Estudando Brian Froud
Nos dois últimos anos tenho investido nos meus estudos e também na aquisição de bons livros de arte, que me auxiliem não só com a parte técnica, como também a entender o processo criativo de artistas que admiro. Embora muitas coisas estejam ao alcance de um clique, nada substitui a qualidade de um livro impresso, principalmente se ele contém muitas ilustrações. Ainda quero fazer um vídeo mostrando algumas obras do meu acervo.
E no Natal, resolvi me presentear com um dos artbooks do Brian Froud. Para quem não sabe, Froud é o responsável pela concepção de todas as criaturas presentes nos filmes Labirinto: a magia do tempo (1986) e O Cristal Encantado (1982). Já os bonecos foram manufaturados por sua esposa, a artista Wendy Froud. O título escolhido foi Good Faeries, Bad Faeries, e comprei meu exemplar pela Amazon.
Escolhi esse livro porque eu amo fadas e, nos últimos tempos, tenho me sentido muito atraída a estudar mais sobre contos, fábulas, mitologia, todo tipo de história que me leve ao mundo mágico. Acho que isso tem muito a ver com a minha vontade de ilustrar um livro com essa temática, todo em técnicas tradicionais.
Então, logo que o livro chegou, comecei a fazer alguns sketches baseados nas figuras, cópias para estudo mesmo, para me ajudar a entender o traço e também arriscar em outros tipos de corpos e poses. Postei alguns desses estudos no Instagram:
Dentre esses rascunhos, resolvi pegar um deles, a Vervain Faerie, para fazer um estudo completo, prestando atenção na proporção, nos valores, e tentando me aproximar ao máximo das cores originais com aquarela e lápis de cor. O resultado:
Dentre esses rascunhos, resolvi pegar um deles, a Vervain Faerie, para fazer um estudo completo, prestando atenção na proporção, nos valores, e tentando me aproximar ao máximo das cores originais com aquarela e lápis de cor. O resultado:
Não mexi muito na imagem para deixar as texturas tanto do papel quanto da tinta e do lápis aparentes. Utilizei uma das amostras de papel Canson Heritage grana fina que a Koralle me enviou algum tempo atrás, com alta gramatura (600g). Já os lápis e aquarelas são os mesmos que utilizo sempre. Nas asas da fada, coloquei um pouco de guache dourado também.
Acho importante ter algumas coisas em mente antes de fazer uma cópia para estudo: a primeira é que não precisa ficar exatamente igual ao original, o objetivo é capturar os elementos marcantes daquela ilustração e tentar compreender como se chega lá. Segundo, você precisa colocar seu cérebro para funcionar e enxergar verdadeiramente o que está fazendo. No caso desse estudo, precisei reproduzir o tom de pele oliva, e consegui através da mistura de sépia com sap green. Por fim, cópia para estudo se restringe a isso: estudar! Portanto, sempre sinalize esse tipo de trabalho, pois é muito deselegante não deixar claro para o público que aquela não é uma criação original.
Depois dessa experiência, resolvi que vou incluir na minha rotina, nem que seja pelo menos uma vez ao mês, estudos baseados em artistas de que gosto, elegendo uma obra para tentar reproduzir. Também selecionei algumas ilustrações do livro Good Faeries, Bad Faeries para quem não conhece o traço de Brian Froud. Ele é um artista tradicional por excelência, e seu gestual é impecável:
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A força e a fera interior
Seja bem-vindo, 2018! Só posso crer que será um ano excelente, pois já comecei fazendo o que mais amo, ou seja, desenhando. Dediquei o primeiro dia deste novo ciclo a uma ilustração que, como muitas, deixei em rascunho por vários meses, até ter um propósito para ela. Sim, eu preciso contar uma história em cada trabalho e costumo empreender uma pesquisa extensa, dentro dos temas que gosto de abordar (mitologia, feminino, fantasia).
Em março do ano passado eu havia encontrado uma foto de referência da Kate Moss muito interessante, e rascunhei algo a partir dela. Porém, não prossegui com o estudo, pois não conseguia encontrar uma narrativa para aquela imagem. E assim passou 2017, fiz outras coisas, até que, na última semana de dezembro, resolvi resgatar o esboço e tentar algo novo a partir dele. Mas ainda faltava alguma coisa... até que descobri o arcano regente deste ano: a força. Aí tudo fez sentido.
