Rótulos para Bruta Flor ❀
Nas últimas semanas me envolvi num projeto muito lindo, que foi a rotulagem das novas latas de chás da marca Bruta Flor, criada pela Juliana Votto e baseada na Praia do Cassino. A Ju entrou em contato comigo e fiquei bastante feliz, pois há muito tempo queria fazer uma parceria de trabalho com ela. Ela já tinha uma visão muito consolidada do que queria para as latinhas, e foi uma jornada incrível co-criar as ilustrações com ela. É muito bom trabalhar com alguém que está disposta a dialogar e somar ao seu trabalho, e cada ilustração busca não só apresentar visualmente o chá, como também representar as cores, os ingredientes e a identidade de cada um.
A ideia principal foi interligar um rótulo ao outro, buscando elementos, cores e padrões que se repetissem em cada um. Para isso, posicionei as personagens sempre ao lado esquerdo do centro do rótulo, e busquei trazer pelo menos um elemento de cor de um para o outro, criando uma unidade. Os padrões ao fundo também são pensados para que dialoguem com a proposta da ilustra e entre si.
Para o chá Vento, a ilustração é de uma mulher indígena, com cabelos soltos formando as ondas do mar. Esse chá foi criado especialmente para o livro O céu riscado na pele, da Andréia Pires. Para o chá Dolce far niente, temos uma mulher gorda aproveitando a praia, com paisagem inspirada nos Lençóis Maranhenses, porque todo corpo é um corpo de praia. Para o chá As mil e uma noites, temos a Sherazade com seu rosto descoberto, pois ela tem o dom da palavra. E para o chá Sonho de uma noite de verão, temos uma mulher negra aproveitando o crepúsculo.
Depois de concluídas as ilustrações, fiz também o design do restante do rótulo, com a aplicação do logo, nome e informações de preparo e composição. Todas as ilustrações foram feitas com as aquarelas da White Nights, incluindo um estojo de aquarelas granuladas lindo que comprei recentemente. Dá pra perceber bastante esse efeito principalmente nas aquarelas Vento e As mil e uma noites. Abaixo, fiz um vídeo para mostrar os detalhes de cada uma:
I can buy myself flowers 💐
Colagem que fiz no meu sketchbook inteligente, inspirada na música Flowers, da Miley Cyrus. O desenho foi feito com lápis grafite e caneta preta, e as flores são do livro de colagens Extraordinary Things to Cut Out and Collage (sim, resolvi comprar minhas próprias flores, ao invés de desenhá-las hehe).
Kali 🌺
Kali é uma Deusa Negra hindu (para aprofundamento no conceito das Deusas Negras, recomendo fortemente a leitura do livro Mistérios da Lua Negra, de Demetra George), também relacionada ao aspecto triplo (criação, preservação e destruição). Ela controla o poder do tempo, que a tudo devora. De acordo com Claudiney Prieto, no livro Todas as deusas do mundo:
Kali é uma deusa muito antiga. Sua pele negra demonstra que ela pré-data a invasão ariana, de pele clara, no continente indiano. Esse conflito torna-se visível em muitos mitos em que Kali se esforça para defender seu povo contra invasores. A paixão e a ferocidade de Kali são divididas em seu aspecto de Deusa pré-ariana e como consorte de Shiva, que inspira o seu poder de Shakti ou energia feminina.
Os invasores introduziram a cultura dos Deuses patriarcais na Índia, mas Kali continuou a ser cultuada por várias tribos matriarcais, como os Shabara de Orissa. (p. 163)
Kali é retratada de muitas formas e possui também muitos epítetos. Em sua representação mais conhecida, ela apresenta longos cabelos pretos, a língua estendida para fora, dentes afiados e brancos, vários braços (o número de braços varia) e um colar de cabeças ou crânios, dentre outros simbolismos. Na arte popular indiana, as divindades de pele negra são retratadas na cor azul, por isso Kali (a negra) aparece sempre dessa cor. Também acompanha as representações de Kali o hibisco vermelho, que representa sua língua.
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Eu não vou me aprofundar nos mitos e lendas indianos, prefiro sempre indicar um livro com um estudo mais denso. Os dois livros que cito acima são muito bons, mas para quem deseja ler um texto na internet, recomendo este aqui: Kali: a mulher mais poderosa do universo.
