e publicar tudo o que pude durante o mês de maio, mas sabe-se lá quando vou voltar por aqui. De qualquer forma, foi um pagamento e tanto para a dívida de abandono que eu tenho eternamente com esse espaço.
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Arte Digital Portfólio

Mermay 2024: As Fórcidas

 


Para o Mermay desse ano, pensei em algo temático como o Calendário do Advento que fiz ano passado. Sereias podem ser um assunto bem batido, mas depois que li o maravilhoso livro A Deusa Tríplice: em busca do feminino arquetípico, do Adam Mclean, tive a ideia de representar as Fórcidas, que são grupos de deusas tríplices, nascidas das antigas divindades do mar, Fórcis e Ceto.


Além desses seres mitológicos, a inspiração também veio das cerâmicas gregas, mais precisamente dos vasos de figuras vermelhas sobre fundo preto. Acho bem difícil trabalhar com uma cartela tão reduzida assim, por isso acabei pegando algumas referências para me auxiliar, como esta:


Exekias Amphora, Achilles and Ajax Engaged in a Game. Fonte

Todas as ilustrações foram feitas digitalmente, utilizando o Infinite Painter. Ainda vou falar sobre como está sendo minha experiência no tablet (e confesso estar bastante enferrujada nessa empreitada).


Na semana 01 ilustrei as Górgonas, três irmãs que viviam na extremidade ocidental do mundo, na fronteira com o reino da Noite. Eram Medusa, Esteno e Euríale. Após ser punida por Atena, Medusa e as irmãs foram transformadas em monstros de pele escamosa, com cobras pelos cabelos e olhar petrificante.


Na semana 02 ilustrei as Greias, que são descritas algumas vezes como belos seres com corpo de cisne, em outras como “As três velhas”, com cabelo grisalho, um único olho e um único dente que compartilhavam entre si. Seus nomes eram Ênio, Penfredo e Dino.


Na semana 03 ilustrei as Harpias, palavra que significa “arrebatadora”. As harpias são seres com corpo de pássaro e cabeça de mulher. Estão relacionadas com o elemento ar e são a personificação dos ventos tempestuosos. As três harpias são Aelo, Celeno e Ocípete.



Por fim, na semana 04, cheguei nas Sereias, nomenclatura derivada de uma raiz grega que significa “prender ou vincular”. Seus nomes diferem, de acordo com a história de origem. Aqui adotei a versão italiana: Partênome, Leucósia e Lígia. As sereias são servas de Perséfone e levam as almas até o submundo, atraindo marinheiros para os rochedos com seu canto arrebatador.


Todas as definições e nomes foram retiradas do supracitado livro, e sei que existem outras fontes, com outros mitos de origem e outras interpretações. Estas foram as que adotei criativamente para a série de ilustrações. A partir de agora, pretendo me dedicar mais ao estudo da ferramenta digital, e não focar tanto em trabalhos acabados.

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Portfólio

Deméter

 


Após representar por duas vezes uma jovem mulher (aqui e aqui), decidi resgatar o rascunho de uma anciã e me voltar para os lápis de cor. Não estou conseguindo fazer nada com aquarela, nada que remeta levemente à água. Quando terminei esse trio de mulheres, concluí que estava diante das deusas Perséfone e de sua mãe, Deméter.


No curso As chaves de Hekate, a Márcia C. Silva fala da confusão que fazemos ao associar Hekate com a anciã no mito de Perséfone. Se analisarmos a tragetória das deusas, Hekate seria a virgem, Perséfone a mãe e Deméter a anciã. E faz todo o sentido quando estudamos os mitos com um olhar mais cuidadoso. Deméter é a deusa grega da colheita e da agricultura. Quando sua filha foi raptada por Hades, fez a terra mergulhar no inverno, impedindo que as plantas crescessem. 


Embora a descrição da deusa fale de seus cabelos loiros, essa representação traz consigo o prata azulado de uma cabeleira grisalha. 



Tomei o cuidado de fazer as linhas com grafite vermelho, para não ficar uma marcação feia ao final. Não usei canetas para os contornos (com excessão dos olhos), tudo foi feito com lápis de cor, para manter a suavidade.



É impossível não lembrar de outro trabalho meu, de oito anos atrás: a Sereia que fiz para um projeto chamado Ilustraday. As duas figuras estão praticamente na mesma posição e com o mesmo olhar, é bonito pensar que está acontecendo uma passagem de tempo no meu trabalho, assim como na vida, abraçando todas as idades da mulher.



Os materiais utilizados foram o papel Concept da Hahnemühle, e os lápis de cor Vibes da Tris. Novamente, a edição está mais crua, mostrando todas as texturas do papel e dos lápis.



Em mais um dos sinais que o universo me manda, acabei contemplando os Mistérios de Elêusis nessas três figuras, e nessa semana de lua cheia. Khaire! 