De acordo com a descrição do Tarô Illuminati (deck que tenho e estudo há algum tempo):
"Existe uma lenda que conta a história de um cavaleiro heroico que salvou uma linda donzela que ele amava das garras de uma fera ao matar o animal. Ele triunfou sobre a fera e, portanto, superou sua libido e paixão, a natureza animalesca presente em seu amor e em si. Mas o cavaleiro causou um grande dano a si mesmo e à sua amada. A lenda é erroneamente glorificada. Matar a fera interior, domá-la e aprisioná-la é destruir uma parte de si mesmo. A força não está na espada e no braço, mas na paciência e na bondade: ela vem de dentro. Nem a espada mais cortante nem o braço mais forte podem lhe proporcionar a coragem se você ainda não a possuir. Saiba disso: eu não tenho medo da fera dentro de meu corpo, nem temo seu poder ou seu tamanho. Eu a domei, mas não destruí sua força, pois fazer isso seria destruir a mim mesmo. Eu sou a fera e ela sou eu. Uma fera grandiosa assim nunca deveria ser morta, mas, sim, compreendida e aceita, pois você deve se lembrar de que há não muito tempo nós também éramos animais..."
Depois de ler essa passagem, a figura que eu estava tentando moldar - uma mulher meio guerreira, meio deusa, vestida com penas e pintura de guerra - me levou à uma analogia com a donzela e a fera da lenda. Sobre como precisamos, muitas vezes, domar (e aceitar) nossa fera interior e aprender, através dela, lições que nos tragam coragem e força para enfrentar o mundo. Sobre entender que a luz e a escuridão moram dentro de nós e fazem parte do que somos; não podemos separar esses dois lados, mas lidar com eles até alcançar o equilíbrio (isso soou muito Star Wars, eu sei).
Agora, falando da ilustração em si: utilizei o papel Bristol, minha última aquisição artística e, para quem gosta de papéis de alta alvura, e com textura satinada, bem lisinha, recomendo muito. Lápis e marcadores se comportam bem neste suporte, porém, não é indicado para tinta, principalmente aquarela. A figura foi feita com os lápis grafite Lyra, que estão competindo pelo meu amor com o Mars Lumograph, e as plumagens com marcador dourado. O resultado:
Materiais utilizados
- Papel Canson Bristol 180g;
- Lápis grafite Lyra 2B, 4B e 6B;
- Marcadores dourados Posca e Pentel;
- Multiliner Sakura 0.1.
Espero que o arcano da força nos traga o entendimento de que precisamos resolver nossos conflitos internos e entender nosso próprio eu, para então conseguirmos ser a mudança que desejamos no mundo. Que traga consigo um ano de espiritualidade (assim como a cor) e de boas vibrações. E, é claro, de muitas artes, estudos e descobertas.
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Um ano violeta vem aí 💜
Desde 2013, quando comecei a acompanhar os anúncios da cor do ano pela Pantone, minha reação sempre oscilou entre a indiferença (marsala) e o completo desprezo (greenery) pois, na minha concepção, a marca "autoridade mundial em cores" parecia completamente desconectada da realidade e muito mais preocupada em lançar tendência entre blogueiras de maquiagem do que tentar contar uma história.
2017 foi um ano difícil para o mundo. Excluindo-se as conquistas individuais de cada ser humano, foi sofrível acompanhar o noticiário, o ambiente retrógrado e sem muita esperança que se proliferou ao longo dos meses. E parece que, finalmente, a Pantone sacou que poderia passar uma mensagem positiva através da cor do ano, ao escolher Ultra Violet como a representante de 2018.
O violeta sempre foi cercado por mistério. Uma cor que representa a espiritualidade e a magia. O cosmos e sua imensidão. Aqui tem uma matéria contando todos os detalhes que a Pantone utilizou como referência para esta escolha.