Fazer a representação de uma divindade de outra cultura, principalmente oriental, sempre é inquietante, pois me coloca de frente à questão: estou fazendo uma leitura respeitosa dessa cultura ou cometendo um ato de apropriação cultural? E acho importante, enquanto artista, não me escorar na "liberdade criativa" para realizar um trabalho vazio e até mesmo ofensivo.
Por isso, quando li Mistérios da Lua Negra, dentre outros livros, e tomei contato com Kali, assim como tem acontecido com outras divindades, decorrente do meu estudo sobre bruxaria, entendi que poderia utilizar os meus conhecimentos para representá-la com o máximo de respeito e unidade, e que não se tornasse um trabalho puramente estético e sem sentido. Eu não queria tomar decisões que visualmente parecessem bonitas, mas que desrespeitassem a religião e a espiritualidade de outras pessoas. E espero ter conseguido isso, tomando as decisões que vou explicar a seguir.
A primeira atitude que tomei foi procurar representações de Kali na internet, e achei muitas imagens, que dividi em duas categorias: as imagens tradicionais indianas, que seguem a corrente popular de representação, com cores muito saturadas, atenção aos detalhes e uma fisicalidade como se fosse uma escultura representada na pintura; e as imagens ocidentalizadas, que mostram uma imagem embranquecida da deusa, geralmente com um corpo mais magro, com traços ocidentais, com a expressão suavizada, e com uma paleta de cores mais neutra.
Eu quis me afastar das imagens ocidentalizadas, por entender que elas representam um whitewashing gigante, assim como já acontece com outras figuras orientais, que sempre têm suas características culturais substituídas por características ocidentais alinhadas ao padrão estético dominante. Por isso, mantive tanto a paleta de cores, como a expressão facial de fúria o mais próximo possível das imagens tradicionais. Mesmo colocando o meu olhar, e optando pelo retrato, que é meu foco, esse foi o ponto que me guiou, nem que eu tivesse que sair da minha paleta de cores ou da minha zona de conforto neutra. E foi a partir daí que construí a figura.
Outro ponto é que, nas imagens tradicionais, geralmente Kali está com o rosto em meio perfil, por isso também quis manter essa representação. O azul é muito saturado, e se acentua no rosto, com todo sombreamento em preto, que geralmente não uso. Para essa ilustração, fiz toda a base com aquarela (úmido sobre úmido) e complementei os contrastes com lápis de cor. Os cabelos são uma massa escura e esvoaçante. Suas joias são em tons dourados com detalhes em pedraria, que se complementam nos hibiscos (em tons de vermelho vivo e vermelho alaranjado) e no fundo da imagem. Sobre o colar de crânios, coloquei 7 em evidência, por ser o número regente do ano de 2023, e por não conseguir colocar a variação total de crânios, que pelas minhas pesquisas fica entre 51 e 108.
Materiais utilizados
- Papel para aquarela 100% algodão Hahnemühle;
- Aquarelas White Nights;
- Lápis de cor Albrecht Dürer e Bruynzeel;
- Pincéis que comprei na Shein;
- Marcadores Pilot e Derwent.
Kali é a corporificação da violência feminina, protetora do coração, aquela que vem para nos afastar de tudo o que não é verdadeiro. É a feroz energia da psique, a luz da discriminação, a espada do conhecimento, o poder para reconhecer o que precisa ser feito. A espada de Kali se transforma e redefine nossas vidas, nos afiando e nos esculpindo, trazendo a ordem para fora do caos, nos ensinando os significados, as belezas e os propósitos de nossas vidas. Kali é a sombra fertilizadora, a guardiã da profunda escuridão vazia, os sempre mutantes ciclos do tempo. (p. 166)
Rhiannon 🐎
Rhiannon rings like a bell through the night
Eu já havia dito que 2022 foi o ano do rascunho, com vários trabalhos que comecei a esboçar, várias ideias de temáticas e séries, mas que ficaram somente no rascunho. Por isso, estou me dedicando (e pretendo continuar ao longo do ano) a tirar esses projetos somente do esboço e transformá-los em artes finalizadas.
