Mermay 2024: As Fórcidas
Para o Mermay desse ano, pensei em algo temático como o Calendário do Advento que fiz ano passado. Sereias podem ser um assunto bem batido, mas depois que li o maravilhoso livro A Deusa Tríplice: em busca do feminino arquetípico, do Adam Mclean, tive a ideia de representar as Fórcidas, que são grupos de deusas tríplices, nascidas das antigas divindades do mar, Fórcis e Ceto.
Além desses seres mitológicos, a inspiração também veio das cerâmicas gregas, mais precisamente dos vasos de figuras vermelhas sobre fundo preto. Acho bem difícil trabalhar com uma cartela tão reduzida assim, por isso acabei pegando algumas referências para me auxiliar, como esta:
Na semana 03 ilustrei as Harpias, palavra que significa “arrebatadora”. As harpias são seres com corpo de pássaro e cabeça de mulher. Estão relacionadas com o elemento ar e são a personificação dos ventos tempestuosos. As três harpias são Aelo, Celeno e Ocípete.
Por fim, na semana 04, cheguei nas Sereias, nomenclatura derivada de uma raiz grega que significa “prender ou vincular”. Seus nomes diferem, de acordo com a história de origem. Aqui adotei a versão italiana: Partênome, Leucósia e Lígia. As sereias são servas de Perséfone e levam as almas até o submundo, atraindo marinheiros para os rochedos com seu canto arrebatador.
Todas as definições e nomes foram retiradas do supracitado livro, e sei que existem outras fontes, com outros mitos de origem e outras interpretações. Estas foram as que adotei criativamente para a série de ilustrações. A partir de agora, pretendo me dedicar mais ao estudo da ferramenta digital, e não focar tanto em trabalhos acabados.
Deméter
Após representar por duas vezes uma jovem mulher (aqui e aqui), decidi resgatar o rascunho de uma anciã e me voltar para os lápis de cor. Não estou conseguindo fazer nada com aquarela, nada que remeta levemente à água. Quando terminei esse trio de mulheres, concluí que estava diante das deusas Perséfone e de sua mãe, Deméter.
No curso As chaves de Hekate, a Márcia C. Silva fala da confusão que fazemos ao associar Hekate com a anciã no mito de Perséfone. Se analisarmos a tragetória das deusas, Hekate seria a virgem, Perséfone a mãe e Deméter a anciã. E faz todo o sentido quando estudamos os mitos com um olhar mais cuidadoso. Deméter é a deusa grega da colheita e da agricultura. Quando sua filha foi raptada por Hades, fez a terra mergulhar no inverno, impedindo que as plantas crescessem.
Embora a descrição da deusa fale de seus cabelos loiros, essa representação traz consigo o prata azulado de uma cabeleira grisalha.
Tomei o cuidado de fazer as linhas com grafite vermelho, para não ficar uma marcação feia ao final. Não usei canetas para os contornos (com excessão dos olhos), tudo foi feito com lápis de cor, para manter a suavidade.
É impossível não lembrar de outro trabalho meu, de oito anos atrás: a Sereia que fiz para um projeto chamado Ilustraday. As duas figuras estão praticamente na mesma posição e com o mesmo olhar, é bonito pensar que está acontecendo uma passagem de tempo no meu trabalho, assim como na vida, abraçando todas as idades da mulher.
Os materiais utilizados foram o papel Concept da Hahnemühle, e os lápis de cor Vibes da Tris. Novamente, a edição está mais crua, mostrando todas as texturas do papel e dos lápis.
Em mais um dos sinais que o universo me manda, acabei contemplando os Mistérios de Elêusis nessas três figuras, e nessa semana de lua cheia. Khaire!
Perséfone n.2
Essa ilustração é uma variação feita logo depois da primeira Perséfone, publicada aqui ontem. A única diferença é que usei uma caneta nanquim para fazer a cobertura do manto, e um lápis branco para as dobras do tecido. De resto, tudo igual.
Novamente a edição está com bastante ruído, mostrando todos os detalhes da folha, propositalmente. Em tempo: hoje é celebrado O Rito de Seus Fogos Sagrados, dedicado à Hekate. A Deusa tem papel fundamental no mito de Perséfone, ao mostrar para Deméter o que havia acontecido com sua amada filha.
Perséfone n.1
As últimas semanas têm sido de uma espera estranha. Esperamos a água baixar, esperamos o vento virar, esperamos a água descer do Guaíba e olhamos nos mapas as áreas que vão alagar. E seguindo os passos da Sue, não serei testemunha da enchente, não vou poetizar em cima da tragédia de tantas pessoas, no alto do privilégio que tenho neste momento. Acredito que a arte precisa ser política, consciente, social e, agora, temos várias ações acontecendo para que os artistas e profissionais criativos do RS mantenham seu sustento, como a Contrate RS.
Lá pela 43ª ilustração do cavalo caramelo em cima do telhado, fiquei me questionando se a arte está sendo mesmo política, de denúncia, ativista, ou apenas entrando na onda em busca de visualizações (tenho a mesma sensação com artista que publica caricatura instantaneamente após a morte de algum famoso). E nada contra quem está fazendo isso, se no final estão ajudando quem precisa com pix, cesta básica, cobertor, abrigo.
Neste momento, arte para mim significa fuga. Da realidade, dos problemas, desse cotidiano que já vinha massacrando desde antes (2024 tem sido especialmente difícil para qualquer professor). Então fugi para aquele meu lugar seguro, com lápis e papel na mão, uma profusão de figuras e cabelos que me acalmam enquanto espero. E ninguém melhor para representar do que a deusa do submundo e da primavera: Perséfone.
Perséfone, para mim, é o epítome da fuga consciente em direção ao inconsciente. Só descendo ao submundo dos nossos medos, e passando uma temporada com eles, é que podemos emergir com plena consciência de quem somos e do que queremos. Nem sempre a beleza está no lado primaveril da vida, o inverno também ensina lições sobre recolhimento, autoaceitação e o movimento de deixar algo morrer para renascer de outro jeito.
O material utilizado foi o papel Concept da Hahnemühle e o lápis 5B Bruynzeel da Sakura. Deixei a edição da imagem propositalmente menos polida, para mostrar as texturas do papel e do lápis.
Arte e Medo
Disclaimer: O Rio Grande do Sul está em estado de calamidade pública, devido às enchentes que atingiram quase 90% das cidades. O site AJUDA-RS tem uma lista atualizada de locais para doação, vaquinhas confiáveis, pessoas e animais encontrados, abrigos e voluntariado. Ajude o RS doando, compartilhando e apoiando os gaúchos. Apoie artistas, editoras, agentes culturais que foram atingidos pelas enchentes. Se não puder doar, mande uma mensagem para aquela pessoa que mora no RS, certamente sua preocupação faz diferença nessa hora. Eu estou bem, a salvo, mas a minha cidade também precisa de ajuda. Para ajudar Rio Grande, em específico, recomendo seguir o perfil SOS Rio Grande.
...as únicas pessoas que vão se importar com seu trabalho são aquelas que se importam pessoalmente com você. Aquelas próximas o bastante para saber que fazê-lo é essencial para o seu bem-estar. Elas sempre irão se importar com o seu trabalho, se não por ser excepcional, por ser seu... (p. 19)
Na verdade, uma das poucas certezas sobre a cena artística contemporânea é que alguém, que não é você, está decidindo qual arte - e quais artistas - faz parte dela. São tempos difíceis para a modéstia, a artesania e a ternura. (p. 78)
Quem leciona já conhece o padrão. Ao final da semana escolar, o sujeito tem pouca energia sobrando para qualquer atividade artística mais exigente do que preparar argila ou limpar pincéis. Ao final do semestre, dar atenção aos trabalhos inacabados (e aos relacionamentos desgastados) pode muito bem ser mais urgente do que criar qualquer arte nova. Existe um risco real (e com exemplos abundantes) de que um artista que leciona descambe para algo muito menor: um professor que costumava fazer arte. (p. 88)
O Ato Criativo: uma forma de ser
O Ato Criativo: uma forma de ser, é um livro escrito pelo produtor musical Rick Rubin. Descobri esse título através das minhas pesquisas pela Amazon e só depois fiquei sabendo do hype em outras redes sociais. Rubin é produtor de um dos meus álbuns favoritos, o autointitulado da banda Audioslave, de 2002. E também do Vol. 3: (The Subliminal Verses), do Slipknot, de 2004.
A obra é uma mistura de Roube como um artista & conselhos de vida do autor e, apesar de algumas passagens inspiradoras, como um todo, achei o livro bem mais do mesmo, com aquela vibe espiritual de boutique, vinda de gente privilegiada, que já conquistou uma posição de destaque em seu nicho e agora prega coisas como: tire cinco minutos do seu dia para meditar e você verá um milagre acontecer em sua vida.
O livro é dividido em capítulos curtos, nos quais Rubin fala sobre a fonte para inspiração, a constância no trabalho criativo, o sentido da obra de arte para o artista e para o espectador, alternando com pequenos poemas, que oferecem para os leitores um lembrete do por quê se dedicar à criação e como podemos vencer nosso próprios demônios para enfrentar seja a folha em branco, a primeira nota de uma música ou os movimentos num palco.
Viver como um artista é uma prática.
Você se engaja nela
ou não
Não faz sentido dizer que você não é bom nisso.
É como dizer "Não sou bom em ser monge".
Você vive como um monge ou não.
Tendemos a pensar na obra do artista
como o produto.
A obra real do artista
é um modo de estar no mundo.
(p. 37)
Dentre os capítulos que mais gostei está Hábitos, no qual o autor traz uma lista de pensamentos e hábitos não propícios ao trabalho, dentre eles culpar os outros pelas interferências no seu processo e não se sentir bom o bastante. Também gostei de Sucesso, no qual Rubin fala que essa medida está entre artista e obra; no quanto o artista está pronto para deixar sua criação ir, e não baseado em sucesso popular, que depende de um conjunto de fatores e alinhamentos (muito necessário em tempos de redes sociais).
Mas o tom geral do livro é bem ligado com espiritualidade, e não há nada de errado com isso, o problema é aquele que falei lá no começo: é o de uma pessoa privilegiada, que pode se dar ao luxo de sair para fazer uma trilha para se reconectar com sua criatividade, por exemplo. E sabemos que essa não é a realidade da grande maioria dos artistas, que estão numa luta diária para pagar as contas.
O Ato Criativo custa R$ 59,90 e não vou impedir ninguém de gastar esse valor, caso queira realmente ler esta obra, mas deixo registrado aqui que existem muitos livros mais densos, com mais lastro teórico e até com vivências artísticas mais próximas da realidade de muitos criadores. Para uma lista com várias indicações que já resenhei aqui no blog, vá até a seção FAQ ou procure pela tag LIVROS.
Quase quarentando e (ainda) blogando
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| Uma jovem prestes a criar um blog, com seus longos cabelos. À esquerda, embaixo, meu orientador Victor Hugo. Turma de 2009 do Mestrado em Educação Ambiental da FURG. |
14 anos. Essa é a idade de um adolescente do 9º ano, que está às portas do Ensino Médio. Quando esse estudante estava nascendo, eu digitei pela primeira vez no blogspot desenharehpreciso. E os motivos de clicar em publicar logo após definir meu user nada tinham a ver necessariamente com desenho. Eu precisava qualificar meu projeto de dissertação, havia rompido com meu orientador original e tinha sido acolhida por outro orientador, o professor Victor Hugo, falecido há quase dois anos. O Victor sempre me falava que não havia motivos pra sofrer, que as coisas não precisavam ser um sofrimento. 14 anos mais tarde e talvez eu ainda não leve esse conselho dele como deveria.
14 anos separam aquela Lidiane jovem, de 25 anos, que precisava escrever um projeto de mestrado, que recém estava começando a falar no MSN com um cara apresentado por uma amiga, e que usava um espaço que ela não sabia mexer muito bem, pois tinha chegado atrasada nesse rolê de blog (a infância e adolescência humildes não permitiram ela ter um computador até entrar na faculdade), postando desenhos escaneados numa qualidade minúscula, sem muito o que dizer sobre, e quando dizia, numa linguagem acadêmica e meio truncada.
14 anos é uma vida, tantas redes sociais surgiram e se foram, o Orkut virou acervo de museu, o TikTok já é oficialmente uma rede de pessoas de meia idade, e os jovens postam suas fotos no VSCO, aquele mesmo que a gente usava pra colocar efeito bokeh nas fotos do Tumblr. Todas, eu disse todas as pessoas que eu seguia em 2010 tomaram outros rumos na vida. Eu mesma já estou há mais de meia década dando aula. Mas todas as postagens eu lembro como se tivessem sido escritas ontem.
Entrar aqui sempre é uma cápsula do tempo: eu volto ao passado, registro o presente e projeto o futuro. Às vezes dá a sensação de permanecer parada no mesmo lugar. Por que ainda faço isso? Ainda tem sentido? Precisa fazer? E pra quem?
Ontem mesmo, conversando com uma amiga, ela falou sobre essa mulher moderna, quase quarentona, mas que continua ligada nas coisas. Eu sou essa mulher. Sempre que um estudante fala sora, mas tu sabe tal coisa? (geralmente um meme) eu me sinto ofendida, afinal eu ainda sou jovem. Uma jovem de meia idade! Não cite a magia profunda para mim, eu estava lá quando ela foi criada...
Então é sempre nesse misto de sentimentos, que vão se intensificando com o passar do tempo, com as tendências sendo reeditadas, com coisas indo e vindo, com as intermitências do tempo, que sigo por aqui. Postando meus trabalhos, falando coisas que talvez só façam sentido pra mim, e que talvez não cheguem a um número considerável de pessoas. Eu estou deixando cada vez mais as redes sociais, pra mim é um alívio não me manter informada sobre coisas que vão me deixar péssima. Diminuí meu número de redes para 3 e os serviços de streaming são basicamente pra ouvir música e ver vídeos para me distrair enquanto faço faxina na casa ou desenho. Eu sou uma jovem de meia idade, mas estou envelhecendo, e o blog vem cumprindo sua função de fazer minha presença na web sem me preocupar muito em voltar no dia seguinte.
Estarei aqui para a festa de debutante desse espaço, com direito a vestido e bolo? Não sei, mas enquanto eu estiver aqui, sigo postando meu trabalho, as coisas que fazem sentido pra mim, criando minha própria bolha e vivendo a máxima dos pinguins de Madagascar: sorria e acene.
A vida não precisa ser esse sofrimento todo.
Matrioska
E assim que comecei a pintar, não parei até terminar toda a base. Como está fazendo um clima muito quente, a tinta seca bem rápido, então para evitar manchas, as aguadas precisavam ser bem generosas - e ao mesmo tempo precisas, pois como já falei, não podia errar hehehehe. Foi um desafio e tanto! Depois de feito todo o fundo, passei uma segunda demão onde precisava e passei aos detalhes dos rostinhos e também os ornamentos, que fiz com caneta dourada.
Optamos também por fazer um sombreado no chão, para que a matrioska não ficasse "voando" no papel. Usei pouquíssimos recursos adicionais à tinta, apenas um lápis de cor para conferir profundidade em algumas partes do rosto e a caneta naquim para o contorno dos olhos e detalhes muito miúdos. De resto, confiei na tinta e confiei no processo.
Detalhe do ornamento, que é igual em todas as matrioskas, para evitar poluição visual. Abaixo, uma foto minha com o trabalho já finalizado para vocês terem uma ideia do tamanho do papel, bem diferente do que estou acostumada a trabalhar.
Materiais utilizados
- Papel para aquarela Arches 100% algodão;
- Aquarelas Talens e White Nights;
- Guache Talens;
- Marcadores Derwent e Sakura para os detalhes;
- Lápis Koh-I-Noor para os detalhes;
- Pincéis sortidos;
- Spray fixador.
Acima, eu feliz com o resultado de um trabalho tão bonito e que adorei fazer. Agradeço à Rami por ter me indicado, à Gabi por confiar no meu trabalho, à outra Gabi, que gentilmente fez a ponte da entrega, e a todos que, de uma maneira ou de outra, continuam me apoiando para que, 14 anos depois, eu continue produzindo arte.
E se você quiser uma arte exclusiva, tradicional ou digital, para chamar de sua, estou com encomendas abertas. Todo o mês, abrirei quatro vagas na minha agenda para comissões de retratos e outros trabalhos que dialoguem com o meu estilo. Se você se interessou, basta mandar um e-mail para lidiane@lidydutra.com ou entrar em contato pelo direct do meu Instagram.



