E quem me acompanha sabe também que violeta é o espectro cromático que mais amo (roxo, lilás e afins), e até mesmo o blog já teve layout bem puxado para esse tom. Que é a fada lilás da criatividade que aciono quando preciso de ajuda. Por isso, foi uma imensa alegria ver que teremos um ano violeta pela frente. Mais ainda por saber que o mundo está vibrando na mesma energia de renovação, espiritualidade e conexão com o eu interior e com o todo.
No livro Da cor à cor inexistente, Israel Pedrosa fala um pouco mais sobre o violeta, e gostaria de transcrever este trecho aqui no blog:
É o violeta a cor da temperança. Reúne as qualidades das cores que lhe dão origem (vermelho e azul), simbolizando a lucidez, a ação refletida, o equilíbrio entre a terra e o céu, os sentidos e o espírito, a paixão e a inteligência, o amor e a sabedoria.
Desde os tempos mais remotos o violeta impressionou os homens. Não sendo fácil reproduzir essa coloração por nenhum dos meios que lhes estavam ao alcance, a ametista passou a simbolizar a própria cor. Os faraós do antigo Império já se enfeitavam com ela, e a Bíblia relata que os trajes dos sumos sacerdotes eram guarnecidos com essa variedade de quartzo. Na Grécia, acreditava-se que a ametista pudesse neutralizar os efeitos da bebida - por isso o vinho era tomado em taças talhadas nesse mineral e usavam-se os mais variados adornos dessa pedra para evitar a embriaguez. A raiz grega da qual se originou a palavra ametista significa sóbrio.
No horóscopo, é a pedra do mês de fevereiro. No tarô, os segredos da cartomancia designando a temperança representam um anjo com dois vasos, um vermelho e outro azul, entre os quais se troca um fluido incolor, a água vital. O violeta, invisível sob essa representação, é o resultado da troca perpétua entre o vermelho das potências da terra e o azul-celeste. O violeta foi considerado como símbolo da alquimia. Sua essência indica uma transfusão espiritual, a influência de uma pessoa sobre outra pela sugestão, a persuasão, o domínio hipnótico e mágico.
Desejo um ano violeta para o planeta, em seu aspecto mais profundo: espiritual, equilibrado, justo, mágico e sábio. Que possamos tomar atitudes pensando no bem alheio e em colher frutos a longo prazo, sem imediatismo. Que tenhamos consciência de nossos atos e possamos discernir, ao olhar uma pedra, se queremos que ela seja aquela que obstrui o caminho ou que seja aquela que constrói e fundamenta o futuro.
Abraços e até 2018,
Lidiane
E quem me acompanha sabe também que violeta é o espectro cromático que mais amo (roxo, lilás e afins), e até mesmo o blog já teve layout bem puxado para esse tom. Que é a fada lilás da criatividade que aciono quando preciso de ajuda. Por isso, foi uma imensa alegria ver que teremos um ano violeta pela frente. Mais ainda por saber que o mundo está vibrando na mesma energia de renovação, espiritualidade e conexão com o eu interior e com o todo.
No livro Da cor à cor inexistente, Israel Pedrosa fala um pouco mais sobre o violeta, e gostaria de transcrever este trecho aqui no blog:
É o violeta a cor da temperança. Reúne as qualidades das cores que lhe dão origem (vermelho e azul), simbolizando a lucidez, a ação refletida, o equilíbrio entre a terra e o céu, os sentidos e o espírito, a paixão e a inteligência, o amor e a sabedoria.
Desde os tempos mais remotos o violeta impressionou os homens. Não sendo fácil reproduzir essa coloração por nenhum dos meios que lhes estavam ao alcance, a ametista passou a simbolizar a própria cor. Os faraós do antigo Império já se enfeitavam com ela, e a Bíblia relata que os trajes dos sumos sacerdotes eram guarnecidos com essa variedade de quartzo. Na Grécia, acreditava-se que a ametista pudesse neutralizar os efeitos da bebida - por isso o vinho era tomado em taças talhadas nesse mineral e usavam-se os mais variados adornos dessa pedra para evitar a embriaguez. A raiz grega da qual se originou a palavra ametista significa sóbrio.