Depois de passar o ano todo mergulhada na leitura de Mistérios da Lua Negra, da Demetra George, livro que me ajudou a lidar com o luto e, principalmente, com o luto dentro do processo criativo, me peguei desenhando muitas deusas, divindades de diversas partes do mundo, e também animais, grupos de mulheres, mulheres mais velhas...
E nesse processo surgiu a imagem de Rhiannon, a deusa galesa dos cavalos, a Grande Rainha, que casou-se com o mortal Pwyll e lhe deu um filho, que desapareceu ao nascer. As servas de Rhiannon enganaram a rainha, esfregando sangue de um animal em suas vestes, e acusando-a de ter devorado a criança. Como castigo, Rhiannon foi condenada a carregar os hóspedes que passavam pela sua casa nas costas, como se fosse um cavalo. Após a criança ser finalmente encontrada, o castigo da deusa foi retirado (contei a lenda de maneira muito reduzida, recomendo o livro Divinas Mulheres, da Ann Shen, para conhecer essa e outras lendas).
Rhiannon vai falar sobre resiliência, perseverança e sobre acreditar em si mesma. Num mundo cada vez mais focado na performance da felicidade e da vida perfeita, acolher as nossas feridas e carregar nossos próprios fardos é um ato de coragem.
Por acreditar que essa ilustração merecia estar num papel A3 (que eu não tinha!), resolvi comprar às pressas o único papel disponível na loja - o da linha universitária da Canson, e deu tudo errado, pois detesto a textura desse papel e, por mais que esteja pintando com uma tinta excelente, não consigo alcançar os resultados desejados com ele. Respirei fundo, resolvi digitalizar o rascunho, ajustá-lo para A4 e finalizar no papel 100% algodão que já estou acostumada a usar. Entre mortos e feridos, salvaram-se todos.
All your life you've never seen
A woman taken by the wind
Materiais utilizados
- Papel para aquarela 100% algodão Hahnemühle;
- Minhas tintas e pincéis de sempre;
- Lápis de cor aquarelável Albrecht Dürer;
- Marcadores Pentel e Derwent.
Quem prestou um pouquinho mais de atenção, viu que essa ilustra conversa com outra, Wild Spirit, que fiz em 2021. E é uma conversa intencional, e que pretendo fazer mais vezes, como parte do mapeamento que tenho feito de todos os elementos que se repetem no meu trabalho, bem como as paletas de cores que mais utilizo.
Os trechos em destaque são da música Rhiannon, da banda Fleetwood Mac, na voz da bruxona Stevie Nicks:
Viva Magenta! 🌸
2023 começou com uma quebra de tradição, para mim. É a primeira vez em 5 anos que decidi não ilustrar a carta de tarô regente, mas por um bom motivo: quero me dedicar a ilustrar meu próprio deck, pelo menos os arcanos maiores, então decidi pausar, por enquanto, esse ritual.
Mas abro o novo ano com a cor escolhida pela Pantone: Viva Magenta! Por ser uma das minhas cores favoritas na aquarela, foi com muita alegria que recebi essa escolha, a "cor maravilha", perfeita para composições com flores e folhas. Esse trabalho foi um experimento no sketchbook da Ótima, que adquiri alguns meses atrás:
@lidydutra.art #FelizAnoNovo ♬ Angelic Cuff It - Jo An M
Tenho feito vídeos curtinhos assim no TikTok e no Instagram para mostrar os materiais que estou usando. Gostei bastante da gramatura do papel desse sketchbook, apesar de não ser exclusivo para aquarela, ele é recomendado para técnicas mistas, a folha é destacável, enruga pouco e fica tudo muito organizado e visualmente agradável.
Materiais utilizados
- Sketchbook para técnicas mistas Ótima;
- Aquarelas Van Gogh e Sennelier (especificamente o magenta);
- Pincéis Keramik;
- Lápis de cor Tris Vibes.
Eu não vou externar minhas expectativas para 2023, só espero que seja um ano calmo e esperançoso para todos nós. Que tenhamos força, vontade, valorização e condições de fazer arte ao longo do ano (e nos próximos também). ☆
E para quem deseja se organizar, ainda dá tempo de comprar meu calendário 2023, aqui nesse link. feliz ano novo!




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