Hécate
Hécate, deusa grega da bruxaria, das encruzilhadas, da noite e do submundo. Comumente representada na forma tríplice, personificando a mãe, a virgem e a anciã.
Essa ilustração começou a ser pensada no final de 2014, de uma maneira um pouco diferente (foi um desenho que saiu totalmente da minha cabeça), e que esperou pacientemente até que eu me sentisse preparada para levar o projeto adiante.
Eu sou fascinada por mitologia e, desde que tive contato com o Anuário da Grande Mãe, tenho me dedicado a estudar um pouco mais sobre o sagrado feminino. A figura de Hécate, com sua tríplice representação, tem um significado muito caro, me fazendo olhar para a Lidiane do passado, do presente e do futuro, questionar escolhas e tentar abrir caminhos, mesmo quando tudo parece sombrio.
Assim que decidi retomar essa ilustração, fiz um novo esboço, melhorando as expressões faciais e pensando mais na composição das três mulheres. Queria transmitir a ideia de raízes, de uma figura orgânica que toma a forma da deusa, banhada pela lua. Foi um desafio fazer a idosa, e não acredito que tenha alcançado um bom resultado, por isso pretendo estudar mais. O resultado final ficou assim:
Materiais utilizados
- papel Canson 180g;- lápis Mars Lumograph 4B e Bruynzeel 5B (está virando favorito);
- marcador dourado.
"Hécate é o arquétipo mais incompreendido da mitologia grega. Ela é uma Deusa Tríplice Lunar vinculada com o aspecto sombrio do disco lunar, ou seja, o lado inconsciente do feminino. E, representa ainda, o lado feminino ligado ao destino. Seu domínio se dá em três dimensões: no Céu, na Terra e no Submundo. Hécate é, portanto, uma Deusa lunar por excelência e sua presença é sentida nas três fases lunares. A Lua Nova pressupõe a face oculta de Hécate, a Lua Cheia vai sendo aos poucos sombreada pelo seu lado escuro, revelando o aspecto negativo da Mãe. E a Lua Minguante revela seu aspecto luminoso. É preciso morrer para renascer."
Fonte: As três faces de Hécate
Gostaria de ressaltar que esta é uma interpretação pessoal que fiz da deusa, a partir das minhas experiências, conhecimentos técnicos e teóricos e, até mesmo, limitações. Um blog que me ajuda muito, quando estou com dúvidas, é o Moon Girls Club, da Bruna e da Andressa, aproveito para deixar meu agradecimento. Quem tiver indicações de livros, sites e estudos sobre mitologias, pode deixar nos comentários, pois é um assunto que sempre me interessou.
Estou muito feliz com a evolução do meu traço, principalmente do início do ano para cá, e do foco que consigo dar para cada trabalho. Certamente, essa ilustração vai entrar para o conjunto das divisoras de águas da minha vida, pois representa muitas coisas boas. Essa coleção já está disponível no meu studio no Colab55 e, na compra de dois sketchbooks, o frete é grátis para todo o Brasil. Não esqueça de clicar no coração, ao lado do preço, pois isso ajuda (muito) na divulgação dos meus produtos.
Dicionário de códigos & símbolos das minhas ilustrações
Tenho pensado muito, nos últimos tempos, sobre a crescente onda de relatos sobre plágio no mundo virtual. Ano passo eu já havia falado sobre cópia, o que motivou outras pessoas a opinar também, e daí a discussão não parou. Tanto que me propus, dentro de um grupo muito legal de ilustradoras, capitaneado pela Mary Cagnin, a pesquisar mais, junto com outros profissionais, sobre direito autoral. Esse post sairá em breve.
Nesse sentido, resolvi criar uma espécie de dicionário de códigos e símbolos que aparecem repetidamente nas minhas ilustrações. Eu venho fazendo posts sistemáticos com a evolução do meu trabalho e sempre, a cada processo criativo mostrado, tento passar para o público quais foram as minhas motivações ao criar determinada peça, a escolha dos materiais, dentre outros fatores que fazem cada ilustração ser única.
Quem me acompanha há algum tempo, já consegue reconhecer elementos que, vira e mexe, aparecem nas figuras, ou que já se tornaram praticamente marcas registradas, pois estão presentes em todos os trabalhos. Assim, desenvolvi este pequeno guia (o layout é do Canva), com a finalidade de:
1. tornar reconhecível para o máximo de pessoas possível os códigos recorrentes nos meus trabalhos, criando, assim, um fio condutor das narrativas;
2. me proteger de possíveis plágios, pois, ao publicizar esses easter eggs que deixo em cada ilustra, fica mais fácil reconhecer se alguém mal intencionado copiar e/ou comercializar minhas obras sem autorização.
Claro que não fui eu que inventei esses elementos e vários outros artistas utilizam as mesmas temáticas e os mesmos símbolos. O que faz diferença é o meu estilo, minha bagagem e, principalmente, o contexto de tudo isso nas ilustrações e na narrativa que crio para cada uma delas.
Gostaria de convidar todo mundo que se interessou por essa ideia do dicionário de códigos e símbolos a fazer o seu também. Vamos transformar isso numa tag e fazer com que o público e, principalmente, aquelas pessoas que não têm ideia de que plágio é crime, saibam reconhecer nossos trabalhos. Acredito que é uma maneira de educar artistas em construção e fazer com que quem está aprendendo pare e repense seus próprios caminhos criativos.
Minhas inspirações - maio
Minhas inspirações é uma tag permanente aqui do blog, na qual mostro artistas e projetos que curto e acredito que valem a pena compartilhar. Neste mês, trago sete artistas que merecem muitos seguidores e que, se você não conhece, está perdendo uma oportunidade de ouro.
Nanda Correa: a imagem que abre o post é da Nanda, ilustradora fantástica que admiro há um bom tempo e que foi minha referência para estudo de retratos, quando voltei a desenhar. Tenho várias camisetas com estampas feitas por ela e gostaria muito que seus trabalhos fossem mais conhecidos pelo público nacional.
Emmy Dala Senta: as ilustrações da Emmy estão entre as mais lindas que já vi no estilo realismo fantástico. É como abrir uma porta para outro mundo. Ela mistura várias técnicas, dosando cada elemento de maneira equilibrada, o que confere uma expressividade muito grande às figuras (tanto de animais quanto de pessoas).
Kris Efe: conheci o trabalho da Kris na mesma época da Nanda e fico encantada com a sua evolução na aquarela e lettering, e também com os posts sobre materiais e dicas para iniciantes e profissionais. Destaco, especialmente, as pesquisas sobre marcas cruelty free de tintas e pincéis.
Thaty Mendonça: as ilustras da Thaty são num estilo fofinho que acho muito diferente do que é feito por aí, assim que você vê já reconhece o traço dela. Ela também é uma artista super versátil e trabalha do marcador à aquarela.
Isabella Pessoa: o que dizer dessa linda que, desde que conheci, já considero pacas? É bem difícil falar da Bella sem cair na babação de ovo: é minha colega de fundão no curso da Sabrina Eras, confidente nos momentos queria star morta e uma das aquarelistas mais incríveis e chiques que já vi (acima, é um estudo feito com aquarela Sennelier, chora sociedade).
Karina Beraldo: outra ilustradora que trabalha com figuras femininas empoderadas e que fogem dos estereótipos tradicionais de representação da mulher. Destaque para as sereias curvilíneas e para a maneira como a Karina usa a Ecoline (aquarela líquida).
Bia Reys: uma das ilustradoras que mais curto acompanhar a evolução, tanto do estilo quanto do seu posicionamento em relação à temas muito caros para nós, artistas. A Bia pesquisa muito sobre direito autoral e várias vezes os posts dela me salvaram de cometer sandice. Além disso, ela tem um traço super característico e trabalha com Bic Marking como ninguém.
Sempre bom lembrar que é muito importante comprar, divulgar e curtir o trabalho dos artistas que você gosta. Além do incentivo para que continuem criando, é também uma maneira de fomentar um processo de produção autoral e sustentável.
Projeto ilustra: fundo do mar
O Projeto Ilustra foi proposto pela Ana Blue, do blog 9dades a Solta. Somos um grupo de minas que postará em seus blogs, sempre no último dia do mês, o tema mais votado entre nós. O limite máximo de ilustras é de cinco por participante, dependendo do tempo de cada uma.
O tema escolhido para abril foi fundo do mar. A princípio, achei que ficou um pouco parecido com o ilustra day de março, porém, quando estava à procura de uma imagem para a divulgação, topei com essas águas-vivas lá no Unsplash e fiquei encantada com a ideia de fazer algo nessa linha.
Eu moro numa região litorânea, então sempre aparecem esses animais (também chamados de Mães D'água) por aqui. Fiz uma pesquisa bem detalhada no Pinterest, tentando associar a temática à imagens que me transportassem para um mundo abissal, silencioso, cheio de seres gelatinosos e com tentáculos.
Busquei relações com o inóspito, o silêncio e o autoconhecimento. Trouxe o mar para dentro, para o que está escondido em nós, para a nossa solidão. O resultado foi uma figura mergulhada na escuridão de si própria, com seus cabelos flutuantes e gelatinosos.
Uma das sensações que tive, ao terminar essa ilustra, foi a de ouvidos entupidos, sabe? Aquela aflição de quem não sabe nadar ao entrar na água gelada e, de repente, se ver às voltas com um mundo em que não sabe lidar, e que pode ser fatal.
Materiais utilizados
- papel Canson 200g;
- aquarela Cotman na cor Indigo;
- lápis grafite Koh-I-Noor 3B;
- tinta acrílica preta Reeves;
- pincéis sintéticos (um mais espesso para as coberturas e outro fino para os detalhes);
- marcador preto.
Para este trabalho, quebrei uma das regras que a Sabrina Eras ensina no curso de aquarela: sempre retirar o refluxo, aquele excesso de água que acaba estragando o pigmento. Achei válido deixar essas manchas para fazer o capuz da água-viva, auxiliada pela ondulação do papel fino. O contraste com a tinta acrílica, muito mais pesada, também ficou interessante. E a foto que utilizei como referência é do banco da Reine-Haru.
Quando o lúdico é um problema
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| Bey rainha, o resto nadinha. Imagem via. |
Já não é de hoje que percebo um fenômeno se abater sobre arte feita por mulheres. Por mais forte, referenciado e bem executado que seja, muitas vezes o trabalho produzido pelas minas é taxado apenas como lúdico. E isso se repete nas artes visuais, música, dança, literatura, dentre outros. Já vi até pesquisa acadêmica receber este "elogio".
Lúdico, para quem não sabe, se refere ao ato de brincar. Uma atividade lúdica é aquela que envolve brincadeiras, jogos; algo capaz de facilitar a aprendizagem (dentro do discurso educacional) e de entreter, divertir.
Certa vez recebi uma mensagem, através do Facebook, de um ilustrador que conheceu meu trabalho a partir das lojas virtuais. No meio da conversa, o camarada me solta um: achei que seu trabalho é mais lúdico (que o dele). Numa outra ocasião, um cara também teceu comentário semelhante a respeito de um pequeno estudo, dizendo que admirava muito essa coisa lúdica.
É bem complicado encarar um feedback tão enviesado, afinal, meus trabalhos são reflexo das minhas próprias experiências, um espelho da mulher que sou, que fui e que desejo ser. Sem brincadeira. Explorar elementos fantásticos e referentes ao sagrado feminino não significa querer colocá-los de forma lúdica, existem n interpretações.

Diante disso, eu paro e penso: as pessoas realmente sabem do que estão falando ou apenas querem desqualificar o meu trabalho, dizendo que ele não é sério ou importante o suficiente para se igualar ao delas? Achei que era um problema isolado, até ver que acontecia com várias mulheres.
Se até o álbum mais politicamente engajado da Beyoncé recebeu a alcunha de lúdico, temos um problema. Quando insistimos na ideia de que a arte produzida por mulheres é apenas uma brincadeira, um simples divertimento entre uma coisa mais importante e outra, não estamos levando essas produções a sério. Dizemos, nas entrelinhas, que os frutos daquela pesquisa não são suficientemente bons para estarem entre a arte de verdade. E o que é arte de verdade?

Claro que muitas artistas optam conscientemente por utilizar o lúdico em suas obras, principalmente as que têm o público infantil como foco. A grande questão é o nivelamento das produções, mesmo sem conhecer a trajetória da mulher. Isso reforça estereótipos muito problemáticos como, por exemplo, que a arte é só um hobby, que existem trabalhos "de mulherzinha" (um exemplo literário que cabe aqui é o chick lit).
Eu nem ia escrever esse post, porque: 1. não era uma pauta com a qual gostaria de lidar tão cedo; 2. da última vez que escrevi um texto reflexivo aqui, teve anônimo magoadíssimo, chorando nos comentários. Mas achei necessário trazer a questão à tona e gostaria que outras minas se juntassem ao debate, para que a gente possa trocar experiências.
Vocês já passaram por situações parecidas? Como reagiram?
Contem aí nos comentários e vamos fazer as ideais circularem.
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