Por que suas ilustrações são parecidas com você?
De tempos em tempos costumo ouvir uma pergunta, que se intensificou nas últimas semanas, que é a seguinte: suas ilustrações são tão parecidas com você, isso é intencional? Resposta: não, não é.
Represento aquilo que compõe o meu universo visual e imaginário. Sigo uma série de referências, tenho arquivos com fotos para me inspirar, uso a gama das minhas cores favoritas, trabalho com aquilo que me identifico e me faz feliz, isto é fato. Ilustrar mulheres e dar preferência para seus rostos e olhos é colocá-las no protagonismo de minhas ilustrações, é fazer com que elas observem e interajam com o espectador.
Pode até ser que essa "semelhança" seja inconsciente, o que para mim, enquanto mulher e artista, é uma grande vitória sobre uma indústria cultural que despeja, diariamente, padrões de consumo em massa. Que diz o que devemos vestir, que cor e corte de cabelo devemos ter, do que devemos gostar.
Agora, quero chamar outras mulheres, outros corpos, outras etnias a compor o escopo das minhas ilustrações. Quero co-autoria. Já entendi os meus limites e como posso superá-los e quero fazer isso com urgência. Quero ouvir outros tipos de perguntas, receber outros feedbacks. Mas acho que, por enquanto, o grande enigma está respondido.
Escolhi essa mocinha dentuça para ilustrar o post porque sou apaixonada por vampiros e, no momento, estou relendo Noturno, do Guillermo Del Toro. E eu já devo ter dito que estou apaixonada pela série The Strain, baseada neste livro... Senhor Del Toro me deixando viciada em séries, vê se pode :D
Abraços,
Lidiane :-)
Raven
Dias antes do Halloween, minha cabeça começou a ficar povoada por seres um tanto esquisitos, e a leitura de alguns contos de horror e mistério ajudou a dar o tom dessa ilustra, livremente inspirada no Corvo, do Poe.
"Num universo inconcebivelmente complexo, cada vez que uma criatura se defrontava com diversas alternativas, não escolhia uma, mas todas, criando, dessa forma, muitas histórias universais do cosmo. Já que nesse mundo havia muitas criaturas e que cada uma delas estava continuamente cercada de muitas alternativas, as combinações desses processos eram inumeráveis, e a cada instante esse universo se ramificava infinitamente em outros universos, e estes, por sua vez, em outros." - Olaf Stapledon (extraído do livro Antologia da Literatura Fantástica)
Materiais: caneta Staedtler em diversas espessuras para a line art, caneta Pigma Brush para o pretão, Tombow nos tons de cinza e Sharpie nos detalhes em vermelho. Tudo sobre papel para aquarela 300g.
Abraços,
Lidiane :-)
Mermaid
Este foi o único trabalho feito na última semana que fotografei todo o processo criativo. Aproveitei o tempo maior de dedicação que tive no feriado e registrei todos os passos desse projeto, que foi um dos estudos para o Ilustra Day de outubro.
Como eu não tenho muitas referências pessoais sobre sereias, pois não é um tema recorrente nos meus trabalhos, e apesar de acompanhar as ilustrações da Caroline Jamhour que, para mim, é uma grande conhecedora de seres míticos, resolvi estudar um pouco de anatomia, cores e posições através do livro The Secret History of Mermaids and Creatures of the Deep, comprado no Book Depository já faz algum tempo. Esse livro segue a linha do Piratologia e, se vocês tiverem interesse, posso fazer um post falando mais sobre ele.
Fiz a line art como nas ilustrações anteriores e resolvi arriscar com as aquarelas em bisnaga. Deu pânico total, comecei pelo fundo numa mistura de tons de azul, verde e laranja, e depois parti para o cabelo e restante da figura. Não queria uma vibe muito Ariel, apesar do cabelo ruivo, por isso optei por "salpicar" escamas por toda a figura e dar uma forma diferente à cauda.
No final, a ponta da cauda ficou parecendo uma flor, devido ao seu formato e cor. Acho que acabei fazendo uma mistura de Hera Venenosa com sereia e ficou assim kkkkkk. Depois de finalizada e tratada, a ilustração ficou assim:
Dei alguns retoques com Posca, canetas e lápis de cor da Derwent, que funciona super bem sobre a aquarela. E acabei perdendo um pouco do medo das bisnagas, para fazer as misturas de cores elas são melhores. O papel é o Canson 300g, usado na face lisa e, mesmo assim, notem que tem um pouquinho de textura.
Então, o que acharam da minha sereia? :)
Abraços,
Lidiane :-)
Pirate #3
Uma pirata diferente das primeiras e um dos trabalhos mais gostosos de fazer para o Inktober. Fiquei feliz por ter conseguido colocar no papel o tão sonhado cabelo de galáxia/nebulosa que eu vinha tentando fazer desde o ano passado. Ainda não está do jeito que quero, mas foi um bom recomeço.
Toda a ilustração foi feita basicamente com aquarela e canetas Staedtler. Usei Posca nos detalhes dourados e hidrocor vermelha no tapa-olho. O papel que tenho usado é o Canson Aquarela, 300g, que não é muito caro mas tem uma consistência boa, com um lado liso e outro bem texturizado (eu prefiro o liso). E minhas aquarelas são da linha Koi, Sakura.
Abraços,
Lidiane :-)
Inktober 2014: última semana e 5 lições que o desafio deixou
Acabou outubro e, com ele, o desafio de desenho mais longo que já participei. No começo do mês, aceitei entrar no Inktober e produzir um desenho por dia, só na tinta. Achei que desistiria logo na primeira semana, mas os dias foram passando, e a vontade de produzir, mesmo nos piores momentos, foi crescendo. Além vários desenhos e ilustrações novas, o Inktober deixou 5 lições que levarei comigo para o resto da vida. São elas (acompanhadas pelas últimas produções):
1. Ter uma meta ajuda a superar a preguiça: quando aceitei participar do desafio, entendi que precisaria fazer um desenho por dia, não importasse as circunstâncias. Com isto em mente, fui obrigada a me organizar, para poder cumprir a meta diária. Ou seja, se eu gastava uma hora do meu dia no Facebook, cortei esse tempo pela metade, para poder trabalhar. Em alguns dias, cheguei a produzir mais de um desenho, o que me deu folga em alguns finais de semana e momentos super apertados, como na exposição. Também agrupei projetos afins: ilustraday, selfless das minas... Ter esta meta fez com que eu conseguisse enxergar o todo da minha carga horária, e a dividisse da melhor maneira possível;
2. Errar é humano: quando se trabalha com tinta, seja ela nanquim, aquarela, acrílica, etc. com um prazo apertado, a probabilidade de sair uma caca é enorme. Você vai errar, e errar é humano. Mas isso não pode te desmotivar, pelo contrário: se o papel de hoje enrugou, amanhã usa um mais encorpadinho, mas não descarta aquele desenho: aprende com ele! Não curtiu o tom de pele? Beleza, tenta outra mistura daqui há uma semana. A prática leva à perfeição e, quando se desenha todo dia, fica mais fácil perceber nossas fragilidades e onde precisamos melhorar;
3. Desapegar é preciso: em 1 mês vi todos os esboços que eu havia feito em algum momento de 2013-14 desaparecerem do meu mural. Eram aquelas coisas que eu rabisquei no intuito de terminar algum dia. Só que o dia nunca chegava e a pilha foi aumentando. Como minha cabeça não é um celeiro inesgotável de ideias, em vários dias lancei mão do que já estava ali para trabalhar. Claro que muitas coisas não saíram do jeito que eu queria, e outras abandonei de vez e decidi guardar como rascunho, o que significou o maior exercício de desapego da história do Atelier da Lidy. Ficou a sensação de limpeza das quinquilharias que só me atrapalhavam;
4. Superar o medo de tentar algo novo = renovar sua criatividade: eu tenho muito medo de tintas, principalmente aquarela. Sempre usei de maneira muito receosa, porém, foi um mini-kit de pastilhas que me fez perceber que era só um desconforto em relação à bisnaga. Com as pastilhas, minha relação com a aquarela mudou completamente. Daí por diante foi uma experimentação sem fim: line art e aquarela; novos formatos de cabelo; novos tons de pele.; novas viagens. Porque na maioria das vezes eu viajei legal na produção. E o bem que isso faz é indescritível, pois eu não estava ali para agradar ninguém, mas sim para me divertir e aprender com essas novas experiências. Agora, já me sinto confortável para encarar seriamente trabalhos com tinta e o que vier;
5. Compartilhar amor é o que há: todos os dias lá ia eu para as redes sociais e mostrava minha arte do momento e, além de aumentar o engajamento entre as pessoas que me seguem, foi uma troca de carinho muito grande. Recebi elogios, críticas do bem, conselhos e muito amor. Gente que perguntava porque o Inktober do dia ainda não havia saído (quando eu postava mais tarde); gente que curtiu cada foto publicada; gente que compartilhou. E nisso a rede de quem prefere o amor ao chorume aumenta, o que me deixa super feliz e motivada.
Já penso em participar de outros desafios e certamente farei o Inktober 2015. Obrigada a todo mundo que acompanhou essa jornada inesperada! Ah, e mostrarei todas essas ilustrações em detalhes, algumas com fotos do processo criativo, a partir da semana que vem.
Abraços,
Lidiane :-)
Especial Halloween: Frida Catrina
Vai ter Frida Catrina sim, e se reclamar vai ter duas! O Halloween é meu e convido quem eu quiser para participar. :~~ Tem muita técnica mista na ilustração de hoje: tinta acrílica, colagem (as rosas e borboletas são aqueles adesivos de feira, sabe?), lápis de cor, caneta...
Desde o começo, minha ideia era essa cabelo pretão, lembrando um véu, e a cobertura da tinta acrílica é maravilhosa para este fim. As colagens não foram propositais, achei que ficaria bonito e tenho várias cartelas desses adesivos, que comprei para o art journal que nunca mais peguei na vida.
Logo mais posto a última ilustração do Inktober 2014 (sim, termina hoje!) e amanhã farei um post contando como foi essa semana e as lições que o desafio deixou por aqui. Já adianto que foram muitas.
Abraços,
Lidiane :-)
Diaba
Quando o filme Malévola foi anunciado fiz um esboço muito torto de uma diaba, que fatalmente acabou na pilha dos trabalhos que um dia (aquele dia que não chega nunca, sabe?) iria finalizar. Santo Inktober, que me fez rever essa dinâmica e botar todos esses rascunhos na rua novamente.
Gostei muito da line art, acho até que poderia ter parado nela e deixado como estava, mas resolvi arriscar pintar com aquarela. Novamente, caí naquela velha questão de: será que estou estragando a minha ilustra? Precisei de um distanciamento para reavaliar o projeto e pude perceber que consegui deixar pelo menos 80% do jeito que queria.
Depois de finalizada e tratada, a ilustração ficou assim:
Ainda preciso lidar melhor com os espaços em branco na aquarela, minha primeira reação é sempre preencher tudo e essa é uma técnica que precisa de um respiro. Aos poucos eu chego lá. Apesar da cobertura ter tapado as linhas do cabelo mimimi, curti a cor e o movimento. Ah, e os chifres também são xodós.
Abraços,
Lidiane :-)
Fauno #03
O Inktober me proporcionou fazer um dos trabalhos mais gratificantes do ano, que é este fauno em aquarela. Eu não estava assim tão inspirada no dia, cheguei até a pensar que havia "estragado" a line art com a pintura, mas depois de ver o todo, me surpreendi com a maneira como me desprendi do medo de aquarelar e com o resultado das cores, assim como em Divindade.
Isso foi tudo o que consegui fotografar do processo, pois sempre que paro para registrar as etapas me perco um pouco do meu objetivo e saio do transe criativo. Depois de pronta e tratada, a ilustração ficou assim:
Apesar de não ter começado como algo planejado, quis atribuir um significado para essa ilustração: a necessidade de enxergar além do óbvio, de se desprender de nossas limitações, muito mais psicológicas do que físicas ou técnicas.
E também parar de ver as coisas por um ângulo maniqueísta, de bem x mal: tudo em nossa vida é processo e autoconhecimento, se não estamos abertos a novas vivências, nosso aprendizado se torna muito limitado. Muitas pessoas enxergam nos faunos e nas catrinas, por se tratarem de seres com chifres e caveiras, que minha arte é coisa do diabo, dentre outras coisas. Apenas parem com isso! Minha arte é LIVRE, assim como meu pensamento. Se não agrada a você, não entre no meu blog, não comente sobre minhas ilustras, apenas não contamine um ambiente artístico e estético com sua visão limitada de mundo.
Abraços,
Lidiane :-)
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