Catrina Lila 💜
Outubro passou, eu tentei fazer um pequeno projeto de desenhos rápidos, não consegui e também falhei em tentar construir uma proposta temática para o Halloween, que tanto amo. Na verdade, a data passou meio sem sabor esse ano, sem a empolgação para desenhar que me impregnou em outras épocas. Ainda sonho com o equilíbrio entre docência e arte, que nunca chega, mas que me possibilitaria ter energia suficiente para essas datas novamente.
Mas tenho rascunhado bastante, então algumas ideias muito boas estão guardadas para um momento futuro. E foi justamente um rascunho de dois anos atrás que ressuscitei para fazer essa Catrina. Quem me acompanha pelo Instagram já viu o esboço dessa ilustração em idos de 2020. Ideia que ficou guardadinha no meu sketchbook, até ser tirada de lá.
Eu tinha "grandes planos" para esse rascunho, na verdade. Queria o melhor papel, uma paleta de cores sensacional, todos os meus chacras equilibrados na hora da pintura, mas estou falando de mim mesma, ou seja... coloquei muitas expectativas na pobre catrina, que nada tinha a ver com isso, e precisei salvá-la.
Escolhi sim um dos melhores papeis, o Strathmore, que é um desbunde de qualidade. Testei várias thumbnails com sugestões de paletas, e nenhuma me agradou verdadeiramente. Resolvi, então, tentar a dupla de complementares amarelo/roxo, com alguns toques de azul marinho e um vermelho mais frio. Na thumb funcionou plenamente, mas quando comecei a pintar, senti que não ia rolar, pois ao invés de trabalhar em úmido sobre úmido, fiz úmido sobre seco, e a tinta engrossou demais. 🤡
Se fosse em outras épocas, eu teria rasgado tudo e começado do zero e com ódio, mas resolvi guardar e esperar uma semana. E foi a melhor decisão que poderia tomar, pois resolvi lançar mão dos lápis de cor que colorem sobre fundo escuro para abrir os pontos de cor e luz que estavam faltando.
E ao fazer essa construção de camadas com lápis de cor e também com o marcador dourado, consegui dar profundidade e tornar a peça bastante elegante e sóbria, como a imagem de um antigo camafeu. As rosas douradas são uma homenagem as já conhecidas caveiras da Sylvia Ji, minha maior inspiração nesse tema. o resultado final:
Materiais utilizados
- Papel para aquarela Strathmore 300g;
- Aquarelas White Nights;
- Pincéis Keramik;
- Lápis de cor Rijks Museum Bruynzeel;
- Canetas nanquim e metálicas Pentel;
- Marcador dourado Pilot.
Y ella es flama que se eleva
Y es un pájaro a volar
En la noche que se incendia
Estrella de oscuridadQue busca entre la tiniebla
La dulce hoguera de el beso
Que mal amor en sus labios
El infierno es este cielo
Ondas tombando ininterruptamente 🌊
Em março deste ano me inscrevi no Edital Galeria Otroporto - 1º andar, promovido pela Otroporto Indústria Criativa, da vizinha cidade de Pelotas. Foi um dos raríssimos editais pagos em dinheiro para os artistas, além de subsidiar custeio de materiais e envio das obras, se necessário. Confesso que me inscrevi um pouco descrente, na base do incentivo de amigos, principalmente da Ramile (@rami_aquarelas), que participou do edital 2021 e tem trabalhos expostos lá. Descrente, porque vivo uma eterna luta entre a consistência do meu trabalho, o tempo de dedicação diminuído pela docência, e a síndrome de impostora que me acompanha em todas as ocasiões.
Mas resolvi arriscar, elaborei um portfólio e esboço de proposta, tentando olhar com carinho para minha trajetória, que é digna de orgulho sim, afinal são muitos anos dedicados à arte e a mostrar que artistas mulheres estão aí na atividade e merecem reconhecimento também. O tema do edital era águas e pessoas, e aproveitei para mergulhar em meu próprio acervo, resgatando um material muito querido, mas que adormeceu ao longo dos anos: a série produzida para a exposição Mulheres, de 2015. Das 15 ilustrações em tamanho A3 (formato raríssimo nas minhas atuais produções), selecionei três que se encaixavam no esboço que queria mostrar à Otroporto: as galáxias poderiam virar mares, e vice-versa.
E em abril recebi a notícia de que estava na lista de 18 artistas selecionados no edital, entre os 104 inscritos. Fiquei extremamente feliz, e isso renovou demais minhas energias para continuar criando, apesar de tudo. E para a minha surpresa maior, a proposta foi aceita na íntegra, com as ilustrações originais da exposição Mulheres, sem necessidade de fazer novos trabalhos. E novamente isso me fez olhar com muito carinho para a Lidiane do passado, e ver que tudo é processo, que coisas feitas há 7 anos atrás ainda podem ser extraordinárias.
Essa semana, a Otroporto divulgou as imagens dos meus trabalhos já em exposição, que receberam o nome de Ondas tombando ininterruptamente, em homenagem ao poema Liberdade, da Sophia de Mello Breyner Andresen.
Liberdade
Aqui nesta praia onde
Não há nenhum vestígio de impureza,
Aqui onde há somente
Ondas tombando ininterruptamente,
Puro espaço e lúcida unidade,
Aqui o tempo apaixonadamente
Encontra a própria liberdade.
Sophia de Mello Breyner Andresen
E como acredito que toda boa experiência deve ser compartilhada para ajudar mais artistas, principalmente mulheres, a ocupar os espaços, vou deixar linkados aqui nesse post os arquivos do currículo e portfólio e da proposta de projeto enviados, para auxiliar quem deseja participar de editais e não sabe por onde começar. Também é possível ver algumas aplicações de mockup no meu perfil do Behance.
Para ver os meus trabalhos e também os de outros artistas incríveis, é só visitar o site, Instagram ou ir até a Otroporto, caso tenha a oportunidade.
Mulher Jovem 🌼
Em fevereiro desse ano comecei a esboçar uma série sobre a ciclicidade da mulher, partindo pela representação da mulher jovem e passando pela adulta/mãe, pela mãe e pela filha, pela anciã e, finalmente, pela representação de todas elas, numa composição harmônica. E tem sido tão gostoso pesquisar sobre cada uma dessas fases da vida, principalmente porque estou me detendo na anciã. E agora estou entregando o primeiro trabalho dessa série, que gostaria muito de ver em formato de exposição, assim que concluir.
Foi o meu retorno para a aquarela, depois de alguns meses trabalhando somente com grafite e lápis de cor. E foi como se eu nunca tivesse parado de pintar, porque a tinta fluiu tranquilamente pelo papel. Talvez o fato de ter definido uma paleta pessoal para utilizar nas minhas ilustras tenha ajudado bastante, pois não gasto tempo e energia pensando no esquema de cores. Além disso, trabalho com um círculo cromático em mãos, e também com thumbnails ou marcações na folha de rascunho, que ajudam a visualizar o que combina mais com a proposta inicial que tenho em mente.
As folhagens lembram o boldo, mas não foi intencional (talvez por ter um pé gigante de boldo, essa imagem fique no meu subconsciente), o intuito era mostrar uma natureza frondosa e em plena floração, e uma mulher que está recém florindo também. O resultado:
Materiais utilizados
- Papel para aquarela 100% algodão Hahnemühle;
- Minhas tintas e pincéis de sempre;
- Lápis de cor aquarelável Albrecht Dürer;
- Marcadores Pentel e Derwent.
Certo dia, Perséfone folgava nas campinas de Nisa com as filhas de Oceano. Estava na companhia de Atena e de Ártemis, mas sua mãe, Deméter, não estava com elas. Perséfone foi atraída por um magnífico narciso. Enquanto o contemplava, o solo se abriu e Hades, o deus do Mundo Inferior, apareceu em sua carruagem, tomou-a nos braços e a levou para ser sua noiva. De muito longe, Deméter ouviu os queixosos gritos da donzela. Uma profunda melancolia tomou conta de seu coração e ela, jogando sobre os ombros um véu sombrio, voou como ave sobre mares e terras procurando a sua Kore, a sua filha. - A deusa tríplice: em busca do feminino arquetípico, Adam Mclean.
13 de agosto 🌕
O 13 de agosto é dedicado à deusa Hécate (ou Hekate) e vem sendo celebrado cada vez mais, no Brasil e no mundo, por devotos dessa divindade que me fascina há um bom tempo. Meu primeiro contato foi em torno de 2014 e, desde então, venho recolhendo informações, livros para estudo e também fazendo minhas interpretações de Hécate. Tenho um altar em casa e, no seu centro, está ela, guiando os meus caminhos e tirando o mal da minha vida.
Recentemente, a série Sandman, da Netflix, apresentou uma versão da deusa, misturada às parcas da mitologia grega, e foi uma forma de chamar atenção para quem é ligado em cultura pop. Fazendo um gancho com a minha ilustração anterior, o feitiço usado pelas irmãs Owens no filme Da magia à sedução para trazer o namorado de Gillian de volta à vida, é voltado para Hécate. E sobre a obra do Neil Gaiman e o aspecto tríplice de várias personagens dele, tem um episódio do podcast We can be readers no qual a Su e eu discutimos o maravilhoso livro O oceano no fim do caminho. Fica a recomendação.
Ainda nas recomendações de podcast, temos o Caverna de Hekate, da Marcia C. Silva, escritora e devota de Hécate, sempre com informações embasadas em livros e estudos coerentes, trazendo informações relevantes e com fontes (diferente de muitas páginas que usam as vozes da cabeça para falar sobre mitologia). E foi no episódio Celebrando o 13 de agosto que a Marcia esclarece um pouco sobre a origem da data, e sua falta de fontes históricas, e também recomenda celebrar a deusa entre os dias 13 a 15, em especial o dia 14, dedicado à Hekate Kourotrophos, a guardiã das crianças. Vou deixar o episódio linkado aqui, pois vale muito a pena ouvir:
Materiais utilizados
- Papel Concept Hahnemühle;
- Lápis grafite Lyra e Stabilo Othello 2B;
- Marcadores nanquim e metálicos Staedtler e Pentel;
- Finalização digital no Photoshop.
Irmãs Owens 🌙
"Meu bem, quando vai entender que ser normal não é necessariamente uma qualidade?"
Materiais utilizados
- Papel para desenho 180g;
- Lápis de cor super soft Faber-Castell e Staedtler;
- Canetas metálicas e nanquim Staedtler.
Ateliê 🏡
Já fazem dois anos que me mudei, que agora tenho um espaço em casa para criar logo agora que não tenho tempo, para organizar melhor meus livros e objetos, para deixar do meu jeito. Esse espaço, um mezanino ensolarado e quentinho, que ainda está no contrapiso, pois eu queria um chão de cimento queimado que simplesmente não aconteceu, já foi bastante modificado nesses dois anos e, embora eu mostre um pouco dele no Instagram, ainda não tinha me dedicado a falar sobre ele, como já falei de outros espaços, que aconteciam basicamente dentro do meu quarto, na casa dos meus pais.
A última organização fotografada (sim, já mudou alguma coisa) foi no final de maio, e as fotos ficaram guardadas no celular, esperando "o momento certo". Só que esse momento é idealizado e pode nunca chegar, então resolvi postar nesse recesso escolar, que é quando tenho tempo de me dedicar a qualquer coisa que não seja escola. A foto acima é uma vista geral do meu canto (o outro canto é do Antonio, com o computador e as coisas dele), no meio entre as duas janelas está minha estante com livros e o sofá antigo da sala.
Durante a pandemia, experimentei outras disposições de mesas, com uma pequena escrivaninha que usava para apoiar o notebook. Mas majoritariamente, ambas as mesas ficavam de frente para as paredes, o que me dava uma sensação de bloqueio muito grande. Resolvi, então, comprar uma mesa ampla para desenho, e deixar a escrivaninha com gavetas para apoiar o computador (e a impressora também). Acabei puxando essa nova mesa mais para o meio do recinto, abrindo espaço para as ideias e formando um pequeno cenário com os livreiros atrás (um eu já tinha, os outros dois o Antonio fez para mim).
O sol que entra é maravilhoso, mas também já tenho muitos livros com a lombada desbotada, preciso sempre correr as cortinas para evitar problemas. A costela-de-adão que ficava na sala foi trazida para cá, dando vida e colorido para um ambiente sem plantas. O que tem me incomodado mesmo é esse móvel à esquerda, que era do meu antigo quarto. É uma cômoda com cara de... quarto rsrsrsrs. Mas ainda não consegui trocá-la.
Os livros desses livreiros são sobre educação, artes, livros infantis para contação de histórias e o terceiro são meus livros sobre bruxaria, paganismo e afins, além dos boxes de sagas. Como são os assuntos que mais acesso, preferi deixá-los mais à mão, mas também mais expostos, infelizmente. Dentro da estante ficaram os demais títulos, HQs, art books, livros em capa dura... E na mesa de desenho, apenas o necessário e uma ring light para dar uma forcinha na hora de desenhar.
Lembrem de ter um apoio para os pés, a coluna agradece! Essa cadeira de boteco fica aí só para os gatos sentarem, eu sempre puxo a outra cadeira quando preciso desenhar ou estudar nessa mesa. E sim, no verão isso aqui vira uma fornalha, de tão quente. Mas como é um ambiente aberto, fica impossível colocar um ar condicionado sem ter que vender a alma para a CEEE-Equatorial. Me viro no ventilador mesmo.
Alguns detalhes que amo, bem vida real, com mofo, pó acumulado e sujeira. Eu não editei nenhuma dessas fotos, só aproveitei a luz e apontei o celular. Tem furo na parede, tinta caindo, piso quebrado e quilos de poeira e rastro das patas dos meus gatos, porque sim. E é isso que faz uma casa, que faz um espaço de trabalho. Não é a perfeição, nem coisas caras ou fotografáveis, mas aquilo que dá vida e sentido ao lugar que se escolheu morar. Eu me considero extremamente privilegiada por ter um teto todo meu, um teto muito sonhado, durante tantos anos. Mas sempre faço questão de afirmar que não é o lugar, nem o material, que faz um artista, e outra coisa que tenho aprendido é que também não é a quantidade de tempo, mas sim a qualidade quando nos propusemos a criar.
Eu andei bastante afastada da escrita no blog, nos últimos meses só vinha aqui como uma espécie de repositório dos meus trabalhos, mas também é sempre bom reforçar que não, os blogs não morreram, e que espaços assim têm esse caráter quase místico de pausas e recomeços. Mas nunca de fim. Tem espaço para todo mundo, texto e imagem não vão desaparecer só porque todos estão fazendo vídeo (vide as newsletters, que voltaram com tudo). Então é nesse espaço indexado bonitinho no Google, livre da pressão dos algoritmos, que sempre voltarei para me expressar. A única coisa que mudou foi o encerramento da caixa de comentários, pois eu vinha sofrendo muito com spam. Assim que achar uma maneira de melhorar, reabro a caixa. Enquanto isso, quem quiser me mandar uma mensagem, pode usar o bom e velho e-mail, que também não morreu.
Até! 🐈
Hekate Phosphorus [versão 2022] 🗝️🔥
Em 2019 eu fiz uma representação de Hekate que gostei/ não gostei da finalização. Gostei por ter trabalhado em aquarela, e não gostei porque alguma coisa ali na área de baixo da composição não ficou 100%. Eu já tinha feito uma representação em 2016 que havia gostado muito, muito mesmo. Acho que nenhuma se compara a primeira, pois foi bastante espontânea, do jeito que gosto de trabalhar com o lápis.
Porém, dia desses, resolvi voltar na ilustração de 2019 e, num acesso de racionalidade e desapego pouco visto antes, taquei a tesoura no papel, sem dó nem piedade. Recortei toda a figura, as tochas, as luas... Fui aparando o cabelo e a composição, arrumando o que estava torto e rearranjando a posição da figura até deixá-la do jeito que imaginei.
Colei tudo cuidadosamente no papel cinza, fiz os acabamentos com caneta e, acima, está o resultado. Hekate da maneira que acredito que essa ilustração deveria estar desde o início. Parece que ela sempre foi assim. Esse processo me ajudou muito a trabalhar o desapego, visto que três dos meus trabalhos agora fazem parte do acervo da Otroporto, e eu estava com dificuldade em dizer "adeus" para eles.
Librianos costuma ter dificuldades em tomar decisões, principalmente quando se encontram em encruzilhadas e precisam escolher um caminho. Voltar atrás e olhar para o passado, para então projetar o futuro, tem sido o que ajuda a me direcionar (o famoso dar dois passinhos para trás, para então seguir em frente).
E esse movimento de retornar aos trabalhos antigos está me ajudando demais a enxergar o quanto já fiz coisas boas, só preciso valorizar minha trajetória e sempre, sempre seguir adiante.
Folhagem 🌿
Depois de muitos anos ilustrando somente em, no máximo, tamanho 24 x 32 (que é o tamanho dos blocos de aquarela que tenho), resolvi comprar novamente um bloco A3 para fazer exercícios de pintura, depois que meu projeto para a Otroporto foi aprovado (falarei mais disso em outra oportunidade). A minha preferência sempre vai ser por tamanhos menores, por questão de gosto, mas acho importante estar aberta a mudar o formato, de vez em quando.
Aproveitei para fazer algumas folhagens de costela-de-adão e testar algo mais decorativo, que não exigisse muita pesquisa ou precisão; que tivesse graça justamente no desprendimento.
Esse foi um dos últimos trabalhos que fiz ainda com essa configuração de espaço de trabalho, mudei tudo algum tempo depois (vou mostrar isso em detalhes tbm em algum momento).
Não usei papel próprio para aquarela, trabalhei num Canson 180g normal, por isso enrugou um pouco, o que não me incomodou, pois como disse, o foco era o desprendimento do perfeitinho.
Gostei tanto das minhas folhagens que decidi comprar uma moldura (também baratinha e também muito simples), e colocar esse trabalho na parede do meu quarto. Para que eu me lembre que preciso de tempo para me dedicar à arte, pois ela me rende belos frutos, que aquecem meu coração.



