No horóscopo, é a pedra do mês de fevereiro. No tarô, os segredos da cartomancia designando a temperança representam um anjo com dois vasos, um vermelho e outro azul, entre os quais se troca um fluido incolor, a água vital. O violeta, invisível sob essa representação, é o resultado da troca perpétua entre o vermelho das potências da terra e o azul-celeste. O violeta foi considerado como símbolo da alquimia. Sua essência indica uma transfusão espiritual, a influência de uma pessoa sobre outra pela sugestão, a persuasão, o domínio hipnótico e mágico.
Israel Pedrosa, Da cor à cor inexistente, páginas 127-8.
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Desejo um ano violeta para o planeta, em seu aspecto mais profundo: espiritual, equilibrado, justo, mágico e sábio. Que possamos tomar atitudes pensando no bem alheio e em colher frutos a longo prazo, sem imediatismo. Que tenhamos consciência de nossos atos e possamos discernir, ao olhar uma pedra, se queremos que ela seja aquela que obstrui o caminho ou que seja aquela que constrói e fundamenta o futuro.
Abraços e até 2018,
Lidiane
Collab She-ra com Isabella Pessoa
She-ra, a princesa do poder, desenho animado que moldou a minha infância (muito antes de Mulher Maravilha era She-ra a heroína do meu coração) vai ganhar um reboot feito por ninguém menos que Noelle Stevenson, autora de Nimona e Lumberjanes. Por enquanto, é possível ver todos os desenhos originais na Netflix (que também produzirá os novos) e estou animadíssima com a possibilidade de novas gerações conhecerem essa personagem, que já era girl power em 1985.
Assim que saiu a notícia, corri para fazer uma fanart, depois de semanas de molho por causa de uma sinusite aguda, que não me deixava fazer muita coisa. Queria passar essa mensagem de empoderamento através do traço e, para colorir, convidei minha amiga Isabella Pessoa, que tem produzido trabalhos incríveis tanto no tradicional (o Inktober dela foi fantástico, cheio de bailarinas), quanto no digital. A Bella tem um comprometimento com os estudos que é raro ver hoje em dia, e leva o trabalho muito a sério, um exemplo a ser seguido.
Para os traços, utilizei papel Bristol (como demorei tanto para usar esse papel? Ele é maravilhoso!) e lápis Lyra 2B. Entreguei o desenho para a Bella exatamente assim e, a partir daí, ela fez a pintura digital, utilizando o software Procreate (para iPad).
Já nas primeiras imagens que ela me mandou fiquei de queixo caído, e quando vi o trabalho finalizado foi uma felicidade sem limites. Achei tudo incrível, desde a paleta até o movimento dos cabelos e a finalização na parte inferior, dando seguimento à figura. Me senti muito acolhida e com um sentimento de que a internet pode ser um lugar seguro e de aprendizado, basta escolher boas parcerias. Fiz um textão no meu Instagram, dá pra ler aqui hehe.
Espero que essa seja a primeira de muitas collabs com a Bella, pois esse tipo de experiência é muito animadora; para mim, serviu como um estímulo criativo, depois de um longo período doente e incapaz de levar meus trabalhos adiante. E para ver mais ilustrações e estudos da Bella, siga-a no Instagram.
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Banner para o blog da Mitcheia
A Mitcheia é uma amiga muito querida, que já confiou no meu trabalho em outras ocasiões e, dessa vez, me chamou para dar cara ao seu mais novo projeto, o blog Eu lírico, eu empírico. A partir do briefing elaborado, misturei vários elementos que fazem parte da vida da Mitch e que ela desejava ver representados no cabeçalho da página.
Natureza, equilíbrio, escrita, música, tudo isso numa atmosfera onírica, com a figura imersa no fundo de galáxia. Trabalhei já no formato adequado para ocupar a largura da página e utilizei predominantemente aquarela, conforme solicitado pela Mitch.
Materiais utilizados
- Papel Arches 300g, grano fino, 100% algodão;
- Aquarelas Van Gogh e Cotman;
- Pincéis Keramik pelo sintético;
- Marcadores branco e dourado;
- Multiliner Sakura.
O resultado final:
Para conferir esse trabalho e também a escrita da Mitcheia, é só acessar o blog Eu lírico, eu empírico. Já tem uma entrevista minha por lá, que adorei! E se você também quiser um projeto especial para o seu blog, mande um e-mail para lidiane@lidydutra.com.