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Portfólio

Perséfone n.2

 


Essa ilustração é uma variação feita logo depois da primeira Perséfone, publicada aqui ontem. A única diferença é que usei uma caneta nanquim para fazer a cobertura do manto, e um lápis branco para as dobras do tecido. De resto, tudo igual.




Novamente a edição está com bastante ruído, mostrando todos os detalhes da folha, propositalmente. Em tempo: hoje é celebrado O Rito de Seus Fogos Sagrados, dedicado à Hekate. A Deusa tem papel fundamental no mito de Perséfone, ao mostrar para Deméter o que havia acontecido com sua amada filha.   

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Portfólio

Perséfone n.1

 


As últimas semanas têm sido de uma espera estranha. Esperamos a água baixar, esperamos o vento virar, esperamos a água descer do Guaíba e olhamos nos mapas as áreas que vão alagar. E seguindo os passos da Sue, não serei testemunha da enchente, não vou poetizar em cima da tragédia de tantas pessoas, no alto do privilégio que tenho neste momento. Acredito que a arte precisa ser política, consciente, social e, agora, temos várias ações acontecendo para que os artistas e profissionais criativos do RS mantenham seu sustento, como a Contrate RS. 


Lá pela 43ª ilustração do cavalo caramelo em cima do telhado, fiquei me questionando se a arte está sendo mesmo política, de denúncia, ativista, ou apenas entrando na onda em busca de visualizações (tenho a mesma sensação com artista que publica caricatura instantaneamente após a morte de algum famoso). E nada contra quem está fazendo isso, se no final estão ajudando quem precisa com pix, cesta básica, cobertor, abrigo.  


Neste momento, arte para mim significa fuga. Da realidade, dos problemas, desse cotidiano que já vinha massacrando desde antes (2024 tem sido especialmente difícil para qualquer professor). Então fugi para aquele meu lugar seguro, com lápis e papel na mão, uma profusão de figuras e cabelos que me acalmam enquanto espero. E ninguém melhor para representar do que a deusa do submundo e da primavera: Perséfone.



Perséfone, para mim, é o epítome da fuga consciente em direção ao inconsciente. Só descendo ao submundo dos nossos medos, e passando uma temporada com eles, é que podemos emergir com plena consciência de quem somos e do que queremos. Nem sempre a beleza está no lado primaveril da vida, o inverno também ensina lições sobre recolhimento, autoaceitação e o movimento de deixar algo morrer para renascer de outro jeito.



O material utilizado foi o papel Concept da Hahnemühle e o lápis 5B Bruynzeel da Sakura. Deixei a edição da imagem propositalmente menos polida, para mostrar as texturas do papel e do lápis.

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Dicas Livros

Arte e Medo

 


Disclaimer: O Rio Grande do Sul está em estado de calamidade pública, devido às enchentes que atingiram quase 90% das cidades. O site AJUDA-RS tem uma lista atualizada de locais para doação, vaquinhas confiáveis, pessoas e animais encontrados, abrigos e voluntariado. Ajude o RS doando, compartilhando e apoiando os gaúchos. Apoie artistas, editoras, agentes culturais que foram atingidos pelas enchentes. Se não puder doar, mande uma mensagem para aquela pessoa que mora no RS, certamente sua preocupação faz diferença nessa hora. Eu estou bem, a salvo, mas a minha cidade também precisa de ajuda. Para ajudar Rio Grande, em específico, recomendo seguir o perfil SOS Rio Grande.

Meu último post foi sobre o livro O Ato Criativo, cheio de ressalvas quanto a abordagem privilegiada do autor. Mas Arte e Medo: observações sobre os desafios (e recompensas) de fazer arte, lançado originalmente em 1993 e traduzido agora pela Seiva, vai totalmente na contramão da leitura anterior.

O foco da obra é no fazer artístico - o fazer de pessoas comuns, fazer que nem sempre será reconhecido, vendido ou exposto num museu, mas que carrega significado e importância para quem o faz. Em tempos de documentar a vida na internet, para deixá-la para uma posteridade que sabe-se lá se virá ou não, um livro com mais de 30 anos vem nos lembrar que a boa arte é aquela que faz sentido para quem a produz, e que reconhecimento, fama ou qualquer outra contrapartida é quase um efeito colateral.

...as únicas pessoas que vão se importar com seu trabalho são aquelas que se importam pessoalmente com você. Aquelas próximas o bastante para saber que fazê-lo é essencial para o seu bem-estar. Elas sempre irão se importar com o seu trabalho, se não por ser excepcional, por ser seu... (p. 19)

Arte e medo não é um livro carregado de receitas, não ensina a ganhar seguidores e nem a fazer seu trabalho bombar. É um livro que fala muito mais à solidão do artista, aquela da página em branco, e ao medo de iniciar um novo projeto, de não ser bom o suficiente, de se tornar uma farsa ou uma cópia. É o tipo de livro "de ateliê", que nos coloca de novo nos trilhos, quando parecemos estar perdidos no meio do nosso próprio processo.

Na verdade, uma das poucas certezas sobre a cena artística contemporânea é que alguém, que não é você, está decidindo qual arte - e quais artistas - faz parte dela. São tempos difíceis para a modéstia, a artesania e a ternura. (p. 78)

Apensar de ser fininho, a leitura não é tão rápida assim, pois nos faz pensar, recordar, dar voltas e criar cenários e discussões em nossa cabeça. O medo é algo que vai nos acompanhar durante a jornada artística, mas, na minha opinião, a solidão é o ponto-chave do livro e como vamos aprendendo a conviver com ela - muito mais do que o receio de qualquer coisa.

Uma das partes que mais me pegou foi sobre arte e docência, pois passo por isso na minha rotina:

Quem leciona já conhece o padrão. Ao final da semana escolar, o sujeito tem pouca energia sobrando para qualquer atividade artística mais exigente do que preparar argila ou limpar pincéis. Ao final do semestre, dar atenção aos trabalhos inacabados (e aos relacionamentos desgastados) pode muito bem ser mais urgente do que criar qualquer arte nova. Existe um risco real (e com exemplos abundantes) de que um artista que leciona descambe para algo muito menor: um professor que costumava fazer arte. (p. 88)

Após concluir essa leitura, fiquei pensando o por quê artistas precisam de obras assim, que validem seus sentimentos e sua prática (não vejo o mesmo interesse em publicações para cirurgiões, advogados ou engenheiros). Trabalhar com a área de humanas e com subjetividades nos leva a ser testados o tempo todo, e isso é bastante cansativo, pois o trabalho não acaba ao chegar em casa, ele está sempre permeando tudo e bebendo de todas as fontes para ser feito. 

Talvez seja uma das tantas lições que uma sociedade focada na produtividade e na performance deva aprender: que a arte nem sempre vai gerar um produto, nem sempre terá uma utilidade, ou uma explicação óbvia para o restante das pessoas.

Já falei: Sobre frustração e se definir artista

5★
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Livros

O Ato Criativo: uma forma de ser



O Ato Criativo: uma forma de ser, é um livro escrito pelo produtor musical Rick Rubin. Descobri esse título através das minhas pesquisas pela Amazon e só depois fiquei sabendo do hype em outras redes sociais. Rubin é produtor de um dos meus álbuns favoritos, o autointitulado da banda Audioslave, de 2002. E também do Vol. 3: (The Subliminal Verses), do Slipknot, de 2004.


A obra é uma mistura de Roube como um artista & conselhos de vida do autor e, apesar de algumas passagens inspiradoras, como um todo, achei o livro bem mais do mesmo, com aquela vibe espiritual de boutique, vinda de gente privilegiada, que já conquistou uma posição de destaque em seu nicho e agora prega coisas como: tire cinco minutos do seu dia para meditar e você verá um milagre acontecer em sua vida.


O livro é dividido em capítulos curtos, nos quais Rubin fala sobre a fonte para inspiração, a constância no trabalho criativo, o sentido da obra de arte para o artista e para o espectador, alternando com pequenos poemas, que oferecem para os leitores um lembrete do por quê se dedicar à criação e como podemos vencer nosso próprios demônios para enfrentar seja a folha em branco, a primeira nota de uma música ou os movimentos num palco.

Viver como um artista é uma prática.

Você se engaja nela

ou não


Não faz sentido dizer que você não é bom nisso.

É como dizer "Não sou bom em ser monge".

Você vive como um monge ou não.


Tendemos a pensar na obra do artista

como o produto.


A obra real do artista

é um modo de estar no mundo.


(p. 37)

Dentre os capítulos que mais gostei está Hábitos, no qual o autor traz uma lista de pensamentos e hábitos não propícios ao trabalho, dentre eles culpar os outros pelas interferências no seu processo e não se sentir bom o bastante. Também gostei de Sucesso, no qual Rubin fala que essa medida está entre artista e obra; no quanto o artista está pronto para deixar sua criação ir, e não baseado em sucesso popular, que depende de um conjunto de fatores e alinhamentos (muito necessário em tempos de redes sociais). 


Mas o tom geral do livro é bem ligado com espiritualidade, e não há nada de errado com isso, o problema é aquele que falei lá no começo: é o de uma pessoa privilegiada, que pode se dar ao luxo de sair para fazer uma trilha para se reconectar com sua criatividade, por exemplo. E sabemos que essa não é a realidade da grande maioria dos artistas, que estão numa luta diária para pagar as contas.


O Ato Criativo custa R$ 59,90 e não vou impedir ninguém de gastar esse valor, caso queira realmente ler esta obra, mas deixo registrado aqui que existem muitos livros mais densos, com mais lastro teórico e até com vivências artísticas mais próximas da realidade de muitos criadores. Para uma lista com várias indicações que já resenhei aqui no blog, vá até a seção FAQ ou procure pela tag LIVROS.

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