Mermay 2020 | Semana 01
Chegamos a mais um MerMay. Desde 2016 tento participar desse desafio (da melhor forma possível). Em 2016 fiz apenas um trabalho; em 2017 fiz um por semana e em 2018 também. Ano passado fiquei um pouco cansada e resolvi fazer apenas um. Esse ano, quarentenada em casa, vou tentar fazer uma ilustração por semana. Mas não garanto que vá se concretizar, pois tenho demorado bastante para concluir meus desenhos, o contexto da pandemia não tem me deixado mais produtiva - e está tudo bem com isso.
Para 2020, resolvi passar meus desafios anteriores em revista. Fazer autocrítica é um exercício que melhora demais a nossa percepção sobre as coisas e, por mais que eu tenha melhorado em muitos aspectos meu trabalho, faltava representatividade nas figuras, e isso importa. Por isso, para este ano, decidi retratar sereias fora do padrão estético imposto pela mídia, a fim de que mais meninas e mulheres consigam se enxergar nas minhas ilustrações. E resolvi começar com uma sereia plus size, com seus cabelos curtos, subvertendo alguns estereótipos que rondam esses seres míticos.
A ideia original era deixar os seios completamente à mostra, mas acabei tomando um strike do TikTok por isso, então, prevendo que ia acontecer em outras redes, me auto-censurei, infelizmente. É horrível, mas os algoritmos já não entregam metade dos conteúdos, e eu não queria correr o risco de ter uma conta suspensa ou ser banida. Fica aqui o registro da ideia original, presente nos primeiros esboços.
Vou utilizar somente lápis de cor nessas ilustrações por uma questão logística, pois estou com pouco espaço para produzir, no momento. E também é uma maneira de tentar resolver com outros materiais algumas soluções que encontrei na aquarela, e ver se funciona. Acima, detalhe das escamas com caneta metalizada. Não fiz toda a parte da cauda dessa sereia, apenas sugeri que a parte inferior do corpo é coberta por escamas. Também tentei um efeito furta-cor com o lápis, que não deu muito certo.
Para a pele, trabalhei com azul escuro, laranja, marrom e vermelho. Lembrando que o fatídico "lápis cor de pele" (rosinha ou bege) não é a forma mais inclusiva de representar toda a gama de tons de pele que existe, e muitas outras cores podem suprir muito bem essa demanda, como as que eu utilizei. Ainda falando sobre lápis, utilizei os SuperSoft da Faber-Castell, tenho gostado bastante de trabalhar com eles, e também os tons pastéis da Cis, que são muito bons e entregam bastante pigmentação, realmente me surpreendi com a qualidade. O resultado:
Materiais utilizados
- Papel Concept Hahnemühle 200g;
- Lápis de cor SuperSoft Faber-Castell e tons pastéis Cis;
- Canetas metalizadas Cis, Giotto e Sakura.
Quem quiser acompanhar meu MerMay para além do blog, é só seguir pelo Instagram ou Facebook. Lembrando que a entrega de conteúdo varia de acordo com o que o algoritmo quer, às vezes não chega a 5% das pessoas que me seguem. Por aqui, vou tentar postar toda a semana, juntamente com os processos de criação. Sugiro também acompanhar o trabalho de outras ilustradoras que têm feito um lindo MerMay, como a Karina Beraldo.
E para quem curte acompanhar podcasts, vou deixar aqui o link para o We can be readers, da minha amiga Suellen Rubira, que também está com um blog, ambos dedicados à literatura. A arte ficou por minha conta, com uma das ilustras que mais amo:
Redesenhando: Pirata
Demorou um pouquinho, mas consegui fazer mais um trabalho do meu projeto pessoal para este ano: redesenhar algumas ilustrações antigas, que gosto muito, como parte da comemoração pelos 10 anos do blog. E a escolhida é uma das minhas favoritas, e também a de muita gente: Pirata, de 2013.
Na época, essa ilustra significou muito para mim, pois ela foi feita de uma maneira muito rápida, com um material que curto bastante (esferográfica) e conseguiu dar um fôlego na minha produção. Senti que conseguia ser criativa, despretensiosa e obter um bom resultado se eu curtisse mais o processo e simplificasse algumas coisas.
O que resolvi mudar
Quando decidi mexer nessa ilustração, pensei em não inventar muito, não sair demais da proposta inicial. Aí veio o coronavírus, a quarentena, e toda essa carga emocional que paira sobre as nossas cabeças desde então. Senti que se fosse refazer a pirata nesse momento, ela precisaria carregar uma mensagem a mais. Por isso tomei a liberdade de fazer alterações bem significativas.A primeira coisa que acrescentei foi um braço. A pirata de 2020 não quer continuar com um dos olhos fechados, por isso ela está prestes a tirar o tapa-olho. Ela quer ver tudo, ela quer ver a verdade. Esse foi o ponto central que trabalhei: ela não está ali para entreter. Ela não sorri, está levemente curvada para frente, com uma expressão cansada. O barco que ela carrega na cabeça está mais elaborado, mais pesado, e dele sai o cordão com uma âncora. Os pássaros também tomam uma forma menos abstrata do que gaivotas infantis sobrevoando a cena.
Depois, a mudança mais radical foi com o material. Utilizei aquarela e, se antes a figura estava flutuando na folha, agora ela emerge da água. E é na direção da água que está o cordão com a âncora. O cabelo tem a mesma cor do líquido, mas continua com a mesma marca que torna a primeira ilustra tão marcante. É um cabelo-kraken. Em seguida, toda a figura ganha cor, o que também deixa bastante diferente da proposta original.
A caneta dourada aqui vem para trazer a ideia de tesouro, que pode ser algo que aprisiona (a corrente no pescoço, a âncora) ou que liberta (os pássaros). Finalizei a figura com lápis de cor e caneta nanquim, como de costume. O resultado:
Materiais utilizados
- Papel para aquarela grana fina Harmony Hahnemühle;
- Aquarelas Van Gogh;
- Pincel Keramik;
- Lápis de cor SuperSoft Faber-Castell;
- Canetas Sakura e Posca.
Acredito que a maior diferença está no espírito da figura: antes ela transmitia alegria, inocência, agora ela está afogada nesse mar de incerteza que o planeta se converteu, carregando seus próprios pesos, seus tesouros ou despojos de guerra, tentando não afundar, tentando equilibrar os sentimentos, mas com esse profundo desejo de liberdade, que está presente no movimento da mão prestes a retirar o tapa-olho.
Se antes o meio mal estava influenciando meu processo de criação, aqui ele está por todos os lados - até debaixo d'água. Deixe um comentário com a sua interpretação e o que você achou das mudanças. Em algum momento desse ano, volto com mais um redesenhando.
Testando: guache + sketchbook
Estou tentando usar mais o sketchbook, dentro do meu próprio método, e resolvi arriscar com guache e aquarela, mesmo sabendo que a gramatura das folhas poderia não suportar. Peguei um antigo kit de guache da TGA e fiz algo bem sem pretensão, pois realmente nunca estudei a técnica para elaborar algo decente, e provavelmente vou achar esse estudo péssimo no futuro. Mas, por hora, está valendo.
Meu próprio método de usar o sketchbook
Não curto muito usar o sketchbook para fazer rascunhos e estudos de ilustrações. Para isso, gosto de folhas sulfite comum, soltas, que posso manusear sem muito cuidado, sobrepor, recortar, estragar se for o caso.
No sketchbook gosto de fazer desenhos compactos (versões menores de ilustrações que faria usando papel A4), tabelas de cores dos lápis e tintas bem feitas, coisas bonitas mesmo e com unidade, que eu possa folhear depois de algum tempo e sentir que contei histórias ali. Por isso, tenho dificuldade em manter um caderno. Este ano, me propus a ser fiel ao meu método e tentar usar o sketchbook pelo menos uma vez por mês.
Um recado importante é: use o sketchbook da maneira que tiver vontade. Sempre. É o que realmente importa.
Utilizei o guache TGA para fazer as flores e a blusa da figura. Para a pele e o cabelo, aquarela. O fundo foi feito com aquarela perolada Sakura Koi. Eu tenho muito ranço com as aquarelas da Koi por serem extremamente opacas e lembrarem muito... um guache. Porém, é justamente essa qualidade da opacidade que torna as aquarelas shine melhores do que a de outras marcas, na minha opinião: com apenas uma camada elas cobrem razoavelmente uma área, conferindo um brilho perolado muito bonito e entregando bastante cor. As minhas são em pastilha avulsas, comprei na Koralle (link não patrocinado, mas poderia).
No fim das contas, o papel não enrugou muito, tanto que deu até para digitalizar. Os detalhes de corações foram feitos com caneta metalizada e o contorno da figura foi com lápis de cor, ao invés das canetas que costumo usar. Achei que deu mais leveza. Vou adotar.
Em tempo: maio está aí e, com ele, o MerMay? Ainda estou na dúvida se participo, como em todos os desafios, em todos os anos. Se rolar, vocês saberão, aqui tanto a arte como a blogueiragem é sempre no free style. 😊
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