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Asrai ✨
Essa semana eu quis testar os lápis que ganhei de aniversário e ainda não tinha usado, da nova linha EcoLápis SuperSoft da Faber-Castell. Tem muitos ilustradores fazendo resenha desse produto, mas esse não é o meu intuito, só quero falar sobre algumas impressões que tive na hora de colorir.
O primeiro ponto que precisa ficar claro: é um lápis escolar. Quem está atrás de algo profissional, ainda precisa recorrer a outras linhas, da própria Faber ou da marca de sua preferência. É um produto bonito, com qualidade acima da média para a sua categoria mas, ainda assim, escolar.
A promessa desse lápis é entregar mais maciez na cobertura, inclusive em suportes escuros, e ele cumpre muito bem essa função. Talvez o que eu mais tenha gostado foi da paleta de cores neutralizada, muito diferente de tudo que já vi para o consumidor "comum". Geralmente as marcas se preocupam em fazer estojos com essa composição para artistas. Então, esse é um ponto muito positivo. O preço fica na casa de R$ 49,90 (está na média) e pode ser encontrado facilmente em qualquer papelaria. Mas vamos às minhas impressões:
O cabelo da figura foi feito com aquarela e álcool e a auréola com guache dourado. Deixei para trabalhar com o lápis na pele e também para finalizar detalhes do cabelo próximos ao rosto. É possível perceber que neste papel (Canson 200g) o lápis marcou bastante a textura, mas as cores misturaram muito bem entre si e deixaram um ar iluminado bem interessante. Acredito que num papel mais liso, como o layout, ele funcione ainda melhor. Não senti tanta diferença quanto à entrega de cor em relação ao EcoLápis comum, mas em matéria de maciez, o SuperSoft realmente cumpre seu propósito. Foi um teste bem tímido, só para sentir o que o material me daria, mas ainda quero fazer outros experimentos, principalmente com relação à pele negra.
Materiais utilizados
- Papel Canson 200g;- Materiais para pintura deste post;
- Guache dourado Talens;
- EcoLápis SuperSoft Faber-Castell.
Asrai é uma pequena fada da água, presente nas mitologias inglesa e escocesa. As asrais são criaturas belas e gentis, que derretem assim que o sol nasce, mas aparecem novamente a cada lua cheia. Sempre são retratadas como mulheres de longos cabelos verdes, pele translúcida e pés palmados.
Eu não tinha este ser em mente quando finalizei o trabalho, mas ao pesquisar no livro Seres Fantásticos, achei que a representação de uma asrai caía perfeitamente com a figura ilustrada. Sei que não é meu melhor trabalho, mas fica pelo aprendizado que proporcionou.
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Mostre seu trabalho!
Há mais ou menos uns dois anos atrás o livro Roube como um Artista foi a sensação dos círculos criativos. Muita gente da área indicou a obra de Austin Kleon por seu caráter inovador, divertido e leve, mas confesso que peguei certo ranço por esse título clickbait e achei que muita gente interpretou o pensamento de Picasso (bons artistas copiam, grandes artistas roubam) de maneira extremamente equivocada. Nunca se viu tanto plágio como agora, daí meu desconforto mais em relação a essa interpretação errônea, do que ao livro em si.
Mas resolvi dar outra chance para o autor assim que Mostre seu Trabalho foi lançado no Brasil. E a impressão que tive, ao ler este livro, foi que o próprio Austin estava se dando uma segunda chance para ser melhor compreendido. Achei que encontraria mais um guia cheio de receitinhas prontas sobre divulgação em tempos de internet, mas a obra é uma verdadeira aula sobre ética no trabalho criativo, e deveria ser lido por todas as pessoas do planeta - sério. A seguir, minhas impressões a respeito da leitura:
Os blogs não morreram
Várias coisas que o autor coloca já passavam pela minha cabeça nos últimos tempos. Foi como se eu encontrasse uma voz amiga que dissesse: tudo bem, estamos juntos nessa. Primeiramente, ele já explica que a obra é destinada a quem não gosta de se autopromover na internet e lança a indagação: imagine se seu chefe não precisar ler seu currículo porque já lê seu blog? Nunca deixei de acreditar no poder que o blog ou site pessoal tem para promover um artista, pois as redes sociais mudam a todo momento, enquanto o blog funciona como um registro dos processos criação. E é a partir desse ponto que Austin começa sua reflexão.
A nossa sociedade acredita, ainda hoje, no mito do artista solitário (e mentalmente perturbado, como já escrevi numa edição da newsletter), que espreme o cérebro ao máximo em seu ateliê e entrega algo genial ao mundo, meses mais tarde. Mas para o autor Brian Eno, faz mais sentido a ideia de cena, de ecossistema de talentos, onde é possível apoiar, trocar, exibir trabalhos, copiar, roubar ideias e contribuir. Nesse sentido, a internet é um terreno fértil, pois a cena garante que não só os "gênios", como pessoas em todos os níveis, possam colaborar.
A importância dos processos
"Assim como em qualquer trabalho, existe uma distinção
entre o processo de pintar e o produto final do processo."
Lá na minha adolescência (e na de muita gente), era comum que todos os trabalhos ficassem guardados naqueles fichários pretos que, aos poucos, deformavam com o acúmulo de volume. Eram rascunhos, retratos, fanarts, tudo compartilhado em reuniões presenciais (amanhã, no recreio, vou trazer minha pasta!), nas quais os artistas podiam trocar artes entre si e ver de perto o que o colega produzia. No período pré-digital, era totalmente aceitável que esse mundo maravilhoso ficasse restrito às pastas ou, no caso dos artistas famosos, a canais especializados, como revistas e galerias. Porém, hoje, todo mundo pode documentar facilmente o seu processo criativo e disponibilizar isso ao público.
Nesse ponto, Austin Kleon faz uma observação muito pertinente: embora seja muito fácil compartilhar nossos processos - e até mesmo mais interessante para um empregador observar esse relatório diário do que um portfólio - nem tudo é passível de divulgação. Dividir é diferente de sobrecarregar! O primeiro diz respeito a colocar algo útil no mundo, já o segundo não acrescenta nada ao seu trabalho ou aos outros. Faça o teste do e daí? antes de compartilhar qualquer coisa, questione a pertinência e relevância do que vai colocar no seu feed.
Dentro desse aspecto, o autor novamente bate na tecla da importância de ter um espaço só seu, com domínio próprio, e que seja alimentado com certa frequência. Não abandone seu blog pela mais nova rede social.
"Não pense no seu blog como uma máquina de autopromoção, mas como uma máquina de se autoinventar. Online, você pode ser a pessoa que realmente deseja ser. Preencha o site com seu trabalho, suas ideias e as coisas que lhe interessam."
Divulgar é diferente de spammar
Como disse anteriormente, minha grande birra com Roube como um Artista não era o livro em si, mas o tanto de pessoas que levaram o título ao pé da letra e começaram a plagiar enlouquecidamente em busca de likes. E parece que o autor percebeu a tragédia e correu atrás do prejuízo. A questão ética está presente em todo Mostre seu Trabalho, de maneira muito sutil. Desde creditar sempre suas fontes, incluir os links para o trabalho original, caso você for divulgar outro artista no seu blog, até mesmo em não compartilhar caso você não encontre a autoria do que deseja mostrar.
Acredite, você está falando para alguém, embora ache que só as paredes são capazes de ouvir. Por isso, dê mais importância para a qualidade do que a quantidade de seguidores e tenha algo a ensinar para eles. Não seja spam humano, pois uma das piores coisas da internet é, comprovadamente, o segue de volta. Afaste-se de pessoas tóxicas, que não estão dispostas a ver você e seu trabalho crescerem, e conecte-se com quem admira. Não alimente os trolls.
Numa das melhores passagens do livro, Austin fala que quando você coloca seu trabalho no mundo virtual, precisa estar preparado para o bom, o mau e o feio, e que ter seu trabalho odiado por certas pessoas é uma honra ♥. Essa frase virou meu mantra pessoal e me fez desencanar de muita coisa ruim, recomendo entoá-la 3 vezes ao dia.
Sobre ganhar dinheiro efetivamente a partir da divulgação do trabalho na internet, é preciso superar a ideia do artista faminto, e que vender vai corromper a sua criatividade. Muita gente ainda acredita que desenhar é um dom ou um hobby e se recusa a pagar para o artista desenvolver uma arte exclusiva. Ou então pensam que "se está na rede não tem dono" e copiam imagens com copyright até mesmo para fins comerciais.
Não tenha medo de cobrar pelo seu trabalho e coloque o preço que acha justo. Mantenha um mailing para ter um canal direto com seus leitores e clientes, assim é possível avisar sobre seus projetos e novidades. Crie horários de atendimento para responder e-mails e tirar dúvidas, não fique 100% disponível online, pois isso prejudica seu trabalho. E lembre-se de descansar um pouco para recuperar as energias.
Já no finalzinho do livro, o autor faz uma das colocações que mais me impactou (dentre tantas): a de que nunca começamos do zero e que, se for necessário, jogue fora todo material antigo. Isso tem tudo a ver com as práticas que tenho adotado desde o ano passado aqui no blog e também na minha vida offline. E tem sido bom porque praticamente não tenho mais bloqueio criativo (até passei a me questionar se esse conceito realmente existe ou se é uma imposição social para que sejamos produtivos sempre), e consegui entrar num fluxo de estudo, trabalho e lazer em arte que só sigo, sem me cobrar por as coisas não saírem do meu jeito. É o famoso exercício de desapego. E dá certo!
Considerações finais
Existem outros tantos tópicos abordados pelo Austin Kleon que ficaram de fora dessa pseudo-resenha. Pontuei o que chamou mais minha atenção, mas certamente é um livro cheio de camadas, e cada releitura será uma nova descoberta. O ranço foi substituído por admiração e recomendo, de coração aberto, que todas as pessoas que usam a internet para promover seu trabalho criativo, ensinar ou aprender sobre arte, leiam e absorvam os ensinamentos, principalmente no que tange ao respeito com nosso trabalho e com o alheio.
Em tempos de cópia e mau roubo, como o próprio autor coloca, desejo que Mostre seu Trabalho faça tanto sucesso quanto o primeiro livro, e que sirva para esse pessoal do bonde do plágio por a mão na consciência e repensar as próprias práticas.
Para mim, o ponto crucial foi o respeito pelo ato de blogar e a reverência com que o Austin fala sobre esses espaços que tanto podem acrescentar em nossas vidas. Não canso de dizer que este blog nasceu para me ajudar no mestrado e mudou completamente minha relação com o desenho, a profissão e o mundo. Através dele, fiz amizades e consegui projetos que jamais teria oportunidade se não tivesse apertado aquele botão laranja do Blogger lá em março de 2010. Se o seu blog está abandonado, saiba que o futuro continua nele, vale a pena tirar as teias de aranha e... mostrar seu trabalho!
Nota: ✩✩✩✩✩
Minha edição é em ebook, mas certamente comprarei um exemplar físico! Se você também leu o livro, deixe suas impressões nos comentários e vamos conversar a respeito.
Catrina Tropical
O tema de novembro do Girls Artist Gang foi Dia de Los Muertos e eu *gritei* com a possibilidade de fazer mais caveirinhas, que tanto amo. Minha relação com esse tipo de arte é tão forte, pois foi no momento em que desenhei a primeira Catrina que decidi seguir profissionalmente pelo caminho da ilustração.
Também foi uma oportunidade para retomar a aquarela e fazer coisas novas. O meu ponto de partida foi uma pesquisa no artbook da Sylvia Ji, que mostrarei ao final da postagem. Ela é uma das minhas maiores referências e tentei compreender um pouco da sua paleta de cores, principalmente o uso do dourado. E como estou desde o início do ano empenhada numa série de ilustrações botânicas, quis trazer esse elemento para a composição, trocando as tradicionais rosas e cravos-de-defunto por costelas-de-adão.
Embora a base de pesquisa tenha sido o trabalho da Sylvia, o resultado continua sendo uma ilustração com a minha cara e meu traço. E essa é a maior diferença entre inspiração e cópia. A inspiração te ajuda a estudar, a montar um percurso criativo e testar coisas novas (paletas, composições, temas). Já a cópia per se será sempre uma tentativa frustrada de transferir o traço do artista para o papel. Acredito que é importante sempre tocar nesse ponto, pois muitas pessoas acham que existe um caminho mais fácil para desenhar, que é montar um Frankenstein de estilos copiados de outros ilustradores, porém, sem se aprofundar em nenhum estudo sério. E essa ideia é totalmente equivocada.
Outro teste que fiz para essa ilustração foi utilizar aquarela num papel com gramatura menor, sem ondular. E consegui esse efeito com tintas mais opacas e granuladas, diluídas em pouca água, só o suficiente para não empastar. Gostei do resultado, o único inconveniente é que assim a aquarela seca muito rápido, portanto, é preciso ter agilidade. Para os detalhes, segui utilizando os meus lápis de cor e marcadores branco e dourado para abrir pontos de luz. O resultado:
Materiais utilizados
- papel Canson creme 200g;
- aquarelas Van Gogh;
- pincéis Keramik;
- lápis de cor Polycolor;
- Marcador Posca dourado;
- Caneta Sakura Gelly Roll branca.
*O contorno foi feito com grafite azul da Pentel.
Esse trabalho coincidiu com a leitura que fiz do livro Confissões do Crematório, da Caitllin Doughty. A autora conta detalhes de sua vida como agente funerária e experiências de quando começou a trabalhar na indústria da morte norte-americana. É interessante a visão que Caitlin traz de como a sociedade ocidental está medicalizando e se afastando dos rituais de morte, vistos como um atentado à saúde pública. E é um contraponto interessante a toda tradição mexicana de celebrar os mortos, ir até os cemitérios ofertar doces, música e dança, pois a morte é apenas uma passagem.
Todas as culturas têm valores de morte. Esses valores são transmitidos na forma de histórias e mitos, contados para as crianças antes de elas terem idade suficiente para guardar lembranças. As crenças com as quais as crianças crescem dão a elas uma base para que suas vidas façam sentido e para que elas as controlem. Essa necessidade de significado é o motivo pelo qual alguns acreditam em um sistema intrincado de vidas após a morte, de outros acreditarem que sacrificar um determinado animal em um determinado dia leva a colheitas saudáveis e a outros acreditarem que o mundo vai acabar quando um navio construído com as unhas não cortadas dos mortos chegar carregando um exército de cadáveres para lutar com os deuses no fim dos dias. (pág. 214)
Sobre o artbook Day of The Dead and Other Works, da Sylvia Ji, além de ser meu desejo de consumo há mais de um ano, quando foi lançado, é também um dos livros mais bonitos do gênero que tenho na estante. A obra traz um compilado de trabalhos com as já famosas catrinas da pintora, além de damas mórbidas, santas e toda sorte de elementos da cultura mexicana. Sylvia Ji transita com maestria entre o grotesco e o sensual, sem sexualizar suas figuras. Elas são representações de poder, de vida e morte e de passagem, com um erotismo bem pontuado.
As obras da Sylvia me fizeram lembrar outra leitura que fiz: Lua Vermelha, da Miranda Gray. Neste livro, a autora trata do tema menstruação, e traz uma série de mitos relacionados ao útero e à força criativa da mulher. Uma das figuras exploradas é a da Deusa escura, que teve sua imagem distorcida ao longo do tempo. Para a autora:
A imagem da Deusa da vida e da morte, da escuridão e da luz, como uma representação do ciclo inteiro da Lua, foi dividida. A imagem da Deusa escura das energias destrutivas e da morte foi separada do seu outro aspecto, das energias generativas e da vida. A imagem feminina da morte e da destruição não vinha mais acompanhada da imagem consoladora do retorno ao útero universal a fim de renascer e, dessa forma, o ciclo lunar de vida, morte e renascimento foi rompido. A imagem da divindade feminina tornou-se polarizada, com a brilhante Deusa da Vida e a terrificante Deusa do Mundo Inferior, que trazia com ela o fim, representado pela morte. (págs. 110-11)
Algumas imagens do artbook:
